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                  <text>DISCURSO DO PROFESSOR EDSON NERY DA FONSECA

POR UMA SÓ BIBLIOTECA EM CADA UNIVERSIDADE
Edson Nery da Fonseca

Vejo que estou chegando a uma idade em que somente somos lembrados
para presidências de honra e outras funções decorativas. De qualquer modo, agradeço
aos que espontaneamente me distinguiram com esta honraria. Quando os moços se
lembram dos velhos é porque reconhecem que nem tudo se deve a eles, jovens, mesmo
quando competentes e dinâmicos, como é o caso do atual Presidente da Associação
dos Bibliotecários do Distrito Federal, o professor Antônio Miranda. É porque acreditam que existe uma continuidade e não uma rutura entre gerações sucessivas, por
mais mutuamente conflitantes que possam ser ou parecer.
Desde que me impuseram um pronunciamento neste Segundo Seminário
Nacional de Bibliotecas Universitárias, venho pensando inultimente no que deveria
dizer, sem me sentir tentado por nenhum dos tópicos programados, todos eles, aliás,
bastante sugestivos e oportunos. O remédio, nestes casos, é continuar lendo. Porque
se nâo surgirem de leituras, não será da praia maravilhosa em que me encontro e de
suas seduções que as idéias jorrarão.
Casualmente — e tudo no mundo acontece por acaso, como diria Jacques
Monod — caíu-me nas mãos o livro no qual encontrei sugestões para este pronunciamento. Refiro-me à obra coletiva em que a Editora Convívio, de São Paulo, reuniu em
1979 as teses e debates de um Encontro Nacional de Professores de Filosofia, ocorrido
no ano anterior. Foi na conferência de abertura desse Encontro, lida pelo meu já muito admirado Georges Gusdorf, professor da Universidade de Estrasburgo, que me
inspirei para dizer o que se segue.
Talvez não seja de todo inorportuno, ao fim de uma semana em que tantos
processos técnicos foram debatidos, propor uma espécie de meditação sobre o papel da
biblioteca universitária no universo conceituai e cultural em que se insere. Porque,
francamente, eu não gostaria que acontecesse com os especialistas em Biblioteconomia
reunidos neste Seminário o que ocorreu com o psicólogo francês Alfred Binet.
Inventor de tantos testes de mensuração da inteligência, Binet ficou um dia perplexo
ao ouvir esta pergunda insólita: "mas, afinal, o que é inteligência?". E saiu de sua
perplexidade respondendo que inteligência era o que ele media com seus testes. Lydia
de Queiroz Sambaquy me contou uma história parecida. Matriculada em curso de

�bibliografia "a cargo do velho Antônio Simões dos Reis, reclamou do mestre porque,
já na quarta ou quinta aula, ainda não havia enunciado um conceito de bibliografia.
Surpreendido com a reclamação, Simões dos Reis parafraseou o rei de França ao
dizer: "bibliografia sou eu".
Nada, portando, de desprezarmos as definições. E eu me gabo de ter sido
quem primeiro extendeu a qualquer tipo de escola e, por extensão, à própria universidade, o conceito de Faculdade de Direito enunciado pelo Professor Haroldo Valladão
em seu livro sobre didática jurídica: é "uma grande biblioteca rodeada de salas para
aulas, de gabinetes para seminários e exercícios práticos, com uma revista que dê conta
dos principais trabalhos realizados por mestres e alunos" (1).
Já afirmei uma vez que a Universidade de Brasília foi idealizada por educadores inconformados com a decadência a que chegara, nos anos 60, o ensino superior
em nosso país. Participei da implantação da UnB desde agosto de 1962, primeiro como
professor e depois como coordenador da biblioteca, chefe de departamento, diretor
de unidade e membro de seus mais altos colegiados, sem jamais haver postulado uma
só dessas funções. Deixei-me contagiar pelo entusiasmo com que aqueles idealistas
fundaram a Universidade de Brasília, desencadeando uma reforma universitária que,
infelizmente, não se completou. Que em muitos casos abortou. Uma reforma que a
maior parte das universidades federais aceitou a contragosto, tanto para manter interesses criados como por preguiça mental ou apego à rotina.
Este repúdio à reforma explica porque, de modo geral, não existem bibliotecas universitárias no Brasil, mas bibliotecas especializadas junto a institutos, centros,
escolas, faculdades, cursos, departamentos, clínicas e laboratórios que nem a vizinhança num só campus consegue tornar interdependentes. Porque a interdependência deve
começar caracterizando as relações entre diferentes áreas do conhecimento científico
e humanístico. Se especialistas encarregados de produzir ou transmitir o saber em cada
uma dessas áreas não se apercebem do interrelacionamento entre as ciências — às vezes
remoto ou imperceptível, mas sempre existente — a universidade deixa de ser aquela
"forma instituída da universalidade" a que se refere Gusdorf (2) para reduzir-se,
como dizia Guilherme de Humboldt, "a uma coleção de conhecimentos alinhados
uns contra os outros" (3).
Quando a universidade não é capaz de respeitar-se a si mesma, perdendo a
consciência da origem de seu próprio nome, não é lícito esperar que existam bibliotecas universitárias. A recíproca é verdadeira na medida em que bibliotecas independentes e inimigas entre si só fazem aumentar ou estimular o que um francês chamaria "savoir en miettes": saber em migalhas que é a própria antítese do conceito de universidade. Pois "a universidade não existe" — volto a citar Georges Gusdorf — "onde a comu-

�nicação se torna impossível entre os saberes e os homens em toda parte em que a
dissociação suplanta a vontade de unidade" (4).
A redução da Filosofia a simples departamento — quando a ela competiria
assegurar a integração dos saberes, servindo como elemento de comunicação interdepartamental — foi o primeiro golpe desfechado contra a universidade, sendo a descentralização de coleções como que a conseqüência lógica da fragmentação do saber: aquilo que Gusdorf denomina com muita propriedade "egoísmo epistemológico" (5).
Enquanto esse lamentável disciplinarismo provoca e estimula a multiplicação de bibliotecas especializada, a intradisciplinaridade (integração sistêmica dos diversos tópicos de uma disciplina), a interdisciplinaridade (relações de interdependência
entre diferentes disciplinas) e a transdisciplinaridade (interrelacionismo das ciências
ditas exatas e naturais com as sociais e as chamadas humanidades) impõem a centralização de coleções numa só biblioteca em cada universidade ou, pelo menos, em cada
campus. A própria expressão BIBLIOTECA CENTRAL deixa de ter sentido, devendo
ser substituída por BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA ou BIBLIOTECA tout court.
Convenhamos em que é difícil praticar a interdisciplinaridade e, mais
ainda, a transdisciplinaridade em laboratórios e salas de aula, principalmente se falta
ao pesquisador e ao professor aquela inquietação intelectual que poderíamos definir
como nostalgia da unidade perdida. Parece que foi essa nostalgia que inspirou a T.S.
Eliot estes versos tão pungentemente interrogativos: "Where is the Life we have lost
in living?/ Where is the wisdom we have lost in knowledge?/ Where is the knowledge
we have lost in information?" (6). Versos que eu ousaria prolongar, perguntando: onde
está a informação que perdemos em dados e onde estão os dados que perdemos em
computadores? Seminários interdisciplinares e transdisciplinares — como os fundados
por Frank Tannenbaum em Columbia University e por Gilberto Freyre na Universidade Federal de Pernambuco — solucionam o problema e encontram na centralização
de coleções — infelizmente inexistentes tanto em Columbia como em Pernambuco — a
infraestrutura bibliográfica ideal.
Já não me importam, corno se vê, os argumentos de ordem econômica em
favor da centralização de processos, que são indiscutíveis. Econômica é, por igual, a
descentralização de coleções, quando coordenada para evitar duplicações desnecessárias. Defendendo a centralização de coleções estou falando em nome da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade que caracterizam o moderno conhecimento científico
e humanístico. Como diria o poeta, "cesse tudo o que a antiga Musa canta/ Que outro
valor mais alto se alevanta".

�Não deliro nem proponho utopias. Tudo o que acabo de dizer se inspira
num exemplo concretamente histórico recordado por Georges Gusdorf: o do Museu
de Alexandria, que foi um "foco do saber e da espiritualidade helênicos durante quase
um milênio, desde a morte de Alexandre até a conquista árabe". "Sob a proteção do
poder monárquico de Ptolomeu" — acrescenta Gusdorf — o Mouseion, santuário das
Musas, reúne em seus edifícios, seus pórticos e seus jardins um certo número de
homens, mestres e estudantes, que se dedicam aos trabalhos do espírito, em volta
de uma imensa biblioteca cujos guardiões fixam para sempre a configuração da cultura
antiga" (7).
Não se diga que, proveniente da antigüidade, este exemplo está ultrapassado. A democracia também veio da Grécia e ainda hoje os politologos admitem ser
este o menos imperfeito de todos os regimes.
Ao institucionalizar a universalidade do saber — a universitas scientiarum —
a universidade medieval apenas retomou a concepção grega das artes liberais exercitadas no Museu de Alexandria, origem remota dos colleges of liberal arts das mais conceituadas universidades em nossos dias.
A unidade começa a fragmentar-se no Renascimento e vem até a primeira
metade do século XX. Mas quando a fragmentação chega ao auge, com as cada dia
mais numerosas especializações de nossa época, a idéia da unidade fundamental do
saber reaparece, ora sob a forma de uma teoria dos sistemas, ora na publicação de
uma Encyclopedia of Unified Science, ora através de novas classificações dos conhecimentos, como o Broad System of Ordering proposto pelo programa UNISIST, sem
que seja necessário cedermos ao perigoso canto de sereia de qualquer reducionismo,
venha de onde vier: da Matemática ou da Biologia.
Numa biblioteca enciclopedica os pesquisadores são forçados a olhar
para o que se passa em especializações que não são as suas; isto é uma lição de saudável
generalismo. Favorece a humildade epistemológica e, portanto, a compreensão de que
todo problema — científico, técnico ou humanístico — é complexo demais para ser
resolvido por especialistas de uma só área. A universidade é a última instituição em
condições de abrigar uma coleção enciclopédica, já que até as bibliotecas nacionais
caminham para a especialização. Espero que ela seja fiel a uma tão importante missão histórica.

�REFERÊNCIAS
1. Haroldo Valladão. O ensino e o estudo do Direito, especialmente do Direito Internacional Privado no Velho e no Novo Mundo. São Paulo, Revista dos Tribunais,
1940, p. 202.
2. Georges Gusdorf. "A Filosofia e a universidade". In: Crippa, Adolpho, ed. A
Filosofia e o ensino da Filosofia. São Paulo, Editora Convívio, 1979, p. 19-54
(citação à p. 51).
3. Wilhelm von Humboldt. Da organização interior e exterior das altas instituições
científicas em Berlim (1810). Apud Georges Gusdorf, op. cit., p. 38.
4. Georges Gusdorf, op. cit., p. 22.
5. Georges Gusdorf, op. cit., p. 21 .
6. T. S. Eliot. "Choruses from The Rock". In: Selected poems. London, Faber and
Faber, 1961, p. 107.
7. Georges Gusdorf, op. cit., p. 30, grifo nosso.

�Cumpre-me agora agradecer a homenagem que acabo de receber e o faço
humildemente convicto de não merecer tão significativas referências. Não me deixo
embriagar por elogios, preferindo atribuí-los à generosidade fraternal de amigos e
companheiros.
Gostaria de aproveitar esta oportunidade para dizer de público o muito
que devo a Lydia de Queiroz Sambaquy. Dela tenho divergido e já brigamos algumas
vezes, o que evidentemente não me impede reconhecer o seu pioneirismo na biblioteca
do DASP, na catalogação cooperativa, na aquisição centralizada, na fundação do hoje
IBICT, na própria Universidade de Brasília, onde me precedeu como assessora de
Darcy Ribeiro em matéria de biblioteca.
O que desejo recoraar aqui é que foi por intermédio de Lydia Sambaquy
que o Departamento de Documentação e Cultura do Recife recebeu a primeira bolsa
de estudos da qual — sem solicitá-la — acabei me beneficiando, saindo pela primeira
vez do Recife para estudar biblioteconomia no Rio de Janeiro.
Também lhe devo a indicação de meu nome ao Reitor Joaquim Amazonas
para a reorganização das bibliotecas da Universidade do Recife.
Despedido por delito de opinião, voltei ao Rio de Janeiro, em 1954, quando ela me acolheu no Serviço de Intercâmbio de Catalogação e, depois, no Serviço
de Bibliografia do IBBD.
Permitam-me, portanto, dividir com Lydia Sambaquy as glórias desta
homenagem.
Se de nossos ex-alunos e companheiros de trabalho poderíamos dizer
que são nossos filhos por obra e graça da biblioteconomia, peço a eles que se considerem netos bibliotecônomicos de Lydia Sambaquy, que, aliás, há vários anos, já foi
escolhida a avó mais bonita do Brasil.

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