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                  <text>PERSPECTIVAS PRAGMÁTICAS PARA ESTUDO DO USUÁRIO NO
CONTEXTO VIRTUAL
Maria Nélida González de Gomes 1
Luciana de Souza Gracioso 2

Resumo
A mediação eletrônica e virtual de informações expandiu as possibilidades de
acesso a conteúdos e propiciou autonomia ao pesquisador em sua busca
informacional. A amplitude e o dinamismo do espaço on line suscita, entretanto,
que alguns elementos sejam repensados à luz das condições emergentes.
Diante disto problematizamos quem é o usuário da informação disponível
nesse cenário informacional virtual e aberto e questionamos as condições de
desenvolvimento dos estudos de usuário e de recuperação da informação
nesse contexto. Na busca por respostas nos deparamos, na literatura
internacional, com pesquisas sobre o comportamento de busca informacional
(Information seeking) e seguimos os analisando entendendo que tais estudos
possam se configurar como um dos panos de fundo que subsidiariam
Bibliotecas (hoje também digitais, virtuais, livres) em suas pesquisas de
usuário. Ao final indicamos um caminho epistemológico, com bases no
Pragmatismo, como uma via teórica e metodológica para o desenvolvimento de
estudos sobre o comportamento de busca informacional dos usuários junto aos
espaços virtuais abertos e livres de acesso à informação.

Palavras-Chave: Mediação eletrônica da informação. Busca informacional.
Information seeking. Pragmatismo.

1
Pesquisadora Titular PPGCI/IBICT/UFF (Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação. Instituto Brasileiro
de Informação em Ciência e Tecnologia. Universidade Federal Fluminense). E-mail: nelida@ibict.br
2
Doutoranda - PPGCI/IBICT/UFF (Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação. Instituto Brasileiro de
Informação em Ciência e Tecnologia. Universidade Federal Fluminense).
Docente - Departamento de Ciência da Informação da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
E-mail: luciana@power.ufscar.br

�1 Mudança de foco: o sujeito como ponto de partida
No espaço virtual, torna-se necessário reconfigurar e redirecionar as
formas de organização da informação tanto por conta da volubilidade
(quantitativa e qualitativa) de seus conteúdos informacionais como pela
imprevisibilidade sobre quem, como, quando, onde e porque tais conteúdos
serão buscados. Como bem ressalta Martzoukou (2005), os estudos anteriores
a esse momento eram feitos de acordo com as estruturas tradicionais dos
sistemas de informação (que por sua vez eram e ainda são organizados
tematicamente e seus potenciais usuários podem ser reconhecidos e
representados). Ousaríamos dizer que, frente à amplitude de alcance
informacional promovido pela virtualidade, seria impraticável qualquer tentativa
de sistematização temática de conteúdos e principalmente de delimitação e
caracterização de seus potenciais usuários. Como menciona Hjorland (2002),
não temos mais como delimitar as diferentes vozes que darão início ao
processo de recuperação da informação. Martzoukou (2005) inclusive
caracteriza que o usuário da Internet precisa ser visto de maneira oposta aos
dos sistemas de informação institucionalizados. Assim, diferencia que no
contexto da rede, não há Information searching e sim Information seeking e
diante disto se torna necessário analisar condições que estão além das ações
estruturais envolvidas na atividade de pesquisa por informação. Ou ainda,
como refere Brooks (2003) muitas vezes usamos a Web com o intuito de
‘recuperar informação’, mas quando estamos envolvidos com a Web, o
processo é de constantes descobertas e não somente de recuperação.
(BROOKS, 2003, p. 1). Por conta disto, muitas frentes de pesquisa têm sido
desenvolvidas com o intuito de delimitar elementos que auxiliem a Ciência da
informação a pontuar o que pode vir a servir como critério de validação em
relação as pesquisas e as práticas informacionais no contexto virtual. Muitas
linhas teóricas e operacionais têm sido seguidas para compreender essas
condições e, na medida do possível, estrutura-las e embuti-las no espaço da
Web ou mesmo no âmbito dos sistemas de informação disponibilizados pela
rede.
Neste cenário, o desenvolvimento de modelos integrados para busca da
informação que consideram o contexto cultural e social do sujeito “buscador”

2

�ganham força. As bases teóricas destes estudos passam então a considerar,
além dos elementos biológicos e antropológicos, os elementos culturais e
sociais para compreensão do sujeito. (BATES, 2002). O que há de comum nos
trabalhos que têm sido desenvolvidos para tratar dessas implicações, é o
pressuposto de que análises comportamentais de busca informacional são as
que devem ser feitas pela Ciência da informação e não somente o estudo do
usuário em si. Pensamos que os aspectos cognitivos do sujeito devem ser
considerados nessas investigações desde que os entendamos como um
“produto” construído socialmente – comunicacionalmente. Tanto como a
necessidade informacional quanto os critérios sobre a sua relevância são
construídos socialmente. [...] information seeking é uma prática social.
(MARTZOUKOU, 2005, p. 12).
Muitos elementos precisam ser repensados por conta disto, inclusive o
próprio posicionamento da Ciência da informação enquanto uma Ciência social
já que suas investigações e suas práticas são estabelecidas em função do
sujeito social – que vive em sociedade. Esse posicionamento, caracterizado por
Capurro (2003) como paradigma social, amplia o foco desta Ciência em relação
ao sujeito e passa a entendê-lo como membro de um mundo de vida. Somado
a isto, temos a configuração do espaço on line sob o qual não nos parece
possível articular estudos de usuário como até então eram concebidos no
domínio dos sistemas de informação institucionalizados.
Como resposta as essas condições genealógicas e tecnológicas nas
quais a Ciência da informação atualmente se insere, pesquisadores têm
procurado

delimitar

comportamento

de

alguns
busca

conceitos,

critérios

informacional,

de

e
um

métodos
modo

sobre

geral,

o

para

posteriormente poderem, a partir destes elementos, repensar a estrutura e a
configuração de sistemas de informação disponibilizados via Web. Assim
evidencia-se o usuário como ponto de partida condicionante para as reflexão e
ações da Ciência da informação.
Martzoukou (2005) nos reafirma que os estudos de Information seeking,
acabam

por

se

desenvolver

desconsiderando

esta

necessidade

de

homogeneidade no que diz respeito ao comportamento comunicacional dos
sujeitos e com isto inconsistências são mais passíveis de ocorrer na

3

�estruturação dos sistemas de informação. Com o intuito de minimizar tais
inconsistências métodos quantitativos e qualitativos são utilizados, tanto para
quantificar as ações do usuário como para qualificar estas ações a partir de
observações sobre o seu comportamento em relação ao mesmo. De acordo
com a autora é necessário considerar de modo holístico tudo o que está
envolvido no processo de busca da informação – fatores físicos, cognitivos e
afetivos. No entanto, os métodos quantitativos e qualitativos utilizados para se
levantar informações sobre o comportamento de busca informacional acabam
por não contemplar extensivamente os aspectos sociais. Por conta disto
Martzouko (2005) afirma ser urgente que pesquisas futuras considerem um
conjunto de redes teóricas que tratem holisticamente de todos esses
elementos.

2 Information seeking: alguns caminhos
Uma perspectiva de estudo valorosa fora iniciada por B. Dervin (1992)
que discute como se configuraria a necessidade informacional do sujeito
(estudos estes reconhecidos como os de Sense-making) a partir de aspectos
antropológicos. Dervin estipula o trinômio situação-lacuna-uso para representar
o processo de busca e localização ou não da informação. Diante das ações do
sujeito nesse processo, Dervin questiona como o individuo interpreta e
transpõe o momento em que se institui a lacuna em sua busca informacional,
quais estratégias ele usa para solucionar a situação quando ficou diante da
lacuna, como interpreta essa situação e como pensa em resolvê-la, quais as
estratégias, táticas, utiliza para isso e como reinicia sua busca. No Brasil esses
pressupostos são seguidos e desenvolvido por Ferreira [s.d], dentre outros.
Essa perspectiva ajuda a reforçar a função do usuário como condicionante a
organização da informação. No entanto, consideramos que diante desta
perspectiva, são analisadas apenas as implicações individuais relativas ao
processo de busca informacional.
A teoria sense-making é um processo humano criativo de
compreensão do mundo em um ponto particular no tempo e
espaço, limitado pela capacidade psicológica e, ainda, dos

4

�acontecimentos presente, passado e futuro de cada individuo
[grifo meu]. (FERREIRA, [s.d], p.20).

O resultado dessa postura é o desenvolvimento de sistemas de
informação “centrado no usuário”. Diante disto enxergamos que estes estudos
comporiam o cenário do campo de investigação sobre Information seeking por
direcionar o foco do sistema para o individuo, mas defendemos que seja
essencial que este indivíduo seja reconhecido como um “produto” socialmente
“construído”. Diante disto pensamos ser necessário que estudos voltados ao
usuário contemplem estudos de comportamento social. Wense (2001) partindo
da análise dos trabalhos de Wilson (1981), Sugar (1995) e Tuominem (1997)
nos mostra que a abordagem centrada no usuário tem duas vertentes sendo
uma a cognitiva (que intenta identificar como os usuários processam a
informação e, a partir das variáveis identificadas, modelos são desenvolvidos
para representar esse processamento) e outra holística (que considera os
aspectos cognitivos, dos afetivos e comportamentais prescindem ser
considerados). (WENSE, 2001). O autor menciona que os estudos sobre a
abordagem centrada no usuário seguem diferentes bases teóricas. Optamos
aqui em dar destaque há alguns dos estudos que pensamos seguir a
perspectiva holística visto que defendemos ser ela a mais adequada – contudo,
a mais complexa talvez.
O trabalho desenvolvido por Orrico (2002) nos dá uma dimensão de
como os aspectos comportamentais relacionados a comunicação humana
podem ser considerados beneficamente para aperfeiçoar o desenvolvimento de
sistemas de informação. A autora, com base em teorias da Filosofia da
linguagem, pondera que seria oportuno que sistemas de informação utilizem
filtros metafóricos para a entrada da solicitação informacional, visto que assim,
usuários de comunidades especializadas, poderão se utilizar de expressões e
conceitos com os significados que lhe foram atribuídos no seu grupo de
interlocução ou ainda na sua comunidade discursiva. O ponto de partida para
recuperação da informação dependeria potencialmente da formulação de
questões do sujeito frente ao sistema de informação. A partir das estratégias e
do comportamento destes sujeitos para formulação de suas perguntas,
sistemas poderiam ser estruturados. Alguns autores já trabalham com esse

5

�pressuposto e a partir da análise do comportamento de busca informacional do
sujeito, conseguiram mapear algumas etapas comuns a todos eles em relação
a busca.
Alguns dos estudos de Ellis (1993, 1997) são pautados em teorias
naturalistas sobre o comportamento humano para a partir disto ter subsídios
para mapear o comportamento de busca informacional. Na sua pesquisa,
delimita algumas características comportamentais comuns aos buscadores
sendo elas: surveying, encadeamento, monitoramento, browsing, distinção,
filtragem, extração, finalização). Kulthan (1996) também desenvolve pesquisas
sob essa perspectiva, no entanto, se fundamenta em teorias educacionais
construtivistas com o intuito de entender os aspectos afetivos que estão
envolvidos na ação de busca informacional, almejando compreender a maneira
como os conhecimentos são produzidos no sujeito através de processos ativos
e complexos de reconstrução sobre os conhecimentos anteriores. A autora
postula que as etapas comportamentais se separam em: início da tarefa,
escolha do tema, exploração do tema, formulação da questão, coleta de
informação, encerramento da tarefa. Este modelo foi utilizado e discutido por
Campello (2005) intentando, através do desenvolvimento de pesquisa empírica,
observar as habilidades, as atitudes e os conhecimentos relacionados as
diversas etapas de busca.
Turnbull (2001) apresenta alguns modelos, etapas de busca de
conhecimento na Web e conceitua formas de pesquisas possíveis (quando
analisadas individualmente). Discute também as buscas coletivas, por grupos
de usuários sobre informações determinadas mencionando formas de controle
a partir de programações computacionais. Isso porque esclarece que seria
possível convergir as necessidades individuais às necessidades coletivas. Por
isso discute e apresenta duas propostas de organização do conhecimento na
Web pautadas em taxonomias e desenvolve também estudos sobre o
comportamento, das operações dos buscadores utilizados na Web. Ressalta,
por exemplo, a validade de se armazenar o histórico das pesquisas
desenvolvidas pelos usuários para diagnosticar a evolução, as relações dos
processos cognitivos desenvolvidos por ele diante dos conhecimentos que

6

�recuperaria. Em certa medida, sugere que os sistemas se utilizem de filtros de
informação colaborativos (cognitivo, social, econômico e também bibliométrico)
para conseguirem oferecer os conteúdos pertinentes a necessidades
individuais.
Järvelin (2003) procura compreender o comportamento do usuário e
suas estratégias de pesquisa, a partir da análise dos procedimentos de
formulação de questões e hipóteses de busca desenvolvidos por este. Mas
antes de delimitar esses procedimentos, o autor apresenta e discute diferentes
modelos conceituais utilizados na busca de informações, alguns pautados, por
exemplo, na Filosofia da Ciência e categorizados a partir das funções das
teorias científicas. Menciona também a validade de se intercalar modelos.
Destaca, a partir do trabalho de Ellis (1993), tipologias de estratégias de busca
convencionalmente utilizadas por usuários, como fez também Orrico (2001).
Mas a conclusão de Järvelin é a de que o detalhamento da interação das
buscas de informação por um indivíduo está vinculada àquela única atividade
de busca, àquele momento e por isso estabelecer tais critérios são relativos.
Outro modelo discutido por Järvelin é o trabalhado por Ingwersen (1996) sendo
que para este, o comportamento de busca é condicionado por elementos de
espaço cognitivo/social/organizacional – o contexto de ação do sujeito. Mas
especificamente, o modelo proposto por Järvelin pauta-se nas condições de
produção de questionamentos e hipóteses de pesquisa pelo usuário para
posteriormente recorrer ao sistema de informação para respondê-las. Assim, a
complexidade da pergunta dependeria do grau de incerteza do sujeito de modo
que em todas as modalidades de busca poderiam ser identificados tipos de
necessidades na pergunta relacionadas ao problema de informação, ao
domínio de informação e a solução de um problema de informação. Essas
tipologias poderiam ser representadas no sistema estabelecendo critérios
orientados por fatos (registros, bases de dados), orientado por problemas
(ações administrativas – documentos oficiais, correspondências) orientado de
maneira geral (literatura especializada, coleções pessoais). A representação
desse universo no sistema daria conta de responder as diferentes categorias
de perguntas formuladas pelos usuários. Mas mesmo apresentando um modelo
e discutindo outros, Järvelin (2003) alerta que o problema de busca de

7

�informação ainda está longe de ser resolvido, pois um modelo, por mais
completo que esteja, não considera as particularidades das pessoas
relacionando-as com suas práticas de trabalho e pesquisa. Além disto, para o
autor, a personalidade individual é determinante no processo de busca e
mesmo que se estabeleçam estruturas que representem um complexo temático
de uso de informações por determinados segmentos de usuários, cada um irá
delimitar sua busca de acordo com as afinidades particulares frente ao
conteúdo recuperado.
Evidentemente muitos trabalhos que têm sido desenvolvidos sobre o
assunto que estamos tratando mereceriam ser mencionados. No entanto
optamos por destacar aqueles que, de certo modo, independente de estarem
pautados em teorias lingüísticas, educacionais ou científicas, consideraram a
necessidade de se reconhecer um plano amplo de ação do sujeito buscador da
informação que pudesse servir de alicerce para o desenvolvimento de sistemas
de informação focados na busca informacional.

3 Perspectivas Pragmáticas para estudo do usuário no contexto virtual
Diante do que até então discutimos, podemos perceber que, por mais
abrangentes e interdisciplinares que sejam as teorias e metodologias seguidas
e desenvolvidas sobre Information seeking, muitos dos estudos ainda acabam
por requerer o reconhecimento e a delimitação de comunidades usuárias de
sistemas de informação. No entanto, reconhecemos que esta delimitação não é
viável em relação aos potenciais usuários das informações disponíveis na Web.
Por conta disto é que continuamos seguindo em busca de teorias que possam
nos ajudar a entender o comportamento de busca informacional dos usuários
independentemente de o reconhecermos. Deste modo vislumbramos que
seriam as teorias do significado da linguagem, que consideram as implicações
sobre as construção dos sentidos da linguagem a partir de seu uso em uma
ação comunicativa social, as que, talvez, dariam conta de expandir nossos
horizontes para que consigamos aproximar nossas convicções ao que de fato
conduz o comportamento de busca informacional.

8

�Presumimos que o arcabouço teórico relevante para subsidiar reflexões
no espaço virtual precisaria contemplar aspectos gerais de entendimento sobre
o uso da linguagem, por crer que esta, tanto é o alicerce de estruturação e
explicitação dos conhecimentos produzidos como é uma das principais vias
pela qual são canalizadas e expressas as necessidades de novos
conhecimentos pelo sujeito. Desse modo, a linguagem precisaria ser
compreendida pela Ciência da informação, não só como um esquema
estruturado de signos e conceitos utilizados logicamente nos processos de
comunicação, mas sim, como um elemento em constante transformação que
propicia e ao mesmo tempo interfere nos construtos dos sentidos humanos. E
seria, a partir de teorias do significado, que acreditamos conseguir estabelecer
um panorama teórico, conceitual e metodológico que possa servir a Ciência da
informação em suas investigações, análises, verificações e avaliações no
espaço virtual.
Como

podemos

verificar

com

os

trabalhos

que

mencionamos

anteriormente, diferentes bases teóricas têm sido seguida pelos pesquisadores
da Ciência da informação para sustentar pressupostos e argumentações sobre
Information seeking, mas defendemos aqui que seriam os princípios do
Pragmatismo, enquanto escola filosófica, os que precisariam ser considerados
nesses estudos. Isto porque é pressuposto do Pragmatismo que a construção
do conhecimento pelo sujeito se dá a partir de suas ações no contexto social
em que vive. Desse modo concordamos com Benoît (2001) que considera que
a busca informacional (Information seeking) é um tipo de interação
comunicativa. E que se constitui como um fenômeno cultural independente das
características pessoais do sujeito buscador. Por conta disto essa busca
precisa ser compreendida sob uma perspectiva que está além das
particularidades individuais. Sendo assim, o Pragmatismo nos mostra que as
questões comportamentais dos sujeitos em sociedade são estabelecidos a
partir do uso da linguagem que este sujeito faz para se comunicar. Confiamos
que se conseguirmos ponderar as implicações que estão envolvidas no
processo de construção de significado, logo, de conhecimento, estabelecidas
com o uso da linguagem, conseguiremos compreender, de certo modo, o
comportamento comunicacional como um todo.

9

�Nas últimas décadas o que se tem defendido como pressuposto teórico
válido para o entendimento da relação da linguagem e do significado resultam
em parte dos estudos sobre o Pragmatismo (escola filosófica iniciada nos EUA
a partir das teorias de W. James, C. Peirce, J. Dewey, C. Morris em meados do
século XIX). O Pragmatismo, em resumo, seria uma linha de estudo filosófico
que defende que são as ações humanas que têm o poder de modificar o
mundo e a própria condição humana e, portanto, são as ações que delimitam o
que seria verdade ou não. Diante disto, essa linha refuta que a realidade pode
ser adequadamente representada somente a partir do intelecto e dos conceitos
humanos. Seria somente na relação do homem com os outros e com seu meio
que o conhecimento adquiriria significado e, seria reconhecido como verdade, o
que resultou de mais útil, amplo e duradouro a partir dessa relação.
Esse entendimento da relação da ação humana enquanto condição para
construção e validação do conhecimento foi pensado principalmente no
domínio da linguagem. Nesse contexto, L. Wittgenstein (1889-1951), filósofo
austríaco, pode ser considerado o autor que mais diretamente demarca e
defende o entendimento pragmático da linguagem, mesmo tendo sido ele
próprio, uns dos pensadores que, em momento anterior, defendera
vigorosamente a concepção lógico-positivista da linguagem. Contudo, é ele
mesmo quem critica esse seu primeiro posicionamento ontológico e passa a
defender que a linguagem é o seu uso. Outros filósofos europeus seguiram e
desenvolveram essa premissa dentre eles J. Austin, J. Searle, P. Grice e nos
dias atuais J. Habermas. Para esses autores a construção dos significados
lingüísticos só seria possível no momento em que a linguagem fosse usada em
situações de comunicação contextualizadas.
A partir disto corroboramos que a relação da linguagem com o mundo é
pragmática e não descritiva. Com isso compreendemos que as implicações
relacionadas à ação de busca informacional do sujeito são instituídas,
formuladas e reformuladas concomitantemente a sua vivência na sociedade. A
imprevisibilidade das possibilidades de busca informacional é decorrente do
agir comunicativo do sujeito em sociedade o que faz com que este, a toda ação
de comunicação, tenha seus procedimentos cognitivos alterados e adaptados,
tenha seus valores e julgamentos repensados e reformulados e estabeleça

10

�sentidos e significados diferenciados de acordo com as necessidades
comunicativas que se constituem. E, a partir desse complexo dinâmico de
construção de sentidos e significados, o espaço de informação on line não tem
conseguido dar conta de representar todos os elementos inerentes a essa
condição humana. Por isso então, possa se reforçar a premissa de que talvez o
caminho para promover melhores resultados de busca e recuperação da
informação no contexto virtual não esteja atrelado a compreender e adaptar as
estruturas do pensamento humano ao espaço on line, nem representar
contextos, domínios e vocabulários utilizados pelos usuários, mesmo porque,
como mencionado, essa totalidade de representações e relações não se daria
de maneira completa. A necessidade estaria, acredita-se, em reconhecer, no
sujeito, o que lhe faz tomar determinadas atitudes em uma ação de
comunicação, o que lhe faz compreender, descrever e discriminar o que lhe é
relevante ou não. A busca desse reconhecimento não objetivaria, como em
alguns estudos, propor adequações aos espaços de informação, mas talvez,
propor adequações as formas de busca de informação pelo próprio sujeito de
maneira que lhe seja retornado aquilo que lhe será válido, minimizando
caminhos para interpretações equivocadas, recuperações de conteúdos
desnecessários e dispersão sobre os sentidos buscados.
Hojrland (2003) é um dos autores que sugere que a Ciência da
informação deve adotar um posicionamento Pragmático sobre a informação,
mesmo que ainda pensando no contexto dos sistemas de informação. O autor
considera que o dinamismo é inerente a atribuição de significados aos
conceitos utilizados em uma busca informacional e, portanto, não pode ser
captado por instrumentos de controle de vocabulário estabelecidos com base
em teorias representacionais da linguagem. Portanto, mesmo que ainda
pensando sob a ótica da organização da informação em sistemas de
informação, seria necessário que as premissas do Pragmatismo fossem
adotadas pela Ciência da informação de modo que os conceitos e os próprios
documentos pudessem ter seus valores estabelecidos a partir das divisões
práticas e sociais em que eles estariam inseridos, de maneira que a
apropriação do uso de palavras para coisas específicas estaria relacionada as
atividades e aos discursos em que este uso de estabelece. O uso da palavra

11

�seria uma espécie de ação acoplada a ações extraverbais e isso faz com que
diferentes significados sejam atribuídos a ela, assim sendo, seria ingênuo
desconsiderar que fatores culturais condicionam a relação das pessoas com a
informação. Na perspectiva pragmática as ferramentas de linguagem seriam
adaptadas culturalmente para suprir (e representar) as necessidades dos
usuários de um sistema de informação. De certa forma Hjorland (2003 pri)
pondera ser necessário um realismo pragmático como base para a organização
do conhecimento embora evidencie que muitos autores discordem sobre essa
possibilidade de associação teórica.
Mas o nosso enfoque não esta no sistema de informação e sim no
espaço virtual de informação e, deste modo, defendemos que somente pela
perspectiva pragmática sobre a busca informacional seria possível validar
teoricamente algumas condições sobre essa ação. Assim sendo, a Ciência da
informação precisaria abranger, em suas investigações, as implicações que
estão envolvidas na ação de busca informacional e que coexistem aos sujeitos,
independentemente de suas características pessoais ou procedências
institucionais. É indispensável visualizar aquele que busca informação como
membro de um mundo de vida. Membro este que interfere e sofre
interferências

desse

mundo

nas

concepções

de

seus

sentidos

e

consequentemente na construção de seu conhecimento. A linguagem por ele
utilizada em uma busca informacional está embutida de sentidos que foram
atribuídos por diferentes elementos externos de seu convívio social. Estes
elementos relacionam-se e intercalam-se com suas diferentes e exclusivas
possibilidades cognitivas e memoriais de construção de significados e são
essas condições sobre a construção dos sentidos no uso da linguagem no
processo de busca informacional as que pretendemos discutir no decorrer da
pesquisa.
Por isso temos que lidar com o conceito de linguagem atribuindo a este
um caráter de movimento e de uso social (sendo que este uso é a condição
para o estabelecimento dos sentidos reais das informações buscadas via
linguagem). Por isso é que seria necessário (caso se insista na de
representação de conteúdos no ambiente on line) compreender a linguagem
em função das atividades sociais nas quais as informações circulam, e isto

12

�prescindiria um entendimento prévio sobre as circunstâncias relacionadas a
construção de significados. Por isto, o caminho a ser seguido para
compreender o uso da linguagem na busca informacional precisaria ser
tangencial (ou até mesmo paralelo) aos caminhos até então estabelecidos na
constituição de linguagens de mediação informacional. Versamos que a
Ciência da informação, atualmente, se posiciona em um “truncamento” no qual
de um lado perpassam novas configurações tecnológicas relacionadas a
virtualização dos processos armazenamento e busca da informação e do outro
perpassam as diferentes perspectivas teóricas e conceituais sobre a
concepção do que seriam os elementos constitutivos do conhecimento:
linguagem, significado e verdade.
Os sentidos, logo, as necessidades informacionais, só se estabelecem
no contexto de ação comunicativa do sujeito.

E é este o desafio que

acreditamos ter que continuar seguindo – o de considerar que as ações de
busca informacional do sujeito, seja em um sistema de informação
institucionalizado ou na Web, são ações pragmáticas. Sendo assim, esse ponto
de vista precisa ser considerado no desenvolvimento de pesquisas e práticas
no cenário informacional atual, principalmente as que se referem a bibliotecas,
cujo acervo, produtos e serviços passaram a ser disponibilizados virtualmente
podendo ser acessado por qualquer um de nós – membros de um mundo de
vida.

13

�PRAGMATISM WHICH IS ONE THEORETICAL AND METHODOLOGICAL
WAY TO THE DEVELOPMENT STUDIES ABOUT THE USER SEARCHING
INFORMATION BEHAVIOR INTO VIRTUAL OPEN SCENARIOS AND OPEN
SOURCE INFORMATION
ABSTRACT
The electronic and virtual mediation of information has expanded the
possibilities access to contents and appropriated autonomy to the researcher in
his informational search. The amplitude and dynamism of the on line world
comes up, however, that some elements are rethink regarding the emergent
conditions. From this point, we question who is using the information available
in this virtual and opened informational scenario and we also question the
development conditions of studies to the user and the recovery the information
in this context. In order to find answers, we face, in international literature,
searches about information seeking behavior and we keep analyzing and
understanding how such searches were used as reference to Libraries (today
also digital, virtual and open) in It’s user researchers. In the end, we point out
one epistemological way, based in the pragmatism, which is one theoretical and
methodological way to the development studies about the user searching
information behavior into virtual open scenarios and open source information.
Key words: User searching information behavior. Information seeking. Internet.
Pragmatism.

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14

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              <text>A mediação eletrônica e virtual de informações expandiu as possibilidades de acesso a conteúdos e propiciou autonomia ao pesquisador em sua busca informacional. A amplitude e o dinamismo do espaço on line suscita, entretanto, que alguns elementos sejam repensados à luz das condições emergentes. Diante disto problematizamos quem é o usuário da informação disponível nesse cenário informacional virtual e aberto e questionamos as condições de desenvolvimento dos estudos de usuário e de recuperação da informação nesse contexto. Na busca por respostas nos deparamos, na literatura internacional, com pesquisas sobre o comportamento de busca informacional (Information seeking) e seguimos os analisando entendendo que tais estudos possam se configurar como um dos panos de fundo que subsidiariam Bibliotecas (hoje também digitais, virtuais, livres) em suas pesquisas de usuário. Ao final indicamos um caminho epistemológico, com bases no Pragmatismo, como uma via teórica e metodológica para o desenvolvimento de estudos sobre o comportamento de busca informacional dos usuários junto aos espaços virtuais abertos e livres de acesso à informação.</text>
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