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CORRELAÇÃO LÉXICO-ONTOLOGIA: DISTANCIAMENTOS E
APROXIMAÇÕES
Valdirene P. da Conceição
Doutora em Linguística e Língua Portuguesa.
Universidade Federal do Maranhão. São Luís , Maranhão

Resumo
Abordagem exploratória da relação léxico-ontologia.Trata-se de um estudo de
natureza analítico-descritiva que tem como objetivo identificar e analisar os
fundamentos lingüísticos, relevantes para o estudo das formas lexicais e da sua
relação com sentidos e conceitos ancorados em ontologias. Destaca-se os três
ramos do saber que ocupam-se dos estudos do léxico: a Lexicologia, a Lexicografia
e a Terminologia, que, embora complementares, possuem objetos de estudos,
metodologia e pressupostos teóricos distintos.Afirma-se que o conhecimento
ontológico diz respeito aos conceitos que estruturam um domínio do conhecimento
ou da experiência e o conhecimento lexical diz respeito à parte desse conhecimento
que é "Iexicalmente revestida", ou seja, linguisticamente representada por unidades
do léxico.Exemplifica-se a relação léxico-ontologia por meio
de informação
estruturada nas redes WordNet e FrameNet, apresentando uma amostragem das
correlações estruturais e semântico-conceituais que se pode estabelecer entre os
conceitos(ontologia) e as unidades lexicais (léxico) que os lexicalizam no português
e no inglês. Aponta a contribuição da Teoria do Léxico Gerativo (TLG), modelo
proposto por Pustejvosky (1995) , especificamente do construto "Estrutura Oualia (do
inglês Oualia Structure) , para a descrição de quatro papéis que caracterizam os
aspectos relacionais do significado de uma unidade léxica: O papel formal; o papel
constitutivo (ou de partes constituintes); o papel télico e o papel agentivo.

Palavras-chave: Léxico e Ontologia; Estudos do Léxico; Conhecimento
ontológico; Conhecimento lexical.
Abstract
Exploratory approach to the relationship lexicon-ontology. It is a study of analyticaldescriptive nature that aims to identify and analyze the linguistic foundations,
relevant to the study of lexical forms and meanings and their relationship with
concepts grounded in ontologies. We highlight the three branches of knowledge
which are concerned with studies of the lexicon: a Lexicology, Lexicography and the
terminology which, although complementary, are objects of study, methodology and
theoretical assumptions distinct. States that the ontological knowledge concerns the
concepts that structure a field of knowledge or experience and lexical knowledge

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refers to that portion of knowledge that is "Iexically coated", ie, linguistically
represented by units of the relationship lexicon. Exemplifies lexical ontology by
means of structured information WordNet and FrameNet networks, presenting a
sampling of structural correlations and semantic-conceptual can be established
between the concepts (ontology) and the lexical units (Iexicon) that lexicalize in
Portuguese and English . Points out the contribution of the Theory of Generative
Lexicon (TLG), the model proposed by Pustejvosky (1995), specifically the construct
" Qualia Structure" for describing four roles that characterize the relational aspects of
the meaning of a lexical unit: the formal role, the role of incorporation (or constituent
parts), the role telic and agentive role.

Keywords : Lexicon and Ontology; Studies Lexicon ; Ontology, Knowledge
lexical

1 Introdução
As discussões acerca da complexa relação entre léxico e ontologia há
muito atravessaram a barreira do domínio linguístico e passaram (pelo menos tende)
a fazer parte do cotidiano de outros domínios como a Arquitetura da Informação e a
Representação do Conhecimento, a Ciência da Informação, a Terminologia, dentre
outros. Tal discussão apóia-se, em seu aspecto mais elementar e inegável, nos
estudos teóricos realizados pela Linguística - notadamente pela Semântica Lexical destinados à compreensão e organização do léxico.
Esses estudos assumem relevante papel no desenvolvimento de sistemas
inteligentes e de inúmeras aplicações em Inteligência Artificial que necessitam
processar a linguagem humana, a exemplo de bases de conhecimento lexical
(WordNet) , sumarização, tradução automática , PLN e tantos outros que se
beneficiam dos conhecimentos gerados por tais empreendimentos.
A complexa relação entre léxico e ontologia é analisada por Hirst (2004)
como um processo de constituição e permanente reconstituição do significado e uso
da palavra e passa , portanto, pela relação linguagem, cognição e mundo. Passa
também pela melhor caracterização do que se consideram léxico e ontologia .
Se o conhecimento ontológico diz respeito aos conceitos que estruturam
um domínio do conhecimento ou da experiência e o conhecimento lexical diz
respeito à parte desse conhecimento que é "Iexicalmente revestida", ou seja ,
linguisticamente representada por unidades do léxico, quais as aproximações e os
distanciamentos entre esses dois construtos ?
Compreender os fundamentos lingüísticos, relevantes para o estudo das
formas lexicais e da sua relação com sentidos e conceitos ancorados nas ontologias
é o objetivo central do estudo, ora em tela .

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Sobre os Estudos do Léxico: revisitando conceitos

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o léxico de uma língua natural constitui acervo em que se registra o
conhecimento de mundo percebido pela comunidade linguística, como concebe
Biderman (2001 , p. 155). Logo, o seu estudo configura-se como uma necessidade
de conhecer e compreender o repertório cultural da sociedade.
Três ramos do saber ocupam-se dos estudos do léxico: a Lexicologia, a
Lexicografia e a Terminologia, que, embora complementares, possuem objetos de
estudos, metodologia e pressupostos teóricos distintos (BARBOSA, 1995;
KRIEGER; FINATO, 2004).
Krieger e Finato (2004, p. 43) , entretanto, enfatizam que a diferença entre
as especificidades epistemológicas dessas ciências, reside principalmente, em seus
objetos, ou seja, na
[... ] propriedade que possuem as unidades lexicais chamadas de termos de
estruturas lingüísticas que, em sua dualidade significa , denominam e
circunscrevem cognitivamente objetos, processos e conceituações
pertinentes ao universo das ciências, das técnicas e das tecnologias;
enquanto as palavras , realizando o mesmo processo denominativo e
conceitual , recobrem toda a abrangência da realidade cognitiva e referencial
apreendida e construída pelo homem.

A Lexicologia, ainda segundo Krieger e Finato (2004, p. 45), "[... ] se ocupa
de aspectos formais e semânticos das unidades lexicais de uma língua [... l", isto é,
dos aspectos teóricos que embasam o estudo científico do léxico - a palavra, a
categorização lexical e a estruturação do léxico constituem seus objetos básicos de
análise - tanto do ponto de vista sincrônico como diacrônico. Por conseguinte, cabe
à Lexicologia, entre outras tarefas: definir conjuntos e subconjuntos lexicais;
examinar as relações de conjuntos e subconjuntos lexicais; examinar as relações do
léxico de uma língua com o universo natural, social e cultural ; conceituar e delimitar
a unidade lexical de base - a lexia; abordar a palavra como instrumento de
construção e detecção de uma "visão de mundo", de uma ideologia, de um sistema
de valores, como geradora e reflexo de sistemas culturais (BARBOSA, 1995).
Definida por Krieger e Finato (2004, p. 47), como "[ .. .] arte ou técnica de
compor dicionários [.. .]", a lexicografia, por sua vez, está voltada para as seguintes
frentes de estudos: a prática lexicográfica (estudos teóricos do dicionário); e a
técnica de elaboração dos dicionários (compilação, classificação , recuperação,
análise e processamento) de suas unidades lexicais com vistas a explicá-Ias por
meio de uma metalinguagem definitória.
No entender ainda das autoras, o aprimoramento do fazer lexicográfico é
pautado no paradigma teórico-metodológico tanto na perspectiva semântica assim
como no funcionamento morfossintático do léxico
[... ] não apenas confere a Lexicografia um caráter descritivo, como é uma
das importantes tarefas de uma efetiva teoria lexicográfica autônoma , vale
dizer, aquela que define seu objeto, postula princípios e descreve os
problemas e métodos envolvidos nas aplicações lexicográficas (KRIEGER;
FINATO, 2004, p. 48).

Ao compilar um imenso conjunto das palavras de uma língua, analisando
em primeiro plano , a frequência e os usos dos itens lexicais, a Lexicografia deixa

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evidente sua natureza semasiológica, partindo da forma (Iexema) para o conteúdo,
ou seja , a busca dos sentidos orienta-se do significante ao significado .
A Terminologia , compreendida como o léxico dos saberes técnicos e
científicos como dizem Krieger e Finato (2004 , p. 26) se ocupa do estudo do termo,
fraseologia e definição dos conceitos inerentes às diversas áreas de especialidade .
Cabe-lhe, portanto, o estudo das relações de significação (denominação e noção) do
signo terminológico . Entre os objetivos da terminologia destacam-se a produção e
difusão de dicionários, glossários, vocabulários e bancos terminológicos. Todos
esses produtos reúnem o conjunto de termos de uma área especializada, ou seja,
terminologia específica de um domínio.
No que diz respeito aos objetivos, a Terminologia estuda os termos a fim
de estabelecer uma forma de referência, para isso utiliza métodos de busca , seleção
e ordenação de termos de um determinado campo de especialidade com o fim de
normalizar sua forma e conteúdo . A Lexicologia estuda as palavras para explicar a
competência léxica dos falantes, descrevendo não apenas as suas várias acepções,
mas também seus exemplos de uso.
De acordo com Cabré (1993; 1999), a Lexicologia concentra-se na análise
e na descrição da competência do falante, partindo, portanto, do princípio que todo
falante conhece : (i) uma lista de palavras que lhe permite trocar informações com
outros falantes da mesma língua; (i i) um conjunto de regras de formação de
palavras; (iii) um conjunto de dados lingüísticos e enciclopédicos de cada palavra .
Tal conhecimento é que torna possível a adequação das palavras às situações de
comunicação correspondentes. Desse ângulo, a lexicologia descreve o
conhecimento lingüístico de um falante sob a perspectiva do universo léxico, isto é, o
conjunto total das palavras que o falante de uma língua conhece e utiliza nas
variadas situações.
Não obstante a clareza das explicações acima, é pertinente lembrar que
nos trabalhos lexiográficos e terminológicos, apesar dos objetivos bem demarcados,
que visam a sua distinção imediata, nem sempre essa distinção fica muito clara , pois
os dicionários de língua, de certa forma, exercem um caráter prescritivo,
notadamente do ponto de vista ortográfico bem como morfológico. De outro lado, os
dicionários, vocabulários e glossários terminológicos podem apresentar variantes
denominativas de um mesmo conceito com indicação de uso, de forma que, às
vezes, esses tipos de trabalhos também podem assumir características descritivas.
Nessa perspectiva, os aspectos pragmáticos, são verdadeiramente os
que melhor diferenciam os termos das palavras , é o que sintetizam Krieger e Finato
(2004, p. 133):
[... ] as circunstâncias que determinam um recorte de uma realidade e de um
vocabulário, o tipo de destinatário da obra e as condições de comunicação
são os principais fatores a considerar quando se estabelece a nomenclatura
de um dicionário terminológico.

De acordo com o princípio comunicativo das linguagens especializadas
preconizado pela Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT) , uma unidade lexical
pode assumir o caráter de termo em função de seu uso em um contexto e situação
determinados (KRIEGER; FINATO, 2004, p. 35) . E acrescentam :

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[ ... ] O conteúdo de um termo não é fixo, mas relativo, variando conforme o
cenário comunicativo em que se inscreve. Tais proposições levam a TCT a
postular que a priori não há termos, nem palavras, mas somente unidades
lexicais, tendo em vista que estas adquirem estatuto terminológico no
âmbito das comunicações especializadas.

As palavras da língua comum
por meio do processo de
terminologização - sofrem uma ressignificação e adquirem o estatuto de termo de
um determinado ramo do conhecimento.
Ainda segundo a perspectiva da TCT mais do que elementos naturais dos
sistemas lingüísticos, um termo é um elemento da linguagem em funcionamento,
dada a sua presença em textos e em discursos especializados. É, por assim dizer,
''[. 00] itens lexicais que não se distinguem da palavra do ponto de vista de seu
funcionamento" (KRIEGER; FINATO, 2004, p. 78 - 79) .
Dessa forma , o termo como lembram Krieger e Finato (2004, p. 80):
Compreende tanto uma vertente conceitual , expressando conhecimento e
fundamentos dos saberes, quanto uma face linguística, determinando sua
naturalidade e integração aos sistemas lingüísticos, além dos aspectos que
se agregam a suas funcionalidades comunicacionais básicas: fixar e
favorecer a transferência de conhecimento.

Da ampla gama de estudos e modelos teóricos e práticos que foram
consolidando as ciências da palavra (do léxico) ao longo de sua história, convém
dizer que não há neste estudo, o propósito de fazer uma incursão teórica sobre tais
ciências, para, assim expor a distinção entre seus objetos de estudos: termo e
palavra . Objetiva-se tão somente caracterizar tais objetos, com vista a uma melhor
compreensão, análise e descrição das unidades lexicais que revestem os conceitos
ancorados em ontologias.
A propósito das distinções entre termo, palavra e unidade lexical , Barbosa
(1995, p. 24), informa que de acordo com o tipo de obra, a língua, apresenta
diferentes unidades - padrão e níveis de atualização:
O dicionário de língua, por exemplo, tende a reunir o universo dos
lexemas/itens lexicais da língua geral com suas diferentes acepções; os
vocabulários técnico-científicos e especializados por sua vez, situam-se no nível de
uma norma linguística e sócio-cultural, processam termos representativos dessa
norma; o glossário, cuja unidade padrão é a palavra, resulta do levantamento das
palavras-ocorrência e de suas acepções em um texto. O quadro 1, sintetiza essa
reflexão.
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Níveis de
atualização
Sistema

Unidades-padrão

Tipos de obra

Lexema

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Norma(s)

Termo

Vocabulário

Falar

Palavra

Glossário

Fonte: Barbosa (1995, p. 24)

A título de ilustração das diferenças das unidades-padrão, o exemplo que
segue com a unidade lexical miolo pertencente ao universo do Bumba-meu-boi
como forma de expressão do patrimônio cultural imaterial do Maranhão, evidencia
essa atualização:
a) Nível do sistema (Iexema)
"Miolo (o) subst.masc. 1. A parte inferior do pão, de alguns frutos, etc.
2. Popular
cérebro, a massa encefálica . 3. Popular Medula (1) ou
tutano. 4 Figurado A parte essencial , fundamental. 5. Popular
Inteligência, juízo. 6.
conjunto das páginas de uma publicação
impressa, enfeixado pela capa . [Plural : miolos(o) . De miolo mole.
PopularAmalucado" (FERREIRA, 2004, p. 590) .
b) Nivel da norma (termo) - DCPCSLI Bumba-meu-boi
Ex.: "Miolo s.m. Homem que fica sob a armação do boi para dar
movimentos à alegoria (CARVALHO, 1995, p. 192).
c) Nivel da fala (palavra);
Ex.: "A parte interior de qualquer coisa : o miolo do livro" .
Como se pode observar, cumpre reiterar que miolo, enquanto lexema,
possui um conjunto semêmico variado que possibilita sua atualização em vários
contextos diferentes, configurando-se polissêmico . Entretanto, essa mesma unidade
lexical, considerada nos textos/discursos do Bumba-meu-boi do Maranhão, deve ser
analisada como termo monossêmico, que aqui neste estudo denominamos unidade
lexical ou unidade léxica, uma vez que seu emprego se dá em um contexto
específico, caracterizando-se como uma marca daquele domínio de especialidade.
Ademais, Miolo, enquanto termo, apresenta traços conceituais distintos dos
observados no dicionário de língua. Isto se deve ao recorte cultural feito pelo
domínio de especialidade, o que resulta na especialização do termo. A esse respeito
Krieger e Fianto (2004 , p. 79), dizem "[ ... ] as palavras da língua comum - por meio
do processo de terminologização - sofrem uma ressignificação e adquirem o
estatuto de termo de um determinado ramo do conhecimento".
Enquanto palavra, miolo permite apenas a atualização da acepção 1 do
dicionário da língua.
Nesse contexto, Andrade (1999 , p. 9) observa que:

°

°

É portanto, o uso consensual dos falantes que normaliza o emprego das
virtual idades do sistema . Por outro lado, cada grupo de falantes, segundo
suas necessidades, retira do léxico geral da língua os elementos de que
necessita para elaborar o que se poderia chamar de sub-léxicos ou léxicos
das línguas de especialidades.

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Caracterizando a relação Léxico - Ontologia

Conforme aludido anteriormente, as ontologias definem-se como
especificações de estruturas de conceitos que caracterizam domínios do
conhecimento ou da experiência, incluindo, entre seus construtos, um vocabulário
descritivo para a definição de classes/subclasses, de relações e de funções, ou seja,
é uma estrutura que pode ser utilizada para descrever o significado das unidades
lexicais em contextos específicos. O léxico por sua vez, pode ser concebido como
uma estrutura constituída de unidades léxicas e por relações de natureza semântica
entre essas unidades.
Pode-se notar que a relação entre léxico e ontologia se estabelece pelo
fato de que ambos os constructos manipulam conceitos, posto que:
a) as unidades lexicais associam-se a conceitos;
b) uma ontologia é constituída de conceitos e de relações formais entre
eles;
c) as unidades lexicais estruturam-se no léxico da língua por meio de
relações de sentido (sinonímia , antonímia , hiponímia, etc.), que, como
já se mostrou, são contrapartidas aproximadas de relações lógicoconceituais que se estabelecem entre os conceitos de uma ontologia ;
d) os conceitos estruturam-se na ontologia por meio de relações lógicoconceituais específicas (taxonomia e partonomia) .
Já que as palavras denotam conceitos e estes são os elementos básicos
que estruturam/constituem uma ontologia, questiona-se porque não se utilizam as
palavras da língua para descrever a ontologia . A resposta está na nossa subseção
4.5: a polissemia e a homonímia precisariam ser eliminadas da língua, pois em uma
ontologia não há lugar para esses fenômenos . Questiona-se também como é
possível, a partir de palavras, se construir uma ontologia , pela mesma razão
apontada.
Acrescente-se a esse fato a distinção fundamental entre léxico e
ontologia. Lembramos, com Hirst (2004), que uma ontologia não é um objeto
linguístico, mas uma estrutura formal de representação de um conjunto de
categorias de entidades do mundo e das relações que se estabelecem entre elas. Já
o léxico é um objeto linguístico, é parte de uma língua natural e constitui-se das
unidades mínimas significativas que a compõem . Porém, embora o léxico contenha
as unidades lexicais que representam categorias conceituais, as quais são
representadas na ontologia, há categorias que não são lexicalizadas, dado que uma
língua não comporta todas as categorias, pois ''[. .. ] cada língua exibe lacunas
lexicais em relação a outras línguas" (HIRST, 2004, p. 221). A esse respeito, Hirst
(2004, p. 221) destaca a relação intrínseca entre linguagem, cognição e mundo,
apresentando a tese de que o pensamento está refletido na linguagem (por
extensão , no léxico), que se estrutura a partir de processo de cognição . Essa
relação, portanto, deve ser considerada na análise da relação léxic%ntologia , pois
além dos elementos denotativos do significado que se referem ao mundo, os
sentidos das unidades lexicais também têm conotação, vinculada, por sua vez, ao
contexto atitudinal de quem a utiliza. Esse fenômeno é sublinhado na seção 5, em
que se apresentam os tipos de significado.

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Como concepção final , Hirst (2004, p. 22) diz que a fragilidade na
distinção entre esses dois construtos teóricos (léxico e ontologia) em nada deve
impedir que um auxilie na elaboração e/ou desenvolvimento do outro, pois "[00'] um
léxico com organização hierárquica em muito pode auxiliar na construção de
ontologia, da mesma forma que uma ontologia pode servir de base para a
construção de um léxico". Acrescenta ainda o autor, que a ontologia pode auxiliar na
interpretação dos significados dos itens lexicais, uma vez que tem o papel de
espelhar os conceitos (de um dado domínio) do mundo. E onde há uma ontologia,
consequentemente, há uma estrutura conceitual por ela estruturado
Entretanto, numa ontologia, ao invés de se utilizarem palavras, podemos
utilizar ULs, ou seja, formas monossêmicas ou artificialmente "monossemizadas" da
língua. Assim, é possível utilizarem-se ULs para se descrever conceitos de uma
ontologia , já que, por definição, o sentido de uma unidade lexical associa-se a um
conceito específico e determinado.
Pode-se, assim, depreender que o imbrincamento entre léxico e ontologia
passa pela compreensão de que o primeiro - o léxico - trata de um aspecto
eminentemente da língua, da significação de uma unidade lexical, enfim do aspecto
semântico; a segunda - a ontologia - trata da interpretação e à representação dessa
unidade lexical em um domínio do conhecimento humano.
Por isso é que se pode dizer que há uma aproximação desses dois
construtos: os tipos de relações, ou seja, as relações lógico-conceituais que se
estabelecem numa ontologia podem ser também observadas de modo particular nas
relações léxico-semânticas que se estabelecem entre as unidades do léxico, a
exemplo da partonomía, nas línguas, poder manifestar-se na meronímia. Daí , como
argumenta Hirst (2004, tradução nossa), ser possível a construção de ontologias a
partir da investigação das relações que se estabelecem entre os itens lexicais de
uma língua natural.
Para ilustrar a correlação entre léxico e ontologia, o quadro 2, valendo-se
de informação estruturada nas redes WordNet e FrameNet,
apresenta uma
amostragem das correlações estruturais e semântico-conceituais que se pode
estabelecer entre os conceitos(ontologia) do domínio patrimônio cultural e as
unidades lexicais (léxico) que os lexicalizam no português e no inglês. Nesse
quadro, depreende-se, por exemplo, que o conceito IGREJA, caracteriza-se como
um artefato, lexicaliza-se nos substantivos "church " e "church building" (no inglês) e
"igreja", "santuário" e "templo" (no português) e evoca o frame semântico Building.
Quadro 2: Exemplificação de correlações estruturais e semântico-conceituais entre
conceitos (ontologia) e unidades lexicais (léxico)
WordNet
Conceitos da
Ontologia

IGREJA

FrameNet

Conceitos
Lexicalizados
(WordNet.Pr)

Conceitos
Lexicalizados
(WordNet.Br)

Tipo
Semântico

Frame
Semântico

Tipo
Semântico

{church , church
building}

{igreja,
santuário,
templo}

&lt;noun .
artifact&gt;

Buildings

Artifact

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{forest,
woodland ,
timberland,
timber}

{bosque,
floresta ,
selva}

{celebration,
festivity}

&lt;noun.object
&gt;

Biologicaarea

{festa,
festejo,
festividade}

&lt;noun. act&gt;

Social-event

{memorial ,
monument}

{monumento}

&lt;noun .
artifact&gt;

Createphysicalartwork

Sentient

ARTESÃO

{craftsman,
crafter}

{artesão,
artífice, artista}

&lt;noun .perso
n&gt;

Createphysicalartwork

Sentient

PARQUE

{park, parkland}

{parque}

&lt;noun .
location&gt;

Locale-byuse

Location

FLORESTA

FESTIVIDADE

MONUMENTO

.

mata,

Location

-

-

Fonte: Concelçao (2011, p. 68) .

As relações e constructos até aqui abordadas possibilitam o estabelecimento
de uma estruturação das unidades lexicais e conceitos por elas lexicalizados em
termos de estruturas e relações gerais, ou seja, em temos de campos
lexicais/semânticos, de conexões entre unidades léxicas e conceitos e de
relações entre unidades léxicas.

4 Resultados Parciais/Finais
Para se apreciar relações mais específicas que se estabelecem no núcleo
de significação de uma unidade léxica , conta-se, hoje, com contribuições da Teoria
do Léxico Gerativo (TLG), modelo proposto por Pustejvosky (1995), em particular,
com o construto "Estrutura Oualia (do inglês Oualia Structure). Na TLG, propõe-se
que a Estrutura Oualia deve descrever estes quatro papéis que caracterizam os
aspectos relacionais do significado de uma unidade léxica (PUSTEJOVSKY, 1995,
p. 85-86):
a) papel formal - que permite distinguir o objeto denotado pela unidade
léxica dentro de um domínio maior: i. Orientação, ii. Magnitude, iii.
Forma, iv. Dimensionalidade, v. Cor, vi. Posição;
b) O papel constitutivo (ou de partes constituintes) - que permite
estabelecer a relação entre o objeto denotado pela unidade léxica e os
seus constituintes (suas partes próprias): i. Material, ii. Peso, iii. Partes
e elementos componentes;
c) O papel télico - que permite descrever o propósito e a função do
objeto denotado pela unidade léxica: i. Propósito que um agente tem ao

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�Organização do conhecimento: indexação, catalogação, tesauros , ontologias, taxonomias,
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realizar uma ação, ii. Função integrada ou objetivo que especifica
certas atividades;
d) O papel agentivo - que permite descrever os fatores envolvidos na
origem ou na 'causa' do objeto denotado pela unidade léxica: i. Criador,
ii. Artefato, iii. Classe natural, iv. Cadeia causal.
Com essa possibilidade de estruturação sistemática do significado
contextual mínimo da unidade léxica, reunimos mais esse instrumental descritivo
para melhor descrever as relações que estruturam os elementos constitutivos de um
ontoléxico, como ilustra o quadro 3, em que se apresenta uma descrição parcial e
ilustrativa dos papéis quale que podem ser propostos para as unidades léxicas
"azulejo", "bumba- meu- boi", "igreja", "festividade" e "praia".
. - I'1 ust rarIva de papeis qua e que se associam a Uni'dades I"eXlcas
'
Q ua d ro 3 Oescnçao
Estrutura Qualia
Unida
(papéis quale)
des lexicais
Formal
Constitutivo
Télico
Agentivo
[ornamentar,
revesti r,... ]

[artefato]

[entreter,... ]

[manifestação
cultural]

[orar, reunir,... ]

[artefato]

[música,fato, ... ]

[entreter,... ]

[manifestação
cultural]

[mar, areia,.. .]

[entreter,.. .]

[configuração
natural]

"azulejo"

[objeto, ... ]

[cerâmica, ... ]

"bumba-meuboi"

[ritual, ... ]

[ator,
música ...]

adorno ,

"igreja"

[edificação]

[nave,
altar, .. .]

pórtico,

"festividade"

[comemoração,.
.. ]

"praia"

[acidente
geográfico,...]

. Fonte: Concelçao
(2011 , p. 80) .

A partir das informações do quadro 3 é possível inferir, por exemplo, que
azulejo é um objeto, artefato, constituído por cerâmica e que tem como função
revestir e ornamentar ambientes. o sentido das expressões linguísticas constrói-se a
partir de relacionamentos léxicos que efetivam conexões de sentidos (inclusão,
equivalência e oposição), principalmente, de parte-todo e de oposição, espelhando,
assim , relações que se constroem no domínio cognitivo
Recorde-se que, num domínio recoberto por unidades léxicas, as relações
que se estabelecem entre elas podem ser sistematizados na dimensão
paradigmática, como enfatizam, Hirst (2004) e Lôbner (2002). Dentre elas, estão as
relações de inclusão, equivalência e oposição. No caso da inclusão, as relações
hierárquicas de destaque são a hiperonímia, e a sua inversa hiponímia, e a
meronímia, e a sua inversa holonímia.

5

Considerações Parciais/Finais

1007

�Organização do conhecimento: indexação, catalogação, tesauros , ontologias, taxonomias,
padrões e protocolos (Z39 .5, XML, etc.) e demais temas relacionados
Trabalho completo

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~ HIooNIdc
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lIi"'ul"tiriG

Com base nos pressupostos teórico-metodológicos dos estudos do Léxico
e de Ontologias aqui empregados, possibilitaram esboçar algumas observações
conclusivas, seja do ponto de vista teórico, seja do ponto de vista prático.
Como foi discutido, o significado de uma unidade lexical é determinado
pela relação que se estabelece entre as demais unidades lexicais dentro de um
mesmo campo, ou seja , a afinidade semântica entre tais unidades, permite a sua
inserção em um determinado domínio. Em uma estruturação ontológica, esse
aspecto é determinante para validar sua consistência ou não, pois a inserção de um
conceito que não tenha relação quer de subordinação ou de outro tipo) com o
domínio, revela falha na sua estruturação.
imbrincamento entre léxico e ontologia passa, portanto, pela
compreensão de que o primeiro - o léxico - trata de um aspecto eminentemente da
língua, da significação de uma unidade lexical, enfim do aspecto semântico; a
segunda - a ontologia - trata da interpretação e à representação dessa unidade
lexical em um domínio do conhecimento humano.
Na busca de compreender e distinguir a relação entre léxico e ontologia, o
conhecimento de constructos assim como o acesso à informações léxico-conceituais
já estruturadas(a exemplo da rede Word Net), são de fundamental importância para
caracterizar tal relacionamento, o que exige aprofundamento destes e a investigação
de outros aspectos relacionados à temática em estudo .

°

6

Referências

BARBOSA, Maria. Contribuição ao estudo de aspectos da tipologia de obras
lexicográficas. Revista Brasileira de Linguística da SBPL. São Paulo, v. 8, n. 1, p.
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São Luís, 5 ju1.1995. Alternativo, p.3
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cultural de São Luis do Maranhão, 2011 , 235f. Tese (Doutorado em Linguística e
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1008

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Organização do conhecimento: indexação, catalogação, tesauros , ontologias, taxonomias,
padrões e protocolos (Z39.5, XML, etc.) e demais temas relacionados
Trabalho completo

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1009

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                <text>Tema: A biblioteca universitária como laboratório na sociedade da informação.</text>
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    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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              <text>Estudo de natureza analítico-descritiva que tem como objetivo identificar e analisar os fundamentos linguisticos, relevantes para o estudo das formas lexicais e da sua relação com sentidos e conceitos ancorados em ontologias. Destaca-se os três ramos do saber que ocupam-se dos estudos do léxico: a Lexicologia, a Lexicografia e a Terminologia, que, embora complementares, possuem objetos de estudos, metodologia e pressupostos teóricos distintos.Afirma-se que o conhecimento ontológico diz respeito aos conceitos que estruturam um domínio do conhecimento ou da experiência e o conhecimento lexical diz respeito à parte desse conhecimento que é “lexicalmente revestida”, ou seja, linguisticamente representada por unidades do léxico.Exemplifica-se a relação léxico-ontologia por meio de informação estruturada nas redes WordNet e FrameNet, apresentando uma amostragem das correlações estruturais e semântico-conceituais que se pode estabelecer entre os conceitos(ontologia) e as unidades lexicais (léxico) que os lexicalizam no português e no inglês. Aponta a contribuição da Teoria do Léxico Gerativo (TLG), modelo proposto por Pustejvosky (1995), especificamente do construto “Estrutura Qualia (do inglês Qualia Structure), para a descrição de quatro papéis que caracterizam os aspectos relacionais do significado de uma unidade léxica: O papel formal; o papel constitutivo (ou de partes constituintes); o papel télico e o papel agentivo. </text>
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