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                  <text>Instituições de Memória: o Caso do Memorial Denis Bernardes
Introdução

Tony Macedo (UFPE) - tonybernar@hotmail.com
Resumo:
Apresenta o surgimento das instituições de memória como um recurso para promover de
forma igualitária o acesso e o uso das informações registradas em diversos suportes. Assim
sendo, faz-se um breve histórico dos elementos utilizados pelo homem para fazer tais
registros. Para ilustrar a importância desses lugares, utiliza-se como exemplo o Memorial
Denis Bernardes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O Memorial é destinado à
preservação, conservação e disseminação da informação científica de natureza histórica
produzida na instituição ou de acervos importantes para a cultura do Estado. Seu objetivo é
viabilizar o acesso aos conjuntos documentais indispensáveis à reconstituição da memória
institucional e da cultura local, visando otimizar o emprego dos recursos tecnológicos
necessários para o acesso ao seu conteúdo informacional.
Palavras-chave: Memória. Memorial Denis Bernardes. Universidade Federal de Pernambuco.
Instituições de Memória
Eixo temático: Eixo 9: Bibliotecas, Preservação e Memória.(Gestão de Preservação em
Bibliotecas; Gestão de Coleções Especiais e Livros Raros; História dos
Bibliotecários e da Biblioteconomia no Brasil; Sustentabilidade, preservação e
baixo recursos; Democratização, acesso e preservação de acervos
patrimoniais).

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�Inevitavelmente, quanto mais se acumule do passado, maior será o progresso. (ORTEGA Y
GASSET, 2006, p.30)

“Há lugares de memória porque não há mais meios de memória” escreveu
Pierre Nora (p.27). As limitações da memória humana levaram o homem, a buscar
em recursos externos, as chamadas memórias artificiais. Para isso, foi preciso
conceber um sistema de utilização de signos por meio dos quais as ideias eram
fixadas em um suporte físico, o que deu origem à escrita, o mais antigo auxílio à
memória utilizado pelo homem. Feito inicialmente em placas de argila ou de cera, os
registros de memória passaram a ser inscritos nos mais diversos suportes, graças à
evolução científica e tecnológica que permitiu ao homem registrar não apenas
signos, mas também sons e imagens em movimento.
A necessidade de possibilitar o acesso a esses registros no decorrer do
tempo levou à criação das chamadas instituições de memória (OLIVEIRA, 2010).
Conforme Nora, os lugares de memória são se limitam aos lugares topográficos,
onde podemos situar as bibliotecas e os arquivos, por exemplo. Estes lugares
também os são objetos simbólicos tais como bandeiras, monumentos, dicionários.
Nora, ainda informa festas e comemorações como exemplos de lugares de memória.
Assim sendo, procurando ser específico, optamos de, ao invés, de utilizarmos
o conceito de lugares de memória cunhado pelo historiador Pierre Nora e tão
amplamente utilizado na Ciência da Informação e nas suas disciplinas basilares:
Biblioteconomia e Arqueologia. Utilizamos Instituições de memória, termo elaborado
por Armando Malheiro, o qual trata de instituições legitimadas, arquivos, bibliotecas
e museus, como instituições de memória. E como surgiram estas instituições?
Museus e bibliotecas se tornaram heterotopias onde o tempo não cessa de
acumular e que não alcança seu auge. No século XVII, mesmo no final do
século, museus e bibliotecas eram a expressão de escolhas individuais.
Mas, a ideia de acumular tudo, de estabelecer um tipo de "arquivo geral", o
desejo de ter num único lugar, todos os tempos, todas as épocas, todas as
formas, todos os gostos, a ideia de constituir um lugar que congregue todos
os tempos que são por si só, fora do tempo e inacessíveis à destruição do
tempo, o projeto de organizar, deste modo, um tipo de acumulação perpétua
e indefinida do tempo em um lugar imóvel, esta ideia de todo pertence à
nossa modernidade. O museu e a biblioteca são heterotopias próprias da
cultura ocidental do século XIX. (FOUCAULT, 1984)

A ideia de tudo acumular, como sugeri Foucault é uma atitude anterior ao
século XIX, diferente do que defendeu o autor acima. A concentração da

�organização do conhecimento humano em local específico é uma pratica milenar,
como nos informa Le Goff (1996, p.434) “Os reis criam instituições-memória:
arquivos, bibliotecas, museus”.
As instituições de memória surgiram como memórias reais nos afirma Le Goff
(1996), local onde não havia distinção entre arquivo, biblioteca e museus e este
formato chegou até a Idade Média. Ortega (2004) nos informa que “durante a Idade
Antiga e a Idade Média, museus, arquivos e bibliotecas constituíam praticamente a
mesma entidade, pois organizavam e armazenavam todos os tipos de documentos.”.
Arquivos pessoais, particulares, de acesso restrito. Este modelo de custódia do
registro do conhecimento humano permaneceu inalterada até a Idade Moderna,
quando a produção dos livros tipográficos, entre outros motivos, levou a que as
bibliotecas passassem a existir separadamente e a adquirir maior relevância
enquanto elemento social. (ORTEGA, 2004).
Le Goff (1996, p.461) nos diz que: “a memória até então acumulada vai
explodir na Revolução de 1789, não terá sido ela o seu grande detonador?” Será a
Revolução Francesa, segundo Malheiro e Ribeiro (2011, p.21), a patrocinadora das
instituições de memória, “A extinção revolucionária das Ordens Religiosas e o
ataque à jurisdição espiritual e temporal da Igreja Católica colocaram, na posse
directa do Estado Liberal, um acervo de bens materiais que incluía milhares de livros
e documentos.” Os autores acrescentam: “O mesmo ocorreu com os domínios
senhoriais, tendo associados livrarias e cartórios. Tão vasto caudal de papel e
pergaminho exigiu a criação de Bibliotecas e dos Arquivos Nacionais...” Os arquivos
dos reis (Le Goff) antes privado e de acesso restrito, tornaram-se, com os ideais da
Revolução Francesa público e de acesso livre, “a Lei de 7 de Messidor criou o
Archives Nationales com a incumbência expressa de que todo o cidadão poderá
pedir em todos os depósitos, em dias e horas fixados, o acesso aos documentos aí
colocados.” (MALHEIRO, RIBEIRO, 2011, p.21). Os autores completam: “Os
Arquivos Públicos abrem-se ao cidadão, mas cedo se tornam lugares de memória
para a história, sem perderem, completamente, o cordão umbilical com a instancia
produtora tutelada pelo Direito e pelo Poder.” (p.22). Abriu-se uma nova fase, diz Le
Goff (1996, p.464), a da pública disponibilidade dos documentos da memória
nacional.

�As instituições de memória nasceram vocacionadas para incorporar a
produção intelectual e político-administrativa de um povo, guardam os testemunhos
escritos de sua identidade, lugar da memória nacional, espaço da conservação do
patrimônio intelectual, literário e artístico de uma nação para uma partilha coletiva.
Com nos diz Baratin e Jacob (2008, p.9) são lugares “de diálogo com o passado, de
criação e inovação” e que só fazem sentido, dizem os autores, “como fermento dos
saberes e motor dos conhecimentos, a serviço da coletividade inteira.”

O Memorial Denis Bernardes

Inaugurado em 18 de julho de 2013, o Memorial é uma homenagem ao
professor Denis Antônio de Mendonça Bernardes, um dos mais importantes
pesquisadores da memória da UFPE e ex-professor do Departamento de Serviço
Social, falecido em 2012.
É formado por acervo com várias tipologias documentais: documentos
arquivísticos, bibliográficos, audiovisuais, manuscritos e museológicos. Este último é
composto por uma coleção de cerâmica - cerca de 200 peças - que pertencia ao
professor Ruy da Costa Antunes e foi doada por sua família. O arquivístico contém
documentos administrativos das antigas Escolas de Belas Artes e de Medicina; o
bibliográfico é formado por parte dos livros das bibliotecas pessoais de Ruy Antunes,
Marcos Freire, Joaquim Cardozo, Methodio Maranhão, Coleção de Produção
Intelectual da Universidade (PIU) e Coleção Especial. Além disso, constam também
clippings - recortes de jornais da Assessoria de Comunicação (ASCOM) da UFPE e
de Marcos Freire; periódicos diversos e teses e dissertações defendidas na UFPE.
A coleção de manuscritos é composta por correspondências do Conselheiro
João Alfredo Correia de Oliveira, que foi Senador do Império, e por poemas, sonetos
e cadernos de anotações do Padre Daniel dos Santos Lima, ex-professor de
Filosofia da UFPE, e que ganhou o prêmio Alphonsus de Guimaraens da
Fundação Biblioteca Nacional 2011 - Categoria: Poesia, divulgando o seu nome
nacionalmente e colocando-o no hall dos grandes escritores brasileiros do momento.
Por fim, o acervo audiovisual é constituído por discos de vinil, fitas cassetes, CDs,
DVDs, fitas U-Matic e Betacam do Núcleo de TV e Rádios Universitárias (NTVRU),
discos que pertenceram ao professor Álvaro Alves Camello, bem como fotografias

�da ASCOM e negativos fotográficos em vidro do começo do século XX, que
pertenceram ao colecionador pernambucano Fernando Figueiredo.

Considerações finais

Para finalizar, compartilhamos do pensamento de Galindo (2011, p.7) a
respeito da memória aplicada à Ciência da informação: o autor nos informa que o
termo invoca a ideia de pretérito, mas que esta ideia se faz mais forte no trato de
disciplinas como a história, arqueologia e a arquitetura. Na Ciência da Informação, a
memória “aproxima-se mais do conotativo de estoque de informação, invocando a
condição de registro memorial da herança cultural humana”, nos informa Galindo
(2011, p.8). Para o autor a memória produzida ontem tem para a Ciência da
informação o mesmo valor como objeto de estudo que registros centenários. E
ressalta: “Não cabe a CI a reconstituição do passado histórico memorial, antes
busca entender a natureza dos registros e os fenômenos que envolvem a criação, o
tratamento e o uso social da informação”. Este também é o pensamento de Meneses
(1999, p.15) quando diz que “o tempo da memória é o presente, mas ela necessita
do passado. O tempo da memória é o presente porque é no presente que se
constrói a memória”. A ideia de memória para além do pretérito também é defendida
por Rossi (2010, p.24): “A memória sem dúvida tem algo a ver não só com o
passado, mas também com a identidade e, assim (indiretamente), com a própria
persistência no futuro”.
O Memorial Denis Bernardes no cenário apontado acima, não pretende
assumir um lugar comprometido apenas com o estoque de registros produzidos pela
instituição

Universidade

Federal

de

Pernambuco,

é

antes

comprometido com o acesso à memória e empenhado com o futuro.

Referências

um

ambiente

�BARATIN, Marc; JACOB, Christian. O poder das bibliotecas: a memória dos livros
no ocidente. Rio de Janeiro: UFRJ, 2008.
FOUCAULT, Michel. Des espaces autres Hétérotopies. Architecture, Mouvement,
Continuité, Paris, n. 5, p. 46-49, 1984. Disponível em:&lt;
http://foucault.info/documents/heteroTopia/foucault.h eteroTopia.fr.html&gt;.Acesso em:
14 jun 2012.
GALINDO, Marcos. O domínio da memória: em busca de uma epistemologia
especifica. 2011. No prelo.
LE GOFF, J. História e memória. 4 ed. Campinas, SP: Editora UNICAMP, 1996.
MALHEIRO, Armando; RIBEIRO. Paradigmas, serviços e mediações em Ciência
da informação. Recife: Néctar, 2011.
MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. A crise da Memória, História e Documento:
reflexões para um tempo de transformações. In: Silva, Zélia Lopes da (org).
Arquivos, Patrimônio e Memória: trajetórias e perspectivas. São Paulo: Editora
Unesp, 1999.
NORA, Pierre. Entre memória e história - A problemática dos lugares. Projeto
História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do
Departamento de História da PUC/SP. São Paulo, n.10, p.7-28, dez. 1993.
Tradução de: Yara Aun Khoury.
OLIVEIRA, Elaine Braga de. O conceito de memória na Ciência da Informação no
Brasil: uma análise da produção científica dos programas de pósgraduação. 2010.
194p. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Faculdade de Ciência da
Informação, Universidade de Brasília, Brasília, DF.
ORTEGA, C. D. Surgimento e consolidação da Documentação: subsídios para
compreensão da história da Ciência da Informação no Brasil. Perspectivas em
Ciência da Informação, v. 14, número especial, p. 59-79, 2008. Disponível em: &lt;
http://portaldeperiodicos.eci.ufmg.br/index.php/pci/ar ticle/view/899/626 &gt;. Acesso
em: 20 mar. 2012.
ORTEGA, C. D. Relações históricas entre Biblioteconomia, Documentação e Ciência
da Informação. DataGramaZero – Revista de Ciência da P á g i n a | 223
Informação, v.5, n.5, out., 2004. Disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2012.
ORTEGA Y GASSET, José. Missão do Bibliotecário. Brasília, DF: Briquet de
Lemos, 2006.
ROSSI, Paolo. O passado, a memória e o esquecimento: seis ensaios da história e das
ideias. São Paulo: UNESP, 2010.

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