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                  <text>8.1

MOBILIZAÇÃO PARA UMA POLITICA DE CONSERVAÇÃO E MANUTENÇÃO DE
ACERVOS CONTRA O AGENTE BIOLÓGICO HUMANO

*

Justino Alves Lima

RESUMO
O trabalho apresenta uma proposta de política de conservação e manutenção de
acervo fora dos padrões convencionais.
Trata-se de uma campanha de
conscientização junto ao agente biológico humano, uma política de serviços,
acompanhada pela implantação de um sistema de segurança, que representa uma
nova tecnologia. A política em curso na Biblioteca Central da Universidade Federal
de Sergipe consiste em uma proposta em dois módulos, sendo o primeiro a
sistematização de uma campanha vinculada em duas exposições, para a
conservação do acervo, e o segundo a instalação de um sistema de segurança
para manutenção do acervo.

1 INTRODUÇÃO

Ao se exprimir a palavra política, o sentido que se dá à mesma é de direção,
de administração e de ciência da organização. No mundo das profissões, cada
segmento vai adaptando o conceito para os seus interesses.

Assim, na

Biblioteconomia, quando se fala em política de conservação e manutenção de
acervo, deve-se entender como o estabelecimento de princípios que orientem,
conduzam ou influenciem o modo pelo qual uma biblioteca deverá pautar seus
métodos para conservar e manter o seu acervo.

*

Bibliotecário da Universidade Federal de Sergipe

�8.1

A conservação e manutenção de acervos é uma das mais constantes
preocupações dos bibliotecários nas bibliotecas universitárias. Entretanto, em torno
do assunto existe um número pequeno de publicações técnicas e apenas teorizam
sobre como devem ser conservados e mantidos os acervos bibliográficos, acervos
esses quase sempre formados durante anos e com muita dificuldade, devido aos
recursos financeiros serem sempre escassos.
Os teóricos da Biblioteconomia sempre tratam do assunto da forma mais
convencional existente: as intempéries climáticas, os acidentes biológicos ou

a

despreocupação higiênica de ordem funcional. Modernamente, no entanto, uma
modalidade de agente maléfico contra a conservação e manutenção dos acervos
vem tomando forma e assumindo contornos de difícil combate: o homem.
Em que pese ser considerado um dos agentes biológicos, o homem não tem
sido objeto de políticas de conservação e manutenção de acervos. Travestido de
usuário, ele tem frequentado as bibliotecas universitárias e depredado material
bibliográfico. De difícil combate, uma vez que age na surdina, tem infernizado a vida
dos bibliotecários e do pessoal de apoio técnico que se dedicam à tarefa de
preservação dos acervos. Difícil também é o seu combate quando identificado, pois,
devido à legislação penal, normalmente o depredador consegue safar-se de
punições.

Para isso, argui-se com a questão democrática universitária, sem

entender que o discurso da autoridade difere do discurso do autoritarismo.
O que fazer contra essa crescente investida criminosa contra os acervos das
bibliotecas universitárias? Cansados de ver revistas cortadas, livros recheados de
folhas xerox para substituir as páginas arrancadas, e ainda ter de dar baixa nos
registros de livros por motivo de furto, os bibliotecários da BICEN/UFS - Biblioteca

�8.1

Central da Universidade Federal de Sergipe - decidiram sistematizar um trabalho
contra o absurdo perpetrado contra o patrimônio público cultural.
Mobilizaram, então, a comunidade universitária para uma política de
conservação e manutenção de acervos, que priorizasse uma política de serviços e
novas tecnologias: serviços, no momento em que se decidiu por uma campanha
educacional pela conservação do acervo, e nova tecnologia, ao decidir-se pela
instalação de um sistema de segurança que trabalhasse com células fotoelétricas
para manutenção do acervo.

2 O FURTO DE LIVROS : A SOCIEDADE INTELECTUAL EM XEQUE

O Jornal da Cidade, um diário sergipano, ocupou parte de uma das suas
páginas com um assunto um tanto excêntrico: furto de livros na Biblioteca Central da
Universidade Federal de Sergipe.

Excêntrico, porque se trata de usuários de

bibliotecas que depredam o patrimônio público.
Expõe-se na revelação um agravante: não se trata de bibliotecas públicas,
que atende o lado pobre (financeira e intelectualmente) da sociedade, mas sim de
bibliotecas universitárias, freqüentadas, em tese, pela sociedade letrada, culta.
Então, o que dizer quando o roubo (qualquer sinônimo que se queira empregar em
substituição é eufemismo) chega à camada mais culta da sociedade ? A sociedade
está doente. É com esse sentimento que na imprensa repercute a notícia de roubo
de livros em bibliotecas universitárias.
O problema existe, no entanto fica circunscrito aos muros acadêmicos. No
momento em que a informação burlou a vigilância das cercanias intelectuais e a

�8.1

imprensa se apropriou da informação, fez barulho. Foi assim em Sergipe, quando o
fato foi noticiado pela imprensa escrita, logo após uma reunião entre a direção da
BICEN - Biblioteca Central, a direção do DCE - Diretório Central dos Estudantes e
os diretores dos CAs - Centros Acadêmicos da Universidade Federal de Sergipe.
Na reunião, em que se pretendia estabelecer parceria entre a biblioteca e os
estudantes, numa campanha em favor da Biblioteca, revelou-se a questão, a qual foi
levada à imprensa por um indignado estudante.
A matéria do Jornal da Cidade, intitulada “Usuários danificam e roubam livros
na Biblioteca Central”, chamou a atenção dos pauteiros da imprensa falada e
televisada. O fato virou manchete e foi veiculado em noticiário radiofônico e em um
telejornal locais.
A notícia, que aparentemente era banal e localizada, chegou a ser publicada
na Folha de São Paulo, através da Agência Folha em Aracaju, dando a informação
da instalação de um sistema de segurança com células fotoelétricas como solução
emergente para reduzir o número de furtos de livros. Esta ação foi considerada a
opção viável para combater a atuação de usuários inescrupulosos dos serviços da
biblioteca.
A notícia repercutiu no Rio Grande do Sul, fazendo com que a Rádio Guaíba,
através do programa ‘Mendes Ribeiro’, entrasse na questão. Colocou no ar, em
linha direta, o diretor da Biblioteca Central em entrevista, que durou sete minutos. O
entrevistador justificou a distância da entrevista dizendo que o assunto não era
sergipano, era brasileiro. Especulou-se sobre o que levaria membros da elite do
sistema de educação do país, da sociedade letrada, a cometerem tal crime. Para o
então diretor da BICEN/UFS, o problema existe e carece de uma profunda análise.

�8.1

No seu entender, algo que não chega a ser novidade: existe o usuário que rouba
pela “abjeta necessidade” de negócio, o que rouba pela “altruísta necessidade” de
colecionar e o que rouba pela “imperiosa necessidade” de não poder comprar e
querer possuir os livros didáticos exigidos pelos programas das disciplinas. Ora,
todos são delitos do mesmo porte e todos são imperdoáveis.
O fato de repercussão na grande imprensa parece ser banal nos círculos
acadêmicos e fica restrito a ensaios divulgados nos noticiosos internos das
Universidades.

Embora escasso, existe material sobre o assunto. O Jornal do

Campus (USP) traz um artigo com o título nada altruísta de “Bibliotecas tomam
medidas contra roubos”. Ali, conta-se a triste realidade que aguarda os usuários
das bibliotecas da maior universidade do País. Uma via-crucis, segundo o artigo,
com paradas quase sempre previstas: 1) procura nas estantes; 2) busca nos
carrinhos; 3) pesquisa nas mesas; 4) consulta ao funcionário; para finalmente
chegar a triste conclusão: o livro sumiu.
A escassa literatura sobre a depredação de acervos mostra que os números
dos crimes perpetrados contra os acervos são alarmantes:
a) na FAU - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (USP), foram roubados 98
volumes em 1990, 66 em 1991 e 34 em 1992;
b) na ECA - Escola de Comunicações e Artes (USP), 1.200 volumes
roubados em 47.000 publicações inventariadas em 1991;
c) na PUC/MG - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, foi dado
baixa em 1.402 livros no ano de 1992, ano em que começou a ser feito o
levantamento sobre o estado de conservação dos livros das áreas de

�8.1

Ciências Biológicas, Engenharia, Agricultura, Matemática, Física e
Química;
d) na BICEN/UFS, foram contabilizados como extraviados e não repostos 89
livros, entre os anos 1980 e 1985, e 221 livros, entre os anos 1990 e 1995.
Esses dados dizem respeito a livros que só foram identificados devido a
insistentes reclamações de usuários que solicitavam o empréstimo dos
referidos títulos.
Embora ainda não exista um inventário que permita dizer quantos livros foram
roubados desde a existência da Biblioteca Central (15 anos), há uma certeza: os
preferidos são os livros didáticos. Assim como na USP, também na UFS os livros
preferidos são os de leitura obrigatória (livros-texto, ou didáticos), livros indicados
pelos professores para suporte dos programas das disciplinas.

Tal avaliação

coincide com o depoimento de uma professora da UFS:
Todo semestre letivo, recorro à Biblioteca Central da UFS para pesquisar sobre a História
de Portugal. O livro fundamental para estes estudos é quase uma obra rara. É de 1949,
edição portuguesa da Livraria Tavares Martins, cidade do Porto. Seu título é História de
Portugal - das origens até 1940 e seu autor é João Ameal. Na semana passada, fui à BC
para a costumeira pesquisa, mas após demorada busca, retornei ao balcão de mãos vazias.
Procurei o setor competente para saber onde poderia estar o livro e recebi, então, a
informação de que poderia ter desaparecido (VALENÇA, 1990).

�8.1

3 DEPREDAÇÃO DO ACERVO : A INSTALAÇÃO DO CAOS BIBLIOGRÁFICO

Se existe uma preocupação constante com a conservação e manutenção do
acervo, é porque existem causas que motivam essa preocupação. Os acervos, em
maior ou menor grau, são expostos às intempéries climáticas e ao uso constante,
que terminam por provocar desgastes e danos ao documento.

Os danos são

ocasionados pela existência de agentes físicos, químicos e biológicos que atacam
os documentos.
Portanto, toda a discussão sobre agentes físicos, químicos e biológicos
perfaz o campo da técnica, seja de bibliotecários ou químicos.

Neste sentido,

termos como bibliófagos e fungos tornam-se familiares. Combaten-se os ariscos
saprófitas, coleópteros, ortópteros, pseudoneurópteros, entre outros. No entanto, o
mais arisco, o agente biológico homem, passa ao largo do controle e assume a
forma de depredador de acervo. Configura-se como o mais nocivo deles, pois os
métodos de combate são inócuos. Ou porque não existe uma política de combate.
A questão da conservação e manutenção de material bibliográfico, na visão
dos administradores de bibliotecas, passa quase que exclusivamente pelos
problemas relativos aos agentes físicos (umidade, temperatura e luminosidade), aos
agentes químicos (acidez, oxidação e alcalinidade). Esses, por sua vez provocam e
contribuem para o aparecimento e proliferação dos bibliófagos.
questão passa também

Além disso, a

por problemas relativos ao manuseio excessivo, que

provoca a desestruturação física do material.
No primeiro caso, a solução, se não é difícil, torna-se cara. No segundo, já
não tão cara, entretanto inevitável. Por conta do manuseio indevido, é necessário o

�8.1

descarte temporário. Para VERGUEIRO (1992) “a retirada do material se dá pela
necessidade de recuperá-lo fisicamente, para melhor atendimento à demanda”. Se
esta é uma preocupação técnica adotada por bibliotecas e bibliotecários que
viabilizam a conservação do material, no entanto, nem todo o descarte para
recuperação do material é temporário. Existe o descarte imposto pelos depredários
que pode afetar toda uma coleção. Isso acontece normalmente com os livros de
arte.
O depredário assume o desprezo e o desrespeito pela coisa pública. Uma
atitude que vai contra a argumentação de VERGUEIRO (1992) para quem “em torno
de livros e outros materiais cria-se, assim, uma verdadeira aura de respeito, como
se tais materiais fossem mais ou menos sagrados e sua conservação, sob qualquer
condição, um dever inalienável.”

Se isto justifica o drama pessoal que cerca o

bibliotecário na hora de decidir sobre a retirada de algum material do acervo, não
atinge a consciência do depredador.
A depredação do acervo não é exclusividade brasileira, mas a forma sim. Em
que pese ser condenada, sob qualquer pretexto, nos Estados Unidos e na Europa, o
livro roubado é objeto de desejo de colecionadores.

Embora ato criminoso, os

registros são de descarte do acervo pelo motivo de furto, e não de mutilação do
acervo, e ocorrem motivados pela corrida às coleções de obras-raras.[1] O GEORJ
- Grupo de Estudos em Obras Raras do Rio de Janeiro cita casos exemplares de
bem sucedidas investidas contra o patrimônio público. Devido à valorização das
obras raras no mercado livreiro europeu e americano e a um controle vulnerável
desses livros, os roubos, sempre praticados por pessoas insuspeitas, tornaram-se
empreitadas bem sucedidas.

�8.1

Preocupado com o assunto e tentando minimizar a situação no Brasil, o
GEORJ buscou intrumento legislativo para penalizar o usuário-larápio e relata que
“existe um Projeto de Lei do Senador Jamil Hadad que define crimes contra a
memória nacional, ou seja, os bens públicos ou tombados, onde estão incluídas as
obras gráficas.

Esse projeto vem preencher uma falha na nossa legislação, e

significa um início de conscientizacão da importância dos acervos raros do país.”
[1] A esse respeito, Segurança em acervos raros do Grupo de Estudos em Obras Raras do
Rio de Janeiro, coordenação de Valeria Gauz, é leitura obrigatória.

Entretanto, uma atenta leitura no citado instrumento legislativo permite dizer
que é necessário alterá-lo, ampliando-o, uma vez que o texto do Projeto de Lei do
Senado nº 347, de 1989, admite crime contra a Memória Nacional, no caso das
obras gráficas, tão somente quando falsificadas, alteradas ou reproduzidas.

A

danificação e o furto ficam fora do texto.

4 AÇÕES CONTRA A DEPREDAÇÃO : MOBILIZAÇÃO PARA UMA POLÍTICA
DE CONSERVAÇÃO E MANUTENÇÃO DE ACERVOS CONTRA O AGENTE
BIOLÓGICO HUMANO

Embora conservação e manutenção exerçam quase o mesmo papel, há que
se levar em conta uma diferença significativa no exercício de uma política de
conservação e manutenção de acervos bibliográficos. Conservar é resguardar de
dano, é preservar o documento em qualquer que seja o suporte; manter é
resguardar de prejuízo. Assim, para entendimento dos métodos de controle dentro
da proposta de uma política de conservação e manutenção, adotamos o conceito de

�8.1

que resguardar de dano é evitar a depreciação do material, e resguardar do prejuízo
é evitar o desaparecimento do material.
Nesse sentido, conservar e manter acervos de bibliotecas universitárias exige
controles adequados através de procedimentos diferenciados:
a) conscientizar - através de uma campanha educacional; e
b)

4.1

complementar - zelando pela segurança do patrimônio público.

PROCEDIMENTO CONSCIENTIZADOR: AS EXPOSIÇÕES - UMA
CAMPANHA EDUCACIONAL

Embora o procedimento conscientizador possa ser considerado na literatura
específica como o método indireto de controle do agente biológico homem, não
temos conhecimento de campanhas sistemáticas sobre o mesmo. Pergunta-se:
como conscientizar coletivamente se não existe discussão sobre tal assunto ?
Preocupada com isso, a Biblioteca Central da Universidade Federal de
Sergipe decidiu mobilizar a comunidade universitária, primeiro, para alertá-la sobre o
problema e segundo, para torná-la parceira contra a depredação do material
bibliográfico. Para tal, programou duas exposições, que vêm sendo apresentadas
aos novos usuários do órgão. As mesmas foram criadas a partir de uma publicação
da Biblioteca da Escola de Administração e Economia de São Paulo da FGV Fundação Getúlio Vargas.
No ano de 1983, a Biblioteca acima citada publicou uma série de seis
histórias em quadrinhos cujo tema era a depredação dos acervos. A idéia, que fazia

�8.1

parte de uma campanha anti-roubo, era discutir com os usuários da Biblioteca da
FGV a questão do roubo e da depredação do material bibliográfico da Instituição.
De forma irreverente, apresentaram o problema e seu carsador, que traziam
sérias consequências à conservação e à manutenção de acervos.

Na primeira

história, em doze quadrinhos, os bibliotecários da FGV traziam à discussão com
seus usuários os efeitos danosos provocados nos acervos por um certo usuário
batizado de Aristides, um depredário, que de tão violento era chamado de ‘o hulk
acadêmico’. De forma bem-humorada, eram contadas as peripécias de um pacato
cidadão, Aristides, que ao entrar na Biblioteca, transformava-se no inacreditável
depredário. Um usuário que, escondido de todos, atacava o material bibliográfico
rasgando, riscando, escondendo e roubando.
A partir daí, idealizou-se na BICEN a primeira exposição denominada de ‘O
Depredário - o Hulk Acadêmico’, conforme idéia original dos bibliotecários da
FGV.[1]

Os quadrinhos foram ampliados para o tamanho de meia folha em

cartolina, pregados em painéis de exposição, dispostos na ordem numérica
sequencial da história. Como complemento, a exposição recebeu dois expositores,
com tampos e laterais em vidro, com livros abertos em que aparecem
conseqüencias da depredação.

Para explicar o fato, criou-se uma forma de

processamento técnico alternativo. Os livros são acompanhados por novas fichas
catalográficas nas quais são substituídas as notas bibliográficas.
Assim, um livro que teve páginas arrancadas, e um outro que teve gravuras
cortadas, por exemplo, ganharam novas notações de pista, passando a constar nas
respectivas fichas:

�8.1

[1] “Depredário - O Hulk Acadêmico” nasceu a partir de uma idéia do bibliotecário Oswaldo Francisco
de Almeida Júnior , que escreveu o texto, tendo sido materializado (criação do personagem e
desenho) pelo auxiliar de biblioteca Lourival Romero.

Em um livro de Linguística: - “Estava interessado em Linguística ? Então por
que não se contentou em ler o livro, e deixou as seis páginas (79-84) para um
outro colega que também esteja interessado ?”;
Em um livro de artes plásticas:

- “Deste livro o depredário levou cinco

gravuras, de um total de 60 que compunham o livro.

Desconfio que ele

esteja pretendendo abrir uma galeria de arte.”

A exposição consta ainda de um depredário em tamanho natural (estatura
humana), feito em folha de isopor, e uma cesta de lixo com uma seta indicando que
aquele será o resultado da ação do depredário. Para registrar o mais nocivo dos
atos do depredário, o roubo, um lugar em branco, marcando o formato de um livro,
dá conta de que o livro ali existente foi levado pelo depredário.[1]
Fora da série ‘Depredários’, foi publicada uma sétima história, em duas tiras
compostas por oito quadrinhos, intitulada de ‘Aviso de Utilidade Pública’, onde se
alertava para os riscos de vírus que atacam usuários de bibliotecas.[2] Alertava-se
ao mesmo tempo em que se questionava se usuários que escondiam, rasgavam,
rasuravam e roubavam livros eram pessoas normais.

Era uma nova e bem-

humorada versão de depredários.
[1] A exposição ‘O Hulk Acadêmico’ revelou-se um sucesso (de crítica e de público) em busca de
uma solução para o problema da depredação, sendo solicitada e exposta em três bibliotecas de
Aracaju e levada a efeito como tarefa em uma gincana de uma escola particular de ensino médio.
[2] O ‘Aviso de Utilidade Pública’ foi uma idéia do auxiliar de biblioteca Bob Heavy, com textos
discutidos com o bibliotecário Oswaldo F. de Almeida Júnior, e desenhos do auxiliar de biblioteca
Lourival Romero.

�8.1

A idéia dos bibliotecários da FGV foi aproveitada para dar continuidade à
campanha pela conservação e manutenção do acervo, criando-se a segunda
exposição: ‘A Biblioteca Devastada’, assim batizada na BICEN. Nessa exposição
buscou-se uma forma artística para denunciar a ação dos vândalos.
A exposição consiste então no seguinte: dentro de um quadrado, marcado no
chão simbolizando paredes, distribuem-se painéis de exposição com os quadrinhos
ampliados para o tamanho de meia folha de cartolina, e em volta desses
espalharam-se no chão livros e revistas danificados. Um local em branco no chão,
marcando o formato de um livro, denuncia o roubo do mesmo.
Para chamar a atenção para as exposições, a BICEN faz circular e afixa em
locais estratégicos um convite: “A administração das informações, dos suportes
dessas informações e do acesso a elas, é um dos trabalhos da nossa biblioteca. A
depredação e o vandalismo não permitem, no entanto, que todos tenham,
realmente, acesso a muitas das informações procuradas.

Para que todos

conheçam o problema e o causador, a biblioteca apresentará as aventuras (prá ele,
porque para os outros são desventuras) do: Depredário, o Hulk Acadêmico.”

4.2 PROCEDIMENTO COMPLEMENTAR : A SEGURANÇA - UM MÉTODO
PRAGMÁTICO

A campanha educacional de conscientização para a conservação do material
bibliográfico, levada a efeito pela BICEN, revela-se como um controle preventivo
adequado, que dá resultados ao longo do tempo. No entanto, se o método da
prevenção pode resolver o problema na parte relativa à conservação, fica faltando

�8.1

uma solução para a manutenção do acervo. Seria necessário pensar-se em algo
mais concreto.

Nesse sentido, observações e análises de situações levaram a

considerar-se a necessidade de um controle adequado à situação e ao ambiente.
Assim, se a campanha de conscientização pode surtir efeito quanto à conservação
do material, a instalação de um sistema de segurança se revela como método
adequado para a manutenção do acervo.
Esse método consiste na instalação de um sistema de segurança
especialmente desenvolvido para bibliotecas. É construído dentro de um conceito
de proteção eletrônica, tendo como objetivo a eliminação das perdas de material
bibliográfico, e utilizando microprocessadores de última geração, com base em
tecnologia magnética. O sistema consiste de finas fitas metálicas aplicadas aos
diversos tipos de documentos da biblioteca. O sistema, equipamento projetado a
base de computador sofisticado, pesquisa eletronicamente, na saída dos usuários,
as fitas colocadas nos materiais da biblioteca.
A instalação do sistema de segurança para bibliotecas tenta solucionar dois
problemas: o primeiro, são perdas monetárias, existentes devido ao custo de
reposição em virtude dos roubos; o segundo, é a insatisfação dos usuários ao
constatarem que estão privados da informação requerida, devido ao furto do
material.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O que está posto neste trabalho, e vem acontecendo no setor da educação
de nível superior, teoricamente área que existe para eliminar a ignorância e

�8.1

fomentar a cultura, é reflexo do próprio caos social instalado no país. Esse estudo,
se não faz uma radiografia completa da estrutura do sistema de informações da
Universidade Federal de Sergipe, revela uma de suas facetas, que é a do
desperdício do dinheiro público, através da ação inescrupulosa de usuários da
Biblioteca Central.
Por que o assunto furto de livros tornou-se tão polêmico ? Porque revela a
exata dimensão da nossa pobreza acadêmica, que para alguns, é financeira e para
outros, moral. No primeiro caso, não se justifica o ato criminoso; no segundo, já não
resta dignidade social.

De concreto, os acervos bibliográficos estão sendo

duramente atingidos: rabisca-se, rasga-se e rouba-se.
O enfrentamento dos depredários é uma questão de política de conservação
e manutenção de acervos e deve ser discutido pela comunidade acadêmica com a
sociedade. É necessário tornar público o assunto. Não dá mais para viver entre o
analfabetismo de uma parcela considerável da sociedade brasileira e o “maucaratismo” de uma parcela da sociedade letrada.
A injustiça e a perversidade da ação depredatória podem ser conferidas
através de estatísticas relativas à área educacional: enquanto os 20% mais pobres
ficam com 16% dos recursos gastos na área, os 20% mais ricos ficam com 24% dos
gastos. Não dá para desperdiçar recursos, até em respeito aos analfabetos e semiescolarizados que, não tendo a prática da leitura, também não têm acesso aos
livros.
A identificação dos depredadores e a implantação de procedimentos que
garantam a conservação e manutenção do acervo apesar do agente biológico
humano, serão importantes para a manutenção do acervo em níveis estatísticos

�8.1

que, se não crescerem por falta de recursos financeiros, não diminuirão pela ação
depredadora humana, e para a conservação do material permanecendo em ordem
do ponto de vista da estrutura física.
O patrimônio cultural do Estado, sob as formas administrativas municipal,
estadual e federal, será preservado e mantido a partir do momento em que houver
conscientização do público usuário sobre a

importância de se respeitar a sua

cultura, manifesta em suportes físicos, no caso específico, em material bibliográfico.
O que se deseja é preservar a Memória Nacional e os recursos do País.
Se o combate aos agentes biológicos caminha por procedimentos que vão
desde os antigos banhos de querosene até as contemporâneas câmaras de
fumigação, nesses procedimentos não se inclui o homem. Para este agente, o
combate deve ser alternativo. Deve ser enfrentado por uma política de conservação
e manutenção de acervos que inclua métodos de controle adequados à
necessidade da conservação do material bibliográfico e manutenção dos acervos,
que se revelem antes de tudo como uma possibilidade de atuação de bibliotecas e
bibliotecários contra a ação dos depredadores do patrimônio público.
Se a política de serviços, aqui visualizada nas exposições, pode ser
considerada um fato novo criado pela BICEN, o mesmo não se pode dizer das
‘novas tecnologias’. Entretanto, o sistema evidenciado pode ser considerado uma
nova tecnologia a ser implantada nas bibliotecas universitárias brasileiras, uma vez
que ainda é desconhecido de grande parte de bibliotecas e bibliotecários.
Com essa mobilização para uma política de conservação e manutenção de
acervos contra o agente biológico humano quer se evitar a inutilidade ou inexistência
de centenas de exemplares de publicações.

Presume-se, assim, que os

�8.1

procedimentos adotados oportunizam métodos que podem dificultar a depredação,
reduzindo o prejuízo financeiro e intelectual.

Implantados os procedimentos, e

vencida a batalha, a biblioteca pode continuar tornando acessível à humanidade o
pensamento humano cristalizado através dos tempos.

ABSTRACT

This work proposes an unconventional policy for the preservation and maintenance
of library collections, consisting of an awareness-raising campaign for users,
combined with the introduction of a security system using new technology. This
policy, already being implemented in the University of Sergipe’s Central Library,
consists of two modules: a systematic campaign with two exhibitions to preserve the
collection, and the installation of a security system to maintain the collection.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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2 BIBLIOTECA adotará segurança fotoelétrica. Folha de São Paulo,
06.maio.1993.
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regiões tropicais. Brasília : ABDF, 1975. 46 p.
4 FREITAS, Estanislau. Bibliotecas tomam medidas contra roubos. Jornal do
Campus, São Paulo, 6 maio 1993.
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Grupo de Estudos em Obras Raras do Rio de Janeiro / Fundação Biblioteca
Nacional, 1994. 47 p.
6 LIMA, Justino Alves. Usuários do Apocalipse. Pipiri, Aracaju, ago. 1993.
7 PATRÍCIO, Patrícia. O porão dos condenados. Jornal do Campus, São
Paulo, 06 maio 1993.
8 USUÁRIOS danificam e roubam livros na Biblioteca Central. Jornal da
Cidade, Aracaju, maio 1993.

�8.1

9 VALENÇA, Ana. Cuidado! Canibais à vista! Jornal da Manhã, Aracaju, 4 jul.
1990.
10 VERGUEIRO, Waldomiro. Desenvolvimento de coleções. São Paulo :
Polis / Associação Paulista de Bibliotecários, 1989. 95 p.

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                <text>SNBU - Edição: 09 - Ano: 1996 (UFPR &amp; PUCPR - Curitiba/PR)</text>
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                <text>Biblioteconomia&#13;
Documentação&#13;
Ciência da Informação&#13;
Bibliotecas Universitárias</text>
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                <text>Tema: A biblioteca universitária e a sociedade da informação.</text>
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    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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      <name>Dublin Core</name>
      <description>The Dublin Core metadata element set is common to all Omeka records, including items, files, and collections. For more information see, http://dublincore.org/documents/dces/.</description>
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              <text>Mobilização para uma politica de conservação e manutenção e acervos contra o agente biológico humano. </text>
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              <text>O trabalho apresenta uma proposta de política de conservação e manutenção de acervo fora dos padrões convencionais. Trata-se de uma campanha de conscientização junto ao agente biológico humano, uma política de serviços, acompanhada pela implantação de um sistema de segurança, que representa uma nova tecnologia. A política em curso na Biblioteca Central da Universidade Federal de Sergipe consiste em uma proposta em dois módulos, sendo o primeiro a sistematização de uma campanha vinculada em duas exposições, para a conservação do acervo, e o segundo a instalação de um sistema de segurança para manutenção do acervo.</text>
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