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                  <text>PROPOSTA DE CURSO A DISTÂNCIA DE CAPACITAÇÃO DO
PROFISSIONAL BIBLIOTECÁRIO PARA LEITURA
DOCUMENTÁRIA EFICAZ

Walter Moreira
Faculdades Integradas Teresa D’Ávila – Fatea
Faculdade de Biblioteconomia
Av. Peixoto de Castro, 539
12606-580 – Lorena – SP – Brasil
wmoreira@fatea.br

Cristina Aparecida Lino de Paiva
Faculdades Integradas Teresa D’Ávila – Fatea
Faculdade de Biblioteconomia
Av. Peixoto de Castro, 539
12606-580 – Lorena – SP – Brasil
cristina_lino@uol.com.br

Luciana de Sousa Baptista
Comando Geral de Tecnologia Aeroespacial
Instituto de Aeronáutica e Espaço
Divisão de Materiais
Praça Marechal Eduardo Gomes, 50
12228-904 – São José dos Campos – SP - Brasil
lucianabap@yahoo.com.br

�1 – INTRODUÇÃO
Mais do que a leitura em si mesma, não adjetivada, a leitura proficiente tornou-se
hoje uma espécie de ferramenta interdisciplinar. Em função da crescente massa
documental exige-se leitura eficaz nas mais diversas profissões como condição para
obtenção de sucesso. Outro fator consideravelmente importante neste processo é o
tempo: dispõe-se cada vez mais de menos tempo para cumprir os tais níveis de
leitura necessários à plena compreensão do texto, conhecidos de todos os
interessados pelo assunto.
O bibliotecário, evidentemente, está nesse rol de profissionais dependentes de boa
leitura para o pleno exercício da profissão. Precisa, portanto, investir esforços numa
formação que se prolongue sem interrupções. Como a educação a distância (EAD)
tem se mostrado uma alternativa viável para ações de capacitação, apresenta-se
aqui uma proposta de curso que visa a oferecer a este profissional insumos teóricos
e práticos para a produção eficaz de leitura documentária.
A facilidade de acesso a diversos tipos de textos e a possibilidade de formação de
turmas heterogêneas são algumas das características positivas para o oferecimento
de cursos via internet.
Com o fim de oferecer subsídios teórico-práticos que favoreçam a leitura para fins
documentários, apresenta-se neste trabalho uma proposta de um curso de
capacitação para a leitura documentária com fins de indexação que contemplem
este conhecimento acumulado pelas teorias da leitura.

2 – CONCEPÇÕES DE LEITURA
O aspecto criativo, em contraposição à atitude passiva, regula o pensamento
moderno sobre leitura e tem sido reforçado por alguns teóricos, entre os quais Smith
(1989), para quem a leitura é essencialmente construção, criação estimulada pela
leitura da palavra escrita e Solé (1998) que defende seu ensino a partir de uma
perspectiva construtivista.

2

�Nesta concepção não se permite mais enxergar o leitor como mero receptor de
mensagens, mais sim como sujeito que interage com o texto durante o processo de
leitura. Ao ler um texto, o leitor tem um papel ativo na reconstrução do seu conteúdo,
o que faz com que ele se torne um produtor de sentidos baseado nas suas
experiências prévias (memórias de leitura), seus conhecimentos teóricos, sua visão
de mundo, correntes filosóficas, valores e crenças. Em outros termos, a detecção
consciente do conhecimento acumulado pelo leitor pode ser utilizado de forma próativa para melhorar sua compreensão do texto.
Do ponto de vista de sua funcionalidade pode-se dizer que a leitura é um processo
comunicativo no qual o conhecimento prévio do leitor funde-se ao conhecimento
novo que o autor quer transmitir, construindo assim, um novo texto. Esta relação
compõe-se de um sujeito leitor, que interage com um texto impregnado de sentidos,
escrito por outro sujeito, este autor, também produtor de sentidos.
Na condição de principal ferramenta de acesso aos bens culturais necessários ao
crescimento em nível individual e social, a leitura tem sido estudada profundamente
em diversas áreas do conhecimento. No que diz respeito à aplicação de
pressupostos teóricos à leitura para fins de produção de informação documentária
ainda há carência teórico-metodológica. Embora seja verdade que haja problemas
deste tipo também em outras áreas, preocupa-se aqui com o baixo número de
teóricos dedicados ao assunto no Brasil. Em consulta1 ao Diretório dos Grupos de
Pesquisa no Brasil, mantido pelo CNPq, verificou-se que apenas treze grupos
atendiam à estratégia de busca proposta que teve como termo leitura e como
delimitadores a grande área Ciências Sociais Aplicadas e a área Ciência da
Informação. Numa análise mais cuidadosa, foi possível verificar que apenas dois
desses grupos desenvolvem linha de pesquisa em análise documentária, quais
sejam os grupos Análise Documentária, da Unesp, e o grupo Temma, da USP.
Embora a área possa se valer em muitos casos dos avanços registrados nas demais
disciplinas é preciso pensar sobre alguns aspectos que lhe são particulares.

1

Consulta realizada em 27 jul. 2006

3

�Normalmente classifica-se a leitura, do ponto de vista de sua aplicação, por
exemplo, numa tipologia que compreende o lazer, o estudo e a aquisição de
conhecimentos. A leitura documentária não se insere exatamente em nenhuma das
três categorias.

2.1 – A leitura documentária
Em busca dos fatores intervenientes no processo de leitura para fins documentários
é preciso considerar com Fujita (2003b, p. 69) a subjetividade que o caracteriza e
adotar a perspectiva do interacionismo como proposta metodológica para
compreendê-lo em função de três variáveis: leitor, texto e contexto. O
leitor/indexador é, na sua acepção, a variável mais influente nessa equação porque
condiciona a leitura a sua cognição.
Anteriormente Kato (apud CINTRA, 1989, p. 30), apontou, utilizando outra
terminologia, alguns elementos que integram a leitura, quais sejam: a) qualidade do
texto; b) conhecimento prévio do leitor e c) tipo de estratégias que o texto exige.
Dessas três variáveis, apenas a primeira independe do indexador/leitor.
Todo autor escreve para um público leitor determinado, e usa de todos os meios
possíveis para que o leitor consiga compreendê-lo. O leitor, por sua vez, quer
compreender a informação que o autor quer lhe transmitir e se esforça para isso.
Adler e Van Doren (1990, p. 17) também compreendem o processo dessa forma,
pois entendem que não interessa para o escritor não ser apreendido, nem o leitor
deseja isso, por esta razão suas habilidades convergem para o mesmo fim. Cintra
(1989, p.30-31) enxerga neste quadro um fator complicador: na leitura para fins
documentários, não existe o princípio de cooperação autor/leitor, o qual dá conta de
uma intencionalidade tanto do autor quanto do leitor de estabelecerem um diálogo,
de se fazerem entender. O autor não prevê o documentalista como leitor.
Durante a leitura documentária, o indexador faz uso de uma metodologia (estratégia
de leitura e utilização de esquemas) que subordina a sua leitura aos interesses da
instituição e, sobretudo, aos interesses do usuário. Essa leitura corresponde à fase
inicial do processo de análise documentária e diferencia-se da leitura comum por ter

4

�como finalidade a elaboração de índices de assuntos e de resumos. O leitor
indexador lê/analisa para que outros possam encontrar/ler um determinado
documento. Ao mesmo tempo melhora as condições de produção de sua leitura
profissional acumulando novos conhecimentos, embora não se considere esta
explicitamente como sua finalidade, como apontado acima.

2.2 – A leitura do bibliotecário indexador
Em processos de indexação a leitura documentária é realizada por um indexador
que tanto pode ser um bibliotecário quanto um especialista da área de assunto com
a qual trabalha. Esta proposta tem como foco o bibliotecário indexador.
Enquanto indexador, o bibliotecário é também um leitor com objetivos profissionais
definidos, valendo-se de estratégias de leitura, de modo a facilitar a compreensão do
texto analisado.
Além de suas estratégias próprias, como afirma Fujita (2003a, p. 89), um leitor
profissional possui conhecimento prévio profissional, o qual não deve ser confundido
com conhecimento específico de uma área ou assunto, que o caracterizaria como
um especialista.
Cabe ressaltar a diferença de estratégias utilizadas pelo indexador especialista e
pelo indexador bibliotecário. O primeiro, por atuar na área, pode possuir um
conhecimento profundo da mesma, o que facilita o uso de estratégias cognitivas, já o
indexador bibliotecário utiliza grande quantidade de estratégias metacognitivas, que
envolvem estruturas textuais e esquemas de leitura.
O leitor–indexador praticamente apresenta características distintas do leitor comum,
uma vez que a ele não compete criticar e nem avaliar as informações dos textos,
seus objetivos (idealmente) são: a identificação e a extração de informações.
Lucas (2000) já denunciou a inadeqüabilidade do discurso que caracteriza a leitura
do bibliotecário como neutra e apolítica por seu aspecto de cientificidade. A
interpretação seria considerada neste “modo de produção” um desvio. Entretanto,
ainda cabe perguntar: é possível uma leitura ideologicamente neutra? O que dizer

5

�das características comportamentais do leitor–indexador no momento da leitura para
análise documentária? E dos objetivos e estratégias próprias deste profissional?

2.3 – Existe uma leitura documentária neutra?
Há algumas importantes questões que já foram observadas por outros estudiosos da
leitura para fins documentários e que precisam ainda ser discutidas. A mais
importante delas é, sem dúvida, o fato de que se trata de leitura mediadora, ou seja,
o indexador lê para que outros possam localizar, acessar e ler o documento, não
realiza leitura, portanto, para fins de aquisição de conhecimento em si, ou mesmo
por fruição, mas o faz para fins de representação. Conforme apontado por Kobashi
(1994, p. 110) trata-se de leitura orientada por uma missão bem determinada:
“elaborar produtos que permitam recuperar informação”.
Isso leva o leitor/indexador a comportar-se de modo diferente do chamado leitor
comum. Conforme Hutchins (apud FUJITA, 2003b, p. 80) enquanto o primeiro
procura identificar assuntos familiares para que possa compreender/representar o
texto, o último, ao contrário, visa a encontrar informações novas para ampliar o seu
conhecimento sobre o assunto.
Considera-se eficaz a leitura documentária que busca observar além do assunto de
que trata o documento, as razões pelas quais este documento possa interessar a um
grupo específico e determinado de usuários. Sendo assim, mesmo que se conceda
à leitura documentária o status de neutralidade, a leitura para fins de indexação é
realizada sempre do interior de uma referência institucional, com fins que respondem
aos interesses da instituição (LUCAS, 2000), sempre orientada, como apontado
anteriormente.
Cunha (1989, p. 54) chama de preconceituosa a suposta leitura única e absoluta do
bibliotecário, assim como a existência de palavras-chave e indexadores neutros. O
próprio processo de escolha dos conceitos/termos é ideologizado. Assim também
pensa Lucas (2000, p. 76), para quem a leitura do bibliotecário nunca é neutra, pois
“não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia, sendo o sujeito cultural
e historicamente constituído”.

6

�Exigir do leitor/indexador que este se atenha somente ao conteúdo do próprio texto
equivale a esperar que se estabeleça a mesma relação que era esperada dos
leitores medievais da Sagrada Escritura: a proibição de interpretação, de reescritura
(LUCAS, 2000). Isto posto não se trata aqui de reforçar como necessária ou mesmo
de negar a interferência da subjetividade no processo, mas de reconhecê-la no seu
interior com o fim de adequar a proposta de capacitação à realidade e associar
teorias e práticas concorrentes para esse fim.

3 – ESTRATÉGIAS DE LEITURA
O uso de estratégias de leitura pode efetivamente auxiliar o leitor-indexador no
desempenho de sua atividade. Assim como o leitor comum, este leitor emprega
diferentes modalidades de conhecimento (prévio, tácito e explícito), estratégias
(cognitivas e metacognitivas, de nível perceptual e conceitual e estratégias de
inferência). É preciso identificá-las para que possam ser utilizadas de forma profícua.

3.1 – Conhecimento prévio, tácito e explícito
O conhecimento prévio, em processos de leitura, refere-se à utilização de
informações adquiridas pelo leitor em suas vivências e constitui-se de experiências
pessoais e profissionais. Portanto, o leitor deve construir um processo de
interpretação, munido de sua bagagem cultural possibilitando inferências e o
preenchimento das lacunas deixadas pelo autor. Para Cintra (1989, p. 29) o
conhecimento prévio refere-se “ao estoque de conhecimento armazenado na
memória do leitor, que se configura como uma espécie de ‘quadro de referência’
formado por uma rede multidimensional de unidades conceituais”. É este quadro de
referência que permite ao leitor avaliar/organizar a informação que recebe.
O conhecimento de estruturas e de gêneros textuais pode igualmente facilitar. Na
prática profissional o indexador depara-se com textos em diversos níveis, e para
contornar situações como, por exemplo, a má estrutura textual do texto lido, ele faz
uso desse conhecimento armazenado, o que lhe permite fazer interferências que
facilitem a compreensão de leitura.

7

�A subárea da Organização e Representação da Informação tem se valido muito
fortemente dos estudos da Lingüística Textual como suporte para melhoria dos
processos de leitura documentária. Há várias referências a autores deste domínio
nos trabalhos dos integrantes dos grupos de pesquisa sobre leitura documentária
citados acima.
Em contraposição ao explícito, que é o conhecimento passível de ser transmitido
formal e sistematicamente através da linguagem e de instruções, o conhecimento
tácito é entendido como sendo o conhecimento em que não somos capazes de
formular regras. A idéia de conhecimento tácito não está restrita apenas a
habilidades motoras, técnicas, ou corporais, mas também a elementos cognitivos.
Estes elementos cognitivos do conhecimento tácito referem-se a modelos mentais,
tais como esquemas, paradigmas, perspectivas, crenças e pontos de vistas através
dos quais os indivíduos percebem e definem o seu mundo.
No processo de indexação este conhecimento tácito aparece com o que a linguagem
vulgar chama de macetes, artifícios que o indexador adquiriu com a prática
profissional e, eis o problema, que não constam em nenhum manual de
procedimentos. Já o conhecimento explícito encontra-se disponível nas Linguagens
Documentárias (tesauros, lista de cabeçalhos de assunto, sistemas de classificação)
e também nos manuais de indexação das instituições.
A somatória desses conhecimentos já mencionados constituem fatores importantes
e que influem diretamente na qualidade da indexação.

3.2 – Esquemas/estratégias de leitura
Na busca da compreensão da leitura, o indexador recorre a diversos processos
visando alcançar seus objetivos, dentre os quais as estruturas (esquemas) e
processos (estratégias)..
De acordo com Cintra (1989, p.34):
A escolha das estratégias de leitura além dos esquemas prévios
do leitor depende de outros fatores: a finalidade da leitura, da

8

�experiência do leitor, ou da sua maturidade frente à tarefa de
ler, do tipo de texto lido, da atenção mais concentrada em partes
do texto, do grau de novidade do texto e até mesmo da
motivação de ler.
Retoma-se aqui os tripés autor-texto-contexto (FUJITA, 2003b) e texto-leitorestratégias (KATO apud CINTRA, 1989) com o fim de reforçar o relativo domínio que
o leitor pró-ativo pode ter das variáveis. A única que se lhe escapa a priori,
completamente, é o autor e sua intencionalidade, mas como dito acima, na
intencionalidade do autor não cabe um leitor indexador.
Os esquemas, de modo simplificado, são representações que o indivíduo constrói
para compreender a realidade. O ajuste desses esquemas à leitura se dá a partir de
dois movimentos (estratégias) básicos: ascendente e descendente. No movimento
ascendente (bottom-up), esclarece Kato (1985, p. 40), a leitura se dá na
dependência do contexto escrito, ou seja, o leitor vai extraindo linearmente dos
símbolos impressos o significado, movendo-se das partes para o todo. Já no
movimento top-down (descendente), o leitor se fixa ao seu conhecimento prévio
fazendo generalizações e predições a partir dos esquemas armazenados em sua
memória, movendo-se do todo para as partes e confirmando ou não suas hipóteses
sobre o texto.
É Kato (1985) ainda quem distingue dois tipos de estratégias:
•

cognitivas (comportamentos automáticos e inconscientes) usadas na leitura
fluída sem obstáculos para o leitor. Fazem parte desta estratégia dois
princípios: da canonicidade e da coerência. O primeiro diz respeito à
compreensão ortográfica, sintática e semântica do texto; no segundo o leitor
cria expectativas de coerência global e temática.

•

metacognitivas (supõem comportamentos desautomatizados). O uso de
conhecimento da estrutura textual por parte do leitor faz parte de suas
estratégias metacognitivas e são definidas como sendo aquelas utilizadas

9

�pelo leitor no momento em que o mesmo tem um controle consciente e ativo
de seu comportamento.
As estratégias metacognitivas são, para os propósitos de um curso de capacitação
para leitura documentária, mais importantes que as cognitivas porque podem ser
ensinadas/aprendidas, a experiência pode melhorá-las. Leffa (apud FUJITA, 2003a,
p. 76), reforçando o argumento, apresenta algumas conclusões contundentes sobre
as estratégias metacognitivas:
•

a metacognição desenvolve-se com a idade;

•

a metacognição correlaciona-se com a proficiência em leitura: leitores fluentes
têm mais consciência de seus comportamentos de leitura e possuem maior
flexibilidade para ajustar a leitura a objetivos específicos e

•

o comportamento metacognitivo melhora com a instrução; a eficácia de uma
determinada estratégia depende do objetivo de uma determinada leitura.

Farrow (1991, p. 153) divide as estratégias em perceptual e conceitual. No nível
perceptual são observadas as palavras que apresentam mais letras e palavras não
comuns, além dos efeitos visuais do texto (ilustrações, quadros, palavras em itálico,
etc.) e definições que aparecem no texto. No nível conceitual, o indexador emprega
o conhecimento de estrutura textual para procurar áreas significantes no texto; lê
com atenção os exemplos e faz inferências para ligar proposições. O autor fala
ainda de estratégias de inferência, classificadas, como lógicas (informações obtidas
do próprio texto) e pragmáticas (aquelas relacionadas aos conhecimentos/esquemas
do leitor).
De qualquer modo há que se considerar durante o processo de leitura a identificação
e o uso da estratégia adequada para cada texto. Esta adequabilidade condiciona-se
à qualidade do texto em si, ao conhecimento que o indexador tem do assunto e às
estratégias que pretende conscientemente adotar para sua compreensão com fim de
representação.

10

�4 – EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
O curso que se propõe visa a aproximar teoria e prática relacionadas à leitura para
produção de informação documentária. Entende-se que faltam ambientes de prática
reflexiva. Se fosse possível aprender apenas memorizando seqüências de
informação os periódicos e os livros-texto bastariam, mas, isso já é senso comum,
não se constrói conhecimento dessa forma.
As concepções sobre ensino são agrupadas por Valente (2003, p. 140) em duas
grandes aglutinadoras. Uma refere-se ao ato de “’depositar’ informação no
aprendiz”, a qual se vincula diretamente à memorização e à reprodução e a outra à
construção do conhecimento, na qual é necessário que o aluno processe a
informação, “interagindo com o mundo dos objetos e das pessoas”
Ambas as concepções têm servido à EAD num ou noutro momento, para esta ou
aquela finalidade. No caso da presente proposta, entretanto, que não visa a oferecer
soluções prontas para problemas determinados, a segunda concepção ajusta-se de
forma mais adequada. Não se pretende, mesmo porque seria ingênuo, ensinar (no
sentido usual) ninguém a ler de forma eficaz, mas oferecer um ambiente rico em
interatividade e que favoreça ao aluno/profissional refletir sobre sua própria prática
de leitura para que possa melhorá-la.
Educação a distância é, numa proposição tautológica, apenas uma modalidade de
educação. O que distingue uma educação a distância de uma educação presencial
(a terminologia neste domínio tem sido amplamente discutida) está, nas palavras de
Litwin (2001, p. 13), na “mediatização das relações entre os docentes e os alunos
[...] em espaços e tempos que não compartilham”. Ainda assim é preciso rever a
noção de espaço utilizada por este autor.
Além dos cuidados com o desenho instrucional do curso, exige-se, como condição
de sucesso, estudantes relativamente autônomos, protagonistas de sua própria
aprendizagem. Isso é facilitado pela presença majoritária (no caso do curso em tela,
absoluta), de clientela adulta, possuidora de características distintivas como as
apresentadas por Pretti (2000, p. 18): são autodiretivos, possuem rica experiência e
buscam na aprendizagem uma orientação “mais prática, voltada para necessidades

11

�mais imediatas”. Peters (2001, p. 37) acrescenta ainda que estes estudantes
agregam a vantagem da realização de estudos concomitantemente com o exercício
profissional e o fato de muitos trazerem na bagagem um considerável sucesso na
formação escolar.
Evidentemente não há autonomia que resista a um ambiente virtual desfavorável e
sem a presença segura de um professor-tutor que ofereça condições para que o
estudante a exercite de forma benéfica. O professor tutor deve ter ciência de que na
EAD a espontaneidade que muitas vezes orienta o processo de ensinoaprendizagem presencial é alterada pelo uso de equipamentos e pela distância.
As facilidades promovidas pela internet e o decréscimo de preço dos equipamentos
de informática possibilitou rediscutir os problemas da EAD, mas é necessário
reconhecer suas possibilidade de uso e suas limitações. Willis (2000) organiza as
modalidades de EAD em quatro categorias, as quais vão do uso de instruções via
programas de treinamento ao uso efetivo de hipermídia. Aliás, é isso, a conjunção
de mídias, que torna o computador conectado a internet o instrumento privilegiado
em EAD. É preciso ficar claro, contudo, que o ambiente virtual de aprendizagem não
é uma sala de aula melhorada, não é sua extensão. Trata-se de outro modelo, com
características próprias, com seus próprios problemas e possibilidades de solução.
Outro aspecto importante a considerar é o crescimento da tecnologia informática e o
decréscimo de preço. É preciso considerar também suas limitações: a rápida
mudança tecnológica e a realidade de não ser ainda um equipamento doméstico
como se diz por aí.

5 – PROPOSTA DO CURSO
O curso a distância de capacitação do profissional bibliotecário para uma leitura
eficaz com fins de produção de informação documentária que ora se propõe é
resultado da parceria do Núcleo de Educação a Distância (NEaD) e da Faculdade de
Biblioteconomia, ambos das Faculdades Integradas Teresa D’Ávila (Fatea),
localizadas em Lorena, no Estado de São Paulo.

12

�Utiliza como ambiente virtual de aprendizagem o TelEduc, software desenvolvido
pelo Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Nied) da Unicamp que tem como
ponto forte possuir uma arquitetura que favorece a interatividade e a facilidade de
uso por pessoas não especialistas em computação. A ferramenta Atividades, a mais
rica num curso na modalidade EAD, possibilita a aprendizagem por meio da
resolução de problemas, com subsídios de textos e outros materiais. Outro aspecto
digno de nota são as ferramentas que facilitam a promoção de interação entre os
participantes, as ferramentas de comunicação.
O público-alvo para o presente curso é formado por bibliotecários que realizem
indexação em qualquer nível. O curso prevê seis horas como tempo de estudo
semanal. Totaliza 60 horas totalmente a distância e contempla as agendas indicadas
abaixo. A previsão de início é 5 de fevereiro de 2007, com duração de dez semanas,
contemplando as agendas abaixo relacionadas:
•

Agenda 1 (semana 1) – Socialização . Esclarecimentos de dúvidas sobre o
ambiente e sobre o curso.

•

Agenda 2 (semanas 2 e 3) – Organização e representação da informação
documentária. Discussão sobre o estado da arte desta subárea da Ciência da
Informação. Política de indexação.

•

Agenda 3 (semanas 4 e 5) – Leitura documentária. Busca pelas condições da
leitura de uma forma mais ampla e pela especificidade da leitura
documentária.

•

Agenda 4 (semanas 6 e 7) – Estratégias de leitura. Proposta de técnicas
baseadas na normalização e nos modelos propostos por pesquisadores da
área. Em busca de modelos aplicáveis à realidade do bibliotecário indexador.

•

Agenda 5 (semanas 8 e 9) – Atividades mediadas de leitura. Orientação
exclusiva para a prática reflexiva das estratégias propostas.

•

Agenda 6 (uma semana) – Encerramento. Avaliação do curso.

13

�Cada agenda prevê atividades, material de apoio e leituras específicas necessárias
à compreensão dos conceitos tratados e ao cumprimento dos exercícios propostos,
além de outras atividades assíncronas, como fóruns, e síncronas, como bate-papos,
com o fim de explorar as temáticas. Os textos indicados como leitura são divididos
em duas categorias: leituras obrigatórias e leituras opcionais, sempre disponíveis na
internet em periódicos eletrônicos nacionais.

6 – CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho apresentou uma proposta de curso de capacitação para leitura cujo fim
seja a produção de informações documentárias. A preocupação principal aqui foi
expor as concepções teóricas que fundamentam o curso e delinear seu desenho
instrucional.
Acredita-se que a leitura documentária apresenta níveis de dificuldade específicos e
que um ambiente que promova a troca de informações entre as diferentes técnicas
utilizadas pelos profissionais bibliotecários não formalizadas em manuais de
procedimentos e os suportes teóricos que lhes embasam pode fortalecer a prática
de leitura profissional.
Conforme apontado não se acredita em soluções prontas, não se defende o
engessamento do ato de leitura com soluções que desconsideram os contextos
específicos de cada unidade de informação, de cada comunidade usuária. As
soluções, onde e quando existirem, serão encontradas pelos profissionais
envolvidos na tarefa diuturna de representar a informação.

7 – REFERÊNCIAS
ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. Como ler um livro. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 1990.
CINTRA, Anna Maria M.
Estratégias de leitura em documentação. In: SMIT,
Johanna W. (coord.). Análise documentária: a análise da síntese. 2.ed. Brasília:
IBICT, 1989. p. 29-37.
CUNHA, Isabel M. R. Ferin. Análise Documentária. In: SMIT, Johanna W.
(coord.). Análise documentária: a análise da síntese. 2.ed. Brasília: IBICT, 1989.
p. 40-62.

14

�FARROW, John F. A cognitive process model of document indexing. Journal of
Documentation, v. 47. n. 2, p. 149-166, jun. 1991.
FUJITA, Mariângela S. L. A identificação de conceitos no processo de análise de
assunto para indexação. Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da
Informação, v. 1, n. 1, p. 60-90, jul./dez. 2003b.
Disponível em
&lt;http://server01.bc.unicamp.br/revbib/sumario.php?vol=1&amp;num=1&amp;mes=jul./dez.&amp;edi
t=1&amp;ano=2003&gt; Acesso em 13 jan. 2005.
______. A leitura documentária do indexador: aspectos cognitivos e lingüísticos
influentes na formação do leitor profissional. 2003a. 321f. Tese (Doutorado em
Ciência da Informação) - Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual
Paulista, Marília. 2003.
KATO, M. A. O aprendizado da leitura. São Paulo: Martins Fontes, 1985.
KOBASHI, Nair Yumiko. A elaboração de informações documentárias: em busca
de uma metodologia. 1994. 195f. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) –
Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1994.
LITWIN, Edith. Das tradições à virtualidade. In: ______ (org.). Educação a
distância: temas para o debate de uma nova agenda educativa. Porto Alegre:
Artmed, 2001.
LUCAS, Clarinda R. Leitura e interpretação em Biblioteconomia. Campinas:
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PETERS, Otto. Didática do ensino a distância. São Leopoldo: Unisinos, 2001.
PRETTI, Orestes. Autonomia do aprendiz na educação a distância: significados e
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SMITH, F. Compreendendo a leitura. 3.ed. Porto Alegre: Artmed, 1989.
SOLÉ, Isabel. Estratégias de Leitura. 6.ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.
VALENTE, José Armando. Educação a distância no ensino superior: soluções e
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WILLIS, Barry.
Distance education at a glance.
2000.
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&lt;http://www.uidaho.edu/evo/distglan.html&gt; Acesso em: 27 nov. 2001.

15

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                <text>Biblioteconomia&#13;
Documentação&#13;
Ciência da Informação&#13;
Bibliotecas Universitárias</text>
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    <name>Event</name>
    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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              <text>Este trabalho apresenta uma proposta de curso de capacitação para leitura cujo fim seja a produção de informações documentárias. A preocupação principal aqui foi expor as concepções teóricas que fundamentam o curso e delinear seu desenho instrucional. Acredita-se que a leitura documentária apresenta níveis de dificuldade específicos e que um ambiente que promova a troca de informações entre as diferentes técnicas utilizadas pelos profissionais bibliotecários não formalizadas em manuais de procedimentos e os suportes teóricos que lhes embasam pode fortalecer a prática de leitura profissional.</text>
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