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                  <text>XVIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias
SNBU 2014

ACERVO DE ESCRITORES MINEIROS: A BIBLIOTECA DE WANDER
PIROLI
Gabrielle Francinne de Souza Carvalho Tanus
Antônio Afonso Pereira Júnior
Gustavo Tanus

RESUMO
O Acervo de Escritores Mineiros (AEM), localizado no terceiro andar da Biblioteca Central,
da Universidade Federal de Minas Gerais, abriga diversas coleções de importantes escritores,
sobretudo, da cultura mineira, e de renome no cenário nacional e internacional. Dentre esses
escritores, está o acervo do Wander Piroli, um belo-horizontino do bairro da Lagoinha,
reconhecido como grande contista, por sua literatura infantojuvenil e adulta. Seu acervo,
doado em 2006, é composto por inúmeros documentos, entre objetos pessoais,
correspondências, fotos, discos, manuscritos/datiloscritos e livros, os quais ainda não
constituíram objetos de estudos. Assim, este trabalho tem como objetivo apresentar e analisar
a sua biblioteca representada por 1776 itens bibliográficos, a fim de identificar as obras e
autores que compõe esse acervo, suas especificidades, como os exemplares com dedicatórias,
que individualizam seu acervo e possibilitam reafirmar seu estreito contato com outros
escritores e seu amor aos livros.
Palavras-chave: Wander Piroli; Acervo de Escritores Mineiros; Biblioteca do escritor.

ABSTRACT
The Minas Gerais Archive of Writers, located on the third floor of the Central Library, the
University Federal of Minas Gerais, houses several collections of important writers,
especially the mining culture and reputation in the national and international scene. Among
these writers, is the collection of Wander Piroli, belo-horizontino of the neighborhood called
Lagoinha, recognized as a great storyteller, in infant-juvenile and adult literature. Its
collection, donated in 2006, is composed of numerous documents, including personal items,
correspondence, photographs, records, manuscripts/ datiloscritos and books, which have not
yet formed objects of investigation. This work aims to present and analyze your library
bibliographic, represented by 1776 items, in order to identify the authors and works that make
up this collection, their specificities, the copies with dedications, which individualize their
collections and enable reaffirm its narrow contact with other writers and his love of books.
Keywords: Wander Piroli; Minas Gerais Archive of Writers; Library of writer.

2025

�1.

INTRODUÇÃO

“A biblioteca é a carteira de identidade do intelectual”
(Abraham Moles)

O fascínio pelas bibliotecas e pelos livros é tão antigo quanto à preocupação do
homem em reter nos registros materiais e em sua memória os acontecimentos de sua época.
Desde a Antiguidade pode-se falar em arquivos, bibliotecas e museus, que ainda não eram tais
como se conhece hoje, pois seus “fazeres” estavam imbricados com as necessidades da época,
bem como não havia uma rígida separação institucional entre elas. O controle das obras, por
meio dos catálogos advém da Antiguidade, sendo Calímaco o “bibliotecário” responsável pela
classificação alfabética dos inúmeros rolos de papiro da biblioteca de Alexandria, a mais
notável daquele momento. Como lembra Manguel (2006, p. 35), “Os ptolemaicos e seus
bibliotecários certamente sabiam que memória era poder", e que “Se toda biblioteca é um
espelho do universo, então todo catálogo será um espelho de um espelho”. (MANGUEL,
2006, p. 52).
Durante séculos, atravessando períodos como a Idade Média, as coleções formavam
um desiderato comum, sendo apenas com os desdobramentos

da Idade Moderna que essas

coleções e instituições começaram a tomar contornos mais específicos (SILVA; RIBEIRO,
1999). Outras mudanças operaram sobre essas instituições como o conceito de nacional e o de
público. Tais conceitos vinculam-se com as conquistas das revoluções burguesas na Europa
do século XVIII, entre elas a Revolução Francesa, que marca o início da Idade
Contemporânea. Contudo, não é objetivo deste texto recontar a trajetória histórica
pormenorizada dos arquivos, bibliotecas e museus, o que constituiria outra pesquisa.
Desse modo, realiza-se um salto na história, a fim de destacar outros dois
acontecimentos significativos, no século XX, que reverberaram nessas instituições, como a
explosão informacional e a especialização do conhecimento, que demandam cada vez mais
conhecimentos específicos em cada área do conhecimento. As mudanças na forma e no
conteúdo dos documentos e nas informações suscitaram a criação de instituições cada vez
mais especializadas, com seus acervos também especializados. Assim, arquivos, biblioteca,

229 Dentre alguns dos acontecimentos desse momento estão: o aperfeiçoamento da imprensa por Gutenberg, que
facilitou e multiplicou a impressão; a expansão marítima, que impulsionou a atividade colecionista de objetos
trazidos de outras terras, os quais refletiam nos gabinetes de curiosidades; e, o aumento das atividades dos
Estados Nacionais, que impulsionou a criação de documentos administrativos, considerados arquivísticos,
indispensáveis para a manutenção das cidades.

2026

�museus e centros de documentação encontram-se, sobretudo, institucionalmente separadas,
cada qual com suas funções e temáticas específicas, e em áreas de atuação e do conhecimento
distintas.
Um retorno dessas coleções reunidas em um único espaço encontra-se potencializada
na constituição dos Arquivos Literários, que são compostos por uma grande diversidade de
suportes e formatos informacionais, devido ao encontro entre os acervos arquivísticos,
bibliográficos e museológicos. No Brasil, os Arquivos Literários assumem contornos tardios,
datados da segunda metade do século XX, como atividades mais sistemáticas e vinculadas à
produção de conhecimentos, sendo de interesse e responsabilidade, sobretudo, das
universidades públicas e privadas. (MARQUES, 2008). Dentre um dos exemplos de Arquivos
Literários, ressalta-se neste trabalho, o papel do Acervo de Escritores Mineiros (AEM),
vinculado à Faculdade de Letras, da Universidade Federal de Minas Gerais, que integra em
seu ambiente: museu, arquivo e biblioteca, constituindo em um espaço multifacetado, capaz
de refletir a vida e as obras dos escritores.
Sendo esse um grande diferencial do Acervo de Escritores Mineiros: guardar a coleção
bibliográfica, cartas, cartões, fotos, móveis de escritório, objetos pessoais, coleção de quadros,
obras de arte, placas, entre outros objetos que fizeram parte da vida do escritor. Tais
documentos, que fazem parte da história literária e cultural de Minas Gerais e do Brasil, foram
generosamente doados por familiares, amigos ou mesmo pelo escritor ainda em vida, e
constituem muitas vezes em fontes únicas e primárias de pesquisas. Sobre a importância
desses acervos literários ou não-literários, Bordini (2008) afirma que essa documentação
constitui em vestígios da subjetividade histórica, os quais formam um mosaico extremamente
complexo, possibilitando a construção histórico-social, e os entrecruzamentos da história, da
sociedade, das subjetividades.
Conforme destaca Marques (2013), a passagem do “acervo do escritor”, que antes
era de domínio exclusivo de seu mantenedor e localizado em sua morada, com essa mudança
topográfica da coleção, o acervo pessoal entra no âmbito do espaço público, passando a ser
nomeado de “arquivos literários”. Constituem-se,

então, em um espaço para o

desenvolvimento de diversas pesquisas, como crítica textual, crítica genética e crítica
biográfica, e em diversos níveis, da graduação a pós-graduação. Assim, este trabalho busca
diminuir a carência de estudos que visam os Arquivos Literários, em contrapartida com os
arquivos administrativos (HEYMANN, 2012), ou como afirma Moles (1978, p. 39), “A
biblioteca pessoal ou particular praticamente nunca foi analisada na literatura científica ou nos
estudos documentários”.

2027

�Portanto, o objetivo geral consiste em realizar uma análise dos itens bibliográficos da
biblioteca do escritor Wander Piroli, na qual se localiza no Acervo de Escritores Mineiros,
que se situa no terceiro andar da Biblioteca Central, da Universidade Federal de Minas Gerais.
Assim, os objetivos específicos envolvem a identificação de traços importantes em sua
coleção de livros, predominância das temáticas, obras e autores, e suas especificidades, mais
especificamente as dedicatórias de exemplar

, que individualizam a obra e seu acervo

.

Desse modo, foram realizadas visitas ao próprio Acervo de Escritores Mineiros, em especial,
ao acervo de Wander Piroli, o que permitiu a pesquisa in loco e as análises dos livros, os quais
também estão descritos nos inventários que integram seu acervo. Busca-se ainda, por fim,
defender a figura desse escritor como bibliófilo, dado a extensão de seu acervo bibliográfico
composto por 1766 livros e tantos outros documentos que integram o fundo Wander Piroli.

2. O ACERVO DE ESCRITORES MINEIROS

O Acervo de Escritores Mineiros (AEM) é um espaço de preservação da memória da
literatura mineira. Um centro de pesquisa que cuida de preservar a literatura mineira, além de
constituir-se no maior projeto do Centro de Estudos Literários e Culturais (CELC). O CELC é
um núcleo de pesquisa da Faculdade de Letras (FALE) Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG), criado em agosto de 1989, pela Congregação da FALE. Tem como objetivos:
promover pesquisas de Literatura Brasileira e de outras literaturas, segundo perspectivas de
ordem cultural e interdisciplinar, tendo em vista a constituição de um pensamento intelectual
no Brasil; desenvolver e divulgar técnicas de investigação para o aprimoramento de estudos
no campo literário, artístico e teórico; criar condições para a recepção e a análise de acervos e
bibliotecas de escritores de reconhecido valor, com vistas a incentivar não só a criação de
grupos integrados de pesquisa, mas também a abertura para a consulta da comunidade.
O Acervo de Escritores Mineiros, atualmente, abriga a coleção de 23 escritores,
reunindo documentos, objetos pessoais, livros, móveis, fotografias, medalhas e os mais
230 Examinam-se as dedicatórias de exemplar, as quais se diferenciam das dedicatórias das obras, embora ambas
consistam prestar uma homenagem numa obra a uma pessoa, a um grupo real ou ideal, ou a alguma entidade de
outro tipo. Segundo Genette (2009, p. 109) “as primeiras dizem respeito à realidade material de um exemplar
singular, a quem consagra em princípio a doação ou a venda efetiva; a outra diz respeito à realidade ideal da
própria obra, cuja posse (e, portanto a cessão, gratuita ou não) só pode ser simbólica”. Por exemplo, “uma obra
de exemplares múltiplos, digamos generosamente três mil, pode ser, enquanto obra, dedicada a uma pessoa, e
cada um de seus exemplares dedicado a três mil outras, ou pelo menos a dois mil e novecentos e noventa e
nove” (GENETTE, 2009, p. 125).
231 As origens da dedicatória de obra remontam, pelo menos, a Roma Antiga. As dedicatórias de exemplar
expandiram-se após a invenção da imprensa, justamente como maneira de conferir uma singularidade aos
exemplares impressos, ou seja, uma forma de compensar essa uniformização do livro (GENETTE, 2009).

2028

�diversos tipos de suportes informacionais que preservam a história e a memória do escritor. O
primeiro acervo doado foi o fundo documental de Henriqueta Lisboa, em 1989. A ele se
juntaram os acervos de Abgar Renault, Carlos Herculano Lopes, Cyro dos Anjos, Fernando
Sabino, Lúcia Almeida de Machado, Murilo Rubião, Octávio Dias Leite, Oswaldo França
Júnior e Wander Piroli. Graças ao apreço pelo interesse público, novos acervos e coleções são
paulatinamente incorporados ao conjunto inicial, hoje ampliado para 10 acervos de escritores
e 12 coleções especiais, a saber: coleção Adão Ventura; Alexandre Eulalio; Ana Hatherly;
Aníbal Machado; Achilles Vivacqua; Eugênio Rubião; Genevive Naylor; Graciliano Ramos;
José Maria Cançado; José Oswaldo de Araújo; Leopoldo Pereira e Valmiki Vilela Guimarães.
Salienta-se ainda que, em 2014, o Acervo de Escritores Mineiros recebeu o espólio do belohorizontino Affonso Ávila (pesquisador, ensaísta e poeta), falecido em setembro de 2012.
Para garantir a estética dos cenários museográficos, o ambiente de cada escritor é
elevado por tablados para separá-lo do tempo atual e proporcionar um encantamento ao
visitante. Os espaços dos escritores foram concebidos como exposições permanentes, que
foram batizadas de “Laboratório do Escritor”, com o objetivo de reproduzir o seu escritório,
onde esses artistas criavam suas obras. Os documentos que são expostos nesses laboratórios,
protegidos por vitrines, impedem que as pessoas toquem nos documentos, cartas, fotos e
objetos pessoais. Atrás desses cenários é armazenado o restante da coleção pessoal de cada
escritor, constituindo-se na reserva técnica de cada escritor. A visibilidade de todo o acervo
seria impossível em termos de espaço, tendo em vista a existência dos milhares de
documentos dos escritores, documentos estes heterogêneos, compostos por acervos
arquivísticos, bibliográficos e museográficos.
Em 2003, foi inaugurado o espaço no terceiro andar da Biblioteca Central da UFMG,
que teve sua expansão concluída em 2011, com uma área útil de 700 metros quadros, os quais
já se tornaram insuficientes para abrigar novas coleções, pois o espaço encontra-se totalmente
ocupado. Assim, para que o setor possa continuar cumprindo sua função e recebendo novos
acervos e coleções é necessária a ampliação do espaço. Desse modo, o espaço museográfico
das coleções que vierem a ser adquiridas certamente terá um tamanho restrito. Quanto a
entrada da coleção de documentos do escritor no Acervo de Escritores Mineiros, o principal
critério diz respeito à naturalidade do escritor. Além desse, leva-se em consideração a
relevância literária e cultural da possível doação, com base no valor cultural da documentação
conservada, da obra do titular do acervo em questão e na importância de sua atuação no
cenário literário, artístico, cultural, social e político.

2029

�Naturalmente, o foco é, prioritariamente, o recebimento de acervos e coleções de
escritores mineiros ou ligados a Minas Gerais, embora não se descarte o recebimento de
material de pessoas de outros lugares. Para abrigar um acervo de escritor, consideram-se
alguns critérios, a saber: a) a relevância literária do escritor e sua obra; b) o valor histórico e
cultural dos fundos documentais do escritor; c) as condições de preservação do arquivo; d) e
as formas de seu repasse à Universidade. Para o recebimento de um acervo, é necessário que a
proposta seja aprovada pelo Conselho Diretor do Centro de Estudos Literários e Culturais, a
partir de uma discussão sobre o interesse do acervo ou da coleção.
O Acervo conta ainda com uma sala de obras raras, separadas de acordo com os
critérios definidos pela Biblioteca Nacional, quais sejam: impressões dos séculos XVII e
XVIII; Brasil - séc. XIX; edições clandestinas; edições de tiragens reduzidas; edições
especiais (de luxo para bibliófilos); exemplares de coleções especiais (regra geral com belas
encadernações e ex-líbris); exemplares com anotações manuscritas de importância (incluindo
dedicatórias) e obras esgotadas. O Acervo de Escritores Mineiros dispõe também de um site
que disponibiliza as informações necessárias para que os pesquisadores e interessados em
geral tenham um primeiro contato com o setor. Na segunda versão do site, além das
atualizações das informações, foram incluídos os novos acervos e coleções recebidos
recentemente pela Instituição, inclusive imagens de alguns documentos e fotos dos escritores.
A mudança da designação do órgão da Faculdade de Letras que abriga o Acervo dos
Escritores Mineiros, de “Centro de Estudos Literários” para “Centro de Estudos Literários e
Culturais”, ocorrida em 2011, teve como objetivo descrever de forma mais adequada à
natureza dos documentos abrigados no AEM e das pesquisas nele desenvolvidas. Assim, a
nova designação contempla melhor a diversidade de documentos e a heterogeneidade de
pesquisas realizadas no acervo. A mudança de nome reflete uma transformação das discussões
sobre a literatura e a cultura, considerando-se especialmente o lugar ocupado pela literatura na
contemporaneidade e suas interações com a cultura, a história e a sociedade. A mudança,
então, reflete uma ampliação dos interesses e sinaliza para a possibilidade de que sejam
recebidos acervos cujos titulares não sejam apenas escritores, mas também outros
personagens de destaque na vida cultural mineira e brasileira. Por fim, salienta-se que o
Acervo não recebe apenas visitantes de nível universitários e pesquisadores, mas estabelece
um contato com a comunidade por meio da ação cultural, o que possibilita uma interação
destes Acervos Literários com a sociedade em geral.

2030

�3. O ESCRITOR MINEIRO DO BAIRRO LAGOINHA

Wander Piroli, como ele mesmo dizia, é o seu nome todo. Filho do operário Aurélio
Piroli e da dona-de-casa Elvira Piroli, nasceu em Belo Horizonte, em 30 de março de 1931.
Quando tinha um ano sua mãe faleceu, sendo criado juntamente com a sua única irmã, Edda,
pela avó italiana Joana, a quem ele chamara de mãe. Fez o curso primário no Silviano
Brandão, estudou nos colégios Arnaldo, Marconi e Mineiro e na Escola Técnica de Comércio
Tito Novais. Como a maioria de escritores de sua geração, estudou Direito, na Universidade
Federal de Minas Gerais, segundo ele “para agradar meu pessoal”, exerceu a profissão durante
poucos anos. Foi funcionário público durante sete anos na Secretaria da Agricultura, e
trabalhou em inúmeros jornais como repórter, entre eles: Binômio (importante jornal de
oposição ao governo JK, que se caracterizava pela crítica política pelo humor, investigação e
denúncias, no qual trabalharam outros importantes escritores, como Carlos Drummond de
Andrade, Roberto Drummond, Ziraldo etc.), O Diário, Última hora, O Sol, Diário de Minas,
Diário de Belo Horizonte, Estado de Minas, Jornal do Shopping, Rádio Guarani, Jornal do
Domingo, Rádio Inconfidência e Hoje em dia. Foi também secretário do Suplemento Literário
Minas Gerais, onde deixou uma dezena de artigos sobre a cultura mineira (DUARTE, 2010).
Wander Piroli, pai de quatro filhos, passou sua infância no bairro Lagoinha, onde
começou a sua incursão no mundo das letras. Segundo Piroli era “um bairro safado, de
características muito especiais, que começava na Praça Vaz de Melo (que chamamos de Praça
da Lagoinha, uma praça incrível) e terminava na Pedreira Prado Lopes”.

Complementa

ainda que “pessoas de boa família evitavam tanto a Praça quando a Pedreira, que, como já
disse, abasteciam com sobre o noticiário policial dos jornais. Um reduto de marginais,
bêbados, vagabundos, criminosos - como diziam”. Contudo, “nós sentiamos muito a vontade
na Pedreira e amávamos a Praça, que sempre teve a mania de ficar acordada dia e noite”. No
projeto intitulado “BH: a cidade de cada um” onde cada ilustre morador dessa cidade escreveu
sobre um espaço, rua ou bairro, Wander Piroli eternizou o seu bairro em livro de mesmo título
“Lagoinha”, publicado em 2004.
Wander Piroli foi vencedor do concurso literário, em 1951, promovido pela Prefeitura
de Belo Horizonte, com o conto de estréia “O troco”. Publicou seu primeiro livro de contos,
em 1966, pela Imprensa Oficial, com o título de “A mãe e o filho da mãe”. Em 1975, O
menino e o pinto do menino foi lançado, pela Editora Comunicação, cujo editor responsável,

232 Texto escrito por Wander Piroli e publicado no Blog da Milu, 23/12/2008.

2031

�André Carvalho, percebeu a novidade do texto que fora antes publicado no Suplemento
Literário; diferente dos textos da época, uma literatura que não era simplesmente contos da
carochinha, não possuía final feliz, mas demonstrava as dificuldades e obstáculos da vida de
uma criança. Este livro deu nome à coleção, pela mesma editora, “Coleção do Pinto”. Em
1977, venceu o 19° prêmio Jabuti com o livro Os rios morrem de sede, livro que causou
polêmica provocada pelo uso da linguagem coloquial e a presença de um “palavrão” e, por
isso, inaugurou uma nova fase da literatura infantojuvenil nacional, nomeada por críticos de
realismo para crianças, por ser uma literatura não moralista, que tratasse, de forma realista,
questões e problemas concernentes ao dia a dia das crianças.
Ao lado dessa obra, Wander publicou mais de uma dezena de livros em vida e deixou
mais uma dezena de inéditos. Entre os livros publicados estão: Macacos me mordam (1978);
As máquinas de fazer amor (1980); Os dois irmãos (1980); Minha bela putana (1985); Os
melhores contos de Wander Piroli (1996); Nem filho educa pai (1998); Para pegar bagre de
dia é preciso sujar a água (2007); É proibido comer a grama (2006); Eles estão aí fora
(2006); e, Matador (2008).
Entre os livros ainda não publicados estão: Três menos um é igual a sete (infantil); se
não tem pra nós, não tem pra ninguém (infantil); Poemas imorais e canções indecentes
(poesia); Se é puro não presta (contos); Canto mortal das cigarras (teatro); Um atrás da
outra (crônicas/contos); Como se faz um bandido (infantil); Segundo Elza (Romance); Os
peixes saem andando (infantil); Para jovens em idade escolar (crônicas/contos - juvenil);
Sem tirar nem por (memória); A vida é o melhor negócio (crônica); e, Todo grande amor é
marginal (entrevista).
Em edição especial, de novembro de 2011, ano em que Piroli completaria 80 anos de
idade, o Suplemento Literário dedicou seu volume a Wander Piroli, abrindo-o com as
seguintes palavras sobre ele, “considerado um dos vigorosos representantes do conto
brasileiro, marcou seus textos com uma lucidez cortante, realista, cruel, mas sempre lastreada
por uma ternura íntima, as páginas carregadas com a herança do velho e boêmio bairro da
Lagoinha de sua juventude, fazendo de seus textos uma lamina afiada que desvela com amor e
precisão os miseráveis que acolheu em seus livros”.

4. O ACERVO DO MINEIRO WANDER PIROLI

Seu espólio foi doado pela família, em 2006, mesmo ano de seu falecimento aos 75
anos de idade. Esse acervo formado ao longo de sua vida é composto por livros, periódicos,

2032

�jornais, correspondências, objetos pessoais, discos, quadros e estantes, os quais formam as
séries e as subséries. Assim, após vários meses de organização técnica, que se iniciou com a
atividade de higienização dos documentos, seguida pela identificação do material, catalogação
da coleção e análise de seu acervo, o fundo Wander Piroli (WP) encontra-se organizado em
dois volumes, que formam o inventário de seu acervo. A intenção de condensar as
informações sobre o acervo do escritor para além de seu papel de organização do registro
material tem como objetivo contribuir para presentes e futuras pesquisas sobre a vida e a obra
do autor. O acervo WP pode ser também pesquisado in loco, no Acervo de Escritores
Mineiros, localizado no terceiro andar da Biblioteca Central, no campus Pampulha, da
Universidade Federal de Minas Gerais.

FIGURA 1: Espaço museográfico destinado a Wander Piroli no Acervo de Escritores
Mineiros

Fonte: Foto tirada pelos auores.

O fundo WP é constituído pelas seguintes séries e subséries: série bibliográfica
(subsérie livros - 1776 livros e subsérie periódicos - 19 títulos); série iconografia - 36 itens;
série anexos - 51 itens; série autógrafos - 32 itens; série conjuntos (contendo 14 pastas sento
178 itens referentes ás subséries: felicitações e convites, envelopes e anotações e elementos
iconográficos, 1195 folhas referentes às subséries: recortes de jornais diversos, recados
domésticos, documentos de terceiros, correspondência de terceiros, documentos profissionais,
manuscritos/datiloscritos e cópias de produção intelectual de terceiros, envelopes e anotações
contendo

remetentes

diversos,

recados

diversos,

documentos

pessoais,

manuscritos/datiloscritos de WP e correspondência ativa e passiva de WP e 1 pasta azul

2033

�referente à subsérie documentos pessoais); série objetos pessoais do titular - 61 objetos; série
mobiliário - 1 item; série jornais (subsérie jornais - 35 itens, subsérie recortes de jornais 484 itens); série fonográfica (discos) - 4 itens; série comunicações - 25 itens e série
correspondências - 2126 cartas.
Esse arquivo de médio porte, formado por milhares de documentos, possibilita uma
miríade de pesquisas sobre o mesmo, ao conferir ao pesquisador uma proximidade com os
objetos do escritor, de seu mundo, como também pelos bastidores da criação literária,
marcadas por anotações dispersas, marginálias às obras. Contudo, este trabalho não se
localiza dentro da área da crítica genética, em que se busca analisar a gênese da obra, os
bastidores da criação literária, mas em um espaço mais reflexivo de análise da biblioteca de
um escritor, sem buscar relação de seu acervo com as suas obras ou o processo criativo.
Assumindo a direção apontada por Moles (1978), de que a biblioteca reflete muito do espírito
e da cultura de seu mantenedor, isto é:
Todo intelectual possui um a biblioteca, cujo arranjo e extensão são testem unhas
dele m esm o, e é bem sabido que um a olhada na biblioteca de um intelectual diz
m uito sobre o que ele é, o que pensa, o que faz, sobre suas orientações políticas,
seus gostos artísticos ou seus projetos m ais recentes, pois ela é um a testem unha
de sua atividade m ais específica. (M O LES, 1978, p. 40).

Assim, este trabalho constitui em um primeiro ensaio sobre a análise bibliográfica do
acervo de Wander Piroli, na qual busca compreender sua biblioteca e os seus livros. O foco
dessa análise concentra-se nas temáticas das obras, nos autores e suas especificidades, bem
como identificar os exemplares com dedicatórias, traços íntimos de constituição de uma
coleção, de uma biblioteca. Conforme Lopez (2007, p.33) “as dedicatórias, em geral,
oferecem-nos elementos relevantes da biografia daqueles a quem estas se endereçam, bem
como informações na vida literária, o campo cultural da época a que pertecem”. Desse modo,
acredita-se que perscrutar a biblioteca de um escritor é também adentrar em sua vida, em seus
gostos, em sua cultura, em suas relações sociais marcadas num tempo e espaço definidos.

5. A BIBLIOTECA DE WANDER PIROLI
Livros
Minha biblioteca são as pessoas que encontro na rua
(Wander Piroli)

Este poema de Wander Piroli publicado no Suplemento Literário, em setembro de
1990, revela a simplicidade deste escritor, da valorização dos sujeitos e não dos livros como

2034

�único caminho para o conhecimento. Contudo, sabe-se que sua biblioteca era composta por
um número considerável de livros, exatamente, 1776 exemplares. Assim, o objetivo geral
deste trabalho consiste em realizar um passeio por entre os livros da Biblioteca de Wander
Piroli, localizada no Acervo de Escritores Mineiros. Com este passeio almeja-se responder as
seguintes perguntas: Quais são obras que integram a biblioteca? Quais as especificidades de
seu acervo? Quem são os escritores? Pensando na figura de Wander Piroli como um homem
que valorizava o cotidiano, a vida entre amigos, acredita-se que seu acervo é composto por
muitas obras autografadas, o que possibilita inferir o seu contato próximo com outros
escritores. Assim, objetiva-se responder também: Quais são essas obras autografadas, e por
quem?
Esse difícil exercício de seleção, de mostrar o que mais se sobressai de sua biblioteca,
é necessário devido à quantidade de obras, o que impossibilitam dar visibilidade a todas elas,
assim, tentou-se ressaltar aqui algumas delas, as mais recorrentes e aquelas obras com
características distintas. Por isso, este trabalho consiste em uma amostra de sua biblioteca, não
dispensando, portanto, a ida ao seu acervo, a sua biblioteca. Começando com ele próprio,
Wander Piroli guardou em sua biblioteca 28 exemplares de sua produção, incluindo uma
Edição em búlgaro, de 1982, para ser transliterada, do livro Os rios morrem de sede. Os
gêneros textuais de sua biblioteca são diversos, podendo dizer que era um leitor de poesia,
contos, críticas, antologias, obras de arte, cartas, crônicas, novelas.

FIGURA 2: Imagens dos livros de Wander Piroli integrantes ao seu acervo

Fonte: Foto tirada pelos auores.

2035

�Dentre os variados escritores destacam-se, aqui, os que apareceram com maior
frequência, como as obras de Dostoiesvski, escritor russo, com os seguintes títulos: Diário
de um escritor; Os irmãos Karamazov (2 exemplares); Noites Brancas, Os possessos (2
exemplares); Stepantchikovo e A voz subterrânea. Do autor Máximo Gorki, também escritor
russo estão as obras: Os Artamonov; A mãe; Certo dia de outono e outros contos (sem datas
identificadas); e Los rebeldes y los vagabundos, de 1941.

O escritor norte-americano

William Faulkner, aparece com as obras Os desgarrados, de 1963; O mundo não perdoa, de
1954; Na minha morte, de [19--]; Sartoris, de 1958; e O som e a fúria, de [19--]; sendo estes
três últimos livros publicados em Lisboa. O norte-americano Ernest Hemingwat também se
faz presente com as obras A capital do mundo; As neves de Kilimanjaro; As torrentes da
primavera; Paris é uma festa, esses quatro obras sem data identificada; e Contos, de 1969. E,
outro norte-americano, Sidney Sheldon, com as obras Nada dura para sempre, de 1994; O
reverso da medalha (2 exemplares), de 1982 e 1985; Se houver amanhã, de 1985.
A literatura francesa também se faz presente por meio do escritor francês Guy de
Maupassant, com as obras O abandono e outros contos, de 1997; Bola de sebo e outros
contos, de 1987; e Caprichos do coração, de [19--]. As obras do escritor inglês Frederik
Forsyth também marcam presença com as obras O dia do Chacal (2 exemplares), ambos de
1980, O dossiê Odessa, de 1972; O quarto sem protocolo, de 1984; e Sem perdão, de 1985.
Graham Greene, também inglês, está presente com as obras Manual do espião, de 1957;
Viagens com minha tia, de 1969; O poder e a glória, de 1946; e O americano tranquilo, de
1981.
O escritor espanhol Federico García Lorca, com as obras Poema del cante jondo, de
1948; e Romanceiro gitano e outros poemas, de 1975. O escritor colombiano Nobel de
literatura, Gabriel García Márquez, com as obras A incrível e triste história da Cândida
Frêndira, de 1972; Cem anos de solidão, de [19--]; Crônica de uma morte anunciada, de
1981; Cuando era feliz e indocumentado, de 1973; e Os funerais da mamãe grande, de 1975.
Do poeta chileno Pablo Neruda, há as obras A barcarola, de 1983; Canto general, de 1952;
Cien sonetos de amor, de [19--]; Incitações ao nixonicídio e louvor da revolução chilena, de
1980; e Últimos poemas: (o mar e os sinos), de 1997.
O escritor theco Franz Kafka também marca sua presença no acervo com as obras A
muralha da China, de 1968; e Contos escolhidos, sem data identificada. Também encontramse obras de filósofos, como Sartre, Schopenhauer, Giambatista Vico; do médico criador da
psicanálise, Freud; dos escritores Aldous Huxley, Rimbaud, Oscar Wilde, do linguista e
filósofo Ferdinand de Saussure etc. Entre outras tantas obras, de diversos pensadores,

2036

�encontram-se Claude Lévi-Strauss, com os títulos Lévi-Strauss, de 1980; e Totemismo hoje,
de 1975. De Nicolau Maquiavel, há dois exemplares da obra O príncipe, uma da editora Paz e
Terra e outra da L&amp;PM, de 1996 e 1998. Karl Marx faz parte do acervo, com A origem do
capital, de 1977; O capital, de [19--]; e Cartas filosóficas e outros escritos, de 1977. Do
filósofo alemão Friedrich Nietzsche há as obras Assim falava Zaratustra; Ecce hommo: (como
cheguei a ser o que sou); Mas alla del bien y del mal, obras sem datas identificadas;
Nietzsche, de 1978; e, El viajero y su sobra, de 1942.
Dentre os escritores brasileiros com mais de três livros

estão: Darcy Ribeiro, com

as obras As Américas e a civilização, de 1977, (com dedicatória do autor); Cartas, falas,
reflexões, memórias (3 exemplares; n° 1, 1 exemplar n° 2 e 1 exemplar n° 5, de 1991);
Gentidades, de 1997; A lei da educação, de 1992; Maíra, de 1978; Nossa escola é uma
calamidade, de 1984; O processo civilizatório (2 exemplares), de 1978 e 2000; 2afala do
Senado, de [19--]; e Tiradentes, estadista. De Rubens Fonseca, as obras LuciaMcCartney (2
exemplares), de 1978 e o outro sem data identificada; O caso morel, de 1973; e, O homem de
fevereiro ou março, de 1973. Do poeta João Cabral de Melo Neto, há as obras Entre o sertão
e Sevilha, de 1997; A escola das facas, de 1980; e o Museu de tudo, de 1975. Do escritor
Marcos Rey encontra-se as obras juvenis O rapto do garoto de ouro, de 1982; Um cadáver
ouve rádio, de 1983; e Escrevendo na contramão, de 1996; da sua literatura adulta há as obras
O pêndulo da noite, de 1977 e Memórias de um gigolô, de 1986; e a antologia Os melhores
contos de Marcos Rey, de 1999. Além desses escritores, são encontrados livros de: Fernando
Sabino, João Guimarães Rosa, Erico Veríssimo, Luiz Fernando Veríssimo etc.
Dentre os escritores brasileiros com maior quantidade de títulos estão Monteiro
Lobato e Machado de Assis, 17 e 11 respectivamente. As obras de Lobato são: Negrinha;
Caçadas de Pedrinho e Hans Staden; A chave do tamanho; D. Quixote das crianças; de 1965;
Os doze trabalhos de Hércules; Emília no país da gramática; Aritmética da Emília; Fábulas e
histórias diversas; Geografia da Dona Benta; História do mundo para crianças; Histórias de
Tia Anastácia; Memórias da Emília e Peter Pan; O minotauro; O picapau amarelo e reforma
da natureza; O poço do visconde; Reinações de Narizinho; Serões da Dona Benta e histórias
das invenções; Viagens ao céu e o saci, a primeira obra foi publicada em 1963 e, todas as
outras, em 1965.
As obras de Machado de Assis são Iaiá Garcia, de [19--], da Editora Saraiva; O
alienista e outras histórias, de [19--]; e uma edição de Memorial de Aires, de [19--], sendo
233 Devido à diversidade de obras de escritores brasileiros, com um ou dois títulos, optou-se por ilustrar os
escritores com mais de três títulos.

2037

�estes editados pela Editora Ediouro. As obras A mão e a luva, de 1953; Ressureição, de 1954;
e Contos fluminenses, de 1959, Histórias sem data, de 1962; Memorial de Aires, edição de
1979, são todas editadas pelo Clube do Livro. Pela W. M. Jackson Inc. há as edições de
Quincas Borba e Correspondência, ambas de 1944. E, por último, a obra Uns braços conto de
escola, de 1986, publicada pela Editora Itatiaia.
Quanto aos exemplares dedicados, essa marca de individualidade, chama a atenção em
seu acervo, sendo representados por mais de 450 obras com dedicatórias manuscritas, sendo, a
maioria delas, dedicatórias do autor da obra. Algumas dedicatórias inclusive transparecem o
grau de intimidade e amizade entre o escritor da obra, ou aquele que dedica, com o
dedicatário, Wander Piroli. Dedicatórias estas acompanhadas de elogios, agradecimentos,
admiração, mensagens afetuosas ou mesmo de um simples abraço. Conforme Genette (2009,
p. 126) o lugar das dedicatórias de exemplar configuram-se nas “páginas de rosto, ou, melhor,
na página de anterrosto, o que permite às vezes integrar o título, com ou sem floreios, à
fórmula da dedicatória”, o que se perfaz também no acervo de Wander Piroli. E, como
ressalta Genette (2009, p. 128) “dedicatória de exemplar não é apenas um ato simbólico, mas
também um ato efetivo, acompanhado em princípio, de uma doação efetiva, ou pelo menos de
uma venda presente ou anterior”.

FIGURA 3: Dedicatórias de exemplares nas folhas de rosto dos livros pertencentes ao
acervo Wander Piroli

Fonte: Foto tirada pelos auores.

2038

�Desse modo, pode ser localizado nos exemplares do acervo de Wander Piroli
dedicatórias destinadas a ele advindas de diferentes maneiras, como por exemplo,
dedicatórias de membros da família, no livro A marcha do amanhecer de Juscelino
Kubitscheck, dedicado a WP pelo irmão e pela cunhada, assim como O círio perfeito, de
Pedro Nava, com a dedicatória da filha Silvana ao pai. Além dessa obra, Piroli tinha as
seguintes obras desse memorialista: Balão Cativo: memórias 2, Chão de Ferro: memórias 3
(com dedicatórias de Nava), e, Beira-mar: memórias 4. Há também dedicatórias de autores
internacionais como: Giuliano Macchi, na obra L'occhio daWaltra parte: ventiquattro
racconti brasiliani d'oggi, de 1978; e Edmundo Valadés, na obra La muerte tiene permiso,
com data não identificada. Das obras com dedicatórias de escritores brasileiros ressaltam-se
apenas aqueles aparecem com mais recorrência, devido à quantidade de dedicatórias em
outros exemplares, a saber:
Adão Ventura, com as obras As musculaturas do arco do triunfo, de 1972; A cor da
pele, de 1980; e Jequitinhonha: poemas do vale, de 1980.
Ary Quintella, com as obras Amor às vezes, de 1987; Um certo senhor tranquilo (2
exemplares dedicados), de 1971 e 1987; Combati o combate, de 1973; e Retrospectiva, de
1972.
Brasil Borges, com as obras A Herança, de [19--]; O laço na gravata, de 1997, Seu
horizontino e Belô, de 2000; A volta de seu horizontino, de 2002; e Nós, os Borges: (e os
nossos nós), de 2003.
Caio Porfírio Carneiro, com as obras O casarão, de 1974; Chuvas: (os dez cavaleiros),
de 1977; O sal da terra, de 1978; O contra-espelho, de 1981; Viagem sem volta, de 1985; e A
partida e a chegada, de 1995.
Fábio Lucas, com as obras Crítica sem dogma, de 1983 e Luzes e trevas: Minas Gerais
no século XVIII, de 1998. Além dessas obras desse autor, Wander Piroli tinha também as
obras A remuneração do trabalhador, de 1959; Temas literários e juizos críticos, de 1963; O
caráter social da literatura brasileira, de 1970; Mineiranças, de 1991; e a obra organizada
por esse autor, Fábio Lucas, Cartas a Carlos Drummond Andrade, de 1993.
Flávio Moreira da Costa também se faz presente com as obras Os espectadores, de
1976; As margens plácidas, de 1978; O mais belo país é o teu sonho, de 1995; Viver de rir, de
1995; e O equilíbrio do arame farpado, de 1996.
Garcia de Paiva, com as obras Ah, os pangolins, de [19--]; Luana, de [19--]; Um suor
cujo nome é doçura, de 1963; Dois cavalos num fusca azul, de 1976; Os agricultores
arrancam paralelepípedos, de 1977; O suor no rosto, de 1978; O pintassilgo azul, de 1988; O

2039

�Santuário da guerra, de 2002; O Homem que vai comigo, de 2003; Esse menino, Francisco (2
exemplares), de 1971 e 1980; e Notícias sobre o homem (2 exemplares), de 1979 e 2003.
Herculano Farias, com as obras Sagrada Família, de 1985; O tambor, de 1992; Notas
de inverno: fragmentos, de 2001. João Antonio, nas obras Malagueta, perus e bacanaço, de
1963; Leões-de-Chácara, Malhação do Judas Carioca, e Livro de cabeira do homem, as três
editadas em 1975; Casa de loucos, de 1976; Calvário e porres do pingente Afonso Henrique e
Lambões de caçarola, ambas de 1977; e Abraçado ao meu rancor, de 1986.
Do seu contemporâneo no curso de direito da UFMG, Libério Neves, há, com
dedicatória, as obras Pequena memória de terra funda, de 1971; Mil quilometros redondos, de
1974; e Que tal nosso quintal?, de 1980. De Maza de Palermo encontram-se as obras Cala
calabria, de 1985 (2 exemplares com dedicatória), Cavalla, de 1993; e Porca miséria, de
1997.
Luiz Vilela apresenta-se no acervo com as obras O choro no travesseiro; O inferno é
aqui mesmo; Lindas pernas, todas de 1979. Além desses, há o livro Tarde da noite, que
pertenceu à Andréa Piroli, sua filha, e dois exemplares de Tremor de terra, ambos de 1977.
Manoel Lobato, com as obras Mentira dos limpos, de 1967; Os outros são diferentes,
de 1971; A verdadeira vida do irmão leovegildo, de 1976; Somos todos algarismos, de 1979;
O segredo do bilhete, de 1983; e Cartas na mesa: memórias, de 2001.
Oswaldo França Júnior, com as obras O viúvo: romance, nas edições de 1965 e 1975,
sendo esta publicada, sem consentimento dele, pela Editora do autor;

O homem de

macacão, de 1972; A volta de Marilda: romance, de 1974; Jorge um brasileiro, edição de
1976; As lembranças de Eliana, de 1978; Aqui e em outros lugares, de 1980; Um dia no rio:
romance, de 1981; A procura dos motivos, de 1982; O passo-bandeira: uma historia de
aviadores, de 1984; As laranjas iguais, de 1985; Recordações de amar em Cuba, de 1986; No
fundo das águas, de 1987; De ouro e de Amazônia, de 1989.
Ronald Claver, com as obras A olho nu, de 1972; As margens do corpo, de 1977;
Escrever sem doer: oficina de redação, de 1993, Além dessas obras, é possível encontrar na
biblioteca outras obras desse autor, porém, sem dedicatória, são elas: Nas águas do
Jequitinhonha, de 1980; e, Senhoras do mundo, de [19--].
Roberto Drummond, com as obras A morte de D.J em Paris, de 1975; O dia em que
Ernest Hemingway morreu crucificado, de 1978; Sangue de Coca-Cola, de 1980; Hitler
234 Editora fundada em 1960 pelo editor Walter Acosta em sociedade com o escritor mineiro Fernando Sabino e
o escritor Rubem Braga. Publicaram escritores Clarice Lispector e Manuel Bandeira, amigos dos escritores.
Após um desentendimento, Sabino e Braga saíram da empreitada e fundaram a Editora Sabiá, que seria, mais
tarde, vendida à Livraria José Olympio Editora.

2040

�manda Lembranças, de 1984; e Crônicas, 1997. Rui Mourão, com as obras Cidade
calabouço, de 1978 e Boca de chafariz, de 1991.
Murilo Rubião, com as obras O convidado (2 exemplares), um de 1974 e outro de
1983; e o O pirotécnico Zacarias, de 1974.
Pode-se verificar ainda que na biblioteca de Wander Piroli, existem algumas
duplicatas, isto é, um mesmo título, mais de uma vez, porém publicados em editoras
diferentes, como a obra Abunã, de David de Carvalho, sendo uma editada pela editora
Comunicação, em 1976 e outro pela Imprensa Oficial, em 1974, ambas com a dedicatória do
autor. Assim como nas obras de André Carvalho: Cuba-libre, publicada no Rio de Janeiro
pela Nova Fronteira, em 1985 e em Belo Horizonte, pela editora Armazém de ideias, em
1997.
Interessante perceber ainda as anotações nas primeiras páginas de alguns de seus
livros, como: na obra Rita está acessa, de Terezinha Alvarenga, de 1986; e, na obra Contos de
aprendiz, de 1951, do poeta Carlos Drummond de Andrade. As assinaturas também se
fazem presentes, como as assinaturas de vários autores, no livro Flor de vidro: antologia de
autores mineiros, publicado, em Belo Horizonte, pela editora Arte Quinta, em 1991. Ou
mesmo, assinaturas não reconhecidas, como nas obras: A ciência de viver, de Alfred Adler;
Lavrado 98, de Stefan Baciu; e, Três novelistas espanhóis, de Carlos Barroso.

6. RESULTADOS FINAIS
A biblioteca de Wander Piroli destaca-se pela diversidade de obras literárias ou não
literárias dos quatros cantos do mundo, bem como pela quantidade significativa de
exemplares com dedicatórias. Estas obras com as dedicatórias dos próprios autores das obras,
que ultrapassam 450 obras, datam, sobretudo, das décadas de 1970 e 1980. Estas duas décadas
revelam um momento de intensa relação de Wander Piroli com outros autores, ressalta-se que
o escritor é, sobretudo, um leitor, o que é bastante salutar para a produção literária. E, que, em
1975, Wander Piroli estava na direção do importante Suplemento Literário de Minas Gerais, o
que certamente deve ter contribuído para o aumento de seu círculo de amizades com
escritores de todo o país e para o recebimento de livros, preferencialmente, dedicados.
Há também em sua biblioteca muitas primeiras edições, mas não se exclui também
outras edições e duplicatas de um mesmo título. Enfim, constata-se por meio de seu acervo,
que Piroli foi um homem muito bem relacionado, tamanha a quantidade de obras com
dedicatórias de escritores internacionais e nacionais, e com grande visibilidade no cenário das

2041

�letras, entre eles: Nélida Pinon, Paulo Mendes Campos, Caio Fernando Abreu, Stella Carr,
Oswaldo França Junior, Marina Colasanti, entre outros.
Pode-se dizer ainda que sua biblioteca predominam obras em português, além de obras
editadas nas cidades de Minas Gerais, o que revela uma “mineiridade”, que nos dizeres de
Fábio Lucas, em Mineiranças, obra presente em sua biblioteca, Minas é mais profunda do que
se julga, “Aqui estão muitos atores, [...] escritores, personagens, poemas, frases, exclamações
que formam o pátio reservado chamado Minas.” (LUCAS, 1991, p. 9), e Wander Piroli, este
escritor mineiro, tão profundo como sua terra, dedicou sua vida à família, aos amigos, à
literatura e aos livros.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os arquivos pessoais do Acervo de Escritores Mineiros são frutos de coleções de
escritores, que contribuem para a manutenção da memória artística e do patrimônio cultural
de uma sociedade. Não obstante, este trabalho só foi possível graças ao desejo colecionador
de Wander Piroli, pois como bem ressaltou Bordini (2011) para a constituição e manutenção
de um acervo literário é necessário a figura-chave semelhante a de um colecionador
Benjaminiano: “alguém impelido pela paixão da busca e da conservação, mas com a
consciência da necessidade de democratizar seus achados e compartilhar com os outros o
prazer da descoberta”. (BORDINI, 2011, p. 17).
Após esse passeio por entre as estantes da biblioteca do escritor Wander Piroli, fica
claro a figura de um bibliófilo, e seu amor aos diversos livros, os quais certamente trazem
lembranças de um espaço e tempo, de uma viagem, de um amigo. Não se questiona se ele leu
esses milhares de livros de sua biblioteca, pois tal qual Benjamim o colecionador não precisa
ter lido todos eles, assim como não se utiliza todas as porcelanas todos os dias. Em suma,
“uma biblioteca, seja qual for seu tamanho, não tem necessidade, para ser útil, de ter sido lida
inteiramente; cada leitor se aproveita de um justo equilíbrio entre saber e a ignorância,
lembrança e esquecimento”. (BONNET, 2013, p. 60).

REFERÊNCIAS
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Acervo De Escritores Mineiros.
Disponível em: &lt;http://www.letras.ufmg.br/aem/index.html&gt;. Acesso em: 01 mar. 2014.
BENJAMIN, Walter. Desempacotando minha biblioteca. In:___. Obras escolhidas. São
Paulo: Brasiliense, 1985. p.227-235. v. II.

2042

�BONNET, Jacques. Fantasmas na biblioteca: a arte de viver entre livros. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2013.
BORDINI, Maria da Glória. Acervos de escritores e o descentramento da história da
literatura. O Eixo e a Roda, Belo Horizonte, v. 11, p.15-23, 2011.
GENETTE, Gérard. Paratextos editoriais. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2009. (Arte do livro, 7).
HEYMANN, Luciana Quillet. O lugar do arquivo: a construção do legado de Darcy Ribeiro.
Rio de Janeiro: Contra Capa, FAPERJ, 2012.
LUCAS, Fábio. Mineiranças. Belo Horizonte: Oficina do Livro, 1991.
MANGUEL, Alberto. A biblioteca à noite. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
MOLES, Abraham A. Biblioteca pessoal, biblioteca universal. Revista de Biblioteconomia,
Brasília, v.6, n.1, jan./jun. 1978.
LOPEZ, Telê Ancona. A criação literária na biblioteca do escritor. Ciência e Cultura (SBPC),
v. ano 59, p. 33-37, 2007.
MARQUES, Reinaldo. Memória literária arquivada. Aletria - Revista de Estudos de
Literatura, Belo Horizonte, FALE/UFMG, n. 18, p.105-120, jul./dez. 2008.
SILVA, Armando B. Malheiro da; RIBEIRO, Fernanda. Arquivística: teoria e prática de uma
ciência da informação. Porto: Afrontamento, 1999.

2043

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              <text>Acervo de escritores mineiros: a Biblioteca de Wander Piroli.</text>
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              <text>Tanus, Gabriele Francinne de S. C., Pereira Júnior, Antônio Afonso, Tanus, Gustavo</text>
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          <name>Coverage</name>
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              <text>Belo Horizonte (Minas Gerais)</text>
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          <name>Date</name>
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          <name>Description</name>
          <description>An account of the resource</description>
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              <text>O Acervo de Escritores Mineiros (AEM), localizado no terceiro andar da Biblioteca Central, da Universidade Federal de Minas Gerais, abriga diversas coleções de importantes escritores, sobretudo, da cultura mineira, e de renome no cenário nacional e internacional. Dentre esses escritores, está o acervo do Wander Piroli, um belo-horizontino do bairro da Lagoinha, reconhecido como grande contista, por sua literatura infantojuvenil e adulta. Seu acervo, doado em 2006, é composto por inúmeros documentos, entre objetos pessoais, correspondências, fotos, discos, manuscritos/datiloscritos e livros, os quais ainda não constituíram objetos de estudos. Assim, este trabalho tem como objetivo apresentar e analisar a sua biblioteca representada por 1776 itens bibliográficos, a fim de identificar as obras e autores que compõe esse acervo, suas especificidades, como os exemplares com dedicatórias, que individualizam seu acervo e possibilitam reafirmar seu estreito contato com outros escritores e seu amor aos livros.</text>
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