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CLUBE DE LEITURA VIRTUAL: LEITURA COMO REFÚGIO
VIRTUAL READING CLUB: READING AS A REFUGE
Vera Lucia Marques da Silva1
Cicero Alberto de Andrade Oliveira2

Resumo: Este trabalho relata a experiência de um clube de leitura virtual com alunos de diversas nacionalidades do
curso Português para pessoas em situação de refúgio, promovido pela biblioteca. Com o objetivo de fomentar a leitura,
a integração e a inclusão social no período de isolamento social devido a pandemia, a ação foi desenvolvida
integralmente no formato virtual. Considera a importância da mediação e da seleção dos textos voltados a este público
específico, para que se possa alcançar o potencial de interação e inclusão social em ações como esta, nas bibliotecas.

Palavras-chave: Clube de leitura. Refugiados. Inclusão Social
Abstract: This study reports the experience of a virtual reading club with students of different nationalities from the
Portuguese course for people in refugee situations, promoted by the library. Aiming to promote reading, integration and
social inclusion in the period of social isolation due to the pandemic, the action was fully developed in a virtual format.
It considers the importance of mediation and selection of texts aimed at this specific audience, so can reach the potential
of interaction and social inclusion in this actions in libraries.

Keywords: Reading Club. Refugees. Social Inclusion.

1 INTRODUÇÃO
A facilidade das conexões entre pessoas, propiciadas pelos mecanismos e ferramentas da
internet, possibilita que ações que sempre foram desenvolvidas presencialmente possam experimentar
sua realização em formato virtual. Foi este movimento de conexão digital que permitiu que o trabalho,
os estudos e a vida social, pudesse seguir no período em que a sociedade precisou se isolar para
contenção da pandemia do Covid-19, ainda que presentes muitas limitações e problemas.
Mesmo vivendo a anos em uma sociedade globalizada e fazendo uso das possibilidades da
internet, foi diante deste cenário de novas e necessárias conexões virtuais, que novas
1
2

Mestranda em Ciência da Informação. ECA-USP.veramarques@usp.br
Mestre em Letras. Senac São Paulo.cicero.aalboliverira@sp.senac.br

�possibilidades de interação foram criadas, que conexões ainda não experimentadas, tiveram a chance
de ser realizadas em ambientes que sempre priorizaram os espaços físicos e a presença, como no caso
das bibliotecas.
O fomento ao livro e a leitura, que sempre esteve no escopo de trabalho das bibliotecas
escolares e universitárias, precisou ser amplamente resinificado em um período em que todo o
universo da educação, das escolas, das aulas e da leitura foi restrito a telas de computadores,
notebooks e smartphones. Assim, dentre os inúmeros desafios enfrentados pelas bibliotecas neste
período de isolamento social forçado por uma pandemia mundial, esta realidade também foi estopim
para que inovações resultantes das várias possibilidades de conexões e de inclusão, propiciadas pelo
contato digital, pudessem ocorrer.
Este trabalho apresenta o relato de experiência de uma ação estruturada e desenvolvida pela
biblioteca em período de isolamento social, que foi realizada integralmente em formato virtual e que
teve como objetivo fomentar leitura, a integração e a inclusão social por meio da leitura, para um
grupo de alunos do curso de Língua Portuguesa para pessoas em situação de refúgio, alunos que em
alguma medida, se encontram a margem dos contatos sociais e culturais no país.

2 MÉTODO
O campo deste estudo está vinculado à rede Senac São Paulo de Bibliotecas pela unidade
Francisco Matarazzo – SP, que trabalha de forma hibrida e virtualmente no período de isolamento
social para contenção da pandemia, por meio da plataforma virtual Teams, onde foi possível a
realização do encontro para o clube de leitura. Os alunos de curso de Português para pessoas em
situação de refúgio é fruto de um convênio estabelecido entre Sesc/Senac de São Paulo, a Caritas –
Arquidiocesana de São Paulo e ACNUR – Agência da ONU para Refugiados e acontece
semestralmente em algumas unidades do Sesc São Paulo.
Pode-se qualificar esta pesquisa de natureza qualitativa, pois conforme esclarece Severino
(2007, p. 128) existe a intenção de permitir se utilizar do conhecimento, contribuindo para ampliá-lo
por mais ramificações de assuntos relacionados. Assim, pode-se relacionar este relato a estudos para
leitura, para mediação e inclusão social por meio das bibliotecas.

�3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A biblioteca cada vez mais tem se tornado ambiente de integração, um espaço democrático e
de múltiplas aprendizagens, espaço ideal para o desenvolvimento de competências básicas como a
prática da leitura. Em uma realidade de contatos virtuais a biblioteca, por meio da mediação realiza de
maneira plena seu objetivo de fomento a leitura uma vez que conforme explicita Martins (2017) a
mediação de leitura, seja ela literária ou informacional, é uma das práticas possíveis para o ambiente,
a ser realizada de diversas formas (MARTINS, 2017).
Os Clube do livro, ou círculo de leitura, ou ainda clube de leitura virtuais passam a ser uma
alternativa para promoção da leitura e da cultura pois, em geral, são constituídos de pessoas
interessadas, que participam de forma voluntária das discussões que podem se expandir para além da
leitura literária realizada, para abordar aspectos tais como o contexto cultural e temporal da leitura,
além de permitir a abstração para o campo de conhecimento e de vivencias dos participantes.
São muitos os benefícios e potencialidades de um Clube de leitura, já que sua criação, conforme
Pedrão (2017), “[...] torna possível a interação de pessoas e a troca de experiências, pois um livro e
uma leitura nunca são iguais para todos, e assim todo o processo de ler e interpretar uma história se
torna diferenciado e mais proveitoso” (PEDRÃO, 2017, p. 1218).
A atividade relatada neste trabalho se deu a partir da desafiante experiência de trabalho da
biblioteca do Senac Francisco Matarazzo no período de isolamento social da pandemia, onde foi
proposta uma ação que integrasse as ações de leitura já promovidas pela biblioteca com alunos de
idiomas, mais especificamente de Português para estrangeiros, aqui especificamente, para pessoas em
situação de refúgio, que ocorre a mais de 25 anos numa parceria Sesc/Senac SP.
Esta atividade coletiva, chamada inicialmente de Clube de leitura tratou-se de um momento de
troca de visões de mundo, em que estes alunos, vindos de diversas partes do mundo, a partir de todo o
seu repertório de vida, pode ouvir e compartilhar suas impressões sobre uma determinada história.
A primeira edição do Clube de Leitura aconteceu em 23/04/2021 das 19h00 às 20h30 e contou
com a presença do professor mediador e dos funcionários da Biblioteca Senac Francisco Matarazzo e
alunos de turmas diversas do curso de Português para estrangeiros.

�Por se tratar de um curso que é constituído por pessoas falantes de idiomas diversos, a seleção do
material foi uma das questões principais a serem pensadas antes do encontro. Levando-se em conta o
nível de contato e familiaridade dos alunos com a língua portuguesa decidiu-se pelo gênero crônica
como texto-base para leitura e provocação das discussões. Para escolha considerou-se pontos
relevantes como:


À disponibilidade de tempo dos alunos para leituras de maior ou menor fôlego. Um dos
mediadores inquiriu aos interessados se eles teriam tempo para ler livros mais extensos, e,
em virtude de reposta negativa, decidiu-se então trabalhar com textos mais curtos;



A qualidade de excelentes crônicas e cronistas brasileiros, o que permite aos alunos um
contato muito valioso com a tradição literária do Brasil; as crônicas tratam, em boa
medida, de temas cotidianos o que, em muitos casos, poderia aproximar tais histórias das
vivências dos alunos – hipótese este que acabou se revelando verdadeira.

Isto posto, no primeiro encontro, e como forma de criar laços e estabelecer conexões, a mediação
centrou-se, sobretudo, em aspectos dos textos que pudessem se vincular à biografia destes alunos.
Como ponto de partida, procurou-se interrogar os textos propondo para os alunos perguntas que
estabelecessem pontes entre aquilo que era de certa forma narrado e as experiências pessoais que
aqueles leitores haviam vivido, procurando também estimulá-los a contrastar essas vivências com
suas vidas no Brasil. Por exemplo:
Ao ler a crônica “África”, de Antônio Prata, que narra a história de dois adolescentes que – após
saberem por um adulto que se nadassem em linha reta pelo mar, dariam no continente africano –,
decidem se lançar em uma viagem à África para “ver uns leões, elefantes e rinocerontes e voltar a
tempo para o lanche”, e quase morrem afogados. Inicialmente, procurou-se sondar que tipo de
memórias esse texto lhes trazia; num segundo instante, questionou-se a associação das imagens de
animais à África, se isso não incomodava os alunos africanos, que viram nessa questão a oportunidade
de falar desses lugares comuns e que percebiam serem muito frequentes em falas de brasileiros sobre
a África. Aventou-se por exemplo, que boa parte dos brasileiros pensa África como um bloco,
ignorando por exemplo, as profundas diferenças (culturais, sociais e linguísticas, só para citar
algumas) que cada país ali possui.

�4 CONCLUSÕES
Testemunhou-se uma grande implicação dos alunos na atividade, assim como sua participação
ativa durante as quase 2 horas de interação, comentando o texto e trazendo histórias de suas
próprias vidas que os textos eventualmente ilustrassem. O que é bastante interessante e foi
ressaltado pelo professor, é que, ao contrário daquilo que por vezes se vê em sala de aula, por se
tratar de uma iniciativa aberta, os participantes se mostraram bastante envolvidos e procuraram
tomar a palavra e dizer suas experiências
Esta atividade coletiva, chamada inicialmente de Clube de leitura tratou-se de um momento de
troca de visões de mundo, em que estes alunos, vindos de diversas partes do mundo, a partir de todo
o seu repertório de vida, dá a ouvir e compartilhar suas impressões sobre uma determinada história,
o que faz ter certeza da importância da continuidade e da ampliação de tal ação, voltando-se para a
importância de pensar a mediação, a seleção de textos que deem conta do potencial envolvido em
clubes de leitura compartilhada como aporte para o acolhimento e inclusão social, como mais um
serviço dos espaços físicos ou virtuais de bibliotecas.

REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 14724: informação e
documentação: trabalhos acadêmicos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2011.
MARTINS, Luziane Graciano. Bibliotecário como mediador de aprendizagem: uma proposta a
partir do uso das TICs. Biblos: Revista do Instituto de Ciências Humanas e da Informação, [S.l], v.
31, n. 2, p. 73-98, jun./dez. 2017. Disponível em:
https://doaj.org/article/02440c460e794b55a08e9081630cc71a. Acesso em: 28 nov. 2019.
PEDRÃO, Gabriela Bazan. Clube de leitura fora da biblioteca: um relato de experiência. Revista
Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 13, n. 2017, p.1207- 1219, out.
2017. Disponível em: . Acesso em: 08 jan. 2018.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23. ed. rev. e atual. São
Paulo: Cortez, 2007.

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