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                  <text>XVIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias
SNBU 2014

A LEITURA DO INDEXADOR EM SISTEMAS DE BIBLIOTECAS
UNIVERSITÁRIAS SOB A ÓTICA DA PSICOLOGIA COGNITIVA

Durval Vieira Pereira
Alanda do Valle Vitorino
Marcia Nogueira da Silva
RESUMO
Objetiva verificar em um sistema de bibliotecas universitárias como a leitura técnica do
indexador afeta na descrição temática de documentos. Observa o indexador como
intermediário no processo de comunicação autor-documento-leitor. Seleciona três exemplos
de indexação para análise. Relacionar e analisar os conceitos utilizados para representação
temática da obra. Constata a presença da leitura polissêmica, na qual houve uma variação dos
sentidos nas diferentes leituras de um mesmo documento. Conclui que o indexador sofre
influência da instituição que o abriga, de sua memória e de sua própria história.
Palavras-Chave: Indexação; Leitura documental; Psicologia cognitiva.

ABSTRACT
It checks on a system of university libraries as a technical reading of the index affects the
thematic description of documents. It observes the indexer as an intermediary in the
communication author-document-reader process. It selects three examples of indexing for
analysis. It list and analyzes the concepts used for thematic representation of the document. It
notes the presence of polysemic reading, in which there was a variation in the way different
readings of the same document. It concludes that the indexer is influenced by the institution
where work, his memory and his own history.
Keywords: Indexing; Document Reading; Cognitive Psychology.

1 INTRODUÇÃO
Diante da necessidade da indexação no processo de satisfação do usuário frente à
recuperação da informação, propõe-se a estudar uma das fases da indexação. Especificamente,
a leitura documental, que é parte da análise conceitual, que por sua vez é a primeira fase da
indexação.
O objetivo principal é verificar em um sistema de bibliotecas universitárias como a
leitura técnica do indexador afeta na descrição temática de documentos. Outro ponto a ser

1960

�observado é o indexador como intermediário no processo de comunicação autor-documentoleitor. Este profissional assume a posição de leitor, pois é através de sua leitura que o
documento poderá ser representado. Contudo, esta leitura sofre a influência do elemento
humano, na medida em que a escolha dos conceitos centrais e da interpretação do documento
analisado é resultado das concepções individuais de cada indexador.

2 O INDEXADOR NA ÓTICA DA PSICOLOGIA COGNITIVA
De acordo com Gazzaniga e Heatherton (2005, p. 252), a psicologia cognitiva
baseava-se, originalmente, na noção de que o cérebro representa a informação e que o ato de
pensar - ou seja, a cognição - está diretamente associado à utilização dessas representações.
A biblioteconomia se utiliza fundamentalmente de representações para conseguir atingir seu
objetivo de organização do conhecimento para recuperação de informações importantes para
seus consulentes.
Sobre esta visão de processo cognitivo que envolve a compreensão do texto é que se
quer aqui aprofundar. A leitura documental é vista por Fujita (2004, p. 164) como uma leitura
técnica que consiste na abordagem global dos itens informacionais, e que tem por objetivo
recolher os dados que permitirão o estabelecimento da representação desses itens nos sistemas
de informação.
Ao observar a importância da leitura documentária para a indexação é que se apresenta
aqui uma proposta de estudar o bibliotecário, mais especificamente, o indexador como leitor
ou intermediário entre o documento e o leitor final. Ao criar representações resumidas dos
textos, os indexadores criam - através de suas interpretações - imagens, símbolos que
descrevem o conteúdo de um documento. Entretanto, se esta leitura técnica não for bem
executada pode

criar interpretações

errôneas

ou incompletas

sobre o texto

e,

consequentemente, desviar a visão do leitor sobre o conteúdo.
Um problema que envolve o indexador como leitor é a mecanização do ato de ler.
Sternberg (2000, p. 81) chama de processos automáticos que não envolvem o controle
consciente sobre as ações e consomem poucos recursos de atenção. É preciso estar claro para
o indexador que leitura técnica é completamente diferente de leitura mecânica.
Outro obstáculo que acomete o indexador é a influência de conhecimentos préexistentes na mente do indexador que podem levá-lo a olhar o documento de forma diferente
do que ele realmente trata. Sternberg (2000, p. 79) chama a atenção para a informação préconsciente do conhecimento, que inclui memórias armazenadas que não estão sendo usadas
em um dado momento, mas que poderiam ser evocadas, quando necessário.

1961

�A escolha de termos para representação de informações é um trabalho que pode
acarretar, dependendo de como foi realizado, a anulação daquela informação através de seu
sumiço. Até que ponto, certos equívocos na indexação de um documento é consciente ou não?
Estudar os aspectos cognitivos que levam a escolha de um termo em detrimento a outro é uma
forma de tentar perceber que forças são estas que estão atuando sobre o indexador.

3 METODOLOGIA
Este estudo abrangeu as seguintes etapas metodológicas:
•

Escolha de um sistema de bibliotecas universitárias que trabalhe de forma cooperativa.
No caso, foi escolhido um sistema de bibliotecas do Estado do Rio de Janeiro. Por
questões institucionais, preferiu-se não identificar o sistema analisado.

•

Pesquisa de obras na base de consulta bibliográfica do sistema, para identificar títulos
que apresentam indexações divergentes224.

•

Relacionar e analisar os conceitos utilizados para representação temática da obra.
Será mostrada a referência bibliográfica da obra e a seguir os conceitos utilizados

pelos indexadores para a descrição temática do documento e logo após um breve comentário
analítico sobre estes conceitos escolhidos. Na coleta de amostra, foram pesquisados 85 títulos
da área de letras. Sendo destacada a indexação de três obras que foram julgadas como
significativas para uma reflexão.

4 UMA ANÁLISE SOBRE A LEITURA DO INDEXADOR EM UM SISTEMA DE
BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS
Uma das dificuldades das bibliotecas universitárias que trabalham em rede é obter um
resultado final coerente, disponibilizando informação analisada e descrita de forma
padronizada, gerando um sistema com alto nível de precisão. Entretanto, o elemento humano
e seus princípios cognitivos alteram esta equação, na medida em que a memória, a
interpretação do texto analisado, a transcrição descritiva da fonte de informação e o uso da
linguagem controlada são resultados das várias concepções individuais dos participantes da
rede. Isto é constatado pelas análises a seguir:

224 Cabe ressaltar aqui que não é intenção, deste trabalho, recriminar ou visar corrigir possíveis incoerências
existentes na base. O objetivo é apenas utilizar como exemplos para uma análise dos conceitos utilizados.

1962

�Quadro 1: Análise da obra 1
Willians, Edwin Bucher. Do latim ao português: fonologia e morfologia
Referência
bibliográfica históricas da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,
1973. 325 p. (Biblioteca tempo universitário; 37).
Indexador1 Fonologia
Filologia portuguesa
Língua portuguesa - Morfologia
Língua portuguesa - Fonologia
Língua portuguesa - Gramática histórica
Indexador 2 Filosofia portuguesa
Língua portuguesa - Morfologia
Filosofia latina
Fonte: O autor.
O Indexador 1 observa o documento apenas sob o ponto de vista da Linguística, talvez
por estar situado em uma biblioteca de Letras. Já o Indexador 2, localizado em uma biblioteca
de Filosofia, apesar de fazer menção a um termo da área de Linguística leva em consideração
maior os termos ligados a Filosofia. Quem está errado? Os dois estão seguindo procedimentos
certos da indexação, aprofundar a especificidade da indexação de acordo com o local inserido
ou com o público alvo é uma prática louvável.
Contudo, a indexação visa descrever o conteúdo principal dos documentos, após isto,
cada indexador fica livre para especificar a representação de acordo com sua realidade.
Assim, percebe-se o poder de censura do indexador, pois ao limitar a descrição temática à sua
área de trabalho, é excluída a possibilidade de outros consulentes encontrem determinado
documento ou ainda que sejam aplicados descritores que não expressam o sentido real do
documento.

Quadro 2: Análise da obra 2
Referência
bibliográfica
Indexador1

Indexador 2

LASSWELL, Harold Dwight. A linguagem da política. Brasília: Ed. Da
Universidade de Brasília, 1979. 410 p. (Pensamento político).
Política - Teoria
Poder (Ciências Sociais)
Análise do discurso - Política
Ciência política
Terminologia
Semântica (Filosofia)

Fonte: O autor.

Este título foi encontrado na mesma biblioteca universitária, porém com diferentes
representações. Nota-se que não existe ou não é aplicada uma política de indexação que
norteie a atividade de indexação. Quando não existem diretrizes a serem seguidas, a leitura

1963

�documentária pode sofrer maiores influências do elemento humano no momento da escolha
dos conceitos. O Indexador 1 associou termos que remetem somente a Ciências Sociais,
executado pela ligação entre análise do discurso e política. Enquanto que o Indexado 2
levantou conceitos de ciência política, lingüística e filosofia. Assim, aparentemente, o
Indexador 1 deixou de relacionar a temática do livro com áreas correlatas descrita em seu
conteúdo, ato que compromete uma representação fidedigna do documento, além de desviar
olhar do leitor sobre a temática do livro.

Quadro 3: Análise da obra 3
Mendonça, Renato de. A influência africana no português do Brasil. 2.
Referência
bibliográfica ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1935. 255 p. (Biblioteca Pedagógica Brasileira;
Série 5. Brasiliana; 46)
Indexador1 Língua portuguesa - Palavras e expressões africanas
Língua portuguesa - Regionalismo - Brasil
Línguas africanas
Indexador 2 Negro no Brasil
Língua portuguesa - Estrangeirismos - África
Línguas africanas
Negros na literatura
Fonte: O autor.

O Indexador 2 utilizou o termo Negros no Brasil que remete a formação histórica e social do
Brasil. Assim, este indexador consegue descrever o conteúdo principal da obra. No entanto, o
Indexador 1 fez a leitura documental da obra levando em consideração somente a visão da
linguagem, o que prejudica sua indexação, pois limita a abrangência do documento. O
Indexador 1 ainda utiliza o termo Regionalismo. Contudo, trata-se de estrangeirismos e não
de regionalismo. As línguas africanas influenciaram o português do Brasil como um todo e
não é característica de uma região apenas.
Van Dijk (1992, p. 57-58) esclarece que há diferenças pessoais na compreensão,
devido a categorias cognitivas, capacidade de memória e estratégias diferentes. Equívocos de
interpretação são problemas no uso da leitura documentária, pois alterar as informações que o
autor desejou transmitir ao leitor é prejudicar o processo de comunicação entre autor e leitor,
e ainda privilegiar, minimizar e/ou modificar as informações a serem transmitidas.

4 ALGUMAS REFLEXÕES
Percebeu-se a importância da leitura no processo de análise temática, no qual são
escolhidos os conceitos para representação do documento. Lucas (2003, p. 19) conclui que “a

1964

�leitura para fins de indexação, que privilegia determinados aspectos por um lado e minimizam
outros, apresenta-se também como uma prática de violência”. Desta forma, entende-se que
cada indexador precisa conscientizar-se de seu papel de mediador no processo de
comunicação entre autor e leitor, e qualquer equívoco pode danificar esta mensagem.
O indexador sofre influência da instituição que o abriga, assim como de sua memória e
de sua história. Ainda pode-se notar a leitura polissêmica, onde houve uma variação dos
sentidos nas diferentes leituras de um mesmo documento. Este fato acontece, principalmente,
porque o processo cognitivo de leitura é uma tarefa imperceptível. Além, de cada indexador
possuir aspectos cognitivos diferentes que influenciam na forma como se trata um conceitochave e como este se traduz em um termo de indexação.
Pretende-se dar continuidade a pesquisa abordando o tema leitura e aprofundar o
estudo cognitivo sobre a escolha dos conceitos. Não se ambiciona esgotar o tema, mas sim
trazê-lo à tona para que novos diálogos sejam feitos.

REFERÊNCIAS
FUJITA, M. S. L. A leitura documentária na perspectiva de suas variáveis: leitor-textocontexto. DaraGramaZero: revista de Ciência da Informação, v. 5, n. 4, ago 2004.
GAZZANIGA, M. S. ; HEATHERTON, T. F. Ciência psicológica: mente, cérebro e
comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005. 624 p.
LUCAS, C. R. Discurso acadêmico disponível em ciências humanas: o funcionamento
discursivo da indexação em uma base de dados bibliográfica computadorizada. Rev. digit.
bibliotecon. cienc. inf., campinas, v. 1, n. 1, p. 12-21, jul./dez. 2003.
STERNBERG, R. J. Atenção e consciência. In: _______. Psicologia cognitiva. Porto Alegre:
Artes Médicas Sul, 2000. p. [77]-108.
VAN DDK, T. A.. Análise semântica do discurso. In: _______. Cognição, discurso e
interação. São Paulo: Contexto, 1992. p. 36-73. (Caminhos da Lingüística).

1965

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