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                  <text>XVIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias
SNBU 2014

MEDIAÇÃO E TECNOLOGIA NOS DOCUMENTOS DO MEC, DA ABECIN E NA
LAI

Marielle Barros de Moraes

RESUMO
As tecnologias tornaram-se a base da sociedade contemporânea e passaram a transformar a
economia, a sociedade, a ciência, o trabalho, bem como a cultura e, por consequência, o
universo do ensino-aprendizagem. As tecnologias estão sendo inovadas a cada dia e em todos
os tipos de atividades cotidianas, profissionais e educacionais, o que, no decorrer do processo
histórico das sociedades, vem alterando também os processos mediacionais. Neste sentido,
buscamos analisar como os conceitos de mediação e de tecnologia estão inseridos nos
documentos do Ministério da Educação (MEC), da Associação Brasileira de Educação em
Ciência da Informação (ABECIN) e na Lei de Acesso à Informação (LAI) e, para tanto,
procedemos à Análise de Conteúdo desses documentos. Nos três documentos analisados a
tecnologia ainda é vista em sua forma instrumental, fato este que deságua não apenas nos
documentos formativos, como os da ABECIN e do MEC, mas também nos que trata de
algumas perspectivas de atuação profissional, como o faz a LAI. Em relação à mediação, esta
ainda é vista em sua acepção tradicional, muito embora esses documentos levem em conta as
acepções contemporâneas envolvendo a apropriação e uso das Tecnologias de Informação e
de Comunicação. Outra questão que se sobressai nesses documentos é que a formação de
bibliotecários, arquivistas e museólogos passa a ser vista em sua perspectiva transdisciplinar,
híbrida, uma vez que os três profissionais estão aptos a lidar com as questões cobertas pela
LAI e os documentos formativos possuem uma linguagem semelhante em relação à formação
dos três profissionais.
Palavras-Chave: Mediação. Tecnologia. Formação dos profissionais da informação. Atuação
dos profissionais da informação. Lei de Acesso à Informação.
ABSTRACT
The technologies have become the basis of contemporary society and transformed the
economy, society, science, work, culture, as well the universe of teaching and learning. The
technologies are being innovated every day and in all kinds of usual, professional and
educational activities, which, in the course of the historical process of societies has also been
changing the mediational processes. In this sense, we analyze how the concepts of mediation
and technology are included in the document of the Ministry of Education (MEC), in the
document of the Association of Education in Information Science (ABECIN) and the Law on
Access to Information (LAI), and for this, we use the Content Analysis of these documents. In
the three documents reviewed the technology is still seen in its instrumental form, a fact
which occurs not only in the formative documents such as the ABECIN and MEC, but also in
documents that address some prefessional perspectives, such as LAI. With regard to
mediation, it still seen in its traditional sense, although these documents take into account the

1669

�contemporary meanings involving the appropriation and the use of Information Technologies
and Communication. Another issue that stands out in these documents is that the training of
librarians, archivists and museum curators is seen in its transdisciplinar perspective, hybrid.
These professionals are able to work with the issues covered by the LAI. The training
documents have similar language regarding the formation of three professionals.
Keywords: Mediation. Technology. Training of information professionals. Performance of
information professionals. Law on Access to Information.
1 INTRODUÇÃO
Não podemos negar que as tecnologias tornaram-se a base da sociedade
contemporânea, transformando a economia, a sociedade, a ciência, o trabalho, bem como a
cultura e, por consequência, o universo do ensino-aprendizagem. Este fato demanda que os
sujeitos saibam manejar as mais diversas tecnologias, como forma de os mesmos se inserirem
na sociedade. Todavia, como é sabido, não basta apenas saber manejar os mais diversos tipos
de tecnologias existentes, mas também, saber como ser protagonista diante de uma sociedade
regida pela informação.
Todas as sociedades, em todas as suas eras, são regidas por informação, conforme
afirmara Mattellart (2006); todavia, como acrescenta Capurro e Hjorland (2007, p. 149), o que
torna a informação tão significativa na contemporaneidade é a sua natureza digital, a qual é
baseada no sistema binário. O fato de a informação tomar por base os dígitos para automatizar
o conhecimento não é algo novo. A primeira descrição conhecida de um sistema numérico
binário foi do matemático indiano Pingala, no século III a. C., quem representou os números
de 1 a 8 com a sequência de 0 e 1. George Boole utilizou esse sistema binário em 1854,
criando a álgebra booleana, a qual foi fundamental para o desenvolvimento da moderna
computação. Francis Bacon, em 1605, criou um alfabeto bilateral, um sistema alfabético
binário, baseado em a e b, diferentemente da criptografia atual, a qual é baseada em 0 e 1.
Leibniz propôs uma linguagem universal, baseado na aritmética binária, de 0 e 1, como o
atual sistema.
No entanto, foi o consórcio bem sucedido entre a informação e as tecnologias no
período do pós-Segunda Guerra Mundial, que fez com que a sociedade, a partir daquele
momento, passasse a ser denominada de Sociedade da Informação. Este conceito data dos
anos de 1970, com Marc Porat (1977), ano em que Daniel Bell (1977) afirma que a
informação é a nova força motriz da sociedade contemporânea. Essa sociedade descrita por
Daniel Bell é denominada por ele de Pós-Industrial e está pautada em cinco dimensões: 1)
Econômica- ocasionando a passagem de uma economia de bens para uma de serviços; 2)

1670

�Distribuição ocupacional-: preeminência da classe profissional e técnica; 3) Princípio Axialconhecimento como fonte de inovação; 4) Orientação futura será realizada pelo controle da
tecnologia; 5) Mudança na forma da tomada de decisões. Enquanto Daniel Bell (1977)
concentra-se nos aspectos mais econômicos, Masuda (1982) além dos econômicos, também se
detém nos aspectos educacionais e afirma que, na Sociedade da Informação, a educação será
liberada das escolas formais e adequada às habilidades de cada indivíduo, sendo que a
principal forma de ensino será a autoeducação.
Desta feita, podemos perceber que as tecnologias estão sendo inovadas a cada dia e em
todos os tipos de atividades cotidianas, profissionais e educacionais, o que, no decorrer do
processo histórico das sociedades, vem alterando, também, os processos mediacionais. Se
num primeiro momento, a principal forma de mediação era a interação face a face; não
demorou muito para que as interações mediadas e as quase-interações mediadas passassem a
ser tão realizadas entre os homens, quanto a face a face. Este fato altera também a atuação dos
profissionais, que têm por principal objetivo de sua práxis profissional a mediação da
informação, a saber, os bibliotecários, os arquivistas e os museólogos.
Diante deste contexto é que se apresenta a seguinte questão: como os conceitos de
mediação e de tecnologia estão inseridos nos documentos do Ministério da Educação (MEC),
da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (ABECIN) e na Lei de
Acesso à Informação (LAI)?
Este trabalho foi elaborado em três partes principais. A primeira onde discutimos as
relações entre mediação e tecnologia. Na segunda parte refletimos sobre esses conceitos no
âmbito da prática dos profissionais da informação. A última é a parte empírica deste trabalho,
onde procedemos às análises de conteúdo dos documentos do MEC, da ABECIN e da LAI.

2 REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Mediação e Tecnologia: Relações 189
O conceito de mediação é oriundo latim mediare que significa estar no meio, se
interpor. Em nossas primeiras buscas acerca do conceito no campo da Filosofia encontramos
o dicionário de Zarader (2007, p. 365), o qual afirma que a primeira formalização do conceito
de mediação foi realizada por Aristóteles em seu Organon e significava as diferentes relações
lógicas que são possíveis entre proposições distintas designadas sob o termo de silogismo. A
primeira proposição e a conclusão seriam mediatizadas pela segunda, que é o meio-termo, o

189 As discussões aqui realizadas tomaram por base a dissertação de mestrado defendida por Moraes (2012).

1671

�qual instaura um laço de implicação lá, onde as duas proposições parecem independentes.
Portanto, a partir das duas primeiras proposições, denominadas de premissas, pode-se deduzir
uma conclusão, o que nos leva a intuir que a primeira conceitualização do termo mediação já
partiu do âmbito da linguagem humana, do seu discurso.
A primeira forma de mediação do homem consigo mesmo e com o mundo, foi
realizada por meio da interação face a face. Portanto, a língua e o espaço social foram os
primeiros mediadores. Para Rodrigues (2000, p. 84) mediação é o “processo de interlocução
ou de interação entre os membros de uma comunidade, pelo qual se estabelece, alimentam ou
restabelecem laços de sociabilidade, constituindo, assim, o mundo da vida. A linguagem e a
ação comum são os fatores privilegiados de mediação”.
Outra forma de mediação cultural é o próprio espaço social, no qual se organizam e se
estruturam as expressões de pertença das quais os atores se reclamam no espaço social.
Aquilo que percebemos no espaço social, que foi modificado pelo homem, faz parte de sua
cultura, produzindo aquilo que Floris (1995) denomina de mediações sociais; ou seja,
processos de interpenetração e de trocas mútuas de diferentes formas de organização social
dos homens uns com os outros. Ainda há a concepção de Rasse (2000), quem vê a mediação
como saber-fazer, como práticas profissionais.
Antes do advento das TIC predominava a mediação através da interação face a face;
contudo, a partir da segunda metade do século XV, novos meios informativos e
comunicativos surgem, como por exemplo, a invenção da imprensa, os jornais, o rádio, o
telefone, etc., fazendo aparecer novas formas de sociabilidade, sem a necessidade de haver
uma presença física. Essas novas mídias vêm ocasionando profundas transformações nas
formas de interação humana e, por consequência, das mediações. Desta feita, Thompson
(2002) classifica três tipos de situação interativa criadas pelos meios de comunicação:
“interação face a face”, “interação mediada” e “quase-interação mediada”.
Na interação face-a-face o fluxo de comunicação tem mão-dupla: um sujeito fala, o
outro responde, e assim por diante; ou seja, ambos são emissores e receptores de informação.
Segundo Thompson (2002), o intercâmbio de informação e o conteúdo simbólico sofrem uma
profunda mudança com as inovações tecnológicas (imprensa e, posteriormente, meios
eletrônicos): as interações face a face cedem cada vez mais espaço para as interações
mediadas e as quase-interações mediadas- as relações que as pessoas estabelecem com os
conteúdos dos meios. Para ele, as pessoas passam a considerar cada vez mais outras fontes de
informação, além das pessoas com as quais interagem diretamente no cotidiano: “a criação e a

1672

�renovação das tradições são processos que se tornam sempre mais interligados ao intercâmbio
simbólico mediado” (THOMPSON, 2002, p. 82).
Na interação mediada está implicado o uso de um meio técnico (papel, fios elétricos,
ondas eletromagnéticas) que possibilitam a transmissão da informação e conteúdo simbólico
para indivíduos situados remotamente no espaço, no tempo, ou em ambos. As interações
mediadas fornecem aos participantes poucos dispositivos simbólicos para a redução da
ambiguidade na comunicação. Por isso, as interações mediadas têm um caráter mais aberto do
que as interações face-a-face. Estreitando as possibilidades de deixas simbólicas, os
indivíduos têm de se valer de seus próprios recursos para interpretar as mensagens
transmitidas (THOMPSON, 2002, p. 79).
Na quase-interação mediada, o fluxo da informação tem sentido único, ou seja, o leitor
de um livro, o ouvinte de um rádio, ambos recebem a forma simbólica, mas não exigem uma
resposta direta e imediata, pois interagem com o conteúdo do meio. Por isso, ela é definida
como quase-interação. Nela, as formas simbólicas são produzidas para um número indefinido
de receptores potenciais. Para Thompson (2002, p. 79), esse tipo de interação são aquelas
“relações sociais estabelecidas pelos meios de comunicação de massa (livros, jornais, rádio,
televisão, etc.)”. Ou seja, a quase-interação mediada é aquela que os homens estabelecem com
os conteúdos dos meios; portanto, ela não tem um receptor-alvo, mas vários receptores e não
precisa de um feedback do receptor, daí o fato de ela ser denominada de quase-interação.
Na contemporaneidade, estamos cada vez mais midiatizados pelas várias Tecnologias
de Informação e de Comunicação de que dispomos; tecnologias estas que vêm provocando o
reordenamento do tempo e do espaço da comunicação de informações. Muitos denominam
esse processo de globalização econômica, mesmo reconhecendo que os processos de
globalização possam remontar ao século XVII, com as primeiras formas de telégrafo, ou até
mesmo ao século XV, com as grandes navegações, portanto:

[...] embora as origens da globalização da comunicação possam remontar ao
século XIX, este processo é, entretanto, tipicamente um fenômeno do século
XX. Pois foi durante este século que o fluxo de comunicação e informação
em escala global se tornou uma característica regular e penetrante na vida
social (THOMPSON, 2002, p. 143).

Com o desenvolvimento das TIC o mundo parece cada vez mais próximo de uma
aldeia global. O desenvolvimento dos sistemas de cabo para a transmissão eletrônica da
informação codificada, o uso de satélites para comunicação a longa distância e o uso de
métodos digitais aumentou de forma bastante intensa o volume de informações processadas,

1673

�armazenadas

e

recuperadas.

Em

virtude

do

distanciamento

espaço-temporal,

o

desenvolvimento dos meios técnicos separa a interação social do local físico, de tal maneira
que as pessoas podem interagir umas com as outras mesmo que elas não partilhem uma
situação espaço-temporal comum.
Continuando nessa perspectiva mais técnico-humanista acerca das mediações,
traçaremos um diálogo com Miège (2009) quem, num sentido mais próximo a Castells
(2010), afirma que a internet seria a nova infraestrutura da sociedade e que se disseminaria
alhures, por meio das TIC e das conexões wi-fi e, também, por meio das nanotecnologias.
Assim sendo, este fato constituiría uma nova era denominada de “tecnológica e biométrica”.
Portanto, o referido autor afirma que, devido ao fato de não ser possível separar essas
tecnologias contemporâneas do fator social e das mais variadas mediações que são
estabelecidas entre ambos; então, ele propõe que se qualifique como sociotécnicas, termo este
que inclui as ferramentas, os dispositivos e os serviços associados, bem como os processos
inovativos (MIÈGE, 2009, p. 26).
Tecnologia é outro conceito bastante polissêmico, assim como o de mediação e está
diretamente ligado aos processos de mediação de informação e de cultura. Veraszto (2008)
classifica sete concepções existentes acerca da utilização do conceito de tecnologia, quais
sejam:
1) Concepção Intelectualista: a tecnologia seria um conhecimento prático, derivado direta e
exclusivamente do desenvolvimento do conhecimento teórico científico através de
processos progressivos e acumulativos, onde teorias cada vez mais amplas substituem as
anteriores.
2) Concepção Utilitarista: considera a tecnologia como sinônimo de técnica. Segundo um
sentido elementar se pode considerar a técnica como um conjunto de conhecimentos
(habilidades e competências) eficazes, que o homem desenvolveu ao longo dos tempos
para melhorar sua maneira prática de viver.
3) Concepção de Sinônimo de Ciência: considera a tecnologia como Ciência Natural e
Matemática, com as mesmas lógicas e mesmas formas de produção e concepção.
4) Concepção Instrumental: entende a tecnologia como simples ferramentas ou artefatos
construídos para uma diversidade de tarefas.
5) Concepção de Neutralidade: afirma que a tecnologia não é nem boa nem má. Seu uso é
que pode ser inadequado.
6) Concepção do Determinismo Tecnológico: considera a tecnologia como sendo autônoma,
que evolui por si mesma, seguindo, de forma natural, sua própria inércia e lógica de

1674

�evolução, desprovida do controle dos seres humanos. Um dos âmbitos onde essa ideia
mais teve influência foi a ficção científica.
7) Concepção de Universalidade: entende a tecnologia como sendo algo universal. Um
mesmo

produto,

serviço

ou

artefato

poderia

surgir

em

qualquer

local

e,

consequentemente, ser útil em qualquer contexto (GORDILLO; GALBARTE, 2002 apud
VERASZTO, 2008, p. 72). E Gómez (2001 apud VERASZTO, 2008, p. 72) acrescenta
que esta concepção dá a ideia de que a mesma tecnologia não tem seu uso modificado se
inserida em outro contexto.

Ademais todas essas concepções, o certo é que as tecnologias contribuem para a
transformação das culturas, uma vez que, a partir das suas mais diversas apropriações, as
quais vão depender do contexto social de uso, elas podem ser maléficas ou benéficas. Este
fato também ocorre com as tecnologias digitais, uma vez que as TIC podem ser usadas tanto
para a aproximação e reaproximação dos povos e das culturas, quanto para promover cada vez
mais o apartheid social; pode servir tanto para veicular informações fidedignas, quanto para
veicular informações sem veracidade. E é neste contexto das mediações das informações que
se encontra a figura do arquivista, do bibliotecário e do museólogo, profissionais que têm por
essência do seu fazer as práticas da mediação da informação.

2.1.1 Mediação e Tecnologia na prática profissional dos profissionais da informação

Vários autores já trataram acerca do termo Profissional da Informação, tais como
Tarapanoff (1997), Almeida Júnior (2000), Valentim (2000), Belluzzo (2011), dentre outros
autores. No entanto, este ainda é um termo cujos delineamentos do perfil desse profissional
ainda não foi realizado. Para alguns autores, este termo é sinônimo apenas de Bibliotecário;
para outros, acrescenta-se ainda os arquivistas e os museólogos, e ainda existe uma terceira
categoria que compreende os profissionais da informação como todo e qualquer profissional
que tenha a informação como insumo básico do seu fazer, o que amplia ainda mais o espectro
desse termo.
Belluzzo (2011, p. 70) define quais as competências e habilidades dos profissionais da
informação encontradas na literatura especializada,

quais

sejam:

1) Definição e

implementação de metodologias para a determinação da informação e do conhecimento
necessário ao cumprimento da missão e dos seus objetivos, com base no sentido de
comunidade;

2) Identificação da informação e do conhecimento necessários ao

1675

�desenvolvimento tanto dos processos como dos procedimentos de cada atividade a ser
desenvolvida; 3) Previsão e organização das formas de captação e criação do conhecimento;
4) Seleção das fontes externas para a obtenção da informação necessária ao desenvolvimento
das estratégias e práticas de negócio adequadas ao mercado onde se insere; 5) Integração da
informação externa com aquela produzida na própria organização; 6) Implementação de
formas de difusão dos conhecimentos gerados para o compartilhamento em equipe e em rede
(BELLUZZO, 2011, p. 70).
Além de todas essas competências e habilidades, percebemos, na literatura da área,
que cada vez mais as questões relacionadas à mediação da informação e da cultura estão
presentes como práticas inerentes da profissão dos arquivistas, bibliotecários e museólogos.
Um autor que se debruça na problemática da mediação da cultura e da informação é
Almeida (2008), para quem a perspectiva da mediação se generalizou, atribuindo-se o papel
de mediador ao profissional da informação (seja ele denominado bibliotecário, arquivista,
museólogo ou outra definição profissional). Por outro lado,
A ideia de mediação acaba por cobrir coisas tão diferentes entre si, que vão
das velhas concepções de “atendimento ao usuário” à atividade de um agente
cultural em uma dada instituição - museu, biblioteca, arquivo, centro cultural
-, à construção de produtos destinados a introduzir o público num
determinado universo de informações e vivências (arte, educação, ecologia,
por exemplo), à elaboração de políticas de capacitação ou de acesso às
tecnologias de informação e comunicação, etc. Desse modo, um a definição
consensual de mediação parece impraticável: sempre contextualizada, tornase um conceito plástico que estende suas fronteiras para dar conta de
realidades muito diferentes entre si (ALMEIDA, 2008, p. 3).

Outro autor que utilizou e analisou o conceito de mediação em relação à
Biblioteconomia e à Ciência da Informação foi Almeida Júnior (2009, p. 92), o qual afirma
que a mediação da informação é “toda ação de interferência- realizada pelo profissional da
informação-, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou
coletiva; que propicia a apropriação de informação que satisfaça, plena ou parcialmente, uma
necessidade informacional”. Nesta conceituação de Almeida Júnior (2009) ainda está presente
a figura do intermediário da informação, mas, e quando esse intermediário não existe? É nesse
sentido que Lévy (2000 apud SILVA; LOPES, 2011) fala de desintermediação da informação,
ou seja, é um processo de busca de informação em que não se encontra mais a figura do
intermediário e a informação chega ao usuário sem passar por uma espécie de “filtro”.
Portanto, as discussões acerca dos processos de desintermediação da informação e de cultura
ainda são bastante incipientes, haja vista que nem mesmo os processos de mediação estão
bem delineados para os mediadores. Esses processos de desintermediação da informação são

1676

�recentes e parecem ser tendências na contemporaneidade, haja vista cada um ser autor e
receptor de seu próprio texto.
A partir das discussões até aqui realizadas é que analisamos a inserção dos conceitos
de mediação e de tecnologia documentos do MEC, da ABECIN e na LAI. Em relação às DCN
do MEC não analisamos as semelhanças e diferenças entre as diretrizes dos três cursos, uma
vez que este trabalho já foi realizado por Moraes (2013).

3 MATERIAIS E MÉTODOS
A forma de consecução deste trabalho, primeiramente, envolveu a Pesquisa
Exploratória, de cunho Bibliográfica, acerca dos temas da Mediação e Tecnologia, utilizandonos, principalmente, de livros e artigos, os quais foram buscados no Portal de Periódicos da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e na Biblioteca da
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).
De posse das teorias, passamos para a análise do material empírico, quais sejam: os
documentos relativos à formação dos arquivistas, bibliotecários e dos museólogos elaborados
pelo Ministério da Educação e pela Associação de Educação em Ciência da Informação, bem
como da Lei de Acesso à Informação, a qual, pelo seu conteúdo, propicia a ampliação dos
espaços de trabalho dos bibliotecários, arquivistas e museólogos, assim como os outros dois
documentos citados. Esses documentos estavam disponíveis livremente na Internet.
A análise dos dados foi feita por meio do método da Análise de Conteúdo, a qual, para
Berelson (1954 apud BARDIN, 2011, p. 24) “é uma técnica de investigação que tem por
finalidade a descrição objetiva, sistemática e quantitativa [mas também qualitativa] do
conteúdo manifesto da comunicação”. Assim sendo, tanto “pode-se aplicar a uma grande
diversidade de materiais, como permite abordar uma grande diversidade de objetos de
investigação: atitudes, valores, representações, mentalidades, ideologias, etc.” (LAVILLE;
DIONNE, 1999, p. 214).
Portanto, a partir do levantamento teórico realizado, partimos para a análise de
conteúdo acerca dos temas mediação e tecnologia nos documentos citados, como forma de
vislumbrar algumas possibilidades de atuação dos profissionais da informação, para além das
fronteiras já delimitadas.

4 RESULTADOS PARCIAIS/FINAIS
Para melhor visualização dos dados, inserimos as Diretrizes Curriculares Nacionais
(DCN) do MEC, no Quadro 1.

1677

�ÁREA
B ib lio tec o n o m ia

P E R F IL

C O M P E T Ê N C IA S E H A B IL ID A D E S

A formação do bibliotecário supõe o desenvolvimento G erar p ro d u to s a p artir d os co n h ecim en to s ad q u irid o s e d iv u lg á -lo s ; F o rm u la r e
de determinadas competências e habilidades e o ex ecu ta r p olíticas in stitu cio n a is; E la b o ra r, co o rd en a r, ex ecu ta r e a valiar p lan os,
domínio dos conteúdos da Biblioteconomia. Além de p rogram as e p ro je to s ; Utilizar racionalmente os recursos disponíveis; D esen v o lv er e u tilizar
p rep a ra d o s p a ra en fren ta r com p ro ficiên cia e n ovas te c n o lo g ia s ; T rad u zir as n ecessid a d es de in d iv íd u o s, gru p os e co m u n id a d es nas
cria tiv id a d e

os

p ro b lem a s

de

su a

p rá tica resp ectiv a s áreas de a tu a çã o ; D esen v o lv er ativid ad es p ro fissio n a is a u tô n o m a s, de m o d o a

p r o fissio n a l ,

produzir e difundir conhecimentos,
refletir criticamente sobre a realidade que os envolve,
buscar aprimoramento contínuo e observar padrões
éticos de conduta, os egressos dos referidos cursos
deverão ser capazes de atuar junto a instituições e
serv iço s q u e d em a n d em in terv en çõ es de n atu reza e
a lca n ce

v a ria d o s:

bibliotecas,

cen tros

de

d o cu m en ta çã o ou in fo rm a çã o , cen tros cu ltu rais,
serv iço s ou redes de in fo rm a ç ã o , ó rg ã o s de gestão

o rien ta r, dirigir, assesso ra r, p resta r co n su lto ria , rea liza r p erícia s e em itir la u d o s técn ico s
e

p a rec ere s;

R esp o n d er

a

d em an d as

sociais

tra n sfo rm a çõ es tecn o ló g ica s q ue caracterizam

de

in fo rm a çã o

p ro d u zid a s

p elas

o m u n d o c o n te m p o râ n eo . Interagir e

agregar valor nos processos de geração, transferência e uso da informação, em todo e qualquer
ambiente; Criticar, investigar, propor, planejar, executar e avaliar recursos e produtos de
informação; Trabalhar com fontes de informação de qualquer natureza; Processar a informação
registrada em diferentes tipos de suporte, mediante a aplicação de conhecimentos teóricos e
práticos de coleta, processamento, armazenamento e difusão da informação; Realizar pesquisas
relativas a produtos, processamento, transferência e uso da informação.

do p a trim ô n io cu ltu ra l etc.
A rq u iv o lo g ia

O arquivista ter o domínio dos conteúdos da Identificar as fronteiras que demarcam o respectivo campo de conhecimento; G erar p rod u tos
Arquivologia e esta r p rep a ra d o p a ra en fren ta r com a p a rtir dos con h ecim en to s ad q u irid os e d iv u lg á -lo s ; F o rm u la r e ex ecu ta r p olíticas
p ro ficiê n c ia e cria tiv id a d e os p ro b lem a s de sua in stitu cio n a is; E la b o ra r, co o rd en a r, ex ecu ta r e a valiar p la n o s, p ro g ra m a s e p r o je to s ;
p rá tica p ro fissio n a l, p a rticu la rm en te as que D esen v o lv er e u tiliza r n ovas te cn o lo g ia s ; T ra d u zir as n ecessid a d es de in d iv íd u o s, grupos
d em a n d em in terv e n ç õ es em arquivos , cen tros de e co m u n id a d es nas resp ectiv a s áreas de a tu a çã o ; D esen v o lv er ativid ad es p ro fissio n a is
d o cu m en ta çã o ou in fo rm a çã o , cen tros cu ltu rais, au tô n o m a s, de m od o a orien tar, d irigir, a ssesso ra r, p resta r co n su lto ria , realizar p erícias
serv iço s ou redes d e in fo rm a çã o , ó rg ã o s de gestão e em itir la u d o s técn ico s e p a rec ere s; R esp o n d er a d em an d as de in fo rm a çã o p ro d u zid a s
do p a trim ô n io cu ltu ra l.

p elas tra n sfo rm a çõ es q ue caracterizam o m u n d o co n te m p o râ n eo . Compreender o estatuto
probatório dos documentos de arquivo; Identificar o contexto de produção de documentos no
âmbito de instituições públicas e privadas; Planejar e elaborar instrumentos de gestão de
documentos de arquivo que permitam sua organização, avaliação e utilização; Realizar
operações de arranjo, descrição e difusão.

Continua

1678

�ÁREA
M u seo lo g ia

P E R F IL

C O M P E T Ê N C IA S E H A B IL ID A D E S

A formação do museólogo supõe o domínio dos conteúdos Identificar as fronteiras que demarcam o respectivo campo de conhecimento ; G erar p ro d u to s a p artir
da Museologia e a p rep a ra ç ã o p ara en fren ta r com dos co n h ecim en to s ad q u irid o s e d iv u lg á -lo s ; Desenvolver e aplicar instrumentos de trabalho
p ro ficiê n c ia e cria tiv id a d e os p ro b lem a s de su a p rática adequados; F o rm u la r e ex ecu ta r p o lítica s in stitu cion ais; E la b o ra r, co o rd en a r, ex ecu ta r e avaliar
p ro fissio n a l, e sp ec ia lm e n te, a q u eles q u e d em an d em p la n o s, p ro g ra m a s e p rojetos; D esen v o lv er e u tiliza r n ovas te c n o lo g ia s ; T ra d u zir as n ecessid a d es
in terv en çõ es em museus, cen tro s de d ocu m en ta çã o ou de in d iv íd u o s, gru p os e co m u n id a d es n as resp ectiv a s áreas de atu ação; D esen v o lv er ativid ad es
in fo rm a ç ã o , cen tros

cu ltu ra is, serviços

ou

redes

in fo rm a ç ã o , órg ã o s de g estão do p a trim ô n io cu ltu ral.

de p ro fissio n a is au tô n o m a s, de m o d o a orien tar, d irigir, assesso ra r, p resta r co n su lto ria , realizar
p erícia s

e

em itir

lau d os

té cn ico s

e

p areceres;

R esp o n d er

a

d em an d as

de

in form ação

d eterm in ad as p elas tra n sfo rm a çõ es q ue caracterizam o m u n d o c o n te m p o râ n eo . Compreender o

Museu como fenômeno que se expressa sob diferentes formas, consoante sistemas de pensamento e
códigos sociais; Interpretar as relações entre homem, cultura e natureza, no contexto temporal e
espacial; Intervir, de forma responsável, nos processos de identificação, musealização, preservação e
uso do patrimônio, entendido como representação da atividade humana no tempo e no espaço; Realizar
operações de registro, classificação, catalogação e inventário do patrimônio natural e cultural; Planejar
s desenvolver exposições e programas educativos e culturais.
Q uadroi- Diretrizes Curriculares Nacionais do MEC para os cursos de Arquivo^ ogia, Biblioteconomia e Museologia.
Fonte: Pesquisa do autor.

1679

�Em primeiro lugar, é importante ressaltar que, em relação às DCN, o que diferencia a
formação dos arquivistas, dos bibliotecários e dos museólogos é o que se refere ao paradigma
custodial, ou seja, que esses profissionais atuam em arquivos, bibliotecas e museus. Se
atentarmos para o texto das diretrizes, a maior parte do seu conteúdo é igual para os três
cursos, o que evidencia uma dificuldade em diferenciar, fora do paradigma custodial, a
atuação dos três profissionais, principalmente, no que concerne às suas atividades como
mediadores

infoculturais.

Em relação ao conceito de Tecnologia presente nas DCN infere-se que o mesmo está
muito mais voltado a uma concepção instrumental da tecnologia; ou seja, como uma
ferramenta para auxiliar uma diversidade de tarefas, muito embora cite que os profissionais da
informação devem responder a demandas sociais de informação produzidas pelas
transformações tecnológicas que caracterizam o mundo contemporâneo. Podemos perceber
no texto das DCN que pouco é tratada a questão das tecnologias, mesmo que saibamos que
elas são constituintes da sociedade contemporânea (apresentando-se também em seu formato
digital), também considerada uma Sociedade da Informação. Por outro lado, as DCN inserem
no final do texto que os conteúdos relativos à Tecnologia poderão estar inseridos nos
currículos de forma transversal.
Uma questão que podemos enfatizar refere-se a que a prática dos bibliotecários em si
pode ser considerada como tecnológica, ou como tecnologia, dependendo da concepção que
tecnologia que venhamos a tomar como verdade de argumentação. No entanto, essa
concepção seria instrumental, uma vez que teria a tecnologia como ferramenta para resolver
determinado problema e, nesse caso, as linguagens de representação do conhecimento
utilizadas pelos arquivistas, bibliotecários e museólogos são tecnologias.
Em relação à mediação, percebemos no decorrer das nossas discussões, que as práticas
dos arquivistas, bibliotecários e museólogos sempre foram práticas mediacionais. No texto
das DCN, percebemos que a mediação é vista tanto em seu caráter técnico, como social,
muito embora o caráter técnico, conforme a concepção de Rasse (2000) predomine no texto
das DCN, a saber, a concepção de mediação como práticas profissionais.
O que o texto do MEC sugere para a formação dos bibliotecários é que este saiba
produzir e difundir conhecimentos; traduzir as necessidades de indivíduos, grupos e
comunidades nas respectivas áreas de atuação; processar a informação registrada em
diferentes tipos de suporte, mediante a aplicação de conhecimentos teóricos e práticos de
coleta, processamento, armazenamento e difusão da informação e realizar pesquisas
relativas a produtos, processamento, transferência e uso da informação. Todos estes tipos de

1680

�conhecimentos estão relacionados à concepção de mediação, tal qual analisada por Rasse
(2000), ou seja, de saberes-fazer, de práticas profissionais. No entanto, o sentido mais social
de mediação e de tecnologia, pouco ou nada é utilizado no texto analisado.
Já em relação à formação do arquivista, o texto é ainda mais tecnicista, e não cita que
o arquivo possui um caráter tanto probatório, mas, sobretudo, histórico da organização e da
sociedade na qual ele está inserido. Afirma-se que uma das competências e habilidades do
arquivista é planejar e elaborar instrumentos de gestão de documentos de arquivo que
permitam sua organização, avaliação e utilização e realizar operações de arranjo, descrição
e difusão. Também não fala do arquivista enquanto um mediador cultural. O mesmo ocorre
nas diretrizes da Museologia, pois as DCN estão mais voltadas para o caráter técnico da
formação desses profissionais; por outro lado, cita o museu como um espaço educativo e
cultural,

o

que

leva

em

conta

uma

concepção

mais

social

de

mediação.

Em relação às recomendações da ABECIN analisamos os sete documentos
elaborados para a formação dos profissionais da informação, conforme o Quadro 2 a seguir:

ABECIN 1

Projeto Pedagógico e Avaliação da Graduação: referências para a renovação e
ressignificação do ensino em Biblioteconomia/Ciência da Informação

ABECIN 2

Avaliação da Graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação: bases
conceituais, metodológicas e princípios do processo avaliativo

ABECIN 3

Diretrizes para a Construção de Indicadores de Qualidade para a Avaliação de
Cursos de Graduação de Biblioteconomia e Ciência da Informação

ABECIN 4

Avaliação do Processo Formativo na Área de Biblioteconomia/Ciência da
Informação: documento referencial

ABECIN 5

I Seminário Pedagógico ABECIN “Gestão da Informação”

ABECIN 6

Auto-avaliação do Ensino no Brasil desde a perspectiva da Pesquisa, Extensão
e Gestão: contribuição para um modelo de avaliação das escolas de
Biblioteconomia e Ciência da Informação do Mercosul

ABECIN 7

Oficina pedagógica - Região Sudeste: (re)construção das práticas pedagógicas
no processo de ensino-aprendizagem em Ciência da Informação

Quadro 2- Lista dos documentos elaborados pela ABECIN
Fonte: Pesquisa do autor.

1681

�As propostas da ABECIN em relação à avaliação estão em consonância com a
perspectiva da mediação analisada por Lamizet e Silem (1967), sendo este fato corroborado
quando se afirma que essa perspectiva, do ponto de vista pedagógico, aponta para uma
ruptura com as práticas tradicionais de ensinar e aprender (currículos estruturados sob a
lógica teoria-prática), dando lugar privilegiado à prática do aluno, onde o estímulo à
curiosidade, à busca de solução de problemas, ao despertar de interesses, à criatividade na
solução de problemas, deverão ser perseguidos. Portanto, são propostas educacionais para os
cursos de Biblioteconomia que pressupõem, principalmente, um aluno que seja um sujeito
interagente no processo de ensino-aprendizagem e não aquele aluno que recebe passivamente
os conteúdos da educação. Nesse sentido, a educação proposta é mediação no sentido dado à
palavra por Lamizet e Silem (1967), ou seja, uma prática educativa que não apenas transfere,
mas que media os conteúdos da educação, que busca sua a significação e apropriação por
parte dos sujeitos do processo educacional, o que vai ao encontro das propostas de Paulo
Freire (1981) para educação.
Uma educação voltada para o exercício da cidadania é buscada pela ABECIN e este
fato pode ser visualizado quando a mesma afirma que, contrapondo-se a esta visão de
conhecimento como resultado e produto, há hoje uma tendência para ver e entender o
conhecimento como processo, o que exige do aluno e do professor capacidades e
competências diferentes. Para o aluno, solicita, ao invés de memorização, capacidade de
interpretação, de julgamento de sentido e de relação com o social e o vivido. Para os
professores, exige pensar práticas pedagógicas que levem os alunos a fazer aproximações
com o real, interpretá-lo e, através de suas ações, como sujeitos históricos, transformá-lo,
atribuindo-lhe um novo sentido e significado. Percebendo o conhecimento como processo, a
indicativa da ABECIN percebe-o como um elo entre os alunos e o professor. Neste sentido, o
conteúdo acerca de mediação que está presente na proposta da ABECIN está relacionada com
a conceituação de mediação de Rasse (2000) para quem a mediação também é trabalhos,
práticas profissionais, técnicas e saber-fazer.
As indicativas afirmam que os cursos devem oferecer disciplinas de formação geral,
específica e de natureza instrumental para capacitar o egresso, numa perspectiva de
formação integral, para atuar com competência, de modo a responder às demandas sociais,
mais especificamente, como gestor e mediador da informação, por meio das disciplinas
associadas às quatro áreas curriculares, considerando o nível específico de formação.
Podemos inferir desta indicativa que ela contempla o bibliotecário enquanto um mediador,
uma vez que, atuando nesta perspectiva, o mesmo pode ser um interagente na inclusão dos

1682

�socialmente excluídos, principalmente, a partir de um maior delineamento acerca de quais
seriam as práticas de mediação da informação. Para tanto, torna-se necessário discutir quais
são as atividades de mediação do bibliotecário e tentar minimamente delimitá-las, conforme
aponta Almeida (2008).
Outra questão a se colocar é em relação ao papel do bibliotecário no que concerne Pa
mediação e acesso à informação, ou seja, como o bibliotecário pode atuar nas questões de
mediar, de fazer veicular as informações verdadeiras para que o cidadão tenha conhecimento
de quando uma informação não é verdadeira. Com a proliferação das mídias, que nos
assediam nas mais diversas formas, o bibliotecário poderia atuar como um filtro entre essas
informações e os mais diversos segmentos sociais. É nesse sentido que a ABECIN afirma que
isso lhes pressupõe clareza no reconhecimento da dimensão social da profissão, bem como
uma atuação solidária - e não apenas competitiva, tal como tem induzido a ideologia
hegemônica- voltada para modificar o meio onde atua, de modo a buscar reduzir
desigualdades. Portanto, a pedra-de-toque é definir com clareza os novos horizontes da
formação e da atuação do bibliotecário diante do novo contexto informacional. Para a
efetivação desta ação, é necessário delinear um novo pensar acerca da prática e da formação
dos bibliotecários na contemporaneidade, como forma de que a responsabilidade social do
bibliotecário não seja pautada apenas no cuidado com o seu acervo como outrora. Para tanto,
a ABECIN afirma que os cursos de Biblioteconomia devem capacitar o egresso, numa
perspectiva de formação integral, para atuar com competência, de modo a responder às
demandas sociais, mais especificamente como gestor e mediador da informação, por meio
das disciplinas associadas às quatro áreas curriculares, considerando o nível específico de
formação.
A partir da última diretriz supracitada, percebemos que há uma maior preocupação da
ABECIN não apenas com as questões concernentes à organização da informação, mas
também, com os aspectos ligados à mediação da informação e ao acesso à informação, o que
nos fez analisar também a Lei de Acesso à Informação, Lei 12527, de 18 de novembro de
2011, a qual está diretamente ligada à atuação dos profissionais da informação.
A Lei de Acesso à Informação tem por diretrizes: I - observância da publicidade como
preceito geral e do sigilo como exceção; II - divulgação de informações de interesse público,
independentemente de solicitações; III - utilização de meios de comunicação viabilizados
pela tecnologia da informação; IV - fomento ao desenvolvimento da cultura de transparência
na administração pública; V - desenvolvimento do controle social da administração pública
(BRASIL, 2011). Podemos observar que a referida Lei, assim como os documentos do MEC e

1683

�da ABECIN possuem uma visão mais ampliada e híbrida da atuação dos profissionais da
informação. Ao lermos as diretrizes da LAI e os outros documentos que analisamos até aqui,
muitas vezes, não define quem é esse profissional da informação, se é o arquivista, o
bibliotecário ou o museólogo e a inserção dos conceitos de mediação e de tecnologia no
âmbito desses documentos contribuem ainda mais para hibridizar essa atuação.
Os conceitos de mediação e tecnologia estão inseridos no âmbito da LAI, sendo que o
que há de inovador na Lei é que a informação tem de estar disponível para os cidadãos
independentemente de solicitações, haja vista ser um direito do cidadão. Assim sendo, não
apenas os documentos em nível governamental, mas também de instituições públicas, tais
como os arquivos, bibliotecas, museus públicos, inclusive aqueles que estão inseridos nas
universidades públicas. Sendo assim, especificamente, as bibliotecas universitárias, têm um
papel essencial no cumprimento da LAI, uma vez que, dentre outros documentos, as teses e
dissertações, muitas vezes, recebem diretamente financiamento público, bem como os
projetos dos professores. A LAI, em suma, possibilita ao cidadão saber o que está sendo feito
nas mais diversas instituições públicas, principalmente, porque estas instituições sobrevivem
em sua maior parte com financiamento público.
Desta feita, a LAI, no Cap. 1, Art. 4, entende por Tratamento da Informação como o
conjunto de ações referentes à produção, recepção, classificação, utilização, acesso,
reprodução,

transporte,

transmissão,

distribuição,

arquivamento,

armazenamento,

eliminação, avaliação, destinação ou controle da informação (BRASIL, 2011). Todas essas
são ações que, ao fim, visam elaborar procedimentos para a mediação e acesso à informação
pela sociedade, tanto da forma tradicional, quanto na sua forma mais contemporânea, com o
auxílio das TIC. Além disso, essa descrição de tratamento da informação feito pela Lei, pode
ser aplicada tanto em relação a arquivos, quanto a bibliotecas e museus.
A Lei ainda prevê as formas de mediação das informações para os cidadãos, quando
afirma no Art. 7o O acesso à informação de que trata esta Lei compreende, entre outros, os
direitos de obter: I - orientação sobre os procedimentos para a consecução de acesso, bem
como sobre o local onde poderá ser encontrada ou obtida a informação almejada (BRASIL,
2011). Portanto, a LAI insere a perspectiva da mediação da informação para os cidadãos,
mediação esta que sempre foi a práxis dos profissionais da informação.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do que o trabalho tentou despertar podemos inferir algumas reflexões
conclusivas. Os conceitos de mediação e de tecnologia estão inseridos nos documentos do

1684

�MEC, da ABECIN e na LAI, porém, ainda como forma de saberes-fazer e de práticas
profissionais essencialmente. Mediação é uma prática essencial dos bibliotecários, arquivistas
e museólogos, práticas que advém da Antiguidade e que se estende até a contemporaneidade,
de forma mais ampliada, com a emergência das TIC.
Nos três documentos podemos perceber que a tecnologia ainda é vista em sua forma
instrumental, fato este que deságua não apenas nos documentos formativos, mas também nos
que tratam da atuação profissional, como é o caso da LAI. Em relação a esta última,
percebemos que ela veio contribuir de forma mais efetiva para afirmar que o principal
objetivo de toda e qualquer prática dos profissionais da informação, tais como bibliotecários,
arquivistas e museólogos é a mediação da informação para a sociedade, principalmente, num
momento em que se torna cada vez mais difícil classificar se os documentos são arquivísticos,
biblioteconômicos ou museológicos, uma vez que eles já nascem em forma de fluxos na rede.
Foram estas questões que percebemos em toda a análise de dados desta pesquisa, ou
seja, que as tecnologias ainda são, em sua maioria, utilizadas na sua concepção utilitarista e
não numa perspectiva mais social, o que vai desaguar no conceito de mediação também.
No que concerne às DCN percebemos que a hibridização dos fazeres profissionais se
torna cada vez mais visível, tanto neste documento do MEC que data de 2001, quanto na LAI
que é de 2011. Portanto, não são apenas as práticas em si que foram transformadas com as
TIC, mas também os documentos do âmbito da educação superior, como as DCN do MEC e
as indicativas da ABECIN e também, no âmbito legal e de atuação profissional, como a LAI.
Daí, a importância de se colocar em suspensão a atual formação dos profissionais da
informação, a qual está sendo efetivada no formato disciplinar, para vislumbramos novos
modelos formativos para esses profissionais, modelos esses que venham ao encontro das
demandas do momento contemporâneo.

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                <text>SNBU - Edição: 18 - Ano: 2014 (UFMG - Belo Horizonte/MG)</text>
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                <text>Biblioteconomia&#13;
Documentação&#13;
Ciência da Informação&#13;
Bibliotecas Universitárias</text>
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                <text>Tema: Bibliotecas Universitárias e o Acesso Público à Informação: articulando leis, tecnologias, práticas e gestão</text>
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                <text>SNBU - Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias</text>
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    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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      <name>Dublin Core</name>
      <description>The Dublin Core metadata element set is common to all Omeka records, including items, files, and collections. For more information see, http://dublincore.org/documents/dces/.</description>
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              <text>As tecnologias tornaram-se a base da sociedade contemporânea e passaram a transformar a economia, a sociedade, a ciência, o trabalho, bem como a cultura e, por consequência, o universo do ensino-aprendizagem. As tecnologias estão sendo inovadas a cada dia e em todos os tipos de atividades cotidianas, profissionais e educacionais, o que, no decorrer do processo histórico das sociedades, vem alterando também os processos mediacionais. Neste sentido, buscamos analisar como os conceitos de mediação e de tecnologia estão inseridos nos documentos do Ministério da Educação (MEC), da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (ABECIN) e na Lei de Acesso à Informação (LAI) e, para tanto, procedemos à Análise de Conteúdo desses documentos. Nos três documentos analisados a tecnologia ainda é vista em sua forma instrumental, fato este que deságua não apenas nos documentos formativos, como os da ABECIN e do MEC, mas também nos que trata de algumas perspectivas de atuação profissional, como o faz a LAI. Em relação à mediação, esta ainda é vista em sua acepção tradicional, muito embora esses documentos levem em conta as acepções contemporâneas envolvendo a apropriação e uso das Tecnologias de Informação e de Comunicação. Outra questão que se sobressai nesses documentos é que a formação de bibliotecários, arquivistas e museólogos passa a ser vista em sua perspectiva transdisciplinar, híbrida, uma vez que os três profissionais estão aptos a lidar com as questões cobertas pela LAI e os documentos formativos possuem uma linguagem semelhante em relação à formação dos três profissionais.</text>
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