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                  <text>O gerenciamento da informação em biblioteca universitária: um estudo de caso na
Biblioteca Central da UNEB
Zuleide Paiva da Silva*
eide@campus1.uneb.br

Entendida como uma organização, a biblioteca universitária pode ser
percebida como um conjunto de partes que atuam de forma coordenada tendo
em vista o atendimento a objetivos específicos. Essas partes podem ser
agrupadas em três categorias básicas, ou seja, o capital, os recursos
humanos e as informações. Reconhecendo o caráter indispensável da
informação para o funcionamento de uma organização, este estudo buscou
investigar o gerenciamento da informação na Biblioteca Central da
Universidade do Estado da Bahia/UNEB, localizada em Salvador/Ba, levando
em conta a cultura organizacional, o uso que as pessoas fazem da informação
e as tecnologias usadas para administra-la. O sujeito deste estudo restringiuse à direção da biblioteca e, para a coleta de dados foram utilizados
questionários e entrevistas aplicados no local de trabalho. Os dados,
refletindo a expressão de um dado momento, revelam que o ambiente
informacional da Biblioteca Central da UNEB sofre interferências que
comprometem a aquisição, a compreensão, a disseminação e o uso da
informação como matéria prima das decisões.
Palavras-chave: Gerenciamento de Informação – Biblioteca Universitária

1 Introdução
Partindo de um enfoque sistêmico, as unidades de informação, entendidas como
organizações, podem ser percebidas como um conjunto de partes que atuam de forma
coordenada, tendo em vista o atendimento a objetivos específicos. Essas partes podem ser
agrupadas em três categorias básicas: a) o capital, abrangendo as instalações físicas e os
recursos financeiros; b) os recursos humanos, representados pelas pessoas associadas a
uma organização, seja na qualidade de proprietários ou empregados; c) as informações,
comportando um vasto conjunto de dados, que alcançam desde o ambiente externo à
organização, passando pelas informações de controle gerencial e de execução operacional,
incluindo ainda as informações de mercado e as informações de natureza políticainstitucional e de domínio tecnológico (Monteiro, 2000). Ressaltamos aqui o caráter
indispensável da informação para o funcionamento de uma organização, ainda que os
mecanismos para o seu armazenamento e processamento sejam bastante variados de uma
organização para outra. Porém, a aceitação de que a informação possua o mesmo valor que
*

Bibliotecária, Subgerente da Biblioteca Central/UNEB. Especialista em Arquivologia e as Novas
Tecnologias Documentais/UNEB. Mestranda em Administração Avançada/UNEB - UNIBAHIA

�os outros recursos da organização é um tanto polêmica e, apesar de sua importância, a
informação tem crescido de forma exponencial e desordenada, tornando caótico o ambiente
informacional de muitas organizações, aqui entendido como aquele onde a informação é
produzida, disseminada e utilizada

Assim, este estudo buscou investigar o gerenciamento da informação na Biblioteca
Central da UNEB, localizada em Salvador, a partir da abordagem de Thomas Davenport,
denominada Ecologia da Informação, levando em conta a cultura organizacional,
compreendida aqui como os valores e as crenças dos gestores da UNEB sobre a
informação, e levando em conta também as armadilhas que interferem no intercâmbio de
informação e as tecnologias usadas para administrá-la. Os objetivos específicos desse
trabalho foram assim definidos: a) identificar como os gerentes percebem seus ambientes
informacionais; b) compreender que tipo de informações os gerentes precisam para auxiliar
a sua tomada de decisão; c) identificar as fontes de informação utilizadas pelos gerentes; d)
identificar que tipo de informação é classificada e armazenada nas gerências; e)identificar
os meios utilizados na distribuição das informações; f) identificar como os gerentes
utilizam as informações para a tomada de decisão.
Tomou-se como população-alvo os administradores da Biblioteca, sendo que por
administrador deve ser entendido aquele que tem o poder de decisão. Assim, o sujeito
deste estudo restringiu-se à direção da Biblioteca. Para coleta de dados, utilizamos
entrevista e questionários que foram aplicados in loco e demos ênfase na observação
participante das rotinas de trabalho. A pesquisa foi iniciada pela seleção dos conceitos que
dão substância ao objeto. Em seguida, passamos para a discussão da bibliografia específica
que explica o gerenciamento da informação e sistemas de informação nas empresas
públicas e privadas. Foi a partir desse referencial teórico que construímos elementos de
juízo que puderam ser confrontados com os dados obtidos através de entrevista e
questionários, realizados, respectivamente, em maio e novembro/2001.

Este estudo reflete a expressão de um dado momento, e assim deve ser entendido. É
importante deixar claro que houve mudanças significativas no ambiente informacional da
Biblioteca desde o início até a conclusão desse trabalho.

�2 A Natureza da informação
A sociedade contemporânea vive de tal modo a economia da informação, que
revoluciona a maneira como trabalhamos, como pensamos e, até mesmo, a maneira como
vivemos, pois a informação tornou-se um bem precioso; é produto gerador de prosperidade
e de riqueza em todos os lugares. Nessa economia, chamada por Castells (2000) de
informacional e global, a produtividade e a competitividade de unidades ou agentes
econômicos dependem principalmente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de
forma eficiente a informação baseada no conhecimento.
A compreensão do valor da informação passa, necessariamente, pelo uso que se faz
dela e pelo entendimento que se tem do seu conceito. Palavra de origem latina, formatio,
forma, informação tem sido objeto de pesquisa em diferentes áreas do conhecimento e,
conseqüentemente, recebe variadas conotações. A literatura é vasta e demostra a
complexidade do termo, de muitas acepções e riqueza semântica. Aceitando o processo
evolutivo que vai do dado ao conhecimento, onde o “dado é a matéria prima da informação
e a informação pode ser entendida como a matéria prima da qual deriva o conhecimento”
(McGarry, citado por Pinheiro e Loureiro, 1995, p. 44), neste trabalho, categorizamos a
informação como um recurso administrativo que tem por finalidade subsidiar a tomada de
decisão, identif icando o papel por ela desempenhado no funcionamento da universidade,
enquanto organização.

Em muitas organizações a informação confunde-se com o “objeto” que representa.
É o caso da biblioteca universitária, que tem o conhecimento como objeto a ser
administrado. Assim, a análise da gestão dessa instituição deve centrar-se no estudo do
processamento das informações, procurando identificar o papel por ela desempenhado na
viabilização do seu funcionamento.

3 A Universidade do Estado da Bahia e sua Biblioteca Central

Criada pela Lei-Delegada nº 66, de 1º de junho de 1983, e reconhecida pela Portaria
Ministerial 909, de 31 de julho de 1995, a Universidade do Estado da Bahia, UNEB, tem
sua origem no Centro de Educação Técnica da Bahia – CETEBA. Estruturada sob forma

�multicampi, a UNEB é uma Instituição mantida pelo Governo Estadual, sob regime de
autarquia, vinculada à Secretaria da Educação. É caracterizada como uma universidade
multirregional, distinguindo-se, portanto, por essa particularidade das demais universidades
integrantes do Sistema Estadual de Educação Superior que possuem feição regional.

A Biblioteca Central da UNEB, BC, tem sua origem na Biblioteca do Centro de
Educação Técnica da Bahia – CETEBA. Teve o seu primeiro Regulamento aprovado em
15 de Agosto de 1980, após a transformação do CETEBA em Superintendência de Ensino
Superior da Bahia –SESEB, que em 1983 originou a UNEB. Com a criação da
Universidade, a BC torna-se Órgão Suplementar vinculado a Reitoria, coordenador do
Sistema de Bibliotecas da Universidade. Após mudanças na estrutura organizacional da
universidade, a BC deixa de ser vinculada à Reitoria, perdendo o cargo de Diretor, que é
substituído pelo cargo de Gerente. Atualmente, vinculada à Pró-Reitoria de GraduaçãoPROGRAD, a BC funciona com a seguinte estrutura:
I – Direção II 1
II – Secretaria Geral
III – Secretaria Administrativa
IV – Sub-Gerência de Atendimento ao Leitor
V- Sub-Gerência de Processamento Técnico
VI- Sub-Gerência de Seleção e Aquisição
Em 1999, a Administração Central da Universidade transferiu o acervo e os
funcionários da Viodeteca, até então subordinados ao Arquivo Central, para a BC, que
assumiu a administração do setor e a responsabilidade pelos serviços oferecidos.
4 O gerenciamento da informação na Biblioteca Central da UNEB
O gerenciamento da informação é um grande desafio para as bibliotecas
universitárias, que buscam se fortalecer como instituições produtivas e eficazes, capazes de
subsidiar com qualidade a tríade ensino, pesquisa e extensão. Embora exista uma vasta
literatura que aborda o gerenciamento da informação nas empresas privadas, existe uma
lacuna em relação ao tema nas empresas e instituições públicas. Apesar da existência de
amplas
1

pesquisas

e

conhecimentos

relativos

à informação,

suas

características

equivalente, em termos de remuneração e status, ao cargo de Gerente na estrutura da
Universidade. Em função disso, a referencia feita ao responsável pela biblioteca às vezes é
de Diretor, outras vezes é de Gerente.
Cargo

e

�alternativas para gerenciá -la, esse conhecimento é recente e tende a ser fragmentado, mal
compreendido e mal-aplicado (Mc Gee, 1994).
No campo da administração de empresas, o gerenciamento da informação é definido
por Davenport (1998) como um processo que envolve um conjunto de atividades
estruturadas e desenvolvidas por uma empresa com o objetivo de adquirir, distribuir e usar
a informação e o conhecimento, que são bens importantes para qualquer organização. É de
fundamental importância administrar a informação sob a perspectiva de um processo que
pode ser mensurado, avaliado e aperfeiçoado em cada etapa. Também é importante que
esse processo tenha um responsável pelo sucesso final. O modelo que define o
gerenciamento da informação depende dos interesses, dos problemas e das especificidades
de cada organização. A literatura que trata desse assunto aponta modelos genéricos, uma
vez que a informação recebe diferente ênfase nas organizações e, as tarefas dentro do
modelo assumem níveis diferenciados de importância e de valor entre as organizações.

Considerando o modelo de gerenciamento da informação proposto por Davenport, ou
seja, um processo formado por quatro etapas (determinação das exigências, obtenção,
distribuição e utilização), descreveremos a seguir cada uma dessas etapas confrontando os
dados coletados na pesquisa, levando em conta as especificidades de uma biblioteca
universitária e as particularidades da Biblioteca Central da UNEB.

Primeira etapa: Determinação das exigências ou identifi cação das necessidades
informacionais
É a etapa mais subjetiva do processo e também a mais importante. Por ser subjetiva,
é também uma etapa difícil e envolve: identificar como os tomadores de decisão e os
funcionários percebem seus ambientes informacionais; identificar os usuários da gerência;
identificar as fontes de informação, dentro ou fora da instituição; reconhecer o valor da
informação estruturada e não estruturada, como recurso estratégico para alcançar as metas
institucionais.

Um dos objetivos dessa etapa é identificar as informações necessárias para auxiliar o
processo decisório. Para tanto é necessário que o gerente seja proativo, que conheça a

�missão e a estrutura organizacional e que os objetivos de sua gerência estejam em
consonância com a missão institucional.
Conhecer a missão da UNEB não é algo tão simples quanto pode parecer. Segundo
Marcovitch (1998, p.22), “a missão acadêmica é algo que se reconceitua a cada época e
jamais será definida com exatidão ao longo da história”. A UNEB, que foi inicialmente
uma universidade voltada para a formação de professores, hoje tem suas diretrizes
apontando para a interiorização do ensino, da pesquisa e da extensão. A sua missão,
reforçando a colocação de Marcovitch, não é claramente definida e tão pouco conhecida da
grande maioria dos seus servidores. Conseqüentemente, a BC apresenta dificuldades para
definir sua missão e também seus objetivos em consonância com a missão da universidade.
Sem missão e sem objetivos, claramente definidos e interiorizados pelos funcionários, e
com uma estrutura organizacional comprometida, existe na BC uma certa incerteza em
relação a sua importância para a instituição, e um sentimento de descontentamento em
relação ao apoio recebido da administração central da universidade 2.

Nesse clima de incertezas e insatisfação, o ambiente informacional da BC apresenta
vários pontos de estrangulamento. Entre os fatores que comprometem o fluxo da
informação, apontados em ordem de importância, estão os recursos humanos e
tecnológicos3.
Em relação aos recursos humanos, a BC conta atualmente com 36 funcionários, 05
estagiários de nível médio e 01 menor aprendiz, que juntos, formam um quadro de 42
colaboradores para coordenar e desenvolver todos os serviços e atividades inerentes a uma
unidade de informação. Deste total, 24 servidores têm nível superior, sendo que 19 destes
têm especialização concluída ou em curso, e os bibliotecários com especialização
representam aproximadamente 45% desse universo.
Os servidores da BC, sem exceção, definem seus horários de trabalho, de acordo com
os seus interesses pessoais, sem nenhuma restrição da administração da biblioteca, que
oferece três turnos de trabalho. No entanto, apesar de funcionar ininterruptamente, de
2
3

Entrevista com a diretora da BC, em 17/01/01.
Questionário respondido pela diretora da BC, em nov/01.

�Segunda à Sexta-feira e aos Sábados no período matutino, esses horários não são
respeitados. Os servidores, de uma forma geral, chegam atrasados ou faltam ao trabalho
com freqüência. Segundo a Diretora da biblioteca4, muitas são as reclamações dos usuários
em relação ao horário de funcionamento da BC, que não abre e não funciona, de forma
regular e integral, no horário estipulado.
De acordo com a política da universidade, os servidores que ocupam cargos
comissionados ou “cargos de confiança”, devem ter uma carga horária de 40 horas/semana
e os demais servidores 30 horas/semana. Aqueles que ocupam os “cargos de confiança” são
reconhecidos como os responsáveis pelos serviços que desenvolvem e/ou chefes dos
setores que trabalham, de forma que na universidade como um todo e em especial na
biblioteca, é culturalmente cultivada a idéia de que somente os chefes de setores assumem
responsabilidades e respondem pelos serviços. Na BC, apenas quatro bibliotecários,
incluindo a diretora da

biblioteca, ocupam cargos comissionados. A distribuição das

funções

contempla

gratificadas

não

os

setores

de

Periódicos

e

de

Referência,

conseqüentemente, esses setores não têm um responsável pelos serviços. Esses dados
sugerem um comprometimento no gerenciamento dos serviços e, conseqüente prejuízo no
ambiente informacional.

Quanto aos recursos tecnológicos, apontados como outro ponto de estrangulamento
do ambiente informacional da BC, podemos dizer que o investimento em tecnologia tem
recebido especial atenção dos gestores.

Esse investimento tecnológico pode ser observado

no projeto de informatização do Sistema de Bibliotecas, que se encontra em fase de
implantação. Com esse projeto, desenvolvido pela

Potiron Informática,

busca-se

modernizar as bibliotecas que funcionarão em rede, facilitando assim a disseminação e uso
da informação como suporte ao processo de ensino e aprendizagem. O projeto teve início
em 1997, e o prazo estimado para a conclusão dos trabalhos foi de vinte e quatro meses
“podendo ser entregue antes, a critério da Potiron, por sua conta e risco [...].” (Potiron,
1997).
A introdução ou alteração de TIs tem profundo impacto ambiental e organizacional.
Segundo Stumpf e Freitas (1997, p.77), “transforma o modo pelo qual os diversos grupos
atuam e interagem, mudando a maneira pela qual a informação é definida, acessada e usada
4

Entrevista com a diretora da BC, em 17/01/01.

�[...]”. Na BC, a implantação dessa ferramenta tem sido difícil e lenta, cheia de “altos e
baixos” e muitos “senões”, de acordo com a Diretora da biblioteca,5 que define a
informatização das bibliotecas como um “processo de modernização”.

Muitos são os

fatores que interferem e comprometem o sucesso do processo de informatização de todo o
sistema de bibliotecas da UNEB. As pessoas envolvidas não estavam preparadas técnica e
psicologicamente para receber e usar as ferramentas tecnológicas, que foram introduzidas
no ambiente de trabalho sem terem sido previamente apresentadas, discutidas e avaliadas.

A tecnologia que nasceu e se desenvolve, de forma direta ou indireta, nos centros de
pesquisas das universidades, parece a criatura que desafia o criador (Marcovitche, 1998), e
na BC, a “criatura”, tem sido um tanto ameaçadora e trazido mais transtornos que soluções.
Os usuários, principalmente os alunos, sentem-se prejudicados, pois as “quedas do
sistema” são constantes, o que impede e/ou dificulta as transações de empréstimo,
devolução e pesquisa, uma vez que a BC não apresenta soluções alternativas, previamente
estabelecidas e divulgadas.

De fato, os recursos tecnológicos têm sido um ponto de

estrangulamento do ambiente informacional da BC e provocado a insatisfação dos
usuários., como demonstra o seguinte depoimento:
“[...] Hoje em dia, a maior briga do usuário é a questão desse sistema que
estamos usando, que é totalmente via web e que tem tido queda constantes do
link, da Internet, e isso tem causado filas imensas , protestos e todo tipo de
insatisfação do usuário, que fica muito tempo na fila e, na verdade há até uma
inversão, porque você informatiza, moderniza para que o serviço fique mais
ágil, mais rápido e o usuário fica nesse paradoxo. [...] Então isso tem causado
protestos consideráveis e tá prejudicando demais a imagem da biblioteca, que,
na verdade, eu considero que já não é muito boa [...]6

Segunda etapa: Obtenção
Davenport (1998) afirma que, uma vez definidas as necessidades informacionais,
cada gerência deve desenvolver um plano para adquirir a informação na sua fonte de
origem ou coletá-la, de forma manual ou eletrônica, dos que a desenvolvem internamente
5
6

Entrevista com a diretora da BC, em 17/05/01.
Entrevista com a diretora da BC, em 17/05/01.

�(1998). A BC não possui um plano para obter a informação, mas a responsabilidade por
essa tarefa cabe à Direção e aos Subgerentes, que utilizam a Internet, software
especializados e o telefone no desempenho da tarefa, sendo o telefone a mídia mais
utilizada nesse processo. Identificar todas as fontes potenciais de informação é um grande
desafio, e pressupõe o conhecimento de todas as fontes de informação, tais como, bancos
de dados (públicos ou privados); documentos de fontes governamentais; material impresso
(jornais, periódicos, livros); rádio, televisão, Internet; seminários, congressos; outras
bibliotecas; conhecimento e experiência organizacional, entre outras.
Coletar informação na BC não tem sido uma tarefa fácil, como mostra o seguinte
depoimento:
“[...] outro dia ocorreu outra situação comigo: eu precisei, como gerente,

de

informações sobre a questão de horário [de trabalho] do funcionalismo. [...] Eu
me lembrei que tinha um decreto que disciplinava isso. Eu fui até a [....] e lá
tem uma pasta com xerox do Diário Oficial [...] Eu solicitei essa informação
porque eu queria fazer uma instrução para os funcionários [...] e eu não tive a
informação. Fiquei sem a informação. Depois de muito tempo foi que eu
consegui isso através da Internet. [...] Mas na hora que eu precisei, aquele setor
não tinha a informação para me dar[...]7
Esse depoimento demonstra algumas das dificuldades encontradas nessa etapa do
gerenciamento da informação, principalmente em relação às informações internas, ou seja,
as informações que são produzidas e armazenadas pela

biblioteca e também por outros

setores da universidade.

Obter informação é um processo ininterrupto, que consiste na classificação,
armazenamento,

tratamento

e

apresentação

das

informações.

Classificação

e

armazenamento pressupõem a maneira como os usuários terão acesso à informação. Isso
significa que o gerente deve conhecer os seus usuários e saber das suas necessidades
informacionais. Conhecer os usuários da BC e saber das suas necessidades informacionais
não é uma tarefa tão simples quanto parece. A princípio a BC atende à comunidade

7

Entrevista com a diretora da BC, em 17/05/01.

�acadêmica8, ou seja, alunos, professores e servidores da universidade. Diante da
abrangência desse universo, é de suma importância que a BC mantenha um sistema eficaz
de comunicação e muita interação com os demais órgãos da universidade. No entanto, a
UNEB, conseqüentemente a BC, é uma instituição que, até agora, parece não se deu conta
de que é preciso manter em suas estruturas um serviço profissionalizado de comunicação.
Falta comunicação. Os sistemas não são integrados. O sistema da biblioteca não se
comunica com o sistema acadêmico e não se comunica com o sistema da Gerencia de
Recursos Humanos. Isso significa que a BC não sabe, por exemplo, quando inicia ou
quando termina um curso de Pós-Graduação ou de Extensão. Também não sabe quando
encerra um contrato de trabalho de um prestador de serviço ou de um estagiário. Conhecer
as necessidades informacionais dos usuários significa conhece-los. Ouvi-los. Isso exige
estudo. Exige pesquisa. Isso a BC não faz. Isso compromete a obtenção da informação.

Quanto a tomar decisões apropriadas, sobre como a informação é classificada e
armazenada, Davenport (1998) afirma que os gerentes devem observar algumas questões
fundamentais, ou seja, devem definir que informação pode ser classificada; se certificar se
o sistema utilizado, seja ele informatizado ou não, atende às expectativas dos usuários e se
está adaptado ao modo como o usuário trabalha com a informação. Devem também definir
como o esquema classificatório será mantido e atualizado. O tratamento e apresentação da
informação são de fundamental importância e os gerentes devem estar sempre atentos para
garantir a padronização e a qualidade da informação produzida sob sua responsabilidade,
pois a apresentação da informação é uma das principais maneiras de lhe agregar valor.

O documento é a maneira mais óbvia e útil de se estruturar a informação dentro da
universidade, mas nem sempre os documentos produzidos pelas gerências têm o formato
certo; é o caso da BC, que não produz documentos de forma padronizada. As rotinas
administrativas, ou seja, as diferentes ações desenvolvidas pela universidade e que se
repetem com certa regularidade, além da comunicação das pessoas envolvidas na
instituição (Ofícios, Circulares, Comunicados, Memorandos, Informações, Cartas) geram
uma grande quantidade de documentos. No entanto, é importante o reconhecimento de que
papel em excesso resulta da falta de critérios e de capacidade de prestação de contas da
8

A Associação de Ex-Alunos da UNEB pleiteia, junto a Reitoria, o acesso à BC, com os mesmos direitos da
comunidade acadêmica.

�organização

(Davenport,

1998).

Os

documentos

precisam

ser

padronizados

e

administrados para melhor disseminação da informação.
A BC armazena informação estruturada em papel de acordo com a tipologia do
documento, e o acesso à informação não se dá de forma rápida, uma vez que o tempo gasto
na recuperação do documento arquivado é de aproximadamente 30 minutos, conforme
declaração da diretora da BC. Em nosso entendimento, e inútil para a organização manter
uma informação arquivada, quando não é possível torná-la disponível aos decisores, ou não
consegue fazê-lo em tempo hábil.

Terceira etapa: Distribuição
Essa etapa está diretamente relacionada ao poder e à tomada de decisão, pois quem
controla a informação certa possui mais poder e quem tem o poder é quem decide que tipo
de informação será distribuída e utilizada. Para Davenport, algumas organizações
centralizam o controle da informação, outras empregam técnicas similares para promover o
acesso às informações e envolver mais pessoas no processo de tomada de decisão (1998).
Há várias técnicas de distribuição da informação, entre elas workshops,

relatórios

técnicos, contatos, etc. Porém, nas organizações, de uma forma geral, a maioria das
informações são transmitidas em forma visual ou de leitura. Como ler e ver exigem um
comprometimento baixo, por parte do receptor, essas formas de distribuição da informação
são eficientes, mas não eficazes (Davenport, 1998).

A distribuição da informação no ambiente informacional da BC pode ser observada
em dois momentos distintos, ou seja, as estratégias utilizadas pela Direção da biblioteca
para repassar informação aos seus funcionários e a estratégia utilizada para repassar
informações aos usuários de uma forma geral, que pode ser um indivíduo ou um setor da
universidade. No repasse de informação para os funcionários, a Direção utiliza a forma de
leitura, através de CI (comunicação Interna), que “o funcionário lê e dá ciente”9.
Considerando o número de funcionários da BC e as dificuldades discutidas anteriormente,
em relação à comunicação organizacional, inferimos que a esta estratégia , como única
forma, ou como principal forma de repassar a informação é comprometida e,
9

Questionário respondido pela diretora da BC, em nov/01

�conseqüentemente, a informação é mal utilizada. Segundo Davenport e Prusak (2000) a
transferência espontânea e não estruturada da informação é vital para o sucesso de uma
organização, particularmente para as organizações

cujo papel principal e a criação do

conhecimento.

A estratégia utilizada pela BC para distribuir informações para os usuários externos é
a de esperar que o interessado procure a informação desejada, sem, no entanto, deixar claro
que tipo de informação está disponível. Como afirma a Diretora, “[...]o trabalho da
biblioteca praticamente se resume às tarefas clássicas, que são o processamento técnico do
material que chega, catalogação, classificação, o registro [...] e o empréstimo [...]”10 Adotar
essa estratégia significa partir do princípio que o usuário sabe de qual informação ele
precisa, o que nem sempre é verdadeiro, e, significa também perceber a biblioteca como
depositária passiva do conhecimento. É preciso, como bem afirma a Diretora, divulgar os
serviços da biblioteca, ou seja,”[...] é preciso vender o produto biblioteca para que as
informações se tornem estratégicas, que possam promover mudanças, ou como se diz, ter
valor, agregar valor, como a gente fala.”11
A universidade, como um todo, possui dados valiosos para os gerentes, mas poucos
destes sabem onde encontrar ou como conseguir, dentro da universidade, a informação que
precisa, o que reflete a cultura organizacional

Quarta etapa: Utilização
É o uso e não a existência da informação que pode permitir aos gerentes tomar
decisões melhores, baseadas em fatos. Um processo decisório consiste na escolha entre
diferentes alternativas, tomando-se por base, um determinado critério, e toda decisão
implica em alternativas, critério e ação.
As informações que chegam diariamente à Direção da BC são analisadas pela
Diretora e, após seleção, são armazenadas ou descartadas. A análise da quantidade de
informação subordina-se ao tipo de processo que tal informação deverá subsidiar, sendo de
fundamental importância a adequação das informações às necessidades da organização.
10
11

Entrevista com a diretora da BC, em 17/05/01
Entrevista com a diretora da BC, em 17/05/01

�Para resolver esse problema é necessário conhecer a hierarquia da organização e
reconhecer que cada nível hierárquico necessita de diferentes níveis de informação. Moresi
(2000) cita Urdenata, que aponta quatro níveis hierárquicos da informação no processo
decisório das organizações: dados, informação, conhecimento e inteligência.

Saber qual o uso da informação adquirida não é uma tarefa fácil, pois a maneira
como o gerente a procura, a compreende e a utiliza e se a utiliza para tomar uma decisão é
bastante

pessoal

e

depende

do

comportamento

e

da

cultura

organizacional.

O

comportamento está relacionado aos atos individuais e a cultura abrange os grupos. O
comportamento organizacional é a maneira como as pessoas lidam com a informação, e
isso inclui a busca, o uso, a alteração, a troca, o acúmulo, e também o ato de ignorar os
informes. A cultura organizacional pode ser aberta ou fechada, baseada na intuição, nos
rumores, internos e externos, ou na informação (Davenport,1998).

A Direção da BC utiliza 80% de informações factuais nos processos decisórios, ou
seja, informações administrativas, legais e institucionais, que são consideradas essenciais
para as atividades da Direção. As informações estruturadas em papel (processos, portarias,
instruções, resoluções, etc...) representam 50% desse percentual e as informações nãoestruturadas, identificadas como informações não-oficiais, representam 30%. Segundo
Davenport, os pesquisadores da área indicam que é mais comum que os gerentes tomem
suas decisões com base na intuição, porém as empresas mais bem sucedidas são aquelas
que “permanecem em sintonia com as informações factuais – de dentro e de fora da
empresa – e as utilizam no processo decisório” (1998, p.124). Os dados da BC contradizem
essa afirmativa, pois apesar da Direção usar apenas 20% de intuição nos processos
decisórios,

a

biblioteca

apresenta

um

ambiente

informacional

estrangulado

e

comprometido.

Considerações finais
A implantação de um processo de gestão da informação é um grande desafio a ser
enfrentado pelos sujeitos que planejam a universidade, entendidos aqui como todos aqueles
que participam do processo de tomada de decisão.

�Parafraseando a palestra do Diretor Geral da Fundação Luiz Eduardo Magalhães,
Sr. Geraldo Machado12, podemos dizer que é preciso uma gestão inspirada em missões,
pois sem missão não se pode vislumbrar estratégias. É preciso uma gestão orientada para
resultados, ligada à noção de desempenho, à qualidade dos serviços, à busca de soluções. É
preciso uma gestão voltada para os clientes, para servir os cidadãos, que são os
“compradores” do serviço público. É preciso uma gestão que delegue autoridade para
tomada de decisões mais próximas do usuário, propiciando rapidez e agilidade. É preciso
antever, se prevenir, trabalhar antes que os problemas aconteçam.

Para tanto, faz-se necessário o uso das Tecnologias da Informação (TI´s), que são
grandes facilitadoras no processo de adquirir, tratar, interpretar e utilizar a informação de
forma eficaz, devendo, portanto, ser tratadas como recurso estratégico na busca dos
objetivos e da missão institucional.

A UNEB, e as universidades brasileiras, de uma forma geral, têm buscado se
modernizar através do uso das tecnologias da informação e da comunicação. No entanto, o
progresso tecnológico não garante o progresso informacional. As empresas tendem a gastar
muitos recursos em sistemas que não oferecem a informação certa ou que não são
utilizados. Quase sempre imaginam que uma solução administrativa informacional está
pronta quando a tecnologia é implantada (Davenport,1998). É preciso mais investimento
em capacitação dos funcionários para o uso eficaz dessas ferramentas. No caso específico
da BC, ainda hoje, cinco anos após o início do processo de informatização, trabalhando
com um sistema via web, muitas são as dificuldades enfrentadas nesse sentido. Os dados
indicam o comprometimento do ambiente informacional da BC e sugerem a necessidade de
uma mudança de atitude em relação ao processo de informatização, porque só a tecnologia
não basta. É preciso que o homem esteja no centro desse processo para garantir o seu
sucesso.

12

Palestra realizada em 2000, no âmbito do Programa Fórum de Reflexões: A Fundação Luiz Antônio
Carlos Magalhães construindo o futuro, onde são discutidos alguns dos principais conceitos e provocações
de David Osborni, autor do livro Reinventando o governo.

�Referências
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede . 3.ed. São Paulo: Paz e Terra. 2000. 617p. (A era da
informação: economia, sociedade e cultura; v. 1).
DAVENPORT, Thomas H; PRUSAK, Laurence. Conhecimento empresarial: como as
organizações gerenciam o seu capital intelectual 2.ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
DAVENPORT, Thomas H. Ecologia da informação: por que só a tecnologia não basta para o
sucesso na era da informação. São Paulo: Futura, 1998. 316.p.
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competitividade de sua empresa utilizando a informação como ferramenta estratégica. Rio de
Janeiro: Campus, 1994. 244p.
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organização. Ci. Inf. , Brasília, v. 29, n. 1, p. 14-24, jan./abr. 2000.
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da informação. Ci. Inf. , Brasília, v. 24, n.1, p. 42-53, jan./abril 1995.
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STUMPF, Mairza K; FREITAS, Henrrique M.R. de.A gestão da informação em um hospital
universitário: o processo de definição do Patient Core Record. Revista de Administração
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URDENATA, I. P. Gestión de lá inteligencia, aprendizage tecnológico y modernización del
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Documentação&#13;
Ciência da Informação&#13;
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              <text>Entendida como uma organização, a biblioteca universitária pode ser percebida como um conjunto de partes que atuam de forma coordenada tendo em vista o atendimento a objetivos específicos. Essas partes podem ser agrupadas em três categorias básicas, ou seja, o capital, os recursos humanos e as informações. Reconhecendo o caráter indispensável da informação para o funcionamento de uma organização, este estudo buscou investigar o gerenciamento da informação na Biblioteca Central da Universidade do Estado da Bahia/UNEB, localizada em Salvador/Ba, levando em conta a cultura organizacional, o uso que as pessoas fazem da informação e as tecnologias usadas para administra-la. O sujeito deste estudo restringiu-se à direção da biblioteca e, para a coleta de dados foram utilizados questionários e entrevistas aplicados no local de trabalho. Os dados, refletindo a expressão de um dado momento, revelam que o ambiente informacional da Biblioteca Central da UNEB sofre interferências que comprometem a aquisição, a compreensão, a disseminação e o uso da informação como matéria prima das decisões. </text>
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