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                  <text>Ciência da Informação : uma abordagem para a transformação
Tony Bernardino Macedo (UFPE) - tonybernar@hotmail.com
Resumo:
Pretendemos evidenciar estudos que abordam uma Ciência da Informação que toma como
perspectiva a informação como fenômeno humano e social. Informação como fomento para as
transformações sociais. Assim, discutimos três visões, baseadas nos autores: Jesse Shera,
Margareth Egan, Birger Hjørland e Rafael Capurro. Cada um deles apresenta teorias que
acreditamos, contribuem para o desenvolvimento da Ciência da Informação enquanto uma
ciência social. Apresentamos um breve histórico da prática do registro da informação e das
disciplinas que precedem a Ciência da Informação.
Assim, apresentamos a disciplina
epistemologia social desenvolvida em meados do século XX por Shera e Egan; os conceitos de
análise de domínio e comunidades discursivas, elaborados por Hjørland, e finalizamos com o
paradigma social, proposto por Capurro. Enfatizamos que a opção por estes pesquisadores se
baseou na orientação social de suas teorias para a Ciência da Informação.
Palavras-chave: Ciência da Informação. Epistemologia social. Biblioteconomia
Área temática: Temática II: Transcompetências: diferenciais dos usuários e do profissional da
informação

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Ciência da Informação : uma abordagem para a transformação

Resumo:
Pretendemos evidenciar estudos que abordam uma Ciência da Informação que
toma como perspectiva a informação como fenômeno humano e social. Informação
como fomento para as transformações sociais. Assim, discutimos três visões,
baseadas nos autores: Jesse Shera, Margareth Egan, Birger Hjørland e Rafael
Capurro. Cada um deles apresenta teorias que acreditamos, contribuem para o
desenvolvimento da Ciência da Informação enquanto uma ciência social.
Apresentamos um breve histórico da prática do registro da informação e das
disciplinas que precedem a Ciência da Informação. Assim, apresentamos a
disciplina epistemologia social desenvolvida em meados do século XX por Shera e
Egan; os conceitos de análise de domínio e comunidades discursivas, elaborados
por Hjørland, e finalizamos com o paradigma social, proposto por Capurro.
Enfatizamos que a opção por estes pesquisadores se baseou na orientação social
de suas teorias para a Ciência da Informação.
Palavras-chave: Ciência da Informação. Epistemologia social. Biblioteconomia
Área Temática: Transcompetências: diferenciais dos usuários e do profissional da
informação

1

INTRODUÇÃO

Em um artigo publicado em 1950, Wersig (p.5) nos relata uma passagem
sobre o termo informação, e diz que existem, pelo menos, seis diferentes
abordagens para o uso e significado do termo em todos os campos da disciplina.
Obviamente, cada uso e significado do termo é justificado. O autor nos conta que a
ambiguidade é um dos maiores entraves para a comunicação cientifica e para a
elaboração de teorias, e nos alerta: “dever-se-á encontrar uma regra para avaliar
qual é o significado que convém para cada objetivo” (p.5).
Dessa forma, elaboramos este trabalho com a intenção de evidenciar estudos
que abordam uma Ciência da Informação que toma como perspectiva a informação
como fenômeno humano e social. Informação como fomento para as transformações
sociais. Assim, discutimos três visões, baseadas nos autores: Jesse Shera,
Margareth Egan, Birger Hjørland e Rafael Capurro. Cada um deles apresenta teorias
que acreditamos, contribuem para o desenvolvimento da Ciência da Informação
enquanto uma ciência social. Fizemos um breve histórico da prática do registro da
informação e das disciplinas que precedem a Ciência da Informação.

Assim,

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apresentamos a disciplina epistemologia social desenvolvida em meados do século
XX por Shera e Egan; os conceitos de análise de domínio e comunidades
discursivas, elaborados por Hjørland, e finalizamos com o paradigma social,
proposto por Capurro. Enfatizamos que a opção por estes pesquisadores se baseou
na orientação social de suas teorias para a Ciência da Informação.

2

ASSIM NASCEU A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

Acreditamos que os princípios que regem a Ciência da Informação surgiram
remotamente quando o homem criou ambientes onde estocavam seus registros,
suas memórias. Jean (2002) nos conta que um dos mais antigos vestígios da escrita
catalogados é datado do quarto milênio a.C., num tablete de argila. Datado deste
mesmo período, Silva et al (1999) nos diz que foram produzidos diversos tipos de
documentos. Desde cadernos de contabilidade até catálogos descritivos, esses
documentos já utilizavam métodos de organização no armazenamento com a
intenção de acesso futuro. Na Mesopotâmia, nos conta Ortega (2004), existiam
tabletes com registros humanos e esses mesmos tabletes eram revestidos por
outras capas de argila que continham uma espécie de resumo com a finalidade de
recuperar as informações que ali estavam guardadas, essa prática de armazenagem
e de possível instrumento de recuperação da informação, nos remete a “teoria da
armazenagem e recuperação da informação”, considerada por Egan e Shera (1949)
como a base da Ciência da Informação.
Da antiguidade, a biblioteca mais celebre é sem dúvida a de Alexandria. De
acordo com Martins (2002, p.74), foi nesta biblioteca em que se diz terem existido
mais de setecentos mil volumes. Miranda (2010, p.25) nos esclarece que “de modo
geral, durante toda a antiguidade, os gregos e depois os romanos registraram o
conhecimento produzido e organizaram-no com etiquetas”. Ordenando-os de forma
numérica e indexando por conteúdos nos Arquivos e Bibliotecas.
As bibliotecas da Idade Média não se diferenciaram em muitos aspectos das
da antiguidade, tanto na composição, quanto na organização e no funcionamento.
Wilson (2002) nos diz que as bibliotecas medievais são, na realidade, um
prolongamento das bibliotecas antigas. O autor enfatiza:

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Não se trata de dois tipos de biblioteca, mas de um mesmo tipo que sofreu
modificações insignificantes decorrentes de pequenas divergências de
organização social. Mais diferença, existe, materialmente, na própria
Antiguidade, entre as bibliotecas “minerais”, compostas por tabletes de
argila, e as bibliotecas “vegetais” e animais, constituídas por rolos de papiro
ou pergaminho, [...] não variaram em nada o “funcionamento”, a
natureza e as finalidades (p.71, grifo nosso).

Ortega (2004) nos informa que durante a Idade Antiga e a Idade Média,
museus, arquivos e bibliotecas constituíam praticamente a mesma entidade, pois
organizavam e armazenavam todos os tipos de documentos. A autora nos diz que
esta entidade permaneceu inalterada até a Idade Moderna, “quando a produção dos
livros tipográficos, entre outros motivos, levou a que as bibliotecas passassem a
existir separadamente e a adquirir maior relevância enquanto elemento social”.
Ainda na Idade Média, a organização do conhecimento, passara a reconhecer
outro lugar, as bibliotecas universitárias. Estas surgem no século XIII com a criação
das primeiras universidades. “As primeiras universidades são, por assim dizer, um
prolongamento das ordens eclesiásticas: franciscanos e dominicanos encontram-se
na origem de muitas delas” (WILSON, 2002, p.89).
É nos primeiros momentos da Idade Moderna que a biblioteca passa a
adquirir o seu sentido moderno. “No final do século XV, a reprodução de materiais
escritos começou a transferir-se da escrivaninha do copista para a oficina do
impressor”. (EISEINSTEIN, 1998, p.07). É nesta época, segundo Wilson (2002,
p.91), que surge, junto ao livro, a figura do bibliotecário. Ortega Y Gasset ilustra
muito bem este período:
Durante a Idade Média, a ocupação com os livros ainda é infra-social, não
aparece para o público: está latente, secreta, pode-se dizer, intestina,
confinada no recinto secreto dos mosteiros. Nas próprias universidades não
se destacava essa prática. Nelas se guardavam os livros necessários à
prática do ensino, do mesmo modo, nem mais nem menos, como se
guardariam os utensílios de limpeza. Ser guardião dos livros não era algo
especial. E não por coincidência! É precisamente a época em que também,
pela primeira vez, o livro, no sentido mais estrito da palavra, não o livro
religioso, nem o livro das leis, mas o livro escrito por um escritor, portanto, o
livro que pretende ser somente livro e não revelação ou código, é
precisamente a época em que, também pela primeira vez, o livro é sentido
socialmente como necessidade (2006, p.18, grifo nosso).

O livro impresso “sentido socialmente como necessidade” irá popularizar-se
no século XV graças à invenção, no ocidente, dos tipos móveis por Gutenberg.
Eiseinstein (1998, p.7) nos relata que só no século XVI é que se deu a consolidação

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da imprensa e que oficinas tipográficas podiam ser encontradas em todos os centros
importantes.
Neste momento a Bibliografia, atividade de organização de conteúdos de
documentos torna-se mais evidente. Todavia, Shera e Egan (1961) nos informam
que esta ação já era praticada de forma rudimentar na Inglaterra. Estes autores
citam que, efetivamente, os primeiros exemplos de bibliografias relevantes são a
compilação realizada pelo alemão Konrad Gesner, no final do século XV e a primeira
tentativa de uma bibliografia universal pelo suíço Johann Tritheim, na metade do
século XVI. A bibliografia pode ser encarada como a primeira tentativa de
organização do conhecimento.
A evolução da Bibliografia confunde-se com a Biblioteconomia, prática milenar
que de acordo com Le Coadic (2004, p.12) “não é nem uma ciência, nem uma
tecnologia rigorosa, mas uma prática de organização: a arte de organizar
bibliotecas”. Saracevic (1996, p.48) nos informa que: “A Biblioteconomia tem uma
longa e orgulhosa história, remontando a três mil anos, devotada à organização, à
preservação e ao uso dos registros gráficos humanos”. O autor enfatiza o fato
dessas atividades serem realizadas pelas bibliotecas “não apenas como uma
organização particular ou um tipo de sistema de informação, mas principalmente,
como uma instituição social, cultural e educacional”. E conclui: “indispensável, de
valor comprovado muitas vezes ao longo da história humana e através das fronteiras
das diferentes culturas, civilizações, nações ou épocas”.
No final do século XIX, com o aumento da produção bibliográfica resultante
das pesquisas cientificas e da consolidação do periódico como novo veículo para
essas pesquisas, surgiu a necessidade do desenvolvimento de outras técnicas para
a organização da informação.
Ortega (2004, p.3) afirma que: “A crescente importância dos periódicos como
veículo de publicação atingiu seu auge em 1850 e levou à necessidade do
tratamento de suas unidades de informação para possibilitar sua recuperação”.
Nesse contexto surge a Documentação.
Paul Otlet e Henri La Fontaine sistematizaram o conceito de Documentação,
ampliando os estudos das técnicas bibliográficas. Eles foram os mentores do
Instituto Internacional de Bibliografia (IIB) inaugurado em 1895, no mesmo ano a
dupla propôs o projeto de Repertório Bibliográfico Universal (RBU) que contemplava
a produção cientifica da época. Em 1934 o RBU atingiu o volume de 16 milhões de

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fichas. Outra importante ferramenta desenvolvida por Otlet em 1899 foi a
Classificação Decimal Universal (CDD). Trata-se de uma “representação sistemática
do conhecimento que, por meio de códigos padronizados, estabelecia os
relacionamentos e vínculos entre os assuntos representados e posteriormente com
os objetos”. (Ortega, 2008, p.32). Enquanto a Biblioteconomia desenvolvia suas
praticas majoritariamente nas bibliotecas públicas, voltadas para o acesso à
informação e a educação, a Documentação de acordo com Otlet (1997, 115) tinha a
função de “acompanhar o documento desde o instante em que ele surgiu da pena do
autor até o momento em que impressionava o cérebro do leitor”.
Sagredo (1994) e Rayward (1997) concordam no fato de que Otlet era um
visionário que fez previsões tecnológicas, no Tratado de Documentação (1934),
Otlet antecipou o surgimento de novas tecnologias, em especial os sistemas de
hipertexto e hipermídia, frutos da revolução tecnológica desencadeada depois da II
Guerra Mundial.
A Ciência da Informação surge oficialmente na segunda metade do século
XX, em um momento marcado pelas profundas mudanças políticas, sociais, culturais
e econômicas ocorridas após a Segunda Guerra Mundial.
O pós-guerra trouxe um realinhamento político para o mundo, Estados Unidos
e a União Soviética emergiram como grandes potências mundiais, o terreno já
estava sendo preparado para a chamada guerra fria. O final da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945) também motivou a criação da Organização das Nações Unidas
(ONU) em 1945, surgida com a missão de promover o diálogo entre as nações e
evitar conflitos como o que tinha acabado de ocorrer. Em 1948 a ONU aprovou a
declaração Universal de Direitos Humanos.
A divisão que segue à Segunda Guerra Mundial separou o mundo em dois
blocos políticos/militares: a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN),
liderada pelo os Estados Unidos e o Pacto de Varsóvia, liderado pela União
Soviética. A tensão político-militar entre estes dois blocos ficou conhecida como
guerra fria. A corrida tecnológica desencadeada pela Segunda Guerra Mundial
amplificou-se consideravelmente no período da guerra fria, quando as duas
potências investiram massivamente em novas pesquisas. Segundo Castells (2003,
p.76) foi durante a Segunda Guerra Mundial e no período seguinte que se deram as
principais descobertas tecnológicas em eletrônica: “O primeiro computador

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programável e o transistor, fonte da microeletrônica, o verdadeiro cerne da revolução
da informação do século XX”.
Após a Segunda Guerra, agravaram-se os problemas de acesso e de
organização dos registros de informação gerados e acumulados pela sociedade,
especialmente aqueles relacionados ao conflito, registrou Oliveira (2010). A autora
concorda que: “as transformações sociais e a inovações tecnológicas abriram
espaço para o surgimento de novas áreas de estudo, entre elas a Ciência da
Informação”. De acordo com Robredo (2003, p.50) o surgimento da CI deve-se à
“explosão da informação [que] acontece e decorre a partir do desmantelamento das
potências aliadas, dos arquivos técnicos da indústria alemã, após o fim da Segunda
Guerra Mundial”.
A Ciência da Informação como podemos observar é fruto de um processo
impulsionado pelas primeiras praticas de organização da informação vinda da
antiguidade, prática que atravessou toda idade média, ganhou subsídios na Idade
Moderna com o advento da imprensa e que nos chega através de duas disciplinas
fundamentais: a Biblioteconomia e a Documentação. Podemos observar também
que os problemas informacionais foram os motivos da origem dessas disciplinas.
O pós-guerra nos oferece uma CI demasiadamente preocupada em organizar
a enorme quantidade de informação gerada no período.

Resolvida a questão

imediata do gerenciamento de informação, a CI busca compreender os fatores
relacionados à informação e à sociedade, e alguns autores passam a estudá-la
como um fenômeno humano e social, aproximando a CI das Ciências Sociais.
Saracevic (1996, p.42) nos lembra que “A CI teve e tem um importante papel a
desempenhar por sua forte dimensão social e humana, que ultrapassa a tecnologia”.

3

FORMAS E TRASNFORMAÇÕES DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

Na década de 1950 dois bibliotecários americanos Jesse Shera e Margaret
Egan propuseram uma disciplina científica designada Epistemologia Social. Marco
deste movimento foi o artigo de 1952, intitulado Foundations of a theory of
Bibliography (EGAN, SHERA, 1952). De acordo com Renault (2007, p.136) “A
proposta da nova disciplina partia do princípio de que a epistemologia tradicional não
pode compreender os processos intelectuais da sociedade, na medida em que
estuda o conhecimento a partir do indivíduo”. O autor nos diz ainda que “na opinião

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de Shera a psicologia, ao transferir os estudos para os laboratórios, produziu
avanços no sentido de compreender o comportamento mental, mas também se fixou
no indivíduo”. E que “os sociólogos se voltaram para os grupos de indivíduos, mas
não se detiveram nas forças intelectuais que integram as estruturas sociais”. E
conclui: “Daí a necessidade de uma ‘epistemologia social’, que se caracterizaria pelo
estudo daqueles processos através dos quais a sociedade como um todo se
relaciona com o conhecimento”.
A

Epistemologia

Social

contextualiza

socialmente

os

processos

informacionais; não isolando a informação e o ato de dispor a informação, mas,
sobretudo compreendendo a engrenagem do fluxo da informação e suas
consequências, a disciplina fundada por Shera e Egan seguiu a trilha já percorrida
por Otlet no seu Tratado de Documentação em 1934. “Acompanhar o documento
desde o instante em que ele surgiu da pena do autor até o momento em que
impressionava o cérebro do leitor”. (1997 p.115).
A influência do pensamento de Otlet em Shera evidencia-se quando este
expõe que o objetivo da nova disciplina seria a análise “da produção, do fluxo, da
integração e do consumo de todas as formas de pensamento comunicado por meio
de todo o tecido social” (SHERA, 1973, p. 89); e quando diz que “é exatamente
desse sistema secundário de comunicação que a humanidade depende para
empreender ações sociais inteligentes”. (EGAN; SHERA, 1952, p. 29).
Shera (1977, p.11) diz que: “O armazenamento e recuperação da informação,
ou fatos, por mais bem feitos e por mais precisos que sejam os mecanismos para
que sejam levados a efeito, não tem nenhum valor, se não são utilizados para o bem
da humanidade”. E conclui: “é dessa utilização que o homem não ousa abdicar”.
Embora o empreendimento de Shera e Egan tenha colocado em xeque a
função e as práticas da Biblioteconomia e da Documentação, não alcança a devida
importância naquele momento. Nascimento (2004, p.4) nos apresenta um estudo
atual sobre o assunto e diz: “a CI tem se preocupado muito mais com a facilitação ou
adaptação da comunicação indivíduo-sistema, do que com o entendimento ou
explicação de sua prática social”. Segundo seu raciocínio, Nascimento conclui: “Não
há dúvidas de que os processos de produção, transferências e uso da informação,
são sociais, já que elas acontecem entre a sociedade e suas relações sociais. E, por
isso, estão concatenados ao desenvolvimento social”.

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De acordo com Foskettt (1980), a pouca importância dada ao trabalho de
Shera e Egan no desenvolvimento da disciplina Epistemologia Social deve-se ao
fato de os autores pouco publicarem a temática. Foskett acredita que os
pesquisadores deveriam ter escrito um livro inteiro sobre a questão. Oddone (2007,
p.111) acrescenta outros motivos à problemática:
De fato, apesar de insistentemente reiterada pelos autores em palestras,
conferências e artigos durante longos anos – aproximadamente até meados
da década de 1970 –, a tese de Egan e Shera não logrou conquistar a
adesão de seus pares. Embora inúmeros fatores tenham concorrido para
esse resultado, alguns deles, em especial, são prontamente identificáveis. A
princípio, deve-se observar que a vinculação do novo conceito à filosofia e à
bibliografia não pareceu satisfazer os bibliotecários, já que estas eram
referências consideradas ultrapassadas àquela altura, indo de encontro
tanto ao eufórico espírito do pós-guerra quanto ao modelo tecnicista
adotado pela área desde o início do século – após Cutter e Dewey.

O trabalho de Shera e Egan contribuiu de forma significativa para o
desenvolvimento teórico da Ciência da Informação. Oddone (2007, p.113) sugere
que “epistemologia social poderia vir a representar uma consistente alternativa
teórica às preocupações epistemológicas da Ciência da Informação” propondo “uma
contribuição substantiva ao esforço dos que hoje se dedicam ao exercício de definir
suas bases científicas e de demarcar suas fronteiras disciplinares fazendo repercutir
sobre este texto a força de sua influência”.
A influência da qual escreve Oddone pode ser vista em vários trabalhos
recentes sobre Epistemologia Social. Fallis (2006) nos apresenta em seu artigo
Social Epistemology and Information Science um estudo minucioso sobre esta
temática e apresenta a repercussão da ideia de Shera e Egan em estudos que
visam a mostrar a importância da epistemologia para a Ciência da Informação. Fallis
cita os trabalhos de: Budd (1995, 2001, 2002), Dick (1999, 2002), Fallis (2000),
Froehlich (1989), Hjørland (2002) e Radford (1997,1998) como “seguidores” do
pensamento de Shera e Egan.
Para concluir nossa discussão sobre a Epistemologia Social, Shera (1977,
p.9) enfatiza que: “Assim como a necessidade de informação orienta o indivíduo,
assim também orienta sociedades. É a base do comportamento coletivo, tanto
quanto do comportamento individual”. E finaliza escrevendo: “Mas para ser
transmitido dentro de um grupo e absorvido por qualquer grupo, o que é conhecido
por cada um dos membros deve ser comunicado e comunicável”.
Nascimento (2004, p.7) nos lembra que já existe uma passagem aberta na
Ciência da Informação para assumir sua faceta essencial e fundamental de ciência

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social. Esta passagem, diz o autor, deve-se muito ao trabalho de Jesse Shera, ele
cita o clássico artigo The sociological relationships of information science, publicado
em 1971, como exemplo do empenho de Shera.
Muito são os pesquisadores que estão trilhando o caminho aberto por Shera.
Birger Hjørland propôs o paradigma social em dois trabalhos: Toward a new horizon
in information science: domain-analysis, de 1995, e Information seeking and subject
representation: an activity-theoretical approach to Information Science, de 1997.
Nestas pesquisas o autor apresentou dois conceitos: análise de domínio (domain
analysis) e o conceito de comunidades discursivas (discourse communities). Dessa
forma, Hjorland acreditava que a melhor forma de se entender a informação em CI
era a analise do domínio do conhecimento relacionado com as suas comunidades
discursivas.
Essas comunidades discursivas são formadas por distintos grupos sociais
alinhados em linguagem, pensamento e conhecimento. Segundo Hjørland, os
objetos de trabalhos dessas comunidades e a atuação delas dentro da sociedade
refletem na estrutura e organização do conhecimento assim como “os padrões de
cooperação, as formas de linguagem e comunicação, os sistemas de informação, a
literatura e sua distribuição e os critérios de relevância”. (NASCIMENTO, 2004, p,8).
Para Hjørland, o conhecimento é visto como resultado das práticas sociais, da
interação do individuo com o meio. Nascimento (2004, p.8) diz que: “O paradigma
social da informação de Hjørland está associado a um conjunto de atividades
exercidas pelos e para os sujeitos”. E, por isso, na opinião deste autor: “não pode
estar separado das características físicas e contextuais e, essencialmente, das
peculiaridades dos agentes concatenados em seus espaços sociais e culturais”.
Percebemos que o raciocínio de Hjørland é compatível com o de Shera, já citado
aqui, quando diz: “assim como a necessidade de informação orienta o indivíduo,
assim também orienta sociedades”. (1977, p.9).
Outra contribuição para a nossa reflexão foi oferecida por Rafael Capurro
(2003) ao nos apresentar três paradigmas para a Ciência da Informação. O primeiro
denominado paradigma físico. Almeida (2007,19) nos diz que este paradigma “é
centrado em sistemas informatizados, onde o conceito de informação aproxima-se
de um sentido estritamente técnico, uma informação mensurável que não
necessariamente abarca significado semântico”. Alguns textos são representativos
para este período. O clássico ensaio As we may think, de Vannervar Bush em 1945,

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está entre eles. Podemos citar também o texto The mathematical theory of
communication, de Shannon e Weaver do ano de 1949. Em 1951, Calvin Moores irá
nos apresentar o termo recuperação da informação e com eles os valores de recall
(revocação) e precision (precisão) , termos ainda tão caros para a Ciência da
Informação.
De acordo com Saracevic (1995), no inicio da década de 1970, o uso e o
contexto da informação foram ampliados, dando visibilidade ao usuário: dessa
forma, surge o paradigma cognitivo. A teoria desenvolvida por Nichols J. Belkin
(1980) Anomalous State of Knowledge (estado anômalo do conhecimento), a qual
afirma que a busca da informação tem origem na necessidade ou em uma situação
problemática, é um texto representativo deste momento na Ciência da Informação.
Outra publicação que merece destaque é a série de artigos intitulada The
foundations of information science, escritos por B. C. Brookes e publicados entre os
anos de 1980 e 1981, onde o autor desenvolve o termo “Equação fundamental da
Ciência da Informação”.
O sistema de recuperação da informação, o usuário e a própria informação
deixam de ser analisados isoladamente para em conjunto serem observados, e é
essa observação do processo social da informação que nos levará ao paradigma
social.
Neste cenário, entende-se que as dimensões históricas, culturais,
econômicas, tecnológicas, sociais e políticas são pré-condições para o
entendimento da ‘informação’. Assim, a informação deve ser referenciada à
historicidade dos sujeitos, ao funcionamento das estruturas e das relações
sociais e aos sujeitos que executam ações. Isto é, a potencialidade de se
ver a informação constituída como problema da sociedade, configurado
como um fenômeno da ordem cultural e da humanidade (NASCIMENTO,
2004, p.3).

Capurro (2003, p.4) nos informa que a Ciência da Informação nasce em
meados do século XX com um paradigma físico “questionado por um enfoque
cognitivo idealista e individualista”. Segundo o autor este será substituído por um
paradigma pragmático ou social. Capurro nos lembra que este paradigma fora
construído antes mesmo do “nascimento” da CI, quando Shera e Egan em meados
do século XX imprimiram a disciplina Epistemologia Social. “O paradigma social, já
se encontrava no inicio, se bem que não como paradigma da Ciência da Informação,
mas

sim

de

Documentação”.

seus

predecessores,

em

particular a

Biblioteconomia

e

a

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Os conceitos elaborados por Hjørland (1995, 1997) domain analysis e
discourse communities são retomados por Capurro na tentativa de enriquecer
teoricamente o paradigma social. De acordo com autor, Hjørland ao trabalhar com
análise de domínio e comunidades discursivas faz uma intersecção entre o
paradigma cognitivo e o social. “Isso significa, em outras palavras, uma integração
da perspectiva individualista e isolacionista do paradigma cognitivo[...]” escreve
Capurro “dentro de um contexto social no qual diferentes comunidades desenvolvem
seus critérios de seleção e relevância.” (2003, p.11).
Capurro refresca a discussão se referindo à sociedade como redes digitais e
nos indaga o autor: “quem somos como sociedade(s) no horizonte da rede digital?”
Nessa aldeia global, para usar o termo de Marshall Mcluhan, somos produtores e
consumidores de informação, sem nos darmos conta que participamos desse
processo construtivo do conhecimento, dessa busca em sair do estado anômalo do
conhecimento (BELKIN,1980) ou mesmo estado anômalo existencial. “Esse o
grande desafio epistemológico e epistemoprático que a tecnologia moderna
apresenta a uma Ciência da Informação que aspira a tomar consciência, sempre
parcial, de seus pressupostos” (CAPURRO, 2003, p.17).

4

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Chegamos até aqui guiados pelo pensamento de autores que apresentaram a
Ciência da Informação como uma ciência social. Destacamos o pensamento
vanguardista de Otlet ao escrever que a função da Documentação era a de
acompanhar o documento desde o instante em que ele surge até o momento em
que ele “impressiona o cérebro do leitor” (1997, 115), acreditamos que este
pensamento de Otlet seria o primórdio da teoria do estado anômalo do
conhecimento, de Belkin. Percebemos também a influência de Otlet na disciplina
Epistemologia Social criada por Shera e Egan. Os autores dizem que o objetivo da
disciplina criada por eles é a análise da produção, da integração, do fluxo e consumo
de todas as formas de pensamento por todo tecido social. Assim também seguem,
com raciocínio convergente, Hjørland e Capurro com o paradigma social.
Bates (1999, p.1048) diz que “em comparação com outras ciências sociais e
do comportamento, estamos permanentemente à procura da ameaça vermelha da
informação na textura social da vida das pessoas”. A autora é enfática ao dizer que

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a Ciência da Informação, enquanto ciência social, deve ter como objetivo
compreender o processo de criação, procura e uso da informação pelas várias
camadas sociais e os respectivos efeitos deste processo. Estes também foram os
objetivos dos autores que aqui apresentamos e os raciocínios apresentados por
eles, embora em contextos e épocas distintas, convergem para o mesmo objetivo.
A relação de qualquer ciência com a sociedade é fundamentalmente dialética
e interativa; a ciência determina mudanças sociais e estas causam impactos naquela
que de tempos em tempos precisa ser (re)orientada (Targino,1995, p.16). Assim é a
Ciência da Informação, nascida de impactos sociais e tornando-se mutante por estes
mesmos impactos.
“Assim é nossa crença que o destino final, o objetivo do trabalho com a
informação é promover o desenvolvimento do indivíduo de seu grupo e da
sociedade”,

escreve

Barreto

(2002).

O

autor

continua:

“Entendemos

por

desenvolvimento de uma forma ampla, como um acréscimo de bem estar, um novo
estágio

de

qualidade

de

convivência,

alcançado

através

da

informação”.

Genuinamente, Barreto conclui: “A ação social maior é fazer a luz brilhar para cada
ser humano através da informação como mediadora do conhecimento”.

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              <text>Temática II: Transcompetências: diferenciais dos usuários e do profissional da informação - Trabalho científico</text>
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              <text>Pretendemos evidenciar estudos que abordam uma Ciência da Informação que toma como perspectiva a informação como fenômeno humano e social. Informação como fomento para as transformações sociais. Assim, discutimos três visões, baseadas nos autores: Jesse Shera, Margareth Egan, Birger Hjørland e Rafael Capurro. Cada um deles apresenta teorias que acreditamos, contribuem para o desenvolvimento da Ciência da Informação enquanto uma ciência social. Apresentamos um breve histórico da prática do registro da informação e das disciplinas que precedem a Ciência da Informação.  Assim, apresentamos a disciplina epistemologia social desenvolvida em meados do século XX por Shera e Egan; os conceitos de análise de domínio e comunidades discursivas, elaborados por Hjørland, e finalizamos com o paradigma social, proposto por Capurro. Enfatizamos que a opção por estes pesquisadores se baseou na orientação social de suas teorias para a Ciência da Informação.</text>
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