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                  <text>XVIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias
SNBU 2014

FORMAÇÃO CONTINUADA DE BIBLIOTECÁRIOS BRASILEIROS E
PORTUGUESES: UM OLHAR SOBRE A PÓS-GRADUAÇÃO

Luciana Moreira Carvalho

RESUMO
Trata da educação continuada de bibliotecários brasileiros e portugueses que atuam em
Bibliotecas Universitárias de instituições públicas. Objetiva divulgar os resultados de uma
investigação doutoral no qual analisou, dentre outras, a inserção de bibliotecários brasileiros e
portugueses em cursos de pós-graduação latu sensu e strictu sensu. O embasamento teórico
foi feito a partir de fontes de informação que trataram de temas como competência
informacional, competências e habilidades dos bibliotecários e mudanças paradigmáticas
presentes na área de Ciência da Informação. A pesquisa utilizou o método quadripolar onde
se trabalha através de quatro pólos: epistemológico, teórico, técnico e morfológico.
Especificamente no pólo técnico utilizou-se como instrumento de coleta de informações a
aplicação de questionário on-line enviados por e-mail aos bibliotecários. Para não haver
disparidades entre os países, o recorte territorial no caso do Brasil foi necessário, sendo
pesquisadas apenas as bibliotecas universitárias da região nordeste do Brasil. Os resultados
apontam para um número crescente de busca por qualificação em ambos os países, com o
tempo médio de inserção em cursos de pós-graduação variando de um a cinco anos e aponta
ainda as áreas de conhecimento de maior demanda registradas pelos bibliotecários. Conclui
ratificando a tendência apontada na literatura da área no qual mostra a crescente busca pela
continuidade de formação entre os bibliotecários, reconhecendo a importância da educação
contínua como parte de uma atuação de qualidade.
Palavras-Chave: Bibliotecário-Educação Continuada. Bibliotecário-Competência
Habilidades. Biblioteca Universitária - Brasil. Biblioteca Universitária - Portugal.

e

ABSTRACT
This work deals with continued education on behalf of Brazilian and Portuguese librarians.
These librarians are part of Public Academic Libraries. The work aims to point out results
from a doctoral thesis that dealt with the inclusion of and Brazilian and Portuguese librarians
in latu sensu and strictu sensu post graduation courses, amongst other subjects. Theoretical
framework was performed with the use of information fonts that dealt with themes related to
information literacy, librarian competences and skills as well as paradigmatic changes that are
made present in Information Science. As for the methodology, the research made use of the
Quadripolar Method that deals with four different poles: the epistemological, theoretical,
technical and morphological ones. For data collection, an on line questionnaire that was sent
through email to librarians. In order to address the differences between the countries, the
research made a territorial cutout in the case of Brazil. Thus, only academic libraries in the
northeastern part of Brazil were considered. Results point out that there is an increase towards
better qualification on behalf of the librarians in both countries. The average insertion time in

1014

�graduate courses ranged from one to five years and also shows the knowledge areas of
greatest demand registered by librarians. The research concluded that there is a tendency
regarding training amongst librarians, recognizing the importance of continued education as
part of a quality work performance.
Key-Words: Librarian-Continued Education. Librarian- Competences and Ability. Academic
Library-Brazil. Academic Library-Portugal.
1 INTRODUÇÃO
As transformações em todos os setores no qual passa o mundo contemporâneo, e o
consequente processo de mudanças paradigmáticas que atingem também os profissionais da
informação, nos provocam a repensar nossas ações para assim, acompanhar o ritmo acelerado
da sociedade.
As bibliotecas, tradicionalmente espaços de constituição de acervos e disseminação de
informação, refletem as mudanças geradas pela Sociedade da Informação através da busca por
melhorias nos serviços oferecidos aos usuários.
Nesse cenário de mudanças estruturais ditadas pela filosofia da sociedade da
informação, demanda-se do profissional da informação uma formação adequada, com base na
“competência e habilidades exigidas pelas tarefas a desempenhar e ajustadas ao tempo atual,
implicando em um redirecionamento da conduta do profissional perante os desafios do
momento.” (BORGES, 2004, p.57).
Para analisar o perfil do bibliotecário em relação a sua educação continuada, foi feita
uma pesquisa nas bibliotecas universitárias da região nordeste do Brasil, juntamente com as
bibliotecas universitárias públicas portuguesas . Apresentaremos neste trabalho os resultados
específicos da pesquisa voltados a identificar a continuidade de formação do bibliotecário
após a conclusão da graduação.

2 Trajetória educacional do bibliotecário: relatos na literatura brasileira e portuguesa
No final da década de 1990 e início dos anos 2000, na Europa, uma publicação
relacionada aos profissionais da informação teve grande destaque: o “Referencial das
competências dos profissionais europeus de informação e documentação”.
O “Referencial” é uma obra coletiva do Conselho Europeu das Associações de
Informação e Documentação e envolveu nove países da União Europeia na sua elaboração

88 Essa questão é parte da pesquisa desenvolvida na tese de doutorado intitulada “As bibliotecas universitárias de
Portugal e do Nordeste do Brasil : estudo sobre o impacto e mediação das tecnologias digitais” defendida em
2013 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob orientação do Prof. Dr. Armando Malheiro da Silva.

1015

�(Bélgica, França, Reino Unido, Alemanha, Portugal, Espanha, Romênia, Suíça e República
Checa).

Nele estão traçados entre outros temas, pontos norteadores relacionados às

competências dos profissionais da informação nos países envolvidos.
Por serem específicos de informação e documentação, os profissionais representados
no “Referencial” são os bibliotecários, os arquivistas e os documentalistas. E assim, de
acordo com o documento, a profissão de informação é definida a partir da
missão fundamental de pesquisar, tratar, produzir e difundir informação incorporando valor acrescentado - com vista a satisfazer as necessidades de
informação, expressas ou não, de um público-alvo e propondo recursos
informativos, geralmente constituídos por ‘documentos’ (textos, imagens,
sons). (CORREIA, 2003, p.10).
Um ponto central no “Referencial” se relaciona à noção de competência do
profissional da informação, caracterizada pelas capacidades necessárias e comportamentos
adequados ao exercício da profissão.
Segundo consta no “Referencial” as “competências” se dividem em quatro níveis: 1)
Sensibilização - corresponde ao conhecimento básico da área, como vocabulário simples e
execução de tarefas práticas; 2) conhecimento das práticas - relacionado ao “saber-fazer
prático”; 3) domínio das ferramentas - nesse nível o agente domina as técnicas e tem
capacidade de criar ferramentas e incorporá-las no seu quotidiano; e 4) domínio das
metodologias - em que “o agente utiliza uma determinada técnica, mas é capaz de aplicá-la
noutras circunstâncias, transpô-la para outras tarefas, encontrar outros domínios de aplicação”
(CORREIA, 2003, p.15).
Como sua própria denominação já chama a atenção, o “Referencial” europeu serve de
indicativo para os profissionais que já estão no mercado de trabalho, para os empregadores
que desejam um ponto norteador, e em termos de formação acadêmica, ele pode ser encarado
como um complemento a mais nas discussões relativas à educação do profissional da
informação.
De forma mais minimalista, porém sem sair da questão das competências e habilidades
do profissional da informação, Santos (1996, p.8), ao tratar do “moderno profissional da
informação” destaca alguns pontos importantes para a composição do seu perfil. São eles:
habilidades gerenciais; pedagógicas; de comunicação; e relacionados ao tratamento de
pessoas. Afora a teoria sobre informação, destacam-se o controle bibliográfico e os estudos
de usuários. E por fim, compondo o conjunto de habilidades está o conhecimento de línguas

1016

�estrangeiras, estatística, metodologias de pesquisa e conhecimentos ligados às tecnologias
digitais.
Na década de 1990, no Brasil, foi feita uma pesquisa com os profissionais da
informação atuantes nas unidades de informação de instituições governamentais, privadas e
não governamentais, especificamente da área de Informação Científica, Tecnológica e de
Negócios, na qual objetivou traçar o perfil do profissional da informação brasileiro. Os
principais resultados mostraram que o perfil do profissional da informação presente nos locais
pesquisados é o do bibliotecário que desenvolve papéis tradicionais, sem deixar de se
envolver de forma crescente com as novas tecnologias e com novos procedimentos
administrativos.
A pesquisa apontou que o profissional da informação brasileiro tem uma formação no
nível de bacharelado em torno de 47,25%, seguido do nível de especialização com 39,50%.
Para o mestrado o percentual cai para 9,75% e apenas 2,25% de profissionais da informação
com doutoramento.
Em relação à educação continuada o que lidera no perfil é o treinamento em serviços,
seguido por cursos de reciclagem e de extensão universitária. Cursos esses geralmente de
curta duração e direcionados especificamente para questões pontuais de aprendizagem.
Nessa perspectiva, as discussões paradigmáticas ganharam força na década de 1990 e
como exemplo, temos Tarapanoff (1997), que identificou (o que ela denominou como) os
novos paradigmas que influenciam a atuação do profissional da informação. São eles, o
paradigma tecnológico, o da biblioteca virtual, o do acesso à informação, o da qualidade e o
paradigma da cooperação.
A autora não define esses paradigmas, mas discorre sobre a influência deles para o
profissional e para o ambiente de trabalho.

Assim, temos no paradigma tecnológico a

sensibilização do profissional para as mudanças que estão ocorrendo na área e os seus
potenciais benefícios. Entretanto, as organizações onde os profissionais atuam ainda não
atentaram para a implementação de uma política de aperfeiçoamento, educação e treinamento
nos novos recursos (ligados às tecnologias digitais).
No paradigma da biblioteca virtual, em meados da década de 1990, o que se
encontrava era a chegada dos microcomputadores, da automação de alguns serviços e o
acesso em linha à Rede Nacional de Pesquisa (RNP) e à Internet, o que mostra que nessa
época, ainda se estava nos princípios do processo de automação dos serviços.
Em se tratando do paradigma do acesso à informação, o quadro que se apresentava
pela Tarapanoff (1997), tanto em relação ao ciclo documentário (controle bibliográfico,

1017

�seleção e aquisição de documentos), quanto ao levantamento bibliográfico, constatava que a
virtualidade ainda está fora do alcance da biblioteca brasileira. Com os novos meios de
informação sendo inseridos no ambiente da biblioteca, “há aqui um campo enorme para
treinamento, reciclagem e desenvolvimento de um novo entendimento sobre conhecimento,
controle, maximização e disponibilização de recursos.” (TARAPANOFF, 1997, p.55).
Quanto ao paradigma da qualidade, a pesquisa mostrou que ainda é pouco percebido,
mas com um grande potencial para ser desenvolvido. E o último paradigma apontado é o da
cooperação, sendo considerado como o mais importante a ser buscado entre as unidades de
informação no Brasil. Porém, o quadro apresentado mostra que há “pouca adesão e boa
vontade para cooperação. [Sendo necessário] um intenso trabalho de sensibilização
organizacional e dos profissionais.” (TARAPANOFF, 1997, p.55).
A resistência e a incipiência da cooperação no Brasil são exemplificadas por meio dos
resultados apresentados pela pesquisa no que se refere aos serviços de acesso ao documento, a
exemplo do Programa de Comutação Bibliográfica - Comut que é o mais utilizado no Brasil.
Apesar da grande adesão a este, vários outros são subutilizados, como a rede Antares (que
proporciona acesso às redes nacionais e bases de dados internacionais), com um percentual de
utilização de apenas 15,54%. Mais exemplos de subutilização são percebidos tanto na rede de
cooperação bibliográfica Bibliodata

como no OCLC (On-line Computer Library Center)

com apenas 10% de adesão por parte das unidades de informação pesquisadas.
Por fim, o que se observa é a necessidade de esforço conjunto entre as Escolas, as
Instituições e os Profissionais, para que a área se desenvolva a contento, uma vez que a
pesquisa de Tarapanoff (1997) revelou posturas conservadoras e até limitadoras em relação ao
cenário que se apresenta principalmente no que diz respeito aos paradigmas detectados.
O desafio trazido pelo novo paradigma, principalmente a partir do impacto das
tecnologias digitais sobre os serviços de informação, conduz “a uma total reengenharia dos
processos de produção e distribuição da informação e mesmo a uma reformulação no manejo
de estoques mais convencionais, como os dos arquivos e bibliotecas.”. (MIRANDA, 2000,
p67).
De forma não exaustiva, porém esclarecedora, Baptista (2009) descreveu algumas
profissões e profissionais que trabalham com informação. Dentre as diferentes competências
atribuídas aos profissionais que lidam com informação enquanto “ferramenta” de trabalho,
destacamos as dos bibliotecários. Para a autora, o resultado das ações do bibliotecário reforça

89 A rede Bibliodata é considerada pioneira no serviço de cooperação entre as bibliotecas no Brasil.

1018

�seu perfil de organizador, gerente e disseminador de informação. Além dessas competências,
Baptista (2009) aponta que o bibliotecário é capaz de administrar unidades de informação e
documentação, bibliotecas públicas, universitárias, especializadas, escolares, bem como
prestar consultorias e participar da formulação de políticas de informação nas organizações.
A autora complementa sua descrição enfatizando que diante de dois grandes marcos da
contemporaneidade que são a globalização e a constatação de um mundo cada vez mais
interconectado pelas tecnologias disponíveis,

o trabalho do bibliotecário torna-se

necessariamente “descentralizado e colaborativo”. (BAPTISTA, 2009).
Nessa mesma linha de pensamento, Borges (2004) trata da não existência de limites
para o compartilhamento de informações, acontecendo uma ampliação das potencialidades
humanas. Ele assim relata,
Esse mundo virtual, que se presencia atualmente, provocou várias alterações,
principalmente nas concepções de espaço e tempo, na possibilidade de
compartilhamento de tudo o tempo todo, na abstração dos limites físicos, no
conceito de consumo da informação e do conhecimento. Não há mais
distância, território, domínio e espera: vive-se o aqui e o agora. (BORGES,
2004, p.57).
Mesmo admitindo esse cenário de inexistência de espaço e tempo, de rapidez extrema
no compartilhamento de informações, há de se perceber, porém, a diversidade dessas
características nos diversos ambientes onde a informação circula, com a consciência de que
não há homogeneidade nesse processo.
Outra visão aponta que os profissionais que trabalham com informação, em especial os
da Ciência da Informação estão transitando entre o passado, o presente e o futuro. Em se
tratando especificamente do bibliotecário, percebe-se que este “Convive com tarefas e
técnicas tradicionais de sua profissão, mas precisa atravessar para uma outra realidade, para
onde estão indo seus clientes, e aprender a conviver com o novo e o inusitado” (SMIT;
BARRETO, 2002, p.17).
De uma forma mais reflexiva, Miranda (2000, p.70) faz uma avaliação do momento
atual para quem trabalha com o ciclo informacional. Para ele,
estaríamos superando a fase em que priorizávamos excessivamente a
formação do estoque e seu processamento técnico e passando a valorizar a
questão do acesso e da transferência da informação. No entanto, agora
estaríamos colocando mais ênfase no fluxo da informação do que em seu uso
efetivo, porque existe uma crença generalizada de que as estruturas
organizacionais modernas se validam ou se legitimam pela capacidade de
oferecer condições para o processo de tomada de decisões em ambiente
competitivo, sem questionar se existem barreiras à transferência do
conhecimento.

1019

�Essas barreiras mencionadas anteriormente podem ser percebidas por ângulos
diversos, seja pelo usuário da informação, ou pelo profissional responsável pela organização e
disseminação da informação.

Aqui especificamente iremos explorar sumariamente essa

reflexão tratando da questão da educação continuada do bibliotecário.
O questionamento feito por Miranda (2000) sobre da existência ou não de uma
consciência a respeito das possíveis barreiras à transferência do conhecimento, pode se iniciar
a partir do olhar crítico do profissional sobre o desempenho de suas atribuições. A real
posição desse profissional como mediador dentro do sistema de informação, precisa ser
renovada periodicamente para que não haja uma cristalização dos conhecimentos adquiridos
em detrimento da conscientização da incompletude natural de toda profissão.

Sobre esse

tema, trataremos a seguir.

3 Educação continuada: desejo ou necessidade do bibliotecário?
Um ponto bastante discutido quando se fala em habilidades, competências e do
próprio fazer profissional é a educação continuada. O mundo globalizado, as tecnologias
emergentes e a rapidez com que as inovações chegam até as pessoas de um modo geral, e em
especial às instituições e aos seus servidores provocam ou estimulam a atualização constante
de sua formação, sejam através de cursos rápidos, especializações pontuais, ou mesmo em
uma formação mais aprofundada, como os cursos strictu sensu.
Ao tratar especificamente das tecnologias digitais nas bibliotecas, percebe-se que a
rapidez no conhecimento e manuseio das TICs disponíveis naquele espaço, são atitudes
essenciais para o bom atendimento ao usuário. Concordamos assim que:
O processo de formação do bibliotecário deve considerar dois estágios de
evolução profissional: um deles, o estágio das perturbações causadas pelas
tecnologias de comunicação e de informação, que exige mudanças
organizacionais e metodológicas, e o outro, o estágio de transformações, que
implica a exploração intensa dos espaços de atuação tradicionais e
principalmente a tentativa de colonizar áreas novas. (SANTOS, 2002, p.16,
grifo nosso).
A questão que pretendemos destacar trata das inovações nos ambientes tradicionais de
atuação do bibliotecário, como as bibliotecas universitárias e a necessidade da educação
continuada, como os cursos de curta duração, a exemplo dos treinamentos que são
importantes para o bom desempenho das suas atividades, capacitando-o para conhecer as
potencialidades das ferramentas disponíveis.

1020

�Para Coelho (2010) o uso de tecnologias digitais, seja numa biblioteca acadêmica ou
em outra qualquer, demanda por parte dos bibliotecários, por um lado o direito de ter uma
formação condizente para o uso dos novos recursos, e por outro tornar “a iniciativa de se
manterem a par das inovações tecnológicas relevantes para o exercício da sua profissão. Se
assim não for, a incapacidade de actualização e inovação pode causar a perda de utilizadores.”
(COELHO, 2010, p.6).
Complementando essa questão, Valentim (2002) discorre sobre as atitudes dos
profissionais da informação em relação à continuidade de sua formação, e chama a atenção
para o fato de que muitos deles encaram a instituição de trabalho como a única responsável
pela iniciativa de sua educação. Na verdade, a instituição em que atua deve sim participar e
incentivar essa ação, porém a formação complementar deve ser considerada como um
investimento pessoal do profissional.
A necessidade de atualização é tão grande que já existem estudos que revelam o tempo
de obsolescência da formação. Segundo Santos (2002), esse tempo é entre três e cinco anos,
principalmente nos temas que envolvem a utilização de tecnologias. A autora relata que a
necessidade de atualização dos conhecimentos se faz perceber até mesmo nos recémformados, para assim se manterem competitivos no mercado.
Na mesma linha de pensamento, Valentim (2002) considera que a educação
continuada é a base tanto para uma profissão consolidada, como para o profissional que
pretende se manter competente no mercado de trabalho. E justifica: “Para a profissão, porque
é através dela que construímos seu corpus teórico-prático e, para o profissional, porque é
através dele que aprendemos a aplicar esse mesmo corpus teórico-prático.”. (VALENTIM,
2002, p.122).
O profissional é, portanto, levado a refletir sobre sua ação enquanto mediador entre a
informação registrada e os utilizadores, com a responsabilidade de gerir os diversos
instrumentos que o ambiente lhe proporciona. Consequentemente, a conscientização das
possíveis limitações no seu agir profissional e a busca pela atualização de seus
conhecimentos, realimenta um ciclo de educação contínua e salutar à sua formação e
profissão.
A educação continuada também é um tema discutido por Carvalho e Reis (2007), que
veem sua necessidade se fazer mais presente quando se trata das inovações tecnológicas da
informação e comunicação. Para tanto, são os treinamentos relativos a esse tema que devem
ser estimulados, com o apoio de programas institucionais.

1021

�Por outro lado “o uso de tecnologias não irá resolver os problemas da Biblioteconomia
[nem dos profissionais], mas sua utilização adequada e desmistificada oferece perspectivas
positivas para a atuação do bibliotecário diante das atuais exigências.” (SANTOS, 2002,
p.115). E enaltece a formação profissional como sedimentar para a aquisição de uma cultura
tecnológica.
Por fim, em se tratando de competências e habilidades do profissional da informação,
Valentim (2002) deixa claro que é papel da escola fornecer conteúdos formadores desses
atributos. E reitera o que já foi aqui discutido,
Manter essas competências e habilidades profissionais, após a sua saída da
escola, é papel do próprio profissional. Esse entendimento é muito
importante, pois, a partir disso, o profissional sempre terá uma postura
investigadora e crítica, gerando uma disposição de busca incessante, que o
tornará sempre competente para atuar em prol da sociedade contemporânea.
(VALENTIM, 2002, p.130).
A busca por minimizar as barreiras possíveis que impedem a concretização do
processo mediador entre a informação e o usuário, passa pela capacitação do profissional nas
diversas demandas que possam surgir.

4 MATERIAIS E MÉTODOS UTILIZADOS
A pesquisa teve como universo de abordagem as Bibliotecas Universitárias de
Portugal que estão inseridas nas universidades clássicas (Coimbra, Lisboa e Porto) com suas
respectivas Faculdades e as universidades novas (Braga-Minho, Beira Interior, Trás-osMontes e Alto Douro, Algarve, Évora, Aveiro, Açores e Madeira).

No Brasil, foram

selecionadas para a pesquisa apenas as Bibliotecas Universitárias Públicas de âmbito federal.
Para que houvesse uma justa proporção entre o número de bibliotecas pesquisadas em
Portugal e no Brasil, optamos por incluir na pesquisa, as bibliotecas que atendem ao perfil
estabelecido e estão localizadas na região nordeste.

A partir daí temos as seguintes

instituições: Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Universidade Federal da Bahia
(UFBA), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Maranhão
(UFMA), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE), Universidade Federal do Piauí (UFPI), Universidade Federal do Rio Grande do
Norte (UFRN) e Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Além dessas, foram incluídas a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)
e Universidade Federal Rural do Semi-árido (UFRSA) localizada no Rio Grande do Norte,

1022

�por figurarem no sítio do Ministério da Educação na relação das universidades federais
brasileiras.
Os sujeitos da pesquisa foram os bibliotecários atuantes nessas bibliotecas perfazendo
um total de 115 respondentes. A coleta de dados ocorreu entre 2011 e 2013 e como forma de
recolha de dados foram aplicados questionários on line enviados aos seus e-mails.
Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, teve suporte do Método Quadripolar com
seus polos epistemológico, teórico, técnico e morfológico. O método atua de forma cíclica
entre os polos e estes procuram guiar o pesquisador à resolução dos problemas apresentados
na pesquisa de uma maneira fecunda e consciente.

5 RESULTADOS FINAIS DA PESQUISA
Com o objetivo de identificar a educação continuada dos bibliotecários atuantes nas
bibliotecas universitárias públicas federais do nordeste do Brasil, como também os
bibliotecários das universidades públicas portuguesas, à pesquisa abordou dois aspectos: o
primeiro e principal, em relação à inserção em um curso de pós-graduação latu ou strictu
sensu. E o segundo aspecto, em relação ao espaço de tempo entre o término da graduação e o
ingresso em um curso de pós-graduação.
As perguntas eram dicotômicas, com alternativa de resposta “sim” ou “não”, havia um
complemento de alternativas para responder o nível da pós-graduação (Especialização,
Mestrado ou Doutorado), o nome do curso e o ano de conclusão. Tivemos assim o seguinte
resultado: do total de 115 participantes da pesquisa, 98 afirmaram que possuem pósgraduação, 16 não possuem e uma pessoa não informou se possui ou não. De todos que
responderam Sim, 90 pessoas informaram claramente o curso que fizeram e assim, foi
possível agrupar as áreas do conhecimento mais reincidentes na escolha da formação
contínua, seja no nível latu sensu (especialização e mestrado) ou no strictu sensu (doutorado).
Apresentaremos os resultados por nível acadêmico, e por país.
Dessa forma, declararam ter cursado especialização 37 respondentes portugueses, e no
Nordeste brasileiro 53 buscaram se capacitar através de um curso nesse nível. Os resultados
conferimos a seguir através do Gráficos 1 e 2

1023

�Gráfico 1 - Pós-graduação - Especialização: áreas predominantes: Portugal e Brasil
40
35
30
25
20
15
10
5

0

Ciência da
Informação

Educação

Gestão

História

Fonte: autoria própria, 2013.

As áreas do conhecimento que mais se destacaram conforme vimos no gráfico são:
Ciência da Informação, Educação, Gestão e História. Dentre os respondentes portugueses a
escolha pela área de Ciência da Informação foi predominante, com 34 marcações, embora a
área de Gestão tenha sido mencionada por três respondentes. Já entre os brasileiros é possível
perceber a opção em cursar a especialização em Gestão (15), Educação (8) e História (1), com
predominância também para a Ciência da Informação (29).
A área de Gestão representada no Gráfico 1 engloba uma variedade de cursos que
serão aqui listados:
•

Gestão Estratégica em Sistemas de Informação

•

MBA em Recursos Humanos

•

Gestão de Unidades de Informação

•

Gestão da Qualidade

•

Gestão Pública

•

Administração Pública

•

Gestão da Informação e Inovações Tecnológicas

•

Gestão de Pessoas

•

Gestão em Arquivos Públicos e Privados

•

Gestão Administrativa e Produtividade

•

Tecnologia da Informação e Comunicação para Gerenciamento da Informação

•

Gestão em Ciência da Informação

1024

�•

Gerenciamento de Bibliotecas Públicas e Escolares

•

Gestão e Tecnologia da Informação, e Gestão e Desenvolvimento Universitário

•

Informação Empresarial

No desdobramento da questão, havia a possibilidade de registrar se estava cursando ou
havia cursado um curso no nível de mestrado.
Das 33 pessoas que responderam todas também informaram o curso que tinham
realizado. Destas, 15 atuam em universidades portuguesas e 18 atuam em universidades
brasileiras. Como na especialização, as áreas mencionadas para o mestrado foram: Ciência da
Informação (20), Gestão (11) e Educação (2), conforme ilustra o gráfico 2.

Gráfico 2 - Pós-graduação - Mestrado: áreas predominantes: Portugal e Brasil

Fonte: auoria própria, 2013.

Olhando pontualmente cada país, temos em Portugal o seguinte cenário: na área de CI
12 pessoas, 01 em Educação e 02 cursaram mestrado na área de Gestão.
No Brasil os números das duas primeiras áreas ficaram bem parecidos com os
apresentados em Portugal, sendo 08 pessoas com mestrado na área de Ciência da Informação
e, exatamente como Portugal, 01 na área de Educação. O diferencial está na área de Gestão
em que 09 pessoas buscaram renovar seus conhecimentos nessa área.
Da mesma forma como a Tabela 2, a coluna sobre Gestão revela a seguinte variação
para o mestrado:
•

Administração

•

Gestão: variante gestão pública e autárquica

1025

�•

Engenharia de Produção, Gestão Pública

•

Administração e Gestão Pública

•

Políticas Públicas e Gestão da Educação Superior

•

Políticas Públicas na Educação Superior

Apesar da diversidade de cursos na área de Gestão, é possível perceber que há uma
predominância visível na busca por cursos de pós-graduação na área de Ciência da
Informação. Essa predominância evidencia que a área de CI, pela abrangência de temas
abordados em seu universo de pesquisa, é o caminho mais trilhado pelos bibliotecários ao
ampliar e/ou aprofundar questões inerentes ao seu quotidiano de atuação nas bibliotecas.
Relacionada a essa situação, destacamos aqui uma passagem de Robredo (2003, p.206)
quando comenta a seguinte questão:
‘Como fica a Biblioteconomia, quando associada à Ciência da Informação?’
Cabe responder: Como uma disciplina, como um domínio dentre os diversos
que podem ser identificados, sendo possível estabelecer, dentro destes,
diferenças entre estudos à sua aplicação, o que implica também estudos
sobre metodologias, recursos tecnológicos, padrões e normas, e muito mais.
As inquietações e respostas que os bibliotecários buscam em termos de aplicação no
seu quotidiano, são, portanto temas abordados na CI, com o aprofundamento cabível à área.
Além disso, dentro da perspectiva interdisciplinar, a área de Ciência da Informação
“conversa” muito fluentemente com as demais disciplinas das Ciências Sociais e Humanas,
portanto, a busca por qualificação nas áreas mencionadas - Gestão, Educação e História - são
presenças naturais.
Por ser uma questão de múltipla escolha, com a possibilidade de marcar mais de um
nível de pós-graduação, temos por fim, o curso de doutoramento (stricto sensu). Nessa
alternativa o cenário muda um pouco, tendo em vista que entre os respondentes brasileiros,
não há nenhum registro de ingresso em um curso de doutoramento.
Dos profissionais que atuam em universidades portuguesas, 05 pessoas declararam que
estão cursando doutoramento. Dessas, apenas 01 não informou a área do curso. Dentre os que
informaram temos 03 na área de Ciência da Informação e 01 na área de Educação.
O segundo aspecto observado é em relação ao tempo de ingresso em um curso de pósgraduação, após a conclusão da graduação. Os resultados a seguir seguem a ordem observada:
especialização, mestrado e doutorado.

1026

�Dessa forma, ao fazer o cruzamento entre as datas de conclusão da graduação e da
especialização foi possível verificar que em Portugal o período mais longo entre a finalização
da graduação e da especialização foi de nove anos (entre 1993 e 2002). No entanto, a maior
incidência foi entre 1 e 4 anos.
Entre os brasileiros o maior espaço de tempo registrado foi de 34 anos, tendo em
vista que o respondente concluiu a graduação em 1975 e a especialização em 2009. Porém,
esse é um caso isolado, tendo em vista que a maior incidência entre os brasileiros, ficou entre
1 e 5 anos.
Dando continuidade à análise dos dados, foi possível observar ainda que em Portugal,
15 respondentes buscaram fazer além da especialização, também um curso de mestrado. E,
desses, 05 ingressaram posteriormente no doutoramento.
Dentre os bibliotecários brasileiros, 18 fizeram especialização e posteriormente o
mestrado. Como vimos anteriormente, não havia na época da recolha dos dados desta
pesquisa, nenhum ingresso em cursos de doutoramentos entre os bibliotecários brasileiros.
Na pesquisa de Tarapanoff (1997), já mencionada anteriormente, os números mostram
que o profissional da informação brasileiro tem uma formação no nível de bacharelado em
torno de 47,25%, seguida do nível de especialização com 39,50%.

Para o mestrado o

percentual cai para 9,75% e apenas 2,25% de profissionais da informação fazem
doutoramento. (TARAPANOFF, 1997).
A partir dos resultados apresentados com a coleta de dados nas bibliotecas portuguesas
e principalmente do Nordeste brasileiro, percebemos que o quadro atual não difere tanto do
apresentado por Tarapanoff no final da década de 1990.
Em relação à educação continuada o que liderava o perfil no final da década de 1990
era o treinamento em serviços, seguido por cursos de reciclagem e de extensão universitária.
Cursos esses geralmente de curta duração e direcionados especificamente para questões
pontuais de aprendizagem.
A necessidade de atualização é tão grande que já existem estudos que revelam o tempo
de obsolescência da formação. Segundo Santos (2002), esse tempo é entre três e cinco anos,
principalmente nos temas que envolvem a utilização de tecnologias. A autora relata que a
necessidade de atualização dos conhecimentos se faz perceber até mesmo nos recémformados, para assim se manterem competitivos no mercado.

1027

�CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo deste trabalho foi mostrar um panorama da educação continuada entre
bibliotecários brasileiros e portugueses.
Do total de bibliotecários investigados, 115 participantes da pesquisa, 98 afirmaram
que possuem pós-graduação, mostrando a preocupação com a qualificação pessoal e
profissional, permitindo através da educação continuada, a reflexão sobre sua ação enquanto
mediador entre a informação registrada e os usuários.
Em relação aos países envolvidos, com suas influências sociopolíticas e econômicas,
percebe-se que não houve impacto relevante no agir atitudinal dos bibliotecários em se
tratando do ingresso em cursos de pós-graduação. A única ressalva se faz em relação ao
ingresso em cursos strictu sensu uma vez que entre os brasileiros, não havia nenhum
ingressante nessa modalidade.
O tempo de ingresso em um novo curso seja de especialização, mestrado ou doutorado
foi em média de 1 a 5 anos para os bibliotecários brasileiros e de 1 a 4 anos para os
bibliotecários portugueses. Isso ratifica a afirmativa anterior em relação ao comportamento
dos bibliotecários envolvidos na pesquisa, mostrando assim, uma sintonia entre eles.
Como consequência da conscientização das possíveis limitações no seu agir
profissional e a busca pela atualização de seus conhecimentos, os bibliotecários pesquisados,
ratificam através das respostas a importância de realimentar um ciclo de educação contínua
salutar não apenas à sua formação acadêmica enquanto profissional, mas, sobretudo, ao
crescimento das discussões inerentes a área da Ciência da Informação como um todo.

6 REFERÊNCIAS

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contemporânea. Inf. &amp; Soc.:Est., João Pessoa, v.19, n.1, p.19-27, jan./abr. 2009. Disponível
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1028

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Disponível em: &lt;http://bad.pt/publicacoes/index.php/congressosbad/article/view/160&gt; Acesso
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Formação do profissional da informação.

São Paulo: Polis, 2002.

1029

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