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                  <text>Biblio(Cri)Ativa: espaço de sociabilidade e informação para
cidadania

Geisa Müller de Campos Ribeiro (UFG) - geisamuller@hotmail.com
Andréa Pereira dos Santos (UFG) - andreabiblio@gmail.com
Suely Henrique Gomes (FIC - UFG) - suelyhenriquegomes@gmail.com
Laura Vilela Rodrigues Rezende (UFG) - lauravil.rr@gmail.com
Resumo:
O projeto Biblio(cri)Ativa é um projeto de extensão do curso de Biblioteconomia da
Universidade Federal de Goiás e consiste na implantação de uma biblioteca na Associação de
Catadores de Materiais Recicláveis Ordem e Progresso – ACOP - localizada na cidade de
Goiânia e assessorada pela Incubadora Social da Universidade.
O projeto possui em sua fundamentação para implantação três princípios norteadores:
Ocupação e pertencimento; Ações Pedagógicas; Ações Culturais. Um dos grandes desafios
para se pensar um modelo de biblioteca inclusiva para grupos vulneráveis está no fato de que
a maioria possui um baixo índice de escolaridade. Nesse sentido, torna-se fundamental a
realização de ações inclusivas, culturais e pedagógicas. É uma forma de conseguir alcançá-las,
promover o acesso e disseminação da informação e incentivá-las a leitura de forma criativa,
lúdica, promovendo uma nova visão do mundo. Todas essas ações serão realizadas através de
um princípio de interação com base no diálogo e assim respeitar o espaço sociocultural dos
indivíduos. É um processo que visa valorizar o saber acumulado das pessoas.
Palavras-chave: Biblioteca. Disseminação da informação. Catadores. Materiais recicláveis
Eixo temático: Eixo 1: Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS)

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�XXVII Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação
Fortaleza, 16 a 20 de outubro de 2017
Eixo Temático: 1 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
ODS: 1
Resumo expandido
1 Introdução
Trata-se de um projeto de implantação de biblioteca comunitária em uma
associação de catadores de materiais recicláveis em Goiânia. Este foi premiado
com recursos do Fundo Estadual de Cultura do Estado de Goiás com previsão de
compra de acervo e construção de espaço físico.
A associação dos catadores de materiais recicláveis contemplada foi criada
em 2005 e possui uma história marcada às duras provas de resistência e
persistência na atividade. Inicialmente eram catadores moradores da Favela dos
Trilhos e iniciaram seu processo de consolidação após o Primeiro Encontro
Municipal dos Catadores de Materiais Recicláveis em Goiânia. Surgiu da
percepção de que poderiam atuar como organização solidária, ou seja, praticar um
modelo de organização em que o relacionamento e as atividades econômicas
combinam propriedade e/ou controle efetivo dos meios de produção com
participação democrática da gestão.
A finalidade é de gerar trabalho e renda para os coletores de material
reciclável e pessoas excluídas do mercado formal de trabalho as quais se
encontram em estado de vulnerabilidade social. É a adoção do princípio
autogestionário, onde os trabalhadores devem possuir poder de decisão sobre
tudo o que acontece no empreendimento. Frente a sua trajetória e após
receberem apoio da Incubadora Social da UFG para o desenvolvimento e
formalização dos grupos e do lançamento do Programa Goiânia Coleta Seletiva e
Inclusão Social da Prefeitura Municipal, somando-se à estratégia de
Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS) do Banco do Brasil, lutam para
alcançar sua autonomia econômica financeira e dependem de subsídios de outras
entidades para sua manutenção e de seus associados. Sabe-se que o
desenvolvimento da categoria dos catadores de materiais recicláveis evidencia
diversas dificuldades como a exclusão social. A precariedade e insalubridade
acompanham o trabalho de catação principalmente para aqueles que exercem a
atividade nos lixões e nas ruas.
Além disso, a coleta de material reciclável não se configura como trabalho
reconhecido, impossibilitando assim, o exercício da cidadania. Por isto, a criação
de associações e cooperativas de catadores se torna uma importante alternativa
de inclusão social. Contudo, em sua grande maioria, estão localizados em regiões
carentes dos municípios do Estado e por diversos fatores não possuem acesso à
cultura, educação, saúde, entre outros. Em pesquisa realizada pela Incubadora
social da UFG, 30% do grupo da associação em proposta não sabe ler e escrever

�e somente 7% concluiu o ensino médio. Muitos com baixa qualificação profissional
e nunca tiveram a possibilidade de ter o primeiro emprego de carteira assinada.
Essa conjunção de fatores dificulta o processo de aprendizagem de novos
métodos, posturas e no gerenciamento da associação. A fim de mudar este
quadro, diversas tem sido às iniciativas para fortalecer a associação, oportunizar a
educação, a cultura, buscando elevar os índices de desenvolvimento dessas
pessoas.
É neste âmbito que o projeto BIBLIO(CRI)ATIVA se destaca. Visa dar
continuidade ao que já vem sendo desenvolvido junto a estes indivíduos
considerados excluídos. O desejo de realização deste projeto surgiu após diversas
pesquisas realizadas pela Incubadora Social da UFG e dentre elas a percepção da
quantidade de livros que são destinados a reciclagem. Ou seja, em meio a vidros,
plástico, alumínio e papelão, os catadores recolhem diversos livros e, dentre eles,
alguns tesouros da literatura. Muitos destes livros são separados e
disponibilizados e outros descartados.
As ações para implantação da biblioteca serão realizadas através de um
princípio de interação com base no diálogo e assim respeitar o espaço
sociocultural dos indivíduos. É um processo que visa valorizar o saber acumulado
das pessoas. Dentre os resultados almejados estão a formação de leitores, a
promoção da leitura, a inclusão informacional e, ao estender os serviços prestados
pela biblioteca aos filhos dos cooperativados, espera-se melhorar o desempenho
escolar dessa parcela dos usuários potenciais. Paralelamente, acredita-se que
esse projeto pode contribuir para o processo de ensino e aprendizagem dos
estudantes da graduação pois, por se tratar de implantação de bibliotecas, os
estudantes terão a oportunidade de vislumbrar todas as etapas desse processo
dentro das disciplinas do curso. Para os docentes do curso de Biblioteconomia é
oportunidade de aplicar as pesquisas que estão em desenvolvimento nas diversas
áreas de atuação.
2 Método da pesquisa
O presente projeto possui sua proposta metodológica de abordagem
qualitativa e quanto aos objetivos, pesquisa-ação. Funda-se nos princípios de
Paulo Freire com base na Educação Popular e ambiental. Seguem os
procedimentos que serão realizados conforme os três princípios norteadores do
projeto:
a) Ocupação e pertencimento: Entende-se que a implantação de um
espaço criativo em um grupo de agentes ambientais deve ser construída tendo a
participação ativa de seus membros, para que os mesmos se sintam partícipes
desta iniciativa e consigam conduzi-la de maneira sustentável. A biblioteca deve
atentar para as necessidades culturais e informacionais do grupo e da
comunidade que o cerca. Precisa ser uma biblioteca desejada e pensada por
todos, fugindo, portanto, de um modelo canônico e tradicional, imposto de cima
para baixo.
1ª Etapa: Pesquisa da comunidade e cooperados - Diagnóstico: A etapa
inicial do projeto consiste em pesquisar a comunidade que receberá a biblioteca e

�os cooperados. É necessário compreender as necessidades informacionais do
grupo, da comunidade, sua natureza. Serão realizadas reuniões semanais com o
grupo; levantamento histórico da comunidade; aplicação de questionário sócioeconômico e entrevista semi-estruturada, ou grupo focal
2ª Etapa: Implantação da biblioteca - Espaço físico: estruturação e
adequação do espaço (40m); Aquisição de equipamentos e mobiliários; Formação
do Acervo; Organização da Biblioteca; Contratação de serviços de infraestrutura
de comunicação.
b) Ações pedagógicas: Entende-se que um espaço criativo, como uma
biblioteca instalada em um grupo de agentes ambientais, deve contemplar o
desenvolvimento de ações pedagógicas que fortalecerão o comprometimento com
o aprendizado e desenvolvimento de habilidades e competências do indivíduo.
Ação 1: Circulo de Cultura Ação 2: Inclusão Digital
c) Ações culturais e de incentivo a leitura: Entende-se que para delinear a
criação de um espaço criativo, as ações culturais se tornam o cerne de toda a
criatividade que se deseja desenvolver. A abundância cultural e o seu
compartilhamento, a diversidade e, principalmente, o engajamento cidadão trará
ações colaborativas consequentes visando deixar legados futuros, além de bem
estar e a expansão do ser humano. Pretende-se realizar ações com intervenções
teatrais e estimular leitura com grupo de terceira idade para desenvolvimento da
memória oral por meio de fatos relevantes de sua vida e históricos da comunidade
a qual pertencem.
d) Ações de inclusão e letramento informacional – Nesse item já foram
oferecidas oficinas de noções básicas de tecnologia de informação e comunicação
dentro da filosofia de que a inclusão informacional pressupõe a alfabetização
digital. Estão previstas também ações para a promoção do letramento
informacional – ou seja, a busca, compartilhamento e o uso ético da informação.
3 Contextualização da pesquisa
De forma expressiva, a natureza da atividade desempenhada pelos
catadores ainda é marginalizada pela sociedade e recebem classificações
estereotipadas em razão de lidarem com os resíduos sólidos, que tem recebido a
“denominação” na sociedade de lixo. Portanto é um público estigmatizado, muitas
vezes confundidos com mendigos e considerados potencialmente perigosos. A
começar pelo visual, cor da pele, forma de se vestir e sinais de precariedade em
relação à saúde. Estes indivíduos vivem à margem da sociedade sendo marcados
pela exclusão e por consequência, pela diferença. Essas “classificações”
interferem diretamente no trabalho do catador associado, os quais se apropriam
desta autoimagem negativa que a sociedade lhes impõe.
Com base neste cenário, percebe-se que além da exclusão informacional
há também a exclusão do próprio sistema normativo formal para o trabalho. A fim
de contribuir para disseminação da informação e transformação social através do
processo de educação dialógica é que se inserem os projetos de incubação de
cooperativas populares. Logo, acredita-se que a partir da realidade vivenciada por
este grupo de catadores, neste momento denominados agentes ambientais, a

�implantação de uma biblioteca irá promover o acesso à cultura, educação e à
cidadania da comunidade.
Por esta razão, todo o projeto será desenvolvido por meio de interações
dialógicas onde os sujeitos passam de meros espectadores para transformadores
de sua realidade. Isto é, todo processo de desenvolvimento do projeto será
realizado juntamente com os catadores e com a comunidade a partir de sua
realidade histórico-cultural. Consiste na atitude de construir com, não para e
jamais sobre eles. O “com” exige interação entre os saberes e principalmente o
diálogo (CULTI, 2009). Significa uma via circular e espiral de trocas de
experiências e saberes que, por meio do processo interativo e criativo entre as
partes, alimenta e fortifica as relações socialmente construídas. É um movimento
que ocorre de dentro para fora transformando atores sociais excluídos em sujeitos
ativos (SILVEIRA, 2006).
4 Resultados esperados e resultados conquistados
Até o presente momento, o projeto cumpriu com a primeira etapa do
processo que é a pesquisa com a comunidade de cooperados. Nessa pesquisa,
pudemos entender que tipo de biblioteca poderia ser criada para esses sujeitos.
Logo, já iniciamos com a compra do material bibliográfico com títulos com
linguagem acessível aos moradores da comunidade. Dentre esses títulos, muitas
obras clássicas adaptadas para quadrinhos. Além das adaptações, adquirimos a
coleção, quase completa, das obras da coleção “vaga lume”. Trata-se de livros
voltados para o público infantil e juvenil mas com grande aceitação do público
adulto.
A escolha dos livros foi pensada levando-se em consideração as ideias de
autores tais como Chartier (1999); Goulemot (2011) e Abreu (2001). Chartier
(1999) considera que é a partir das leituras mais simples que os sujeitos são
levados a explorar outras, um tanto mais densas e profundas. Para Goulemot
(2011), sendo erudita ou não, a leitura será sempre produção de sentidos. Enfim
para Abreu (2001) não podemos considerar como não leitores aqueles que leem
somente o que é imposto pelos cânones escolares. Portanto, essas leituras,
fogem, de sobremaneira, ao que se é atestado pelos cânones, porém são leituras
que estão dentro do espaço de pertencimento e entendimento da comunidade de
catadores de materiais recicláveis.
Algumas ações pedagógicas também foram realizadas, como a capacitação do
uso de computadores. Esta ação teve como objetivo desenvolver uma tecnologia
social por meio da inclusão digital que integra a dimensão humana, social e
tecnológica da informação promovendo a inclusão social e produtiva do grupo.
Portanto, contribui para o desenvolvimento de habilidades e competências
informacionais dos catadores. Estes resultaram no fortalecimento da utilização de
tecnologias da informação e comunicação direcionadas ao trabalho, emprego e
renda. Também encontra-se em andamento os primeiros passos para início de
instalação de uma turma para alfabetização e educação ambiental através da
parceria com Programa AJA-Expansão da Secretaria Municipal de Educação de
Goiânia (SME). O objetivo de implantação da turma é a escolarização de jovens e
adultos trabalhadores da cooperativa e da comunidade.

�Além disso, encontramos na fase de estruturação física da biblioteca,
planejando os espaços e buscando outros recursos para equipá-la. Acredita-se
que a implantação da biblioteca no local trará um marco para a associação e para
a comunidade. Com a finalidade principal de promover o acesso e a disseminação
da informação, a biblioteca contribuirá para a formação dos indivíduos, colaborará
para o incentivo à leitura, para a difusão e democratização á cultura e para o
melhoramento do desempenho escolar de crianças, jovens e adultos. A intenção é
que este espaço seja utilizado pelos cooperados, seus filhos, e a comunidade
local. Um dos grandes desafios para se pensar um modelo de biblioteca inclusiva
para grupos vulneráveis está no fato de que a maioria possui um baixo índice de
escolaridade. Nesse sentido, torna-se fundamental a realização de ações
inclusivas, culturais e pedagógicas. É uma forma de conseguir alcançá-las e
incentivá-las a leitura de forma criativa, lúdica, promovendo uma nova visão do
mundo.
Referências
Abreu, Márcia. Diferença e desigualdade: preconceitos em leitura. In: MARINHO, Marildes
(org.) Ler e navegar: espaços e percursos da leitura. Campinas: Mercado das Le-tras,
2001.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Unesp, 1999.
CULTI. Maria Nezilda. O desafio do processo educativo na prática de incubação de
empreendimentos econômicos solidários. São Paulo, 2006. Tese (Doutorado) –
Programa de Pós-Graduação em Educação – Universidade de São Paulo, São Paulo,
2006. 248f.
CULTI. Maria Nezilda. Conhecimento e práxis: processo de incubação de
empreendimentos econômicos solidários como processo educativo. Outra Economía, v.3,
n.5. 2009. Disponível em: . Acesso em: 20 mai 2015.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 56.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.
GOULEMOT, Jean. Da leitura enquanto produção de sentidos. In: ROGER, Chartier (org.).
Práticas de Leitura. 5. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2011.
REZENDE, Laura Vilela Rodrigues. Incubadoras sociais: gestão da informação e do
conhecimento na construção de tecnologia social. 2009. 216f. Tese (Doutorado em
Ciência da Informação) - Universidade de Brasília, Brasília, 2009. Disponível em: . Acesso
em: 15 jan 2015.
RIBEIRO, Geisa Müller de Campos. O processo de incubação social da Universidade
Federal de Goiás: os desafios para a interação significativa na construção do
conhecimento. 2016. 186f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação e,
Comunicação - Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2016.
SILVEIRA, Fialho. Emponderamento e a constituição de capital social entre a juventude.
In: BAQUERO, Marcelo. ; CREMONESE, Dejalma. Capital social: teoria e prática. Ijuí:
Unijuí, 2006. Parte II, p. 251 – 275.

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