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                  <text>XVIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias
SNBU 2014

ACESSIBILIDADE A INFORMAÇÃO CIENTÍFICA NA EDUCAÇÃO SUPERIOR:
CAMINHOS TRILHADOS PELO SISTEMA DE BIBLIOTECAS DA
UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
Clemilda dos Santos Sousa
Neiliane Alves Bezerra
Wagner Bandeira Andriola
Geovanice Maria Anselmo da Silva

RESUMO
A concepção de uma sociedade inclusiva emerge a partir de meados do século XX,
acompanhada dos calorosos debates, voltados para eliminar a exclusão territorial, étnico
racial, de género, dentre outros. No ambiente educacional, floresceu o paradigma da inclusão
escolar, em um debate de amplitude internacional, liderado por organismos como a UNESCO
que, fundamentando-se no respeito aos direitos humanos fundamentais, vem exigindo o
compromisso dos governos e instituições com a construção de sistemas educacionais
inclusivos. Dentre a diversidade de estudantes a serem contempladas com as políticas
educativas de inclusão, encontra-se a pessoa com deficiência cuja inserção no sistema
educacional passa a ser percebida na sua dimensão histórica, como processo de reflexão e
prática, que possibilita efetivar mudanças conceituais, político e pedagógicas, coerentes com o
propósito de tornar efetivo o direito de todos à educação. Focando especificamente o tema da
inclusão da pessoa com deficiência na educação superior, esse artigo descreve as ações de
acessibilidade que o Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará, no âmbito da
sua missão, vem providenciando para apoiar o processo de aprendizagem de estudantes com
deficiência. Embora não se pode considerar que a Universidade Federal do Ceará e o seu
subsistema biblioteca não apresentem, na integra, todos os requisitos de acessibilidade, no
momento, esse é o caminho que o SB/UFC vem trilhando na tentativa de garantir a
permanência de qualidade da pessoa com deficiência na educação superior.
Palavras-Chave: Acessibilidade; Organização da informação; Pessoa com deficiência.

ABSTRACT
The design of an inclusive society emerges from the mid-twentieth century , accompanied by
heated debates , aimed to eliminate territorial exclusion , racial, ethnic, gender , among others
. In the educational environment, the paradigm flourished school inclusion in a widespread
international debate , led by organizations such as UNESCO , basing on respect for
fundamental human rights , has been demanding the commitment of governments and
institutions with the construction of educational systems inclusive . Among the diversity of
students to be awarded with the educational policies of inclusion, is a person with disabilities
whose inclusion in the educational system will be seen in its historical dimension , as a

2062

�reflection and practical process that enables effecting conceptual change , political and
teaching , consistent with the purpose of making effective the right of everyone to education .
Specifically focusing on the inclusion of people with disabilities in higher education , this
article describes the actions that the accessibility Library System of the Federal University of
Ceará , in its mission , it has provided to support the learning process of students with
disabilities . Although it can not be that the Federal University of Ceará and its library
subsystem do not, in full, all accessibility requirements , at the time , this is the way that the
SB / UFC has been moving in an attempt to ensure continuous quality person with disabilities
in higher education .
Keywords: Acessibility; Organizing information; People with disabilities.

1 INTRODUÇÃO
Educação inclusiva é um termo que comporta diferentes interpretações e apreciações,
porém a essência da sua justificativa social de caráter humanista está fundamentada na
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sendo assim, constitui um paradigma
educacional que conjuga igualdade e diferença como valores indissociáveis, e que avança em
relação à ideia de equidade formal ao contextualizar as circunstancias históricas da produção
da exclusão dentro e fora da escola.
A nova ordem mundial, regida pela lógica da globalização, teve como característica
um crescimento econômico dissociado do bem estar do conjunto da sociedade, acentuando as
desigualdades sociais entre continentes, nações, no interior dos próprios países e também das
cidades, engendrando a exclusão econômica e, consequentemente, a “desumanização do ser”
conforme (FREIRE, 2005).
A presença histórica da desumanização, na visão de Freire (2005, p.32), não é
vocação dos homens, pelo contrário, a vocação do ser humano é a busca da sua própria
humanização, a busca do “ser mais” que é a sua vocação ontológica e a desumanização como
distorção dessa vocação.
A educação inclusiva pode ser entendida como uma tentativa de resgatar a
“humanização do ser” e também como um gesto de cuidado. O cuidado diz Boff (2008, p.42),
“é gesto amoroso para com a realidade, gesto que protege e traz e paz. Sem cuidado, nada que
é vivo sobrevive. Cuidado é aquela preocupação sadia por tudo que efetivamente nos envolve
por nos sentirmos co-responsáveis”.
A educação inclusiva sob a ótica do cuidado e da humanização do ser obriga,
particularmente, aos encarregados de desenhar e executar políticas públicas, a criarem
propostas para transformar o sistema, a organização e a cultura escolar, o currículo, a

2063

�formação e o trabalho dos profissionais da educação, com o firme e claro objetivo de torná-los
equitativos e assim “desnaturalizar” a exclusão. (BERSANELLI, 2008, p.59).
Na reflexão de Echeita (2008), a educação inclusiva é um conceito e uma prática que
vai ao encontro a uma aspiração em comum de igual valor e importância para todos os alunos
e alunas, em todo o mundo, que é o desejo de sentir-se incluído, reconhecido e valorizado em
seus grupos de referencia como família, escola, amizade, trabalho.
Porém, a inclusão educativa vai mais além do que reforçar esse o sentimento de
pertença, bem-estar emocional e relacional que se possa alcançar com a ação educativa.
Tende mais para a preocupação com uma aprendizagem e um rendimento escolar de qualidade
que tem por atributos

cinco dimensões relacionadas entre si: equidade, relevância,

pertinência, eficiência e eficácia (OREALC/UNESCO, 2007, p.12).
E a melhor contribuição da escola à inclusão, segundo Echeita (2008) é fazer com
que os alunos e as alunas alcancem níveis elevados de desempenho e qualificação. E neste
sentido, trabalhar a favor da inclusão educativa é pensar em termos de condições e processos
que favoreçam uma aprendizagem carregada de sentido para a vida de todos e todas, isto é,
um processo educativo que favoreça a transformação no plano individual e coletivo, bem
como a elevação do nível da qualidade de vida.
A educação inclusiva, nos seus primórdios, esteve focada em alunos com
“Necessidades Educativas Especiais”. Em seguida, deu um passo adiante, com o debate sobre
a integração desses s alunos em salas de aula do ensino regular. Na atualidade, a educação
inclusiva ampliou a sua visão e ganhou terreno como movimento que desafia e rechaça as
políticas, culturas e práticas educativas que promovem qualquer tipo de exclusão. A meta da
educação inclusiva é eliminar a exclusão social que se deriva de atitudes e respostas à
diversidade de raças, classe social, etnia, religião, gênero e pessoa com deficiência
(GONZALEZ, 2008).
Considerar a diversidade e a inclusão como uma questão relacionada às instituições
educacionais nos situa frente à necessidade de verificar os valores e princípios que orientam
as ações, as práticas e rotinas às quais se assentam as normas, as decisões tomadas, bem como
todas as condições organizativas. Gonzalez (2008, p.84) afirma que “Todos e cada um destes
aspectos podem estar facilitando a inclusão ou, pelo contrário, representar barreiras para a
mesma”.
As experiências de cada instituição, rumo à inclusão educativa vem mostrando que
não tem muito sentido definir um conceito de educação inclusiva, com a pretensão de impor
um modelo padronizado a ser seguido por todos, sem levar em conta as peculiaridades de

2064

�cada contexto educacional.
No processo de educação inclusiva, cada instituição é responsável pela definição e
concretização de metodologias e práticas de inclusão, em função do seu contexto, de sua
história, de sua cultura organizacional e de seus múltiplos condicionantes econômicos,
políticos, culturais. “A inclusão educativa é resultado de um genuíno processo de deliberação
democrática, por meio do diálogo igualitário entre todos os atores comprometidos com o
alcance das metas cuja pretensão é construir um sistema educacional de qualidade para
todos”. (ECHEITA, 2008, p.12).
A inclusão da pessoa com deficiência no sistema educacional situa-se nessa
perspectiva e se concretiza por meio de estratégias que atendem ao princípio de igualdade de
oportunidade para todos e todas. Esse processo deve ser construído, gradativamente, de
acordo com a diversidade das necessidades dos estudantes.
Para consolidar a perspectiva global da inclusão educativa, em que a equidade e a
qualidade caminham em paralelo, é interessante conhecer as ações em andamento no
cotidiano das instituições. “Começar por mudar esse contexto pesquisando é a melhor
estratégia para avançar em direção a mudanças mais globais e sistêmicas”, afirma Echeita
(2008, p.11).
O Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará (SB/UFC), desde 2010,
vem sendo desenvolvidas ações para atender, adequadamente (a) aluno (a) com deficiência
que ingressam nos cursos de graduação, em consonância com as estratégias globais da
universidade para alcançar a inclusão educativa.
A relevância da biblioteca no âmbito da universidade é atender às demandas por
serviços necessários para apoiar as atividades acadêmicas de ensino, pesquisa e extensão. O
atendimento adequado ao (à) aluno (a) com deficiência exige modificações que eliminem ou
minimizem todas as barreiras que interferem na aprendizagem dessa parcela de estudantes.
Nesse artigo, descrevem-se os produtos e serviços que o SB/UFC vem ofertando aos
estudantes com deficiência, como parte das ações institucionais de promoção da
acessibilidade, de forma que proporcione igualdade de condições e de qualidade, aos
estudantes que necessitam de apoio especial para uma aprendizagem satisfatória. Os objetivos
específicos definidos são os seguintes: a) descrever as características do público atendido; b)
identificar os serviços; c) situar as ações nas dimensões e indicadores conforme os
referenciais de acessibilidade na educação superior e a avaliação in loco do Sistema Nacional
de Avaliação da Educação Superior (SINAES) (BRASIL, 2013).

2065

�2 A EDUCAÇÃO INCLUSIVA NO CENÁRIO MUNDIAL E NO BRASIL
Nos anos da década de 1970, os países desenvolvidos começaram o movimento para
a integração de crianças com deficiência no sistema regular de ensino. Essa tendência foi
seguida por muitos países latino americanos. No entanto, a preocupação com a inclusão
escolar não foi acompanhada de uma reflexão por esse tema na educação superior o que se
manifesta, por exemplo, na falta de mecanismos específicos para o ingresso de estudantes
com deficiência nas universidades.
Somente no início de 1990 surge na América Latina e no Caribe a preocupação pelo
tema “deficiência e universidade”, quanto ao acesso, permanência e egresso a educação
superior de estudantes com deficiência. Porém, Moreno (2005) apud Lissi (2009) observa
que, dentro de da realidade educativa, a universidade seria una das instituições mais
excludentes para o ingresso e permanência destes estudantes. Essa exclusão está expressa em
forma de barreiras tangíveis, identificadas na infraestrutura, nas práticas pedagógicas, nas
comunicações e nas atitudes que perpassam todos os outros aspectos.
Na Europa, a preocupação com a inclusão da pessoa com deficiência emerge em
cumprimento ao princípio de inclusão que impera na legislação educativa em vigor,
respaldada pela Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência de 2006. A
construção do Espaço Europeu de Educação Superior (EEES) pretende ser um modelo de
universidade que dê respostas satisfatórias às demandas da sociedade no século XXI. De uma
maneira geral, Ferreira (2012, p.414) afirma que “o EEES deve garantir a continuidade no
desenvolvimento e formação plena e integral do alunado, tanto do ponto de vista acadêmico
quanto pessoal. No caso de estudantes com deficiência, este desenvolvimento se pode garantir
por meio de mecanismos de compensação e adaptação”.
Na Espanha, por exemplo, a legislação obriga as universidades a elaborar e a
implementar um plano de atenção ao alunado com deficiência. O Comité Espanol de
Representantes de Personas con Discapacidad (CERMI) publicou, em 2010, um guia para a
elaboração do dito plano que chama a atenção para a necessidade de dispor de indicadores
para o acompanhamento e avaliação do mesmo.
No Reino Unido e nos Estados Unidos, conforme Ferreira (2012), o significativo
desenvolvimento legislativo no que se refere a pessoas com deficiência vez impulsionou a
elaboração de guias e indicadores para avaliar as boas práticas no âmbito universitário. Um
exemplo desses instrumentos é a Acta de Necesidades Educativas Especiales y Discapacidad
de 2001 (Special Educational Needs and Disability Act, SENDA) do Reino Unido, cujo
objetivo é que as instituições de educação superior alcance a plena participação de estudantes

2066

�com deficiência, realizando os ajustes necessários.
Nos Estados Unidos, para garantir a igualdade de acesso à educação aos estudantes
com deficiência a Association on Higher Education and Disability (AHEAD) elaborou
padrões para as Oficinas de Estudantes com Deficiência nos seguintes âmbitos de atuação:
consulta/colaboração, divulgação de informação, conscientização de docentes e de técnicos,
adaptações acadêmicas, intervenções educativas, gestão e avaliação do programa, políticas e
procedimentos, formação e desenvolvimento profissional (DUKES Y SHAW, 2008 apud
FERREIRA, 2012).
A educação da pessoa com deficiência experimentou, ao logo de sua trajetória,
práticas escolares de categorização e segregação de estudantes encaminhados para ambientes
especiais, que conduziram também, ao questionamento dos modelos homogeneizadores de
ensino e de aprendizagem, geradores de exclusão nos espaços educativos (BRASIL, 2013).
Alguns eventos, de amplitude internacional, foram decisivos na construção da
inclusão educativa em todos os níveis, tais como a Conferência Mundial de Educação para
Todos, Jomtien/1990 e a Conferência Mundial de Necessidades Educativas Especiais: Acesso
e Qualidade, realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura (UNESCO) em 1994 que aprofundou a discussão, problematizando os aspectos acerca
da escola não acessível a todos os estudantes. Não se pode deixar de mencionar o documento
Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre Necessidades Educativas Especiais que
proclama que as escolas comuns representam o meio mais eficaz para combater as atitudes
discriminatórias.
No Brasil, o direito da pessoa com deficiência à educação está em consonância com a
atual política de educação especial e com os referenciais pedagógicos da educação inclusiva,
expressos nos marcos legais, políticos e pedagógicos, bem como seu impacto na organização
e oferta da educação em todos os níveis e etapas.
No paradigma da inclusão educativa, os projetos de mudanças nas políticas públicas
se apoiam na tese de que todos se beneficiam quando as escolas promovem respostas às
diferenças individuais de estudantes. Essa proposta de inclusão escolar começa a ser gestada
nos diversos movimentos que buscam repensar o espaço escolar como acolhedor da
diversidade do seu alunado.
Essa perspectiva, conforme (BRASIL, 2013), conduz os debates sobre os rumos da
educação especial, remetendo para as discussões acerca dos aspectos que interferem na
eficiência, eficácia e efetividade da dessa proposta. Tais aspectos dizem respeito às políticas
de formação docente, financiamento e gestão, a fim de assegurar as condições de acesso,

2067

�participação e aprendizagem de todos os estudantes.
No âmbito da educação superior, para apoiar a consolidação de políticas
institucionais de acessibilidade nas Instituições Federais de Educação Superior (IFES) foi
instituído, em 2005, o Programa INCLUIR, do Ministério da Educação(MEC) e a sua
unidade, a Secretaria de Educação Superior (SESu). O referido programa foi implementado
até 2011, por meio de chamadas públicas, realizadas pela Secretaria de Educação Especial
(SEESP) e SESu, por meio das quais, as IFES apresentaram projetos de criação e
consolidação dos Núcleos de Acessibilidade, visando eliminar barreiras físicas, pedagógicas,
nas comunicações e informações, nos ambientes, instalações, equipamentos e materiais
didáticos.
A partir de 2012, MEC, por intermédio da Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) e da SESu, passa a apoiar projetos das
IFES, com aporte de recurso financeiro, diretamente, previsto na matriz orçamentária das
instituições, com a finalidade de institucionalizar ações de política de acessibilidade na
educação superior, com a criação dos Núcleos de Acessibilidade.
Nesse sentido, o Ministério da Educação envida esforços para que os espaços
educacionais estejam abertos a todos os estudantes que necessitam de apoio especializado.
Embora essa proposição, expressa na política governamental, demande um olhar criterioso
sobre os condicionantes de ordem diversa que irão garantir a tão desejada qualidade da
educação em um sistema educacional inclusivo, o primeiro indicador de qualidade a ser
perseguido será sempre o “acesso”, efetivado por meio da matrícula.
Além do acesso é preciso garantir a qualidade da permanência por meio de processos
avaliativos sistemáticos, utilizando indicadores que expressem a realidade e sirvam para o
aprendizado e a melhoria institucional. Um passo significativo nessa direção foi a elaboração
do documento orientador das comissões para avalições in loco, intitulado “Referenciais de
acessibilidade na educação superior e a avaliação in loco do Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Superior (SINAES)” que fornece os subsídios para a ação dos avaliadores acerca
de questões pertinentes à acessibilidade em seus diferentes níveis, de estudantes com
necessidades de atendimento diferenciado.

3

A

ACESSIBILIDADE

E

INCLUSÃO

EDUCATIVA

NA

BIBLIOTECA

UNIVERSITÁRIA: DO DISCURSO À PRÁTICA
Este é um estudo teórico, bibliográfico que explora o tema da inclusão educativa da
pessoa com deficiência na educação superior e trata especificamente das ações desenvolvidas

2068

�pelo SB/UFC voltadas para a acessibilidade e inclusão da pessoa com deficiência.
É um estudo que tem por finalidade dar visibilidade às ações de inclusão e
sistematizar informações sobre práticas e experiências acerca do tema da inclusão educativa.
O registro dessa experiência reflete a aplicabilidade da legislação vigente que estabelece as
condições de funcionamento das Instituições de Ensino Superior (IES), considerando a
importância do atendimento especializado aos estudantes que se enquadram na classificação
de pessoa com deficiência. Além, disso é uma tentativa da Comissão de Acessibilidade do
SB/UFC unir teoria e prática, refletindo sobre o seu próprio fazer e trazendo a luz do
conhecimento para a realidade sobre a qual atua.
Portanto, é um estudo descritivo, exploratório, que segundo Lakatos e Marconi(2003)
são estudos que têm por objetivo descrever completamente determinados fenômenos, como,
por exemplo, o estudo de um caso para o qual são realizadas análises empíricas e teóricas.
Podem ser encontradas tanto descrições quantitativas e/ou qualitativas quanto acumulação de
informações detalhadas como as obtidas por intermédio da observação participante.
Os tópicos seguintes seguem conforme o que foi definido nos objetivos específicos:
descrição das características do público atendido e identificação dos serviços, produtos e
serviços existentes (Adaptados), produtos e serviços especializados.

3.1 Descrições das características do público atendido e identificação dos serviços:
Produtos e serviços existentes (Adaptados)
O público-alvo desses serviços são os estudantes com deficiência, matriculados nos
cursos de graduação da Universidade Federal do Ceará (UFC). Atualmente, são atendidos seis
alunos, dos seguintes cursos: biblioteconomia, letras espanhol, letras italiano, mestrado em
psicologia, computação e filosofia. Quanto ao tipo de deficiência, no momento são atendidos
alunos cegos e com baixa visão. No que se refere à descrição dos produtos e serviços, adotouse duas categorias: produtos e serviços existentes (adaptados) e produtos e serviços
especializados.
Nessa categoria consideram-se todos os produtos que o SB/UFC oferta à
comunidade acadêmica em geral, sendo que o usuário com deficiência visual necessita do
apoio das tecnologias assistivas para realizar buscas no catálogo on line ter acesso aos acervos
de livros eletrônicos, à Biblioteca de Teses e Dissertações (BDTD), ao portal de periódicos da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de nível Superior (CAPES), repositório
institucional, acesso ao catálogo online (busca, renovação, reserva).

2069

�3.1.1 Produtos e serviços especializados
Na segunda categoria temos os serviços e produtos que demandam um processo de
elaboração mais específica para eliminar as barreiras de acesso à informação. Nesse caso, a
biblioteca conta com o suporte do laboratório de edição e conversão de materiais
bibliográficos para o atendimento de pessoas com deficiência visual, o serviço de
levantamento bibliográfico e as ações voltadas para o atendimento às pessoas surdas.

3.1.1.1 Laboratório de edição e conversão de materiais bibliográficos para pessoas com
deficiência visual
O laboratório de edição e conversão de materiais foi criado há quatro anos na
biblioteca de ciências humanas da UFC. Os serviços oferecidos pelo laboratório são resultado
de uma parceria entre SB/UFC e a Secretaria de Acessibilidade UFC Inclui. A referida
secretaria é um órgão administrativo ligado à reitoria responsável pela elaboração das
políticas de inclusão na universidade, se constitui como uma grande conquista no processo de
institucionalização da política de inclusão de pessoas com deficiência na educação superior.
No laboratório trabalha-se com quatro possibilidades de conversão do material
impresso. Esse processo corresponde a quatro tipos de produtos diferentes, conforme ilustra a
figura 1. Incluindo a digitalização de livros, artigos científicos da bibliografia dos discentes
cegos.
Figura 1 - Processo de conversão de material impresso

Fonte: Autores (2013)

Ness processo de digitalização, os livros recebem nova formatação, o que facilita a
leitura por pessoas cegas. As figuras, gráficos e tabelas são descritas, com o uso da técnica da
audiodescrição.

2070

�A audiodescrição segundo Vieira e Lima (2010) seria:
uma técnica de representação dos elementos-chave presentes numa dada
imagem que, ao dialogar com os elementos de um texto verbal, pode ser
descrita também de forma verbal para formar uma unidade completa de
significação. A áudio-descrição pode ser de uma imagem estática como uma
pintura no museu, de uma escultura em três dimensões, da gravura
bidimensional presente nos livros didáticos; ou de imagens dinâmicas que
nada mais são do que um conjunto de imagens estáticas que juntas criam a
ilusão de movimento como o que se processa nos filmes de cinema,
televisão, peças de teatro, ou vídeos de computador.
Outra possibilidade de conversão é a gravação dos conteúdos em áudio. A ampliação
é também é um recurso importante para os usuários com baixa visão. Tem-se também a opção
da impressão em Braille, dependendo da necessidade de cada usuário. O conjunto desses
serviços amplia as possibilidades de acesso à informação cientifica.

3.1.1.1.1 Levantamento bibliográfico
Outro serviço importante oferecido pelo laboratório às pessoas com deficiência
visual é o levantamento bibliográfico. Sua relevância é essencial, visto que elimina as
barreiras no acesso ao acervo eletrônico, em virtude da maioria das páginas da internet não
obedecerem aos critérios de acessibilidade na web para pessoas com deficiência.
Pode-se citar como exemplo os arquivos em pdf imagem ou sites dos periódicos e
bases de dados que não são acessíveis para navegação, com o uso de programas leitores de
tela, usados pelos cegos para navegar na internet.
Para ter acesso ao serviço, os discentes fazem seus pedidos, informado os assuntos de
interesses e a equipe responsável busca o material, no acervo eletrônico do SB/UFC e demais
fontes cientificas.
Também é ofertado aos usuários com deficiência visual, o acesso a arquivos de texto
completo do material digitalizado no laboratório, por meio do catálogo online da Biblioteca
Universitária que utiliza o software Pergamum, Módulo Acessibilidade conforme ilustrado na
figura 2. O acesso ao texto integral é permitido por meio do uso de senha, em respeito à Lei
9.610 de Direitos Autorais.

2071

�Figura 2 - Pesquisa acessibilidade no Catálogo on Line - Pergamum/UFC

Fonte: Página do catalogo atálogo on line da Biblioteca Universitária (2013)

Figura 3 - Login para acesso as obras digitalizadas no catálogo on line

Fonte: Página do catalogo ctálogo on line da Biblioteca Universitária (2013)

3.2 Ações voltadas às pessoas surdas: comunidade surda na UFC à conquista de um
espaço
As ações para a inclusão das pessoas surdas também é uma preocupação para o
Sistema de Bibliotecas da UFC. Em 2010, houve o inicio da criação de uma ferramenta que
disponibilizasse informações, em Libras, para pessoas surdas, conforme trabalho apresentado
no Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias (SNBU) de 2010 com o titulo
“Biblioteca Universitária e Comunidade Surda: uma proposta de acessibilidade à Informação”
(SOUSA et al., 2010).

2072

�Figura 4 - Página do ProjetoBU em LIBRAS

Fonte: site do projeto na internet (2013)

A ideia foi aprimorada e ganhou uma nova versão como pode ser visualizada na
figura 4, com o projeto Biblioteca Universitária (BU) em Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Desta forma as informações principais sobre os serviços oferecidos pela biblioteca são
traduzidas em Libras, às referidas informações integram as ações do projeto “Descobrindo a
Biblioteca” de autoria da Comissão de Educação de Usuários do SB/UFC.

Figura 5 - Serviços da Biblioteca Universitária com Tradução em Libras

Fonte: site do projeto na inernet (2013)

4 A ACESSIBILIDADE NA EDUCAÇÃO SUPERIOR E A AVALIAÇÃO IN LOCO DO
SINAES (BRASIL, 2013)
Os referenciais de acessibilidade na educação superior e a avaliação in loco do
SINAES” tem o propósito de servir de subsídio para a ação dos avaliadores acerca de

2073

�questões pertinentes à acessibilidade em seus diferentes níveis, de estudantes com
necessidades de atendimento diferenciado” (BRASIL, 2013).
A acessibilidade é considerada um requisito legal no SINAES e as IES devem
explicitá-la no seu projeto pedagógico que é o instrumento onde estão contidas todas as
questões do curso, referentes à acessibilidade é verificada de forma ampla, e não apenas
restrita a questões físicas e arquitetônicas, haja vista o significado do vocábulo expressar um
conjunto de dimensões diversas, complementares e indispensáveis para a efetivação da
inclusão educativa da pessoa com deficiência.
A acessibilidade nas IES, conforme (BRASIL, 2013) considera os seis tipos de
acessibilidade

ou

aspectos:

atitudinal,

arquitetônica,

comunicacional,

instrumental,

metodológica e programática. A existência desses requisitos é avaliada nas dimensões
didático-pedagógica e Infraestrutura.
Tomando por base os aspectos de acessibilidade, as ações inclusivas do SB/UFC
situam-se na dimensão didático-pedagógica nos seguintes indicadores a saber (Brasil, 2013,
p.40):
a) material didático institucional - Ressalta-se a importância das IES promoverem a
acessibilidade em relação ao acervo bibliográfico indicado para cada curso, para que os
estudantes que necessitam de apoio possam se beneficiar do currículo em condições de
igualdade aos demais estudantes;
b) tecnologias de informação e comunicação (TICs) - no processo ensino-aprendizagem
- O uso das TICs, por parte dos estudantes favorece não só o aprendizado, mas a participação,
com autonomia, na vida acadêmica.

5 RESULTADOS PARCIAIS/FINAIS
Os serviços descritos fazem parte das ações conduzidas pelo SB/UFC, em parceria
com a Secretária UFC Inclui, desde 2010. São ações que velam por um acesso igualitário às
informações e aos serviços que a biblioteca presta à comunidade acadêmica, em consonância
com as políticas internas da instituição. O tema da inclusão educativa é desafiador, este se
constitui em um processo complexo que exige, em primeiro lugar, a quebra das barreiras
atitudinais.
No que diz respeito à pessoa com deficiência, a resistência à adesão ou barreiras
atitudinais ao processo de educação inclusiva se manifesta em alguns comportamentos, tais
como:

2074

�Tendência a exigir que as instituições ponham mais ajudas e especialistas
para se responsabilizarem pelos “diferentes” ou os “não normais”.
Consideram que os problemas e dificuldades para aprender são do aluno e do
entorno, porém não da instituição. Não se avaliam nem se questionam as
atuações pedagógicas e organizativas. Exigem medidas terapêuticas que
consideram “imprescindíveis” (RIERA, 2011, p.136).
Adotando comportamento favorável à inclusão educativa da pessoa com deficiência,
a Comissão de Acessibilidade vem insistindo no objetivo pelo qual foi criada que é dotar o
SB/UFC com requisitos de acessibilidade, para atender adequadamente pessoas com
deficiência (BEZERRA et al, 2011).
Alguns serviços para essa categoria de usuário dependem de um processo de trabalho
diferenciado, com o suporte tecnológico de um núcleo de acessibilidade que não significa
atendimento segregado, pois segue o que está disposto em (Brasil, 2011) no Decreto n°
7.611/2011 sobre o atendimento educacional especializado, previsto no §2° do art. 5o:
VII-estruturação de núcleos de acessibilidade nas instituições federais de educação
superior.
§ 5a Os núcleos de acessibilidade nas instituições federais de educação superior
visam eliminar barreiras físicas, de comunicação e de informação que restringem a
participação e o desenvolvimento acadêmico e social de estudantes com deficiência.
No caso do SB/UFC, o atendimento especializado para pessoa com deficiência visual
é realizado no laboratório de edição e conversão de materiais bibliográficos, portanto um
núcleo de acessibilidade da instituição o qual é equipado com as tecnologias assistivas para
dar apoio ao (a) aluno (a) com deficiência quanto à obtenção da bibliografia básica, em
formato eletrônico ou impresso.
Os acervos eletrônicos abrangem os livros eletrônicos, com acesso para quase 8.352
títulos, em texto completo, em língua portuguesa e estrangeira que podem ser acessados via
internet. Conta-se também com as dissertações e teses que se encontram na BDTD, o portal
de periódicos da CAPES que disponibiliza para todas as universidades públicas o acesso a
várias bases de dados e periódicos científicos, em texto completo.
Esses acervos digitais ou eletrônicos são acessados por toda a comunidade
acadêmica. No caso de alunos com deficiência visual é necessário o apoio das tecnologias
assistivas, como programas leitores de tela, por exemplo, bastando apenas instalar nos
computadores de pesquisa da biblioteca, pois alguns são programas livres, além de
equipamentos como fone de ouvidos, teclados ampliados ou em Braille. Nesse caso, o aluno
com deficiência tem a oportunidade de frequentar o mesmo espaço e interagir com outros

2075

�alunos.
Os serviços disponibilizados às pessoas surdas estão sendo realizados com o auxílio
de bibliotecários e demais pessoas ligadas ao atendimento. O projeto BU em Libras, já
mencionado, buscar dar visibilidade à comunidade surda na universidade. Trata-se de uma
parceria entre a Comissão de Educação de Usuários, Comissão de Acessibilidade e a
Secretaria de Acessibilidade.
A contribuição da referida Secretaria foi fundamental, disponibilizando intérprete de
LIBRAS e um técnico em mídias digitais que desenvolveu o ambiente virtual, respeitando as
normas de acessibilidade do World Wide Web (W3C) que é uma comunidade internacional
que orienta sobre diretrizes de acessibilidade na web para pessoas com deficiência. Essa
experiência do BU em Libras resultou em premiação dessa ferramenta no “Premio Nacional
de Acessibilidade na WEB” de 2013.
Segundo o documento sobre as Diretrizes para Serviços de Biblioteca para Surdos da
IFLA (Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias). As bibliotecas
devem estar atentas para:
Com o surgimento da World Wide Web (www), muitas bibliotecas
criaram bases de dados online de referência e de informações
comunitárias, de maneira a prover um ponto central de referência para a
informação sobre a comunidade local. Como a comunicação eletrônica e
a www tem sido, comprovadamente, uma mídia extraordinariamente
efetiva para surdos, é importante que as bibliotecas utilizem esses meios
para prover informações locais de interesse particular para sua clientela
surda. (DAY, 2000, p.16).
O projeto BU em LIBRAS busca adotar essas recomendações, removendo as
barreiras de comunicação para efetivar a inclusão das pessoas surdas na universidade.
A acessibilidade à informação para a inclusão da pessoa com deficiência se insere na
dimensão didático-pedagógica e nos indicadores material didático institucional e tecnologias
da informação e comunicação, conforme os referenciais de acessibilidade na educação
superior (BRASIL, 2013).
Essa identificação da acessibilidade nos serviços da Biblioteca Universitária com as
dimensões do SINAES não tem a pretensão de impor indicadores padronizados para todos os
contextos, mas ressaltar a relevância desses serviços na construção de uma cultura inclusiva
nas IFES. Os indicadores devem expressar a realidade e por isso são elaborados de acordo
com as peculiaridades de cada instituição.

2076

�6 CONSIDERAÇÕES PARCIAIS
Não se pode afirmar que a Universidade Federal do Ceará e o seu subsistema
biblioteca já apresentem, na integra, todos os requisitos de acessibilidade para atender
adequadamente pessoa com deficiência. Com certeza não. No entanto, se pode afirmar que se
está gestando a proposta e a cada dia se detectam novas demandas que ajudam a regular ações
e procedimentos que se traduzem em políticas em prol da inclusão na educação superior.
Antes de tudo, deve-se ressaltar que a inclusão na educação superior é ampla e
remete para a questão do alcance das metas de expansão da oferta de vagas na educação,
compatíveis com as estratégias de ampliar a participação proporcional de grupos
historicamente desfavorecidos na educação superior, inclusive mediante a adoção de políticas
afirmativas, conforme o texto do Plano Nacional de Educação (PNE) para vigorar de 2011 a
2020.
A análise da experiência do SB/UFC revela, com clareza, que a inclusão educativa da
pessoa com deficiência é possível e que vem ocorrendo, mesmo que seja um processo lento.
Revela-se também como um aprendizado e uma oportunidade para todos os profissionais, ligados
aos vários departamentos e áreas do conhecimento da própria instituição, contribuírem com
ideias e projetos inovadores em acessibilidade.
Sem dúvida, a principal barreira, para se conseguir que as instituições educacionais
estejam atentas e preparadas para acolherem a diversidade, está nas ideias, nas normas, nas
crenças e atitudes vigentes na instituição, nos padrões de funcionamento e nas práticas de todos
os agentes envolvidos com o ato de educar.
O discurso teórico da inclusão é aceito por todos, no entanto existe uma distancia
significativa entre a teoria e prática. Para alguns, vale a pena tentar e, para além do discurso,
começam a enveredar por esse caminho; outros permanecem apenas com o peso da dúvida, dos
temores e das dificuldades.
No momento, esse é o caminho que o SB/UFC vem trilhando na tentativa de garantir a
permanência de qualidade da pessoa com deficiência na educação superior. A barreira atitudinal é
a que mais emperra essa caminhada em direção à implantação de medidas contra a discriminação,
assim como estabelecer programas de apoio, proporcionar recursos e realizar adaptações e
procedimentos com o objetivo de garantir os princípios de igualdade e de oportunidades e
condições de não discriminação, de acessibilidade e de desenho de ambientes para todos.

2077

�REFERÊNCIAS
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              <text>A concepção de uma sociedade inclusiva emerge a partir de meados do século XX, acompanhada dos calorosos debates, voltados para eliminar a exclusão territorial, étnico racial, de género, dentre outros. No ambiente educacional, floresceu o paradigma da inclusão escolar, em um debate de amplitude internacional, liderado por organismos como a UNESCO que, fundamentando-se no respeito aos direitos humanos fundamentais, vem exigindo o compromisso dos governos e instituições com a construção de sistemas educacionais inclusivos. Dentre a diversidade de estudantes a serem contempladas com as políticas educativas de inclusão, encontra-se a pessoa com deficiência cuja inserção no sistema educacional passa a ser percebida na sua dimensão histórica, como processo de reflexão e prática, que possibilita efetivar mudanças conceituais, político e pedagógicas, coerentes com o propósito de tornar efetivo o direito de todos à educação. Focando especificamente o tema da inclusão da pessoa com deficiência na educação superior, esse artigo descreve as ações de acessibilidade que o Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Ceará, no âmbito da sua missão, vem providenciando para apoiar o processo de aprendizagem de estudantes com deficiência. Embora não se pode considerar que a Universidade Federal do Ceará e o seu subsistema biblioteca não apresentem, na integra, todos os requisitos de acessibilidade, no momento, esse é o caminho que o SB/UFC vem trilhando na tentativa de garantir a permanência de qualidade da pessoa com deficiência na educação superior. </text>
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