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                  <text>REVITALIZANDO A REFERÊNCIA NA BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA

Mônica Fonseca Soares∗

RESUMO
A biblioteca universitária é centro de referência para localização da informação e as
novas tecnologias e recursos informacionais precisam ser trabalhados e rapidamente
postos à disposição dos seus usuários internos e externos. Particularmente, a
biblioteca universitária tende a fornecer serviços virtuais em maior quantidade, mas
quem sabe dispor desses recursos? O bibliotecário de referência, nesse contexto,
vem colaborar para que a biblioteca universitária preste um atendimento qualificado,
elaborando rotinas e plantões de atendimento visando preparar o usuário para
conhecer os recursos existentes. A biblioteca deve permitir que o bibliotecário sirva
como um multiplicador de informações, otimizando pessoal e equipamentos.
Ninguém melhor do que o bibliotecário de referência, figura que parece estar fora de
moda, para facilitar o acesso ao grande número de informações disponíveis nas
redes e bases de dados nacionais e estrangeiras. Nessa linha, propõe-se que seja
criado ou reativado o setor de referência na biblioteca universitária. A metodologia
envolve a elaboração de estudo de usuários e o planejamento de um espaço físico
real de referência na biblioteca e o espaço físico virtual de referência nas páginas da
Internet e, o mais importante, que o bibliotecário seja preparado para a atividade,
assim como o é para usar os softwares de processamento técnico. Além disso,
deverá ser planejada uma equipe de referência, que terá ciência do seu relevante
papel e saberá como agir para fornecer também suporte para a indexação e
descrição documentais, bem como recebendo informações desses setores, dentro da
dinâmica dos serviços bibliotecários.

INTRODUÇÃO
A biblioteca universitária precisa corresponder às expectativas dos exigentes
usuários pesquisadores, alunos, professores, comunidade acadêmica de outras
universidades e a comunidade em geral. Os serviços tradicionais estão sendo
transformados no mundo tecnológico e virtual do século XXI e os serviços
bibliotecários não poderiam ficar imunes a essas transformações.

�Apesar da consciência do profissional bibliotecário de toda a revolução
ocorrida no século XX na produção, armazenamento e disseminação da informação
científica e tecnológica, os serviços bibliotecários muitas vezes não conseguem
acompanhar o ritmo alucinante desse crescimento, que foi acirrado com a veiculação
de publicações pela Internet. Xie (2003) coloca que a maioria das bases de dados
online tem uma versão na Web e a natureza interativa das bases disponíveis na
Internet são por um lado de fácil uso e por outro, menos eficientes para controle.
O serviço de referência, aquele tradicional, com o bibliotecário de referência
numa mesa, cercado de bibliografias, índices e outras obras de referência foi
perdendo seu espaço nas bibliotecas, particularmente nas bibliotecas universitárias,
uma vez que os mecanismos de busca via World Wide Web parecem mais práticos e
ágeis do que o atendimento personalizado e localizado em um ponto físico.
Os sistemas de recuperação de informações on-line, por sua vez, estão
apresentando constantemente propostas mais amigáveis de interação entre o
usuário do sistema e a interface empregada.
Diante desse panorama, por onde andará a figura do bibliotecário de
referência? Quem está fazendo referência na biblioteca universitária? Como
revitalizar esse setor e o seu profissional? Essas questões serão discutidas e serão
analisados alguns aspectos relativos ao perfil e atitudes do profissional da
informação e também aspectos relativos à organização do serviço de referência na
biblioteca universitária brasileira.

O SERVIÇO DE REFERÊNCIA

Tão importante quanto o processamento técnico ou a aquisição de material
bibliográfico, o serviço de referência é cartão de visitas da biblioteca. Não adianta um
catálogo perfeito pelas regras internacionais de catalogação e indexação de
assuntos se não consegue ser facilmente consultado pelo usuário. O cliente quer

�encontrar o que procura com rapidez e eficiência, sem interferências poluidoras na
recuperação.
As bibliotecas universitárias são um dos itens avaliados quando da aprovação
e reconhecimento dos cursos de graduação e pós-graduação e, como não poderia
deixar de ser, estão diretamente relacionadas à qualidade de seus cursos (MAZZONI
et al., 2001). Portanto, mais um motivo para possuir um atendimento diferenciado e
qualificado de referência, o que viria a contribuir para o aumento do nível de
qualidade dos serviços como um todo da instituição ao qual está vinculada.
O processo de referência deve levar em conta a inclusão ou acessibilidade da
informação para clientes especiais, como os com deficiência visual ou auditiva,
passando pelo planejamento de serviços onde o “sistema projetado sob o conceito
de desenho para todos incorpora características que, além de permitir a sua
utilização por pessoas portadoras de deficiência, tornam o seu uso muito mais fácil e
confortável para todos os usuários” (MAZZONI et al., 2001, p. 30).
Os mesmos autores colocam que, dentro da estrutura da biblioteca
universitária, a acessibilidade envolve aspectos urbanísticos, aspectos de informação
e comunicação e, “[...] os aspectos atitudinais – como as pessoas compreendem e
constroem o processo de acessibilidade -, o que pode valorizar ou degradar os
projetos originais” (MAZZONI et al., 2001, p. 31, grifo do autor). A coordenação da
biblioteca deve estar atenta para esses aspectos quando da formulação do projeto
para a implantação ou reformulação de seus serviços.
A preocupação maior dentro de uma unidade de informação como a biblioteca
universitária ainda é (reforçamos o ainda) com o processamento técnico do suporte
informacional. Talvez por desconhecimento de todo o potencial da recuperação,
muitas bibliotecas ainda são tratadas como depositório de acervo, mesmo que os
catálogos sejam virtuais e o leitor possa fazer suas pesquisas de casa. Muito pouco
se tem investido na qualidade da informação recuperada pelo usuário final e muitos
recursos têm sido gastos para lotar as bases de dados universitárias com descrições

�bibliográficas e indexações que podem não estar atendendo aos interesses do
usuário dessas informações.
O setor de referência, nesse sentido, ao ser revitalizado, pode vir a contribuir
fazendo um elo de ligação entre o que entra (processamento técnico) e o que sai
(recuperação de informações). Com a especialização do profissional é comum
ocorrer uma desvinculação desses dois processos importantíssimos para o
fornecimento da informação adequada para a pessoa certa no momento em que ela
precisar e com a devida agilidade.
Segundo Arellano (2001, p. 7) as bibliotecas brasileiras ainda não
apresentavam
serviços da natureza dos encontrados nos sites das principais
bibliotecas americanas. Ainda no início de 2001, nenhuma das 184
bibliotecas brasileiras cadastradas pelo IBICT no GT de Bibliotecas
Virtuais [...] mantinha algum serviço de referência que funcionasse 24
horas e com distribuição seletiva do tipo de consultas.

O serviço de referência pode estar disponibilizado localmente, com a presença
do bibliotecário de referência em uma estação de trabalho plugada no mundo virtual
e, ao mesmo tempo, com conhecimentos do usuário específico, de sua comunidade.
Mas, o serviço pode ir além, com a referência virtual, onde o bibliotecário responde
perguntas - Ask-an-Expert (AskA) e tem como objetivo desenvolver habilidades para
pesquisa em seus clientes (ARELLANO, 2001).
Todo um preparo do setor deve ser realizado como se a biblioteca fosse abrir
uma extensão “comercial” dos seus serviços. Aspectos de gestão de negócios,
marketing, comportamento e satisfação do consumidor, cultura organizacional,
planejamento financeiro, recursos humanos e materiais envolvidos, entre outros,
devem ser cuidadosamente planejados para que as chances do “negócio” fechar
antes do primeiro ano sejam reduzidas.
Por outro lado, é preciso começar, mesmo que o setor não funcione com
100% de sua capacidade, com o tempo as pessoas vão incorporando atitudes,

�retroalimentando o sistema como um todo. Andrade e outros autores, ao falarem
sobre o processo de mudança na gestão da biblioteca acadêmica, relatam a
importância da interação entre as equipes de trabalho na biblioteca universitária.
Estruturas estanques, que não se comunicam, tornam difícil o alcance da meta maior
da bilioteca: a disseminação da informação. “Sabe-se que a relação usuário versus
informação exige equipes interativas, detentoras de todas as informações referentes
ao processo de trabalho, agindo com autonomia e decisão.” (ANDRADE et al., 1998,
p. 312)
O modelo de gestão precisa ser avaliado para que se identifiquem as
possíveis falhas e para que as pessoas envolvidas na inovação organizacional
possam expressar suas dificuldades, expectativas, vontades e qualidades. A
organização, segundo Andrade et al. (1998), deve passar de um foco voltado para o
ambiente interno (com predomínio da especialização e metodologia) para um foco
voltado para o ambiente externo (predominando a visão do cliente e de resultados).
O serviço pode ser oferecido em consórcio com outras bibliotecas da mesma
instituição, com bibliotecas de outras universidades locais, regionais ou mesmo de
outros países, como é o caso da iniciativa da Library of Congress e do projeto 24/7
Reference Project (24 horas e sete dias) do Metropolitan

Cooperative Library

System, administrado pela California State Library (ARELLANO, 2001). Os projetos
podem contar com o auxílio de estagiários de diversas áreas do conhecimento assim
como com a ajuda de voluntários, como é caso do Virtual Reference Desk, citado
pelo mesmo autor.

A FORMAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO DE REFERÊNCIA

O bibliotecário de referência não nasce pronto e muito menos é qualificado
apenas em cursos técnicos ou de aperfeiçoamento. É o contato com o cliente, as
buscas com resultados inesperados, os erros e acertos que lapidam o profissional do

�setor de referência. Não há modelos, não há manuais, códigos ou tabelas. Talvez aí
resida a resistência em projetar o serviço de referência e formar seus profissionais.
O profissional aprende junto com o leitor e “a responsabilidade do bibliotecário
com o usuário é semelhante a do professor com o aluno no desenvolvimento da
metacognição.” A interação do bibliotecário com professores, alunos e pesquisadores
acrescenta tanto para os serviços bibliotecários como para desenvolver habilidades,
possibilitando ao educando ter acesso ao paradigma de múltiplas fontes.
(MOSTAFA, 2003, p. 2)
Outra

questão

importante,

mas

pouco

levantada

na

literatura

de

Biblioteconomia no Brasil, diz respeito à dificuldade no manejo com a língua
estrangeira, particularmente com a língua inglesa, a mais utilizada em bases e
bancos de dados internacionais. Como querer que o bibliotecário transite pelos
descritores, palavras-chave, resumos, textos em geral, se há dificuldade de
entendimento da língua? A instituição e o próprio profissional precisa investir na
qualificação do bibliotecário de referência quanto a linguagens utilizadas em várias
áreas e línguas estrangeiras.
Além disso, as linguagens de recuperação devem ser exploradas, analisando
o que é efetivamente recuperado do que é indexado pelo setor de processamento
técnico. Basurto, Santillan e Medina (1997, p. 5) relata que o pessoal deve possuir
novas atitudes frente à informação, novas habilidades e novos hábitos. “Por parte de
los bibliotecarios se requiere contar con habilidades para el uso de las redes de
cómputo, para instalar y consultar discos compactos, para obtener y almacenar
información electrónica.”
Ao analisar as habilidades demandadas pelo mercado de trabalho do
profissional da informação, Ferreira (2003, p. 42) reforça o pouco preparo desse
profissional:
Ao que tudo indica, existe demanda no mercado por profissionais da
informação, mas há falta de oportunidade para os profissionais de

�informação vindos da área da ciência da informação, bem como de
uma formação acadêmica em que estes possam se habilitar para o
desenvolvimento, a implantação e a operação de dispositivos para
filtrar, analisar, sintetizar e disseminar essa avalanche de
informações.

O trato com pessoas é um aspecto que necessita atenção especial, uma vez
que o bibliotecário, mesmo utilizando equipamentos, vai auxiliar nas buscas de
pessoas, que nem sempre sabem bem o que querem, que sofrem de angústia, têm
pressa, muitas vezes não conhecem bem os assuntos e podem estar estressados
em função da pesquisa e suas dificuldades.

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
Os caminhos para a revitalização do serviço de referência na biblioteca
universitária estão abertos, esperando por aqueles que queiram participar de uma
aventura inovadora, estimulante e que poderá trazer benefícios tanto para a
instituição universitária como para os atores do processo de referência e
disseminação da informação.
Presencial ou virtual, a referência pode estabelecer-se de forma a melhorar a
qualidade da informação recuperada, diminuindo as perdas pelo usuário, tanto de
tempo, como de desgaste físico e mental ao localizar o que não queria ou de não
encontrar o que precisava no momento adequado.
A gestão da biblioteca acadêmica deve planejar, organizar e avaliar o
funcionamento do atendimento ao usuário presencial ou virtual, avaliar a sua
satisfação e a adequação dos serviços às necessidades do corpo docente, discente,
técnico e comunidade em geral.
Os usuários estão carentes de serviços ágeis, que correspondam pelo menos
em parte às evoluções tecnológica, científica e informacional que têm sofrido
aceleração nos últimos anos. Cabe aos profissionais da informação a preparação de

�um cenário de ação apropriada, com pessoal preparado para trabalhar em equipe,
respondendo aos questionamentos 24 horas por dia e sete dias por semana.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Maria Teresinha Dias de et al. Mudanças e inovações: novo modelo de
organização e gestão de biblioteca acadêmica. Ciência da Informação, Brasília, v.
27, n. 3, p. 311-318, set./dez. 1998.
ARELLANO, Miguel Ángel Márdero. Serviços de referência virtual. Ciência da
Informação, Brasília, v. 30, n. 2, p. 7-15, maio/ago. 2001.
BASURTO, Lourdes Feria; SANTILLAN, Ma. Gregoria Carvajal; MEDINA, Marco
Antonio Jauregui. La biblioteca electronica em Colima-Mexico. Ciência da
Informação, Brasília, v. 26, n. 2, f. 1-7, maio/ago. 1997.
FERREIRA, Danielle Thiago. Profissional da informação: perfil de habilidades
demandadas pelo mercado de trabalho. Ciência da Informação, Brasília, v. 32, n. 1,
p. 42-49, jan./abr. 2003.
MAZZONI, Alberto Angel et al. Aspectos que interferem na construção da
acessibilidade em bibliotecas universitárias. Ciência da Informação, Brasília, v. 30,
n. 2, p. 29-34, maio/ago. 2001.
MOSTAFA, Solange Puntel. EAD sim, mas com qual biblioteca? Revista Digital de
Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, v. 1, n. 1, p. 1-11, jul./dez.
2003.
XIE, Hong (Iris). Supporting ease-of-use and user control: desired features and
structure of Web-based online IR systems. Information Processing &amp; Management,
v. 39, p. 899-922, 2003.

�∗

BIBLIOTECA SETORIAL.ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO
GRANDE DO SUL, RUA WASHINGTON LUIZ, 855 – PORTO ALEGRE – RS – BRASIL.
www.biblioteca.ea.ufrgs.br mfsoares@ea.ufrgs.br

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