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                  <text>5.1

ACESSAR OU POSSUIR, EIS A QUESTÃO...

Patricia Zeni Marchiori*

RESUMO

Aborda as discussões relacionadas com as mudanças conceituais da instituição
biblioteca, orientadas pela utilização da tecnologia dos computadores e das
telecomunicações.
Apresenta a opinião de autores estrangeiros quanto às
modificações nos processos de desenvolvimento de coleções e o incremento e
redimensionamento das estratégias de acesso. Destaca a importância da tomada
de decisões e os impactos do binômio acervo/acesso em bibliotecas universitárias e
em seus usuários.

1 BIBLIOTECA É MAIS QUE UMA COLEÇÃO DE LIVROS

A biblioteca é um prédio ou uma estrutura? É um fenômeno social e intelectual
associado com um lugar?

É uma coleção de material de informação?

É um

catálogo de pontos de acesso? É com estas questões que Laverna SAUNDERS
(1995) inicia um artigo, refletindo sobre a concepção de biblioteca no que diz
respeito ao desenvolvimento de coleções e, mais especificamente, à atividade de
aquisição.
O senso comum, a literatura leiga e a literatura especializada têm por vezes
reunido todos ou alguns dos aspectos citados acima, cuja discussão é fortemente
influenciada pelas experiências individuais, aliadas às condições históricas,
estruturais, culturais, sociais, econômicas e políticas em que as bibliotecas surgem e
se desenvolvem. Um acervo contido entre quatro (ou mais) paredes é, geralmente,
* Professora Assistente II do Departamento de Biblioteconomia da Universidade Federal do Paraná.

�5.1

a idéia mais difundida e aceita de biblioteca, assim como a imagem do bibliotecário
está relacionada mais com a instituição em que desenvolve seu trabalho do que
com as próprias atividades de localização, organização e disseminação de
informação.
A partir do século vinte, alguns fatores contribuiram para modificar, com maior
ou menor intensidade, mais ou menos sutilmente, não só a estrutura das bibliotecas
como também o trabalho e a formação dos bibliotecários. Dentre estes fatores,
pode-se citar:
a) o surgimento dos meios de comunicação de massa, como o rádio e a
televisão;
b) a frenética atividade de pesquisa e de produção de informação;
c) o barateamento da produção bibliográfica;
d) a proliferação de novos suportes informativos;
e) o rápido desenvolvimento das telecomunicações e da informática;
f) a crescente crise econômica mundial.
A repercussão destes e outros fatores, aliada às novas concepções e usos da
informação,

tem gerado uma síndrome de utilidade e de papéis por parte das

bibliotecas e dos bibliotecários, instando-os a redimensionar os conceitos e as
atividades relacionadas à recepção e armazenagem dos produtos do conhecimento
humano, reorientando instituição e profissional para uma atitude ativa no processo
de disseminação de informações. Esta reorientação implica não só na etimologia da
palavra biblioteca enquanto "coleção de livros", mas também nas atitudes

�5.1

profissionais relacionadas com o tutoramento de acervos e com as possibilidades
crescentes de acesso a informações.
Os avanços da tecnologia interessam não somente às bibliotecas e redes de
bibliotecas, mas também à indústria da informação com seus produtos, que esta
oferece para bibliotecários e usuários.

Pode-se dizer que os pioneiros nesta

indústria foram os sistemas de recuperação de informação desenvolvidos pelo setor
privado, como por exemplo o sistema DIALOG, que provê acesso a centenas de
milhões de registros, estruturado sob uma rede internacional de telecomunicações;
nos serviços de correio eletrônico e nos serviços de busca de documentos on-line.
A velocidade com que a indústria da informação se desenvolve tem levado as
bibliotecas a se preocuparem com novas questões e preocupações nos níveis
teórico e prático.

No nível prático, a existência da Internet, por exemplo, que

permite o acesso remoto a inúmeras fontes de informação, tem levado alguns
estudiosos a alertarem para o risco do desparecimento de algumas funções hoje
privativas das bibliotecas. No nível teórico, as bibliotecas enfrentam o dilema entre
"possuir" uma coleção local de materiais ou incrementar o acesso a materiais no
sentido de "pague-e-leve".
Estas reflexões podem, à primeira vista, indicar que não haverá mais a
necessidade de bibliotecas. Contudo, é provável que estas continuem a ter
coleções (mesmo que em suportes eletrônicos), porém com orientações nãoconvencionais quanto às estratégias e políticas de seleção e aquisição e quanto à
"filosofia" das concepções e diretrizes do controle bibliográfico e da disponibilidade
de publicações/documentos.

�5.1

Longe de ser uma questão consensual, as discussões relacionadas com a
manutenção de acervos, aliadas ou desconectadas da provisão de acesso a
informações e documentos, têm afetado o paradigma da tradicional estrutura e
missão das bibliotecas. O novo paradigma preconiza, em especial para as
bibliotecas universitárias e de pesquisa, que a importância de uma biblioteca não se
resume ao seu acervo interno, mas à sua capacidade de prover acesso para além
das possibilidades dos documentos bibliográficos e de sua coleção limitada. Neste
movimento para o acesso, a cooperação entre as bibliotecas torna-se prioritária,
assim como um aumento na confiança quanto às possibilidades das tecnologias de
informação eletrônica. Esta mudança de paradigma já está afetando diretamente a
criação da informação ela mesma, seu empacotamento e distribuição, as questões
de direito autoral, com reflexos imediatos na maneira com que os bibliotecários
constroem e gerenciam coleções (RUTSTEIN et alii, 1993).

2 DESENVOLVIMENTO DE COLEÇÕES: UM REPOSICIONAMENTO CONCEITUAL

As coleções de bibliotecas têm sido construídas com base em influências e
coações institucionais. Poucas são desenvolvidas deliberadamente para servir às
necessidades dos indivíduos que não estão diretamente comprometidos com a
organização que comporta a biblioteca. Assim, a natureza da coleção é influenciada
por uma série de fatores, tais como as demandas dos usuários, as decisões
administrativas, as ações governamentais, a disponibilidade de recursos de

�5.1

informação e mais claramente, as questões econômicas (FLEET e WALLACE,
1993).
Assim como existem bibliotecas que, por suas funções, objetivos, perfil de
usuários, leque de atividades e serviços, investem na preservação dos documentos
e da memória de um determinado país (as bibliotecas nacionais, por exemplo),
outras, como as bibliotecas especializadas, orientam-se para a busca de
informação, independentemente dela existir em seu acervo interno. As bibliotecas
escolares, públicas e universitárias estão em uma situação mais delicada, uma vez
que se orientam tanto para a preservação, no sentido da construção e manutenção
de um acervo que previna e antecipe as necessidades de informação de seus
usuários, como estão comprometidas com o acesso a ítens demandados que têm
grande chance de não se encontrarem no acervo interno.
As coleções sempre foram a base de qualquer biblioteca. Joel RUTSTEIN
(1993) afirma que as coleções definem a essência de uma biblioteca, cujos prédios
são construídos para guardar e manter materiais localmente. Estudos feitos em
países desenvolvidos indicam que aproximadamente dois terços do orçamento
operativo da biblioteca é direcionado para aquisição, processamento e preservação
destes recursos. Assim, as coleções também são um símbolo de status para uma
biblioteca. Jasper SHAD (1992) adverte que a noção de que grandes coleções
automaticamente resultam em boas bibliotecas é um dogma tenaz que tem
persistido por mais de dois milênios. Irene HOADLEY (1993) adiciona que a
sociedade sempre trabalhou muito o conceito de que o maior é melhor, e que este
posicionamento refletiu-se no fato de as bibliotecas terem sempre sido avaliadas por
seu tamanho. Porém, a autora pergunta: o fato de uma biblioteca ter três vezes o

�5.1

tamanho da outra a torna três vezes melhor? Para ela o tamanho tem sua
relevância, mas mais importante é a qualidade dos documentos que sustentam ou
compõem o volume numérico do acervo (1993). Estes autores concordam que
muito da discussão sobre acervo e acesso a informações passa pela discussão do
desenvolvimento de coleções.
Atualmente a gerência de coleções necessita levar em conta que as coleções
inevitavelmente se sobrepõem, uma vez que as necessidades das instituições não
são únicas, que os recursos de informação não são infinitos e que a crise financeira
vem dificultando ainda mais as ilusões de auto-suficiência que as bibliotecas
pretendem ter. Jasper SHAD (1992) explica que a onda inflacionária que abalou as
aquisições nas bibliotecas universitárias, principalmente dos periódicos estrangeiros,
nas áreas científica, técnica e médica, fez mais do que somente "achatar"
orçamentos de materiais, reduzir a compra de livros e forçar as bibliotecas
acadêmicas a cancelar assinaturas de jornais; fez, principalmente, com que os
bibliotecários pensassem em como lidar com esta situação. Algumas estratégias
foram desenvolvidas e podem ser divididas em duas categorias distintas: a primeira,
de

luta

a

curto

prazo,

representada

por

cancelamento

de

assinaturas

(particularmente daqueles títulos com aumentos abusivos), redução da compra de
monografias, redimensionamento dos orçamentos, obtenção de mais dinheiro para
compra de materiais e negociação de melhores preços com os editores e
publicadores. Uma segunda perspectiva apareceu quando os bibliotecários olharam
para além do problema mais próximo, enfatizando a mudança do papel da
biblioteca, de depositária de recursos para servidora de acesso, levando-se em
conta que as maiores bibliotecas de pesquisa deverão manter suas grandes

�5.1

coleções retrospectivas. Para as bibliotecas universitárias em particular, os projetos
vagarosos e debilitantes de cancelamento de periódicos são desencorajantes, não
sendo surpreendente que a maioria dos bibliotecários de bibliotecas universitárias
continue a acreditar que suas coleções devem expandir-se apesar dos aumentos
nos custos.
O fato é que a educação superior está enfrentando um período crítico de
austeridade monetária em todo o mundo, sendo isto ainda mais ressaltado nos
países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Os orçamentos para as
bibliotecas universitárias não voltarão a ser generosos (se é que um dia assim o
foram) e o cenário que se descortina indica que as bibliotecas irão poder comprar
cada vez menos.

Estas mudanças têm um grande impacto nos processos de

seleção e aquisição, e uma grande atenção será dada para a aquisição que venha
ao encontro da necessidade imediata do usuário (e não da necessidade
antecipada), havendo uma expansão no papel do usuário no processo de seleção.
Para SHAD o ponto fundamental da redefinição no desenvolvimento de
coleções é o abandono da noção persistente de que a seleção é uma função
primária.

EDELMAN (citado por SHAD) reconceitualizou o desenvolvimento de

coleções, declarando-a uma função de planejamento, em que a seleção ocupava
um papel secundário, dependente da tomada de decisões para implementar tal
plano.

Nesta orientação, os responsáveis pelo desenvolvimento de coleções

precisariam focalizar sete áreas, de modo a responder às demandas de um novo
ambiente:
•

planejamento: definir, descrever e priorizar as necessidades institucionais de
informação, tendo como objetivo maior manter o equilíbrio da coleção. Os
responsáveis devem especificar mais precisamente o que poderá ser adicionado
à biblioteca, baseados na importância dos vários assuntos, nas atividades de

�5.1

ensino e pesquisa e demais fatores utilizados para tomada de decisões relativas
à seleção;
•

•

alocação de recursos: o fato de se ter menos dinheiro pode intensificar a
competição entre os departamento da universidade, aumentando a preocupação
dos professores, alunos e pesquisadores quanto aos critérios e a justiça do
processo de decisão sobre seleção, compra e descarte de materiais;
ligações com os professores: como as aquisições tendem a declinar,
especialmente nas assinaturas de periódicos, os professores poderão insistir em
participar na seleção. Qualquer que seja o papel dos professores, o pessoal
encarregado do desenvolvimento de coleções deverá dispender tempo extra
para explicações, mesmo que isto signifique ouvir expressões de preocupação,
raiva e frustração. Esta é uma oportunidade de alertar e sensibilizar os
professores e pesquisadores quanto à realidade e as condições disponíveis;

.• desenvolvimento de coleções cooperativas: há muitos argumentos a favor de
que grupos de bibliotecas articulem seus recursos com base na ênfase da
instituição mantenedora ou outros fatores. A promessa de desenvolver coleções
conjuntas se torna cada vez mais atrativa quanto mais difícil é, para uma
biblioteca sozinha, sustentar coleções exaustivas. O planejamento deste tipo de
cooperação deve prever uma inevitável tendência a se suspenderem as
assinaturas dos mesmos títulos pelas bibliotecas que emprestam uma das
outras. Uma vez que o empréstimo inter-bibliotecário permanece como uma
importante fonte para o acesso a estes títulos, as bibliotecas cooperantes se
beneficiarão do fato de planejarem a retenção de pelo menos uma assinatura;
•

avaliação: passou-se o tempo em que as bibliotecas poderiam continuar
assinando os periódicos especializados sem verificar seu uso. A enorme
complexidade e a natureza intensamente política deste problema pode
facilmente consumir todas as energias dos responsáveis pelo desenvolvimento
da coleção. Os periódicos devem ser avaliados e adquiridos conforme sua
relevância comprovada;

�5.1

•

alternativas de aquisição: na avaliação de pedidos de compra, atenção
especial deve ser dada ao melhor caminho para a obtenção do item,
questionando o uso efetivo que este item poderá receber, os formatos nos quais
está disponível e de quais fontes pode ser obtido. Também é necessário decidir
se ele pode ser obtido mais rapidamente e com menor custo por meio do
empréstimo interbibliotecário, ou por alguma outra opção que não a da compra;

eficiência na seleção: os selecionadores devem planejar o desenvolvimento
de coleções de modo a reduzir o tempo dispendido na seleção título-a-título. Uma
possibilidade é recrutar pessoas do próprio campus para efetuar a seleção. Alguns
"bibliotecários" paraprofissionais podem possuir a especialidade desejada e ter um
interesse em coleções. Porém, os selecionadores leigos precisam compreender os
objetivos mais amplos do desenvolvimento de coleções, devendo ser
cuidadosamente escolhidos e treinados.

•

3 ESTRATÉGIAS DE ACESSO: AMPLIANDO A FUNÇÃO INFORMATIVA DAS
BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS

Stuart JAMES (1990)

esclarece que as bibliotecas têm, tradicionalmente,

baseado seus serviços em uma filosofia de posse de acervos, comprando,
emprestando ou tornando disponíveis, por meio do serviço de referência, os livros,
periódicos e outros documentos (em diferentes suportes) demandados pelos
usuários ou que, potencialmente, podem ser solicitados. O aumento do empréstimo
interbibliotecário e a proliferação de serviços eletrônicos e redes de informação têm
modificado o conceito e as estratégias de acesso, em parte reforçadas pelo uso de
serviços online em redes internas e externas. No cenário que se descortina, os
usuários podem buscar a informação de que necessitam com base em um leque de
fontes eletrônicas, que podem ou não levar a um documento impresso, que mesmo
não disponível localmente tem grandes chances de ser obtido em algum ponto do
planeta. Isto implica em uma combinação de acesso remoto, redes e armazenagem
ótica, em que a busca e a disponibilização da informação se processa em uma
estação de trabalho individual, fazendo com que o tradicional modelo de biblioteca,

�5.1

voltado para a armazenagem e provisão de documentos, se torne obsoleto. Para
muitos esta é uma projeção tentadora e lógica, que pode resolver muitos dos
problemas atuais causados pela rigidez na estrutura atual das bibliotecas, na
medida em que oferece acesso a uma base de inteligência e conhecimento
totalmente integrada, possível de ser manipulada pelos usuários individualmente, e
conforme suas demandas pessoais. Caso se considere que o futuro das bibliotecas
repousa largamente nas estratégias de acesso, a questão é: quando este futuro
chegará, dadas as limitações dos sistemas atuais?

O fato de mais e mais

tecnologias estarem sendo disponibilizadas e muitas bibliotecas já operarem com
base na estratégia de acesso em graus variáveis depende de fatores como
disponibilidade de recursos, filosofia ou atitude do pessoal da biblioteca e da
demanda (ou mesmo a simples aceitação) por parte dos usuários.

Nesta

perspectiva, o empréstimo interbibliotecário poderá ser suplementado pela
disponibilização de documentos eletrônicos, que inevitavelmente serão afetados e
dependentes das telecomunicações. O que se pode projetar a curto e médio prazo
para muitas bibliotecas (e a longo prazo para algumas outras) é que ambas as
estratégias, de acervo e de acesso, irão operar conjuntamente e a ênfase em uma
ou outra poderá variar em função do tempo disponível, dos assuntos, do dinheiro
envolvido e das atitudes pessoais de bibliotecários e usuários. Atenção especial
deverá ser dada às diferentes reações que a tecnologia da informação provocará
nos usuários, pois é de se esperar uma certa resistência aos serviços eletrônicos,
ou mesmo um alto grau de expectativa.

Estas tensões não devem ser

subestimadas, sob pena de se tornarem fatores complicadores. O tempo é outro
fator crucial tanto para os bibliotecários como para os usuários, podendo implicar em

�5.1

restrições no desenvolvimento de pesquisa e trabalho, assim como na busca de
financiamentos e de outros recursos. Para as bibliotecas, o investimento financeiro
em hardware, software e assinaturas são consideráveis, assim como o
dimensionamento do espaço físico, cujos custos devem ser considerados para a
manutenção e expansão das coleções tradicionais e/ou das coleções eletrônicas.
Tais fatores devem ser levados em conta ao se planejar o movimento da posse de
acervo para as estratégias de acesso. Estes focos de tensão existem em todas as
bibliotecas, em diferentes períodos de tempo, em diferentes circunstâncias locais e
com diferentes intensidades, sendo cruciais e requerendo monitoramento e
avaliação constantes.
Os constantes aumentos nos preços dos periódicos, principalmente nos
campos da ciência e da engenharia, têm colocado em perigo a habilidade das
bibliotecas universitárias e de pesquisa em garantir a continuidade das coleções de
periódicos junto aos pesquisadores, assim como a manutenção das publicações
secundárias, tais como os índices e abstracts.

A manutenção das assinaturas

apresenta-se como um dilema para as bibliotecas universitárias, uma vez que cada
biblioteca necessita manter a coleção de títulos primários (aqueles mais
freqüentemente requeridos e que formam o núcleo da coleção de periódicos da
universidade). Porém, que alternativa oferecer para aqueles títulos menos citados,
mas que ainda assim são necessários para a pesquisa? Para alguns bibliotecários
a solução é confiar no empréstimo interbibliotecário e em algum sistema de
disponibilização de documentos, combinando-os com acordos de cooperação entre
bibliotecas.

Esta cooperação pode liberar as bibliotecas da obrigatoriedade de

manter todos os títulos de periódicos que seus pesquisadores precisam. Contudo, a

�5.1

questão é: as bibliotecas irão priorizar o sistema de disponibilização de documentos,
de modo a oferecer um serviço efetivo o suficiente para sustentar as demandas de
pesquisa? Os pesquisadores irão apoiar as bibliotecas nesta transição, ou irão a
outro lugar para satisfazer suas necessidades de informação? A disponibilização de
documentos (document delivery) tem sido considerada como uma opção válida para
atender às demandas dos usuários, juntamente com os convencionais empréstimos
interbibliotecários (do próprio material ou de fotocópias), os serviços comerciais de
disponibilização de documentos, a transmissão por telefacsímile, e a transferência
de arquivos para computadores pessoais (downloading) de artigos de periódicos em
formato eletrônico. Muitos dos mecanismos tecnológicos já existem na maioria das
bibliotecas, auxiliando no provimento do acesso dos materiais de pesquisa
dispersos fisicamente, como por exemplo as máquinas de telefacsímile e terminais
que permitem o acesso a redes de informação eletrônicas e acervos disponíveis em
algumas bibliotecas.

Porém, algumas barreiras ainda permanecem, como por

exemplo a morosidade do empréstimo interbibliotecário, cujas versões mais rápidas
são relativamente caras, assim como são os serviços comerciais de busca/entrega
de documentos.

Além disto, o método mais rápido de se obter um artigo é

freqüentemente o mais trabalhoso, o que muitas vezes não é regra nas seções de
empréstimo interbibliotecário da maioria das bibliotecas. O downloading de artigos
ainda não é uma alternativa freqüente, porque poucos dos periódicos mais utilizados
em pesquisa já estão disponíveis neste formato ( ROBERTS, 1992).
O maior problema, no entanto, é a resistência do usuário, principalmente do
pesquisador, em aceitar a estratégia de busca de documentos como um substituto
da posse local, mesmo para os periódicos de menor demanda. Enquanto o

�5.1

empréstimo inter-bibliotecário e os sistemas de disponibilização de documentos têm
sido amplamente discutidos na literatura, poucos estudos têm sido feitos junto aos
usuários a fim de identificar, por exemplo, qual o impacto do atraso no provimento
do documento sobre o trabalho do pesquisador.
O aprimoramento da infra-estrutura tecnológica e organizacional pode vir a
garantir uma rápida e confiável disponibilidade de documentos. Porém, ainda são
muitos os questionamentos quanto ao fato do acesso poder ser tão eficiente a ponto
de substituir a posse local. Uma destas discussões diz respeito à inexistência de
padrões mínimos para medir o desempenho das estratégias de acesso, que possam
incluir tanto o empréstimo interbibliotecário como os serviços comerciais de
busca/entrega de documentos.

TRUESDELL (1994) aponta três critérios para

avaliar o desempenho na atividade de acesso: custo, tempo de resposta e
pertinência.

Neste caso, os mecanismos de acesso devem provar que são

custo/efetivos, rápidos e confiáveis, de maneira a captar a confiança dos usuários,
bibliotecários e administradores. Contudo, o custo real do acesso ainda tem sido
uma questão problemática. Estudos realizados em países desenvolvidos indicam
que os custos do empréstimo interbibliotecário podem variar de um a quinze
dólares. Para a biblioteca, a questão crucial na tomada de decisões diz respeito a:
quando comprar, catalogar e guardar, quando utilizar fornecedores pagos ou
quando utilizar o empréstimo interbibliotecário para obter materiais. Estudos com
base nestes fatores podem eliminar muito da "advinhação" comum aos
bibliotecários que trabalham com os custos relacionados a acesso. (TRUESDELL,
1994).

�5.1

Para RUTSTEIN (1993) será importante que as bibliotecas determinem, em
termos das opções de aquisição ou acesso (em particular dos ítens mais caros),
qual a medida mais custo-efetiva. Em casos mais específicos não se pode ainda
comprovar que a posse é menos onerosa que o acesso, mas, por outro lado, a
rapidez no acesso é ainda um fator a ser considerado em toda a equação, uma vez
que acesso atrasado é, em resumo, acesso negado. Algumas bibliotecas que já
realizaram estudos de custo/benefício, optaram pelo cancelamento de assinaturas
de títulos mais caros, demandando-os, quando necessário, a fornecedores
comerciais de bases de dados. De acordo com o título de periódico e seu uso, o
custo anual de uma assinatura pode exceder em muito o custo da busca de
determinado artigo/documento feita "sob encomenda".

O compartilhamento de

recursos pode oferecer meios para que as bibliotecas lidem com alguns dos
problemas causados pelo dilema acesso versus posse, e o aumento dos custos
relacionados com ambas as estratégias.
Com o desenvolvimento do compartilhamento de recursos, as bibliotecas
poderão estar mais aptas a incrementar suas coleções-núcleo (os famosos vinte por
cento que satisfazem a oitenta por cento das demandas), provendo acesso rapido à
informação que não se encontra no acervo interno, além de estabelecer acordos de
cooperação para o desenvolvimento de coleções comuns para os materiais
periféricos.

Novamente o elemento-chave a embasar o compartilhamento de

recursos é o empréstimo inter-bibliotecário, uma vez que qualquer esforço no
desenvolvimento cooperativo de coleções deve estar intimamente ligado a um
eficiente

sistema

de

disponibilização

de

documentos.

O

empréstimo

interbibliotecário pode variar do empréstimo tradicional, praticado por um número

�5.1

significativo de bibliotecas a acordos recíprocos mais formais. O planejamento de
tais consórcios deve levar em conta que muitas vezes os esforços regionais podem
ser menos onerosos e mais imediatamente benéficos que projetos que envolvem
todo o país (RUTSTEIN, et alii,1993). Para este autor as políticas de coleção
deveriam focalizar a clientela primária, materiais dos assuntos-núcleo da instituição
e protocólos de desenvolvimento de consórcios, ao invés de se buscar as tais
"coleções compreensivas".

Os consórcios de informação são cada vez mais

essenciais, em função da redução do poder de compra que atingiu todas as
bibliotecas em todo o mundo e que tem acarretado a perda da riqueza e
profundidade nas coleções.
Mesmo que a política de desenvolvimento de coleções privilegie o acesso, os
bibliotecários devem reafirmar as orientações básicas da biblioteca universitária: dar
suporte para programas institucionais, atender à pesquisa corrente, estruturar a
coleção para o futuro e trabalhar com os projetos de aquisição dos "materiais
nucleares" da coleção.

Esta transição implica igualmente em uma série de

questões, sendo a mais problemática aquela que exige a tomada de decisão sobre a
alocação de mais fundos para a compra/acesso a materiais ou o repasse de uma
parcela deste custo para o usuário. Optando-se pela segunda alternativa, outras
perguntas se colocam: quanto se deve realocar? - como estimar esta atividade - por
meio do empréstimo interbibliotecário e das demandas por serviços de bases de
dados, por exemplo? A análise final destas reflexões provavelmente indicará um
equilíbrio entre o acervo local e a informação a ser acessada "extra-muros".
(RUTSTEIN, 1993).

�5.1

O fato de que muitos usuários consideram a comutação bibliográfica e/ou o
empréstimo bibliográfico como serviços "frágeis" quanto à velocidade de entrega de
um documento que a biblioteca não possua localmente indica um histórico de baixas
expectativas e baixas prioridades de ambos os lados (usuários e bibliotecários).
Dois outros fatores se aliam a estes e criam uma situação crítica para as bibliotecas
acadêmicas e de pesquisa: os custos crescentes das assinaturas de periódicos e a
disponibilidade de outras fontes de informação além das bibliotecas. Na medida em
que os pesquisadores percebem que as bibliotecas não podem ou não irão obter os
documentos solicitados, eles certamente irão lançar mão de outros procedimentos.
Assim, mais uma vez a credibilidade da biblioteca enquanto intermediária de
informação enfraquecerá. Nestas circunstâncias, o procedimento mais importante
para as bibliotecas é, mais uma vez, identificar o tipo, a natureza e as características
dos serviços de informação desejados pelos pesquisadores (ROBERTS, 1992).
A autora sugere outros tópicos para o aprimoramento das estratégias de
disponibilidade de documentos para serem discutidas e analisadas em sua real
efetividade:

�5.1

•

•

•

•

•

•

•

•

o serviço de disponibilização de documentos deve ser priorizado tanto quanto a
aquisição de periódicos e livros. Caso a disponibilização de documentos seja
realmente considerada como uma maneira de substituir a posse local, o
orçamento para compra de materiais pode ser considerado uma fonte de fundos
para esta atividade. O dinheiro poupado no cancelamento de um periódico de
pouco uso pode ser reorientado para auxiliar no fornecimento de pedidos de
artigos de periódicos que deixaram de ser assinados pela biblioteca;
a disponibilização de documentos deve ser orientada para ser uma operação
rápida e eficiente. Isto significa reduzir os prazos de entrega dos documentos,
estabelecer taxas de cobrança mais altas para pedidos entregues por meios
mais rápidos (telefacsímile, formato eletrônico, entrega expressa, por exemplo),
assim como incrementar o serviço de empréstimo interbibliotecário nos períodos
de férias acadêmicas, uma vez que muitos pesquisadores aproveitam estes
meses para suas buscas bibliográficas;
monitorar e comprometer-se com o contínuo melhoramento da qualidade dos
serviços de disponibilização de documentos, realizando pesquisas entre os
usuários, a fim de determinar sua satisfação, dúvidas, críticas e sugestões;
comprometer o departamento de empréstimo interbibliotecário com a precisão e
qualidade do serviço;
examinar profundamente as rotinas, visando sua simplificação. O usuário não
deverá sentir que seu pedido dependerá de uma localização tão remota e tão
trabalhosa que acabe por pensar que o esforço não vale a pena. As respostas:
"isto leva muito tempo" ou "é mais fácil conseguir de outra maneira" é a razão
mais freqüente para a não-utilização do empréstimo interbibliotecário;
coletar dados relativos ao tempo de resposta entre o pedido do
documento/informação e sua entrega efetiva, utilizando-os para avaliar o
sucesso e o cumprimento dos objetivos da seção de empréstimo
interbibliotecário. Não basta apenas dizer ao usuário o tempo previsto entre a
remessa e a chegada do material, mas sim quanto o usuário terá que esperar
realmente para receber seu pedido;
desenvolver mecanismos inovadores para responder aos muitos desafios do
empréstimo interbibliotecário. Por exemplo, se o usuário objeta sobre a
qualidade do telefacsímile, deve-se obter uma fotocópia; se o usuário necessita
de gráficos e tabelas deve-se utilizar outra opção que não o acesso eletrônico;
estabelecer acordos de coleções cooperativas e buscar sua efetivação nos níveis
administrativos mais elevados da universidade, com base na racionalização dos
recursos para aquisição;

�5.1

•

•

compartilhar as listas de aquisição com as bibliotecas mais próximas. Esta cooperação
irá aumentar a compreensão do usuário da importância do empréstimo interbibliotecário, ajudando-os a compreender que a biblioteca não se limita aos materiais
encontrados no campus da universidade;
esclarecer aos pesquisadores sobre as vantagens dos sistemas de disponibilização de
documentos como um substituto razoável (e talvez necessário) para o acesso aos títulos
de periódicos de pesquisa menos usados. O fato de muitos pesquisadores não
sentirem ainda o impacto total do cancelamento de periódicos não deve durar muito
tempo. O mais importante é que eles compreendam que o empréstimo interbibliotecário e os serviços de disponibilização de documentos podem, em alguns caso,
ser a única solução (ROBERTS, 1992).

4 MAIS PERGUNTAS QUE RESPOSTAS?

O enfoque crescente e difundido de que as bibliotecas devem mudar de uma
orientação de posse/acervo para um serviço de acesso é uma reorientação no
paradigma operacional das bibliotecas, principalmente no que diz respeito à maneira
como os bibliotecários trabalham e como desenvolvem suas atividades. O fato de a
revolução da informação apoiar-se na adaptação dos processos de recuperação de
informação voltados para demandas específicas implica em uma perspectiva
totalmente centrada no usuário. Não se pode prever se isto vai acontecer em sua
totalidade, mas o conceito da biblioteca como "depósito" está perdendo cada vez
mais sua validade. A biblioteca orientada para o suprimento de informações não
está voltada para a coleta de materiais para o uso potencial (just in case...), mas
para uma estratégia de atendimento sob demanda (just in time...). Desta maneira, a
biblioteca passa a adquirir apenas o que o usuário precisa de imediato, liberando
fundos das compras para o acesso. Neste tipo de ambiente é essencial que a
biblioteca conheça bem seus usuários: quem eles são, quais as suas necessidades

�5.1

de informação, como estas necessidades mudam e como eles usam a informação
(RUTSTEIN, et alii, 1993).
Os bibliotecários precisam estar preocupados com o processo de transferência
de informação, ao invés de apenas com o processo de aquisição.

Caso as

bibliotecas desejem assumir o papel de information brokers ou de provedores de
acesso à informação, seus administradores devem olhar para além dos seus
catálogos e coleções. A tendência é que as expectativas dos usuários aumentem,
exigindo dos bibliotecários a habilidade de explorar coleções de bibliotecas e
recursos eletrônicos de informação, onde quer que estejam localizados. O fator
irônico desta situação é que, enquanto as bibliotecas cortam seus orçamentos, o
que implica na compra de poucos materiais, as expectativas dos usuários estão se
expandindo, não somente por mais documentos, mas por uma ampliação do acesso
a informações. Outro fator nesta equação é o fato de que, ao mesmo tempo que
isto acontece para o ambiente das biblioteca, outros mecanismos e instrumentos de
acesso, baseados nas mais variadas tecnologias, estão competindo por estes
mesmos escassos recursos e pela atenção dos usuários/clientes. A compra de
equipamentos ou custos de leasing, a manutenção, a atualização de equipamentos,
os serviços, as taxas de redes e de armazenagem em computador e o treinamento
do pessoal da biblioteca rapidamente devoram o orçamento da biblioteca. O desafio
para os bibliotecários responsáveis pelo desenvolvimento de coleções é atingir um
equilíbrio entre acesso e compra, enquanto buscam servir às necessidades de seus
usuários locais. Neste cenário, a postura mais adequada é focalizar a questão de
acervo e acesso não como condições opostas (mesmo que possam sobrepôr-se em

�5.1

alguns casos) mas como estratégias em um continuum para as atividades de
provimento de informação.

ABSTRACT
Examines discussions about conceptual changes in academic libraries resulting from
the use of computer technology and telecommunications. It presents opinions of
foreign authors regarding modifications in the processes of collection development
and the addition and reshaping (?) of access strategies. It highlights the importance
of decision-making and the impact of the access/ownership binomial (?) on university
libraries and their making users.

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�5.1

200-206, Sept. 1994.

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    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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              <text>Aborda as discussões relacionadas com as mudanças conceituais da instituição biblioteca, orientadas pela utilização da tecnologia dos computadores e das telecomunicações. Apresenta a opinião de autores estrangeiros quanto às modificações nos processos de  desenvolvimento de coleções e o incremento e redimensionamento das estratégias de acesso. Destaca a importância da tomada de decisões e os impactos do binômio acervo/acesso em bibliotecas universitárias e em seus usuários.</text>
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