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                  <text>Discurso jurídico e as formas documentais: categorias de
documento jurídico e a Teoria do Fato Jurídico

Eduardo Watanabe (AGU e UnB) - edw.sfs@gmail.com
Renato Tarciso Barbosa Sousa (UnB) - renasou@unb.br
Resumo:
Os estudos sobre informações jurídicas na Ciência da Informação ainda apresentam
dificuldades para lidar com a complexidade do discurso jurídico. O objetivo geral deste
trabalho consiste em comparar e articular os diferentes enfoques adotados na literatura
especializada de Biblioteconomia, Documentação Jurídica, Ciência da Informação e Direito. O
método de pesquisa utilizado consistiu em pesquisa documental com a análise qualitativa dos
documentos que relacionaram conceitos relativos a modalidades de discurso jurídico,
categorias de documento jurídico, fontes de informação jurídica, categorias de espécies
documentais e a Teoria do Fato Jurídico. O resultado da pesquisa identificou lacunas para a
representação de informações do Direito na perspectiva da Teoria do Fato Jurídico. Foi
proposto o aperfeiçoamento da definição de documento jurídico e a criação de duas novas
categorias de documentos jurídicos.
Palavras-chave: Documentação jurídica, Conceito de documento jurídico, Categorias de
documento jurídico, Fontes de informação jurídica, Teoria do Fato Jurídico
Eixo temático: Eixo 13: 6º Seminário Nacional de Documentação e Informação Jurídicas

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�XXVIII Congresso Brasileiro de
Biblioteconomia e
Documentação
Vitória, 01 a 04 de outubro de 2019.

Introdução
A forma documentária no Direito varia de acordo com o objetivo do próprio
documento, de modo que os esforços de pesquisa devem ser concentrados no
processo de análise, extração e seleção de conceitos, o que exige por parte do
pesquisador conhecer previamente o objetivo desse documento e do usuário da
informação (GUIMARÃES, 1993, p. 53).
Os estudos sobre informações jurídicas na Ciência da Informação ainda
apresentam dificuldades para lidar com a complexidade do discurso jurídico
(BENJAMINS et al., 2005) e da própria teorização do fenômeno jurídico no âmbito
da Ciência do Direito (WATANABE, 2019, p. 23).
Formulamos então a seguinte pergunta: como estabelecer as formas
documentais mais adequadas para representar o discurso jurídico e o próprio
Direito? Nesse sentido, o objetivo geral deste trabalho consiste em comparar e
articular os diferentes enfoques adotados na literatura especializada de
Biblioteconomia, Documentação Jurídica, Ciência da Informação e Direito.

Método da pesquisa
O método de pesquisa a ser utilizado consiste em pesquisa documental com
a análise qualitativa dos documentos. A seleção de trabalhos foi iniciada pela busca
textual com os operadores “discurso jurídico”, informação jurídica”, “documentação
jurídica” e “teoria do direito” nas seguintes bases: Base de Dados em Ciência da
Informação - BRAPCI, Portal de Periódicos da CAPES, Catálogo de Teses e
Dissertações da CAPES, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações. No
processo de pesquisa foram muito importantes as consultas às referências citadas
nos trabalhos.
Após a revisão da literatura, os conceitos pesquisados foram analisados e
comparados no que se refere aos seus relacionamentos recíprocos.

�Resultados e Discussão
Simone Souza (2013, p. 110) construiu modelo teórico que estabelece o
conceito de documento jurídico a partir das variáveis pertinentes de documento
jurídico, suas características, e da Ciência da Informação, Diplomática, Ciência do
Direito e Filosofia da Linguagem. Tradicionalmente as fontes de informação jurídica
nos estudos de Ciência da Informação e Biblioteconomia são a Legislação, a
Doutrina e a Jurisprudência (PASSOS, 1994, p. 363).
No Direito coexistem diferentes teorias para caracterizar e classificar os
fatos jurídicos. Os princípios de classificação vão dos efeitos dos atos, passando
pela natureza dos atos para chegar ao cerne do suporte fáctico: voluntariedade
humana, exteriorização de vontade, disponibilidade de escolha da categoria jurídica
e aderência à ordem jurídica vigente (WATANABE, 2019, p. 152). A Teoria do Fato
Jurídico, criada por Pontes de Miranda (1970) e desenvolvida em especial por
Marcos Bernardes de Mello (2014), é a que alcançou maior cientificidade na
classificação dos fatos jurídicos (WATANABE, 2019, p. 155). A partir da
classificação dos fatos jurídicos, verificamos que somente os seguintes resultam na
elaboração de documentos: Ato jurídico stricto sensu e Negócio jurídico.
Para a discussão dos resultados elaboramos o quadro a seguir que
relaciona de forma sintética os conceitos abordados pelos referenciais teóricos
pesquisados:
Quadro 1 - Relacionamento entre a Teoria do Fato Jurídico, modalidades de
discurso jurídico, categorias de documento jurídico, fontes de informação
jurídica e categorias de espécies documentais
Classificação
Modalidade
Categorias de
Fontes de
segundo a
de discurso
espécies
Categorias de documento
informação
Teoria do
jurídico
documentais
jurídico
jurídica
Fato Jurídico
(BITTAR,
(BELLOTTO,
(SOUZA, 2013, p. 115)
(PASSOS,
(MELLO,
2003, pp.
2002, pp. 292004, p. 363)
2014, p. 177)
173-176)
36)
Decisório
Dispositivo
Dispositivo,
Atos administrativos
Burocrático
Testemunhal
ou Informativo
Decisório
Jurisprudência
Dispositivo
Atos jurídicos
Dispositivo,
Atos judiciais
stricto sensu
Burocrático
Testemunhal
ou Informativo
Burocrático
Atos notariais
Testemunhal
*Documentos acessórios dos
atos legais e judiciais (e.g.
Informativo
requerimento e recurso)

�Normativo
Burocrático
Negócios
jurídicos

-

-

Científico

*Não contempla atos de
particulares (e.g.
reconhecimento de
paternidade)
Atos legais
Atos negociais
Atos de registro
*Documentos acessórios dos
atos legais e judiciais (e.g.
requerimento e recurso)
*Não contempla negócios
jurídicos unilaterais (e.g.
renúncia à herança)
Doutrina jurídica

-

Dispositivo

Legislação
-

Dispositivo
Dispositivo
Dispositivo

-

Informativo

-

Dispositivo

Doutrina

-

Fonte: elaboração própria.

A Doutrina não está prevista pela Teoria do Fato Jurídico nem pelas
espécies documentais, tendo em vista que é uma atuação científica sobre o Direito
e não a sua aplicação na prática.
Quanto às modalidades de discurso jurídico, elas partem da noção de fontes
de informação jurídica (BINATI, 2016, p. 13), sendo que representam avanço além
das categorias tradicionais de Lei, Doutrina e Jurisprudência ao prever o discurso
burocrático e expandir o discurso decisório também para os atos administrativos.
Contudo, as modalidades do discurso jurídico apresentam lacunas por não abranger
os atos e negócios jurídicos praticados por particulares, tais como os requerimentos
e os atos negociais.
Importa ressaltar que o termo “jurisprudência” é utilizado na Ciência da
Informação como equivalente a toda a documentação jurídica proveniente do Poder
Judiciário, o que não é adequado considerando que há uma variedade de outros
tipos de documentos produzidos (SOUZA, 2013, p. 88).
As categorias de documento jurídico de Souza são as que mais atendem
aos requisitos da Teoria do Fato Jurídico por expandir também para os atos
administrativos, atos negociais, atos notariais e de registro, bem como todos os atos
judiciais. Contudo, tais categorias não contemplam os atos e negócios jurídicos
unilaterais de particulares.
A classificação com base na Teoria do Fato Jurídico utiliza como princípio
de classificação o cerne do suporte fáctico e não os efeitos jurídicos produzidos, o
que explica o contraste marcante com as categorias de espécies documentais de
Bellotto. A classificação segundo os efeitos do ato jurídico apresenta restrições do
ponto de vista científico, na medida em que busca classificar o ser pelas suas

�consequências, que são estas sempre posteriores e dependentes (MELLO, 2014,
p. 167).
As espécies documentais adotam como princípio de classificação
justamente o efeito do documento/ato jurídico, no qual o mais divergente nos parece
ser a classificação do requerimento como documento informativo (BELLOTTO,
2002, p. 87). Na Teoria do Fato Jurídico, o requerimento é ato jurídico stricto sensu
(se não há opção de escolha de categoria jurídica) ou negócio jurídico unilateral,
que cria para o requerente um direito à resposta, e um dever para o destinatário
apresentar resposta.

Conclusões
Consideramos que as formas documentais devem representar as
informações jurídicas de acordo com o sistema jurídico vigente, sob pena de haver
um descompasso entre o que as normas jurídicas prescrevem e o que os
documentos representam em termos de informações (WATANABE, 2019).
Nesse contexto é que propomos, a partir de Souza (2013, p. 115), a
seguinte definição de documento jurídico: é o documento textual produzido com
observância da lei em esfera pública ou privada, que se constitui no próprio ato ou
negócio jurídico, ou, ainda, em registro que produza efeitos jurídicos, ou estudo de
fato jurídico lato sensu, cuja produção e forma textual variam em função de sua
finalidade, conteúdo e contexto de produção.
A partir da ampliação do conceito de documento jurídico, é que propomos
as novas categorias de Atos postulatórios (requerimentos, recursos, etc.) e Atos
unilaterais de disposição de vontade (reconhecimento de paternidade, renúncia a
herança, etc.) para compor ao lado das categorias de documento jurídico definidas
por Souza (2013): Ato legal, Ato administrativo, Ato judicial, Ato negocial, Ato
notarial e de registro e Doutrina jurídica.

Referências:
BELLOTTO, Heloisa Liberalli. Como fazer análise diplomática e análise
tipológica em arquivística: reconhecendo e utilizando o documento de arquivo.
São Paulo: Arquivo do Estado e Imprensa Oficial do Estado, 2002.

�BENJAMINS, V. Richard; CASANOVAS, Pompeo; BREUKER, Joost; GANGEMI,
Aldo. Law and the semantic web, an introduction. In: Law and the Semantic Web.
Springer, Berlin, Heidelberg, 2005. p. 1-17.
BINATI, Regina Célia Pinto. Terminologias do Direito de Família: um estudo
comparativo com os sistemas de classificação bibliográfica. Dissertação (Mestrado
em Ciência da Informação) Centro de Educação Comunicação e Artes.
Universidade Estadual de Londrina. Londrina. 2016. 134 f.
BITTAR, Eduardo Carlos Bianca. Linguagem jurídica. 2. Ed. São Paulo: Saraiva,
2003.
GUIMARÃES, José Augusto Chaves. A recuperação temática da informação em
direito do trabalho no Brasil: propostas para uma linguagem de indexação na
área. Tese Doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo. 1988.
________. Formas da informação jurídica: uma contribuição para sua abordagem
temática. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, v. 26, n. 1/2,
p. 41-54, jan-jun 1993.
MELLO, Marcos Bernardes de. Teoria do fato jurídico: plano da existência. 20.
ed. São Paulo: Saraiva, 2014.
NASCIMENTO, Lúcia Maria Barbosa do; GUIMARÃES, José Augusto Chaves. A
organização da informação jurídico-digital e os avanços teóricos da diplomática:
uma reflexão acerca da eficácia probatória do documento. Informação &amp;
Informação, Londrina, v. 12, n. 2, jul./dez. 2007.
PASSOS, Edilenice. O controle da informação jurídica no Brasil: a contribuição do
Senado Federal. Ciência da Informação, Brasília, v. 23, n. 3, p. 363-368, set./dez.
1994.
PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado. Rio de
Janeiro: Borsoi, 1970.
SOUZA, Simone Torres de. A caracterização do documento jurídico para a
organização da informação. 2013. 180 f. Dissertação (Mestrado em Ciência da
Informação) – Universidade Federal de Minas Gerais, 2013.
WATANABE, Eduardo. Representação das informações de processos judiciais.
Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação). Brasília: Faculdade de Ciência
da Informação, Universidade de Brasília. 2019.

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