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                  <text>O bibliotecário escolar diante dos Nativos Digitais
Raquel Miranda Vilela Paiva (UFMG/ECI) - quelvilela@yahoo.com.br
Adriana Bogliolo Sirihal Duarte (UFMG) - bogliolo@eci.ufmg.br
Resumo:
O presente trabalho visa conhecer o imaginário de um bibliotecário escolar sobre os nativos
digitais a partir do experimento de associação de palavras. A biblioteca no contexto escolar
possui especificidades a que o profissional deve estar atento. Sua atuação deve ir além do
tecnicismo biblioteconômico, utilizando-se de elementos pedagógicos e de acordo com o
usuário, ou seja, com os alunos da escola. Esses alunos que estão atualmente nas escolas
podem ser chamados de nativos digitais e possuem características distintas e, principalmente,
uma relação distinta com a informação. O experimento de associações de palavras é utilizado
na Psicologia e o trabalho se baseou nas premissas de Carl Jung e na sua forma de aplicação
do experimento. A associação de palavras pretende ser um caminho de acesso ao inconsciente
do pesquisado. O experimento demonstrou que esse universo ainda é novo e pouco conhecido
do bibliotecário, mas nota-se uma preocupação do profissional em sua atuação com esses
jovens e crianças. Conclui-se que é necessário o desenvolvimento de mais estudos e a
promoção de debates sobre o tema dos nativos digitais.
Palavras-chave: Biblioteca Escolar; Bibliotecário Escolar; Nativos Digitais
Eixo temático: Eixo 2: 3º Fórum Brasileiro de Biblioteconomia Escolar: pesquisa e prática.

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�XXVII Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação
Fortaleza, 16 a 20 de outubro de 2017.
Introdução:
O presente artigo se dispõe a refletir sobre a forma como o bibliotecário
escolar vê os nativos digitais, a nova geração de alunos presentes nas escolas.
Para procurar entender o imaginário desses profissionais foi utilizado o
experimento de associações de palavras, a fim de acessar o inconsciente desse
profissional.
Desde a década de 1970 pode-se encontrar estudos sobre a biblioteca
escolar (BE) no Brasil. Esses estudos demonstram a profunda relação entre os
conceitos e utilidades desse equipamento com a situação da educação no país.
Ainda que nem sempre esteja presente nas escolas, é importante destacar que a
Lei no. 12.244 de 2010 (BRASIL, 2010) regulamenta que, no prazo de 10 anos,
todas as escolas, sejam públicas ou privadas, deverão ser dotadas de Biblioteca.
Essa lei traz consigo uma perspectiva que a BE passe a ser disseminada.
A escola que possui dentre seus recursos a biblioteca, deve contar no seu
quadro de profissionais com o bibliotecário. Assim, esse profissional deve adequar
sua atuação ao contexto escolar, estando disposto a servir como catalisador da
informação, atuando de forma dinâmica e integrada à atuação pedagógica dos
docentes. Esse profissional deve dominar não apenas as técnicas
biblioteconômicas, mas também ter noções da área de Educação, para realmente
atuar como educadores.
Soares (2014) sintetiza o panorama da atuação pedagógica do bibliotecário
salientando que
podemos dizer que os empecilhos para o exercício do papel pedagógico
são principalmente a ênfase nas atividades técnicas e a falta de interação
entre bibliotecários e professores. Soma-se a esses o fato de o
bibliotecário não possuir formação suficiente para exercer este papel,
conforme explicitado por diversos autores (SOARES, 2014, p. 21).

Se a atuação do bibliotecário escolar já não se mostra uma tarefa simples,
atuar com a nova geração de usuários se mostra como mais um desafio. Como
destaca Castro, “a geração de alunos que as escolas recebem atualmente está
cada vez mais envolvida pelos avanços tecnológicos” (CASTRO, 2014, p. 37).
Essa nova geração ainda possui divergências sobre sua nomenclatura, mas suas
características são bastante conhecidas.
Para fins desse trabalho, esses usuários serão tratados pelo termo Nativos
Digitais de acordo com Palfrey e Gasser (2011). As características marcantes
dessa geração são: são aqueles nascidos depois da invenção das tecnologias da

�informação e da comunicação, passam boa parte de seu tempo conectados, o que
torna a diferenciação entre real e digital nem sempre clara.
Assim, se mostra necessário refletir sobre o imaginário do bibliotecário que
irá atuar junto a essa nova geração, de forma eficaz.
Método da pesquisa:
O trabalho utilizou um experimento de associação de palavras, a fim de
conhecer melhor o imaginário do bibliotecário escolar. O método foi desenvolvido
na Psicologia e bastante utilizado por Jung para explorar os complexos dos
sujeitos estudados. Segundo Jung (1975) o experimento de associação de
palavras pode servir como o caminho de acesso ao inconsciente.
O experimento possui todo um método a ser seguido. Inicialmente o
pesquisador (ou experimentador) dispõe de uma lista de palavras, chamadas aqui
palavras-indutoras, escolhidas ao acaso, sem relações de significados. As
palavras são apresentadas umas após as outras ao sujeito, que é convidado a
reagir com a primeira palavra que lhe vier a mente, o mais rápido o quanto
possível.
O experimentador fica de posse de um cronômetro, para medir o tempo de
reação a cada palavra-indutora. O tempo decorrido entre o término da pronúncia
do experimentador e o início da resposta do sujeito é marcado e chamado de
tempo de reação.
A lista de palavras contém cerca de 100 palavras. Após a primeira rodada,
o sujeito é convidado a reagir novamente à lista de termos, buscando repetir a
mesma palavra informada inicialmente.
Todos os incidentes que podem ocorrer, como a demora na resposta, a
falta de resposta, reações estranhas a determinadas palavras, troca de palavras
na repetição, todos esses elementos podem ser analisados à luz da teoria dos
complexos, a fim de se aprofundar no imaginário do sujeito.
Após o registro das reações do sujeito há uma série de aspectos que
podem ser analisados, sendo o primeiro o tempo de reação. Para se realizar uma
análise mais precisa é estabelecida uma mediana do tempo de resposta do
sujeito. A partir dessa mediana é que será possível detectar os desvios presentes.
Assim, para fins deste trabalho o experimento de associação de palavras foi
realizado com uma bibliotecária que atua no contexto escolar há cerca de 7 anos.
Foi apresentada uma lista com 101 palavras-estímulo, seguida pela repetição. Em
um momento posterior, foi realizada uma entrevista pra elucidar algumas questões
detectadas pela análise dos dados.
As pesquisas desenvolvidas por Jung e seus seguidores desenvolveram
uma lista padrão de palavras, mas, para a realização do experimento optou-se por

�modificar alguns termos a fim de checar o imaginário do sujeito diante do universo
da biblioteca escolar e dos nativos digitais.
Resultados:
Após a realização do experimento, as medições de reação ofereceram os
tempos para determinar a mediana de tempo de reação. Nas primeiras 50
palavras ela é 2 milésimos de segundo. A mediana das 51 palavras restantes
também foi 2. Destaca-se que as palavras que tiveram maior tempo de reação
(injusto, com 11,8 e novidade com 18,3) encontram-se entre as 50 primeiras
palavras, sendo a 50ª e a 47ª respectivamente.
Fazendo uma análise inicial dos indicadores de reação encontramos 07
reações, nas primeiras 50, com tempo de reação prolongado. São elas: cantar
(9.9), doente (5.4), cozinhar (4.0), jornada (7.8), costume (4.1), novidade (18.3) e
injusto (11.8). Nas 51 seguintes foram 08 reações com tempo prolongado, valor
parecido com a primeira metade do experimento. As palavras foram: voraz (6.4),
discutir (5.4), parede (4.3), derrotar (4.0), temer (4.8), puro (4.7), ridículo (4,4) e
abusar (8.4). Uma análise inicial desses dados pode levar a pensar que a
entrevistada tem uma certa dificuldade com mudanças, considerando que a
palavra com maior tempo de reação entre todas foi exatamente novidade, a qual,
depois de pensar citou “algo novo”, mas reclamou que nada vinha à cabeça. A
palavra que antecedeu essa foi caro, respondido dentro do tempo médio com
barato, uma mera associação de significados (antônimo no caso).
Na entrevista posterior com a pesquisada, ela disse que não tem problemas
com mudanças e novidades, que a dificuldade em responder alguns termos se
deveu ao cansaço em geral em que se encontrava. Contudo, ao se analisar os
termos, podemos correlacionar sua demora com as palavras jornada, costume,
novidade, derrotar e temer. Foram termos que demandaram mais tempo de
reação, em alguns casos, bem superior a mediana. No caso de jornada, que foi
associada a empreitada, a pesquisa alegou posteriormente que sua jornada de
trabalho daquele dia havia sido muito exaustiva e estressante.
A reação seguinte notada foi a complementação da palavra-estímulo.
Apareceu 03 vezes na primeira metade nas associações: pagar – quando receber;
educação – vem de casa; e pão – de queijo. Na segunda metade foram 07
associações: prestar atenção – nas normas; caixa – de presente; escutar – é
preciso; Facebook – tenho; regra – para ser seguida; porta –aberta; e abusar – da
paciência.
As reações que tomam forma de várias palavras ou de frase inteiras
apareceram bastante, sendo na primeira parte 11 ocorrências: pagar, amigável,
educação, adolescência, doente, orgulho, cozinhar, bravo, pão, nativo digital e
novidade. Na segunda parte foram também 11 ocorrências, sendo: prestar

�atenção, vidro, discutir, caixa, escutar, regra, YouTube, satisfeito, ridículo, dormir e
abusar.
Após a análise geral, foi possível perceber que algumas palavras indutoras
apresentam mais de um indicador de complexo, sendo 08 na primeira metade e 09
na segunda. Apenas uma palavra indutora gerou 3 reações e as demais foram 2
reações. Das palavras que geraram mais de um complexo, para fins desse
trabalho vamos destacar Educação, Nativo Digital, Novidade, Prestar atenção
Silêncio, Escutar e Regra.
Foram 10 palavras diferentes no momento da repetição, sendo 05 em cada
parte do teste. As palavras foram: tecnologia (acessibilidade – computador),
computador (tecnologia – internet), jovem (criança – paciência), amarelo (milho –
ouro), estúpido (ignorância – grosseiro); voraz (agressivo – esqueceu e disse que
achava ser feroz), derrotar (ganhar – vencer), felicidade (férias – meu salário! Não!
Foi férias!), regra (para ser seguida – norma) e falso (mentiroso – não me lembro,
vou falar mentira).
O método da associação de palavras foi utilizado a fim de buscar as
reações, pensamentos e sentimentos do pesquisado sobre a atuação na biblioteca
escolar e sobre os nativos digitais, ou seja, os alunos hoje presentes nas escolas.
Discussão:
Uma análise rápida do experimento demonstra que a pesquisada gosta do
que faz, tem orgulho da profissão escolhida e se sente bem em sua atuação. Em
contrapartida, vê algumas dificuldades na atuação na escola, por exemplo no que
diz respeito ao barulho.
Campello (2009) destaca que o papel do bibliotecário atualmente vai além
do incentivo à leitura, necessitando que esse profissional contribua para uma
formação mais complexa. Aliado a isso Castro (2014) destaca a necessidade do
profissional esta ciente de que na escola encontra-se ums nova geração de
alunos, os Nativos Digitais. Ou seja, é necessário aliar o conhecimento técnico à
uma abordagem pedagógica e alinhada a esse usuário.
No experimento foi possível perceber que a bibliotecária tem preocupações
com os jovens e as crianças, mas não possui uma relação muito próxima às novas
tecnologias. Ao termo Facebook respondeu “tenho”, enquanto a YouTube foi a
expressão “quase não vejo”.
Uma reação que se destacou e pode se relacionar a um complexo latente
foi a palavra amarelo, que na primeira rodada foi respondida com “milho” e na
repetição foi completamente esquecida pela pesquisada. Esse fato a incomodou
muito, por sequer lembrar que a palavra havia sido induzida antes. A palavra
imediatamente anterior foi jovem, que na primeira rodada foi associada à “criança”

�e na repetição houve o erro, associando à “paciência”. Esse ato falho e a palavra
seguinte esquecida pode demonstrar um complexo da pesquisada com relação a
esse universo.
Considerações Finais ou Conclusões:
O presente trabalho se dispôs a verifica o imaginário de uma bibliotecária
escolar com relação aos Nativos digitais, a partir do experimento de associações
de palavras. Acredita-se que o objetivo foi parcialmente atendido, pois se acredita
que mais pesquisas devem ser desenvolvidas nesse sentido.
Conclui-se que a bibliotecária tem orgulho e gosta do que faz, o que é
importante para uma atuação voltada para atender às demandas e necessidades
dos usuários. Esses usuários são jovens e crianças em processo de formação e
que possuem uma relação bastante distinta com o universo da informação e da
leitura.
Diante dessa perspectiva, nota-se que esse público ainda não é
plenamente compreendido, causando uma preocupação latente. Assim, se sugere
mais trabalhos nesse sentido, além de debates e reflexões dos bibliotecários que
atuam no contexto escolar.
Referências:
BRASIL. Congresso. Lei n.º 12.244, de 24 de maio de 2010. Dispõe sobre a
universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País. Diário Oficial
[da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 25 maio 2010.
Seção 1, 2010.
CAMPELLO, Bernadete Santos. Letramento informacional: função educativa do
bibliotecário na escola. Belo Horizonte: Autêntica, 2009b. (Coleção Biblioteca
Escolar).
CASTRO, Jaqueline F.S. de. Nativos Digitais na biblioteca escolar: programas
de letramento informacional para o ensino médio. 2014. Dissertação (Mestrado em
Mestrado Profissional em Biblioteconomia) - Universidade Federal do Estado do
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.
JUNG, C. G. O homem à descoberta da sua alma: estrutura e funcionamento do
inconsciente. Portugal: Livraria Tavares Martins, 1962. 507 p.
PALFREY, John; GASSER, Urs. Nascidos na era digital: entendendo a primeira
geração de nativos digitais. Porto Alegre: Artmed, 2011, 352 p.
SOARES, Laura Valladares de Oliveira. A formação como aliada no exercício
do papel educativo do bibliotecário na escola. 2014. 99 fls. Dissertação
(Mestrado em Ciência da Informação) – Escola de Ciência da Informação,
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2014.

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