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                  <text>Estudos de usuários em bibliotecas escolares: aspectos teóricos e
metodológicos

Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG) - casal@eci.ufmg.br
Resumo:
Neste artigo são apresentados e discutidos alguns resultados de estudos de usuários no
contexto da biblioteca escolar. O quadro de referência é a evolução destes estudos que aponta
para a emergência de um modelo social pragmático como fundamento para o campo. O
objetivo é apresentar as possíveis contribuições que estudos de usuários realizados dentro do
paradigma social da Ciência da Informação podem trazer para os estudos em biblioteca
escolar.
Palavras-chave: Estudos de usuários. Biblioteca escolar. Aspectos teóricos em estudos de
usuários. Aspectos metodológicos em estudos de usuários.
Área temática: Bibliotecas Escolares

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�XXV Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documento e Ciência da Informação – Florianópolis, SC, Brasil,
07 a 10 de julho de 2013

Estudos de usuários em bibliotecas escolares: aspectos teóricos e
metodológicos

Resumo:
Neste artigo são apresentados e discutidos alguns resultados de estudos de
usuários no contexto da biblioteca escolar. O quadro de referência é a evolução
destes estudos que aponta para a emergência de um modelo social pragmático
como fundamento para o campo. O objetivo é apresentar as possíveis contribuições
que estudos de usuários realizados dentro do paradigma social da Ciência da
Informação podem trazer para os estudos em biblioteca escolar.
Palavras-chave: Estudos de usuários. Biblioteca escolar. Aspectos teóricos em
estudos de usuários. Aspectos metodológicos em estudos de usuários.
Área Temática: Temática V – Bibliotecas escolares

1 INTRODUÇÃO

O campo de estudos de usuários da informação possui uma longa tradição de
pesquisa que remonta à década de 1930. De lá para cá, foram desenvolvidas
inúmeras pesquisas empíricas, verificando-se também um progressivo incremento
teórico e conceitual – incremento esse que acompanhou a evolução verificada, de
uma forma geral, nos campos da Ciência da Informação e da Biblioteconomia. Tal
evolução é principalmente marcada pela consolidação, num primeiro momento, de
um conceito físico de informação, substituído por um conceito cognitivo que,
contemporaneamente, vem sendo confrontado por um conceito pragmático/social,
conforme sistematização promovida por Capurro (2003). Nesse quadro, um desafio
que vem sendo colocado para o campo é: como fazer estudos de usuários conforme
esse terceiro modelo?
É nesta problemática que se insere o presente artigo, que tem por objetivo
discutir alguns aspectos teóricos e metodológicos das perspectivas contemporâneas
de estudos de usuários e sua aplicação numa realidade específica: a biblioteca
escolar. Para tanto, são apresentados e discutidos alguns resultados de pesquisas
realizadas no espaço da disciplina Usuários da Informação, ministrada para o curso
de graduação em Biblioteconomia da Universidade Federal de Minas Gerais, entre
os anos de 2009 e 2012.

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2 EVOLUÇÃO TEÓRICA DOS ESTUDOS DE USUÁRIOS

O campo dos estudos de usuários tem origem nas pioneiras pesquisas
realizadas no âmbito da Graduate Library School da Universidade de Chicago, na
década de 1930. A cidade de Chicago apresentou um gigantesco crescimento
populacional desde o século XIX, resultado de uma grande imigração. Diante dessa
realidade, diferentes instituições foram “convocadas” pelo poder público para a
promoção de socialização e integração dessa população oriunda de diferentes
países. Entre essas instituições destaca-se a biblioteca pública. Foi a necessidade
de conhecer melhor esse contingente populacional, para se poder realizar a “missão”
conferida às bibliotecas, que provocou a realização dos primeiros estudos com
usuários de bibliotecas – estudos estes também conhecidos como “estudos de
comunidade”.
Nos anos seguintes, diferentes pesquisadores perceberam o alto potencial
que os estudos de usuários tinham para a realização de diagnósticos de bibliotecas
e para seu planejamento, bem como para a avaliação das coleções. Seguiu-se
dessa percepção o desenvolvimento de todo um campo dos chamados “estudos de
uso”, em que usuários eram pesquisados mas unicamente para se identificar pontos
fortes e fracos nas bibliotecas e em seus acervos.
Em 1948, durante a Royal Society Scientific Information Conference ocorrida
em Londres, dois trabalhos científicos, apresentados por Bernal e por Urquhart,
inauguraram uma nova perspectiva de estudos: os estudos de usuários da
informação. A novidade destes estudos é que o foco não residia mais na interação
dos usuários com uma instituição específica (a biblioteca) mas, sim, o estudo de
uma série de ações dos usuários, isto é, suas buscas e consultas junto a bibliotecas,
centros de documentação, arquivos e mesmo junto a outros usuários (formando os
chamados “colégios invisíveis”). Este tipo de perspectiva foi desenvolvida em
inúmeras pesquisas nos Estados Unidos e na Inglaterra (PAISLEY, 1968),
merecendo destaque, entre outras, três grandes iniciativas conduzidas por equipes
de pesquisadores. A primeira é o projeto Scientific Information Exchange in
Psichology,

encomendado

pela

American

Psychological Association

(APA),

divulgado por Garvey e Griffith em 1964, e que sistematizou um modelo do caminho
da informação, desde suaa origem, passando por sua transmissão, armazenamento

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e uso, identificando o que ocorre em cada etapa da comunicação científica. A
segunda são os estudos promovidos desenvolvidos no âmbito da Johns Hopkins
Center for Research in Scientific Communication, de 1966, relacionados com as
demoras no fluxo e com a função e a estrutura dos canais formais e informais. A
terceira é a INFROSS, Investigation into Information Requirements of the Social
Sciences, liderada por Line e publicada em 1971, relativa aos vários aspectos
envolvidos no uso da informação, tais como uso de serviços, consulta a outras
pessoas, variação por idade, preferência por idioma, entre outros (GONZÁLEZ
TERUEL, 2005).
Até então, apesar da variedade de pesquisas e de objetos empíricos, os
estudos possuíam uma mesma estrutura de pesquisa, baseada no compartilhamento
de um mesmo modelo teórico: o modelo positivista. Tal modelo representa a
transposição do mesmo modelo de pesquisa das ciências naturais (exatas e
biológicas) para o estudo dos fenômenos humanos e sociais. Nesse sentido,
considera-se que existe uma realidade dada que pode ser “capturada” pelo cientista
mediante o uso de um instrumental metodológico adequado. Além disso, espera-se
encontrar nessa realidade determinados padrões, regularidades, que possam ser
expressos em termos matemáticos e que possibilitem a formulação de leis – garantia
da formulação de um conhecimento preditivo, isto é, que possa proporcionar a
previsão do comportamento futuro dos fenômenos.
A conseqüência metodológica da adoção deste modelo nos estudos de
usuários se deu sobretudo no desenho básico destes estudos: determinar as taxas
de uso de informação (de fontes, recursos, serviços ou sistemas de informação),
decompor essas taxas por características sociodemográficas dos usuários e também
por partes, atributos ou funcionalidades dos serviços ou sistemas avaliados. Nesse
sentido, o conceito de informação utilizado coincide com o chamado “paradigma
físico” da Ciência da Informação, no contexto do qual a informação é entendida
como o “conteúdo objetivo” presente no conhecimento humano inscrito num suporte
material.
Na década de 1970 ocorreu um importante incremento conceitual no campo
de estudos de usuários. Em 1975 foi criado o Centre for Research on User Studies
(CRUS) na Universidade de Sheffield, Inglaterra. Um dos estudos do grupo,
denominado Estudo INISS (Information Needs and Services in Social Sciences
Departments) buscou estudar os hábitos dos trabalhadores, com visitas aos

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departamentos administrativos, para que os serviços de informação pudessem se
antecipar às necessidades vividas nos postos de trabalho. Nesta pesquisa, e nas
seguintes, o grupo de Sheffield começou a desenvolver uma perspectiva nova de
estudos de usuários calcada numa fundamentação cognitiva. Em 1977, ocorreu na
Dinamarca o The Copenhagen Conference Theory and Application of Information
Research que consolidou, no campo da Ciência da Informação como um todo, o
chamado “paradigma cognitivo”, que articula o conceito de informação aos conceitos
de dado e conhecimento: algo se torna informação não apenas a partir do “dado”,
isto é, do conhecimento inscrito num suporte material, mas apenas na medida em
que o conteúdo desse “dado” altera ou modifica o estado de conhecimento do sujeito
que o utiliza ou dele se apropria.
Essa virada teórica iniciada com o grupo de Sheffield foi alimentada pela
consolidação da perspectiva cognitiva na Ciência da Informação. Surgiram, nos anos
seguintes, diversos modelos de estudos de usuários: a teoria dos Anomalous States
of Knowledge de Brookes, a abordagem construtivista baseada em processo de
Kuhlthau, a teoria Sense Making de Dervin, entre outros. Tom Wilson chegou a
sugerir, no início dos anos 1980 (e a efetivamente propor, anos depois) que o campo
deveria mudar seu nome para “estudos de comportamento informacional”. Com isso,
se pretendia consolidar a ampliação do foco de estudos iniciada anos antes: do
estudo do usuário interagindo com um único sistema, passava-se a estudar o
usuário em suas várias ações informacionais, em seus vários momentos de
necessidade de informação, seu engajamento em vários processos de busca e
interação com diversas fontes, recursos, serviços e sistemas. Em 1986, um
importante artigo de Dervin e Nilan publicado no ARIST (Annual Review of
Information Science and Technology) consolidou essa virada teórica ao sistematizar
a existência de duas grandes abordagens de estudos de usuários: a tradicional e a
alternativa.
Mas a Ciência da Informação, tomada de forma geral, não ficou estacionada
no modelo cognitivo. Ao longo da década de 1980, diversos pesquisadores
começaram a apontar as limitações desta perspectiva teórica, como a visão de
conhecimento como algo meramente cumulativo ou a ideia de um usuário totalmente
individualizado, isolado da realidade, como um sujeito puramente cognitivo. O
conjunto destes questionamentos ganhou consistência em 1991, no grande encontro
internacional I CoLIS – International Conference on Conceptions of Library and

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Information Science, realizado em Tampere, na Finlândia. Surgia aí o chamado
“paradigma social” ou “paradigma pragmático” da área: a informação passa a ser
entendida da perspectiva não apenas de um único sujeito, mas de uma coletividade
ou, antes, como produto de uma “intersubjetividade”; além disso, algo só se torna
informação a partir de um contexto no qual atuam dimensões políticas, culturais,
econômicas, jurídicas, tecnológicas, entre outras. No campo dos estudos de
usuários, a consolidação deste modelo se relaciona diretamente com o início das
conferências ISIC (Information Seeking in Context), que acontecem a cada dois anos
desde 1996. A palavra “contexto” presente no nome do evento não é um acaso, ela
sinaliza para uma nova virada teórica: a consideração dos fatores sociais,
econômicos, políticos, culturais envolvidos no comportamento informacional,
apontando uma grande sintonia entre os estudos de usuários e o paradigma social
da Ciência da Informação. Para Talja (1996), os estudos de usuários deveriam
abandonar a perspectiva cognitiva centrada no indivíduo como unidade de análise
para dar atenção aos aspectos sociais da produção de conhecimento. Nessa mesma
linha, Tuominen e Savolainen (1996) propõem o Construcionismo Social como
fundamento mais adequado para os estudos do que o behaviorismo cognitivista dos
estudos de “comportamento informacional”. Em anos mais recentes, Savolainen
(2007) chegou a propor que o nome do campo deveria, mais uma vez, ser alterado,
do estudo do “comportamento informacional” para as “práticas informacionais”,
rejeitando o modelo comportamental/behaviorista da abordagem cognitiva em prol
de uma perspectiva que perceba o sujeito inserido em relações com outros sujeitos e
num contexto sóciohistórico específico.
No Brasil, os estudos de usuários começaram a ser realizados na década de
1970 e tiveram importantes sistematizações promovidas por Araújo (1974), Pinheiro
(1982) e Figueiredo (1979; 1994). Contudo, já no início dos anos 1980 Rabello
(1980) detectava a fragilidade do modelo teórico dos estudos de usuários conforme
a “abordagem tradicional”, evidenciando que o campo parecia se desenvolver “ao
acaso”. A crítica mais contundente a esse modelo foi apresentada por Lima (1994),
que apontava, à época, a necessidade de “alternativas teóricas”. Apenas um ano
depois, Ferreira (1995) introduzia, no Brasil, a abordagem sense making de Dervin,
inaugurando a perspectiva cognitiva no país, que ganhou grande impulso com o
trabalho de Choo (2003) propondo um modelo integrativo de uso da informação.
Recentemente, contudo, começa a ser delineada uma perspectiva de estudos de

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usuários em consonância com os avanços da Ciência da Informação em direção ao
paradigma social/pragmático (ARAÚJO, 2010).

3 ASPECTOS METODOLÓGICOS DOS ESTUDOS DE USUÁRIOS

A evolução teórica dos estudos de usuários sempre colocou uma série de
problemas metodológicos: como realizar efetivamente os estudos segundo cada
perspectiva teórica? A gravidade maior desta questão reside no fato de que a
evolução teórica tem sempre se dado com o abandono da concretude em direção da
abstração. Assim, os primeiros estudos, desenvolvidos a partir dos anos 1930 e em
consonância com o “paradigma físico” da Ciência da Informação, desenvolveram-se
sobretudo como estudos de uso, buscando taxas de empréstimos de livros, de
acesso físico a materiais, de perguntas feitas a outras pessoas, por meio
principalmente da articulação dos conceitos desejo, necessidade, demanda e
requisito

(LINE,

1974)

e

sua

articulação

a

dados

concretos

de

perfil

sociodemográfico (profissão, idade, sexo, escolaridade, etc). As pesquisas eram
realizadas essencialmente por meio de questionários e a consistência compreensiva
vinha basicamente de um rígido tratamento estatístico dos dados levantados.
Durante a hegemonia do modelo cognitivo, os estudos consistiam,
basicamente, na verificação das ações e fatos que ocorriam em cada uma das fases
do processo do comportamento informacional. Assim, usando-se o modelo de
Dervin, os estudos deveriam identificar as manifestações de parada ou de lacuna, as
estratégias de busca e os usos efetivos da informação. No modelo de Kuhlthau
(2004), tratava-se de identificar as ações efetivadas ou não em cada uma das seis
etapas do processo – iniciação, seleção, exploração, formulação do foco, coleta e
apresentação. Caso o modelo utilizado fosse o de Wilson (2000), devia-se identificar
as necessidades que ativam o processo, os fatores intervenientes (psicológicos,
demográficos, ambientais), o comportamento de busca e o processamento e uso da
informação encontrada. Choo (2003) sistematizou esse conjunto de abordagens com
um modelo relativamente simples: no geral, todos os modelos acabam por usar a
estrutura necessidade-busca-uso, em que a necessidade é vista como o estímulo, o
fator provocador do comportamento informacional, e o uso como a resposta, o
resultado da atuação do estímulo. Há aqui um aumento da abstração em relação ao

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modelo anterior: não se trata mais de estudar taxas de uso e comportamentos
externamente observáveis, mas cognições internas.
Contudo, a perspectiva pragmática e social que vem se desenhando em anos
recentes aumenta, como visto, a abstração, na medida em que não basta mais
estudar as cognições internas de um indivíduo, o sentido que ele dá para a
informação,mas sim perceber como se formam essas cognições, como os critérios
de relevância são construídos socialmente, como se articulam no decurso de uma
ação específica que acontece num determinado contexto. Nesse sentido, é na
Etnometodologia e no Interacionismo Simbólico que têm sido buscadas as bases
para a concretização de uma metodologia de pesquisa para os estudos de usuários
(ARAÚJO, 2010). Ainda em fase de testes e experimentação, tais abordagens têm
sido utilizadas para o estudo de diferentes realidades empíricas (ARAUJO, 2008).
Entre elas, destaca-se o estudo de usuários no contexto da biblioteca escolar – tema
em torno do qual se estrutura o presente artigo.
Para a discussão proposta, serão analisados dois resultados de pesquisas
experimentais realizadas no âmbito da disciplina Usuários da Informação, ministrada
no curso de graduação em Biblioteconomia da Universidade Federal de Minas
Gerais, entre 2009 e 2012. Nesta disciplina, os alunos precisam realizar um estudo
de usuários conforme a abordagem tradicional/positivista e um segundo estudo, com
o mesmo objeto empírico, articulando elementos da abordagem cognitiva e da
abordagem social. O uso de perspectivas teóricas diferentes os mobiliza para o uso
de estratégias metodológicas distintas mas, principalmente, lhes permite perceber
que um enfoque teórico permite que se visualize determinados aspectos da
realidade, enquanto outros ficam invisíveis ou obscuros.
Os alunos podem escolher objetos empíricos variados para a realização das
pesquisas. Frequentemente, contudo, escolhem estudar usuários de biblioteca
escolar. Pois são os resultados de pesquisas com esse objeto empírico que são
analisados a seguir, como forma de se tensionar as possibilidades que a abordagem
social traz para a realização dos estudos de usuários.

4 PRIMEIRO CASO: CRITÉRIOS PARA A AVALIAÇÃO DA BIBLIOTECA

O primeiro exemplo a ser apresentado é a comparação dos resultados de
pesquisa de dois grupos diferentes de alunos. O primeiro grupo realizou um estudo

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de usuários numa escola pública de um bairro de baixa renda localizado na periferia
de Beloo Horizonte. A pesquisa foi realizada com alunos do ensino fundamental. Na
primeira etapa da pesquisa foram distribuídos questionários que versavam sobre a
freqüência de uso da biblioteca da escola, materiais mais utilizados e também
avaliação da estrutura da biblioteca, em termos de espaço físico, assentos, acervo,
organização do acervo e serviços prestados, num modelo adaptado dos parâmetros
nacionais para bibliotecas escolares (CONSELHO..., 2010). Ao final, havia uma
pergunta solicitando uma avaliação geral da biblioteca. Entre os resultados,
destacou-se a alta freqüência obtida para a avaliação “ótima” (78%) que, somada à
categoria “boa” (mais de 12%), revelava um altíssimo grau de satisfação com a
biblioteca. Ao apresentar os resultados, contudo, os alunos mostraram-se bastante
intrigados. A avaliação feita por eles destoava bastante desse resultado. Em seu
relato, eles apresentaram a seguinte caracterização da biblioteca: infraestrutura
deficiente (acomodações ruins, espaço físico pequeno, mofo, mobiliário velho),
acervo com poucos exemplares, desatualizados e em estado ruim de conservação,
ausência de catálogo e de profissional bibliotecário para a realização dos serviços.
Ao mesmo tempo, a avaliação muito positiva parecia indicar, em termos de
diagnóstico e planejamento, que não seriam necessárias melhorias nos serviços e
na instituição.
Naquele mesmo semestre e naquela mesma turma, um outro grupo de alunos
realizou um estudo também com alunos de ensino fundamental, porém de uma
biblioteca de uma escola particular localizada num bairro de alta renda da região
central da cidade de Belo Horizonte. Um questionário também foi aplicado relativo a
vários dados da biblioteca, também usando os parâmetros nacionais, sendo um
deles a avaliação geral da biblioteca. Ao contrário dos resultados do primeiro grupo,
aqui o grau de satisfação foi bem mais baixo: a avaliação “ótima” alcançou apenas
18%, com outros 44% a avaliando como “boa”. Ou seja, um total de 38% a avaliaram
como “regular”, “ruim” ou “péssima” – contra 10% encontrados pelo primeiro grupo.
Durante a apresentação destes resultados, o grupo também apresentou uma
avaliação própria que destoou dos resultados. Na avaliação dos alunos, a biblioteca
possuía uma boa infraestrutura: muitas mesas para estudo, mobiliário novo, bem
cuidado e bastante espaço livre; o acervo era grande, diversificado e atualizado;
havia catálogo e uma bibliotecária entre os profissionais que ali atuavam. Contudo,

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os resultados da pesquisa pareciam indicar uma grande necessidade de se
promover melhorias.
Assim, apresentados no mesmo dia os resultados dos dois grupos, tinha-se
uma impressão de que os resultados estavam trocados. Afinal, o quadro
apresentado pelos alunos mostrava de maneira nítida duas bibliotecas com
realidades muito diferentes, uma claramente melhor do que a outra (a partir de uma
série de critérios utilizados pelos alunos, e confrontados com os indicadores para
“nível básico” e “nível exemplar” dos parâmetros, para avaliá-las) mas com uma
avaliação muito pior. Os alunos foram para a segunda etapa da pesquisa, em que
seriam realizadas entrevistas com algumas pessoas pertencentes ao mesmo
universo de pesquisa da primeira etapa.
O primeiro grupo solicitou aos respondentes que falassem de suas
experiências com equipamentos culturais e equipamentos urbanos em geral. Os
alunos relataram então aspectos de sua vida cotidiana: moravam em casas simples,
pequenas, com poucos cômodos e em muitos casos com pouquíssimo espaço livre
e/ou espaço privado; da mesma forma, freqüentavam casas e locais com as
mesmas

características:

casas

de

parentes,

amigos,

postos

de

saúde,

estabelecimentos comerciais, entre outros. A partir dessa realidade, desenvolveram
determinados critérios de qualidade (do que é uma boa infraestrutura, um bom
acervo, um bom serviço) e, dessa forma, utilizaram esse critério para avaliar a
biblioteca da escola. Comparada aos demais ambientes e serviços freqüentados e
utilizados por eles, a biblioteca era claramente melhor, e, portanto, foi bem avaliada.
Já o segundo grupo, ao entrevistar os alunos, coletou relatos muito diferentes:
alunos que iam para a escola de carro (em alguns casos com motorista particular),
possuíam em casa computadores e acervos imensos de livros, viviam em casas ou
apartamentos grandes, luxuosos, novos. Muitos deles conheciam inclusive outros
países, alguns tendo freqüentado a escola nestes países e conhecido outras
bibliotecas escolares. A partir desse conjunto de experiências, os alunos desta
escola construíram critérios mais exigentes de qualidade, comparando a biblioteca
de sua escola à realidade que eles vivenciavam em suas casas.
Os resultados destes dois estudos, principalmente quando são comparados,
evidenciam aquela que é a questão mais importante para a realização dos estudos
de usuários: de que não existe uma realidade externa, objetiva, independente do
sujeito que a conhece e vivencia. Tomados os resultados dos questionários apenas,

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tenderíamos a pensar ser a biblioteca da escola pública muito melhor. Claro que é
bem sabido que a avaliação é sempre algo subjetivo, que depende da pessoa, de
suas preferências. Mais ainda: as pessoas mobilizam diferentes critérios para avaliar
as realidades com as quais se relacionam, e esses critérios são profundamente
relacionados com o contexto vivido pelas pessoas – e aqui estão as dimensões
cultural, social, econômica, política, tecnológica e jurídica, entre outras, resgatadas
pelo paradigma social da CI principalmente (mas não só) pela abordagem de estudo
dos regimes de informação.
Dessa forma, uma lição essencial para os estudos de usuários é essa: não
basta apenas medir a avaliação. É preciso saber que critérios orientaram a escolha,
pela pessoa, de uma resposta em relação a outra. E mais: como esses critérios são
construídos, como eles emergem da experiência cotidiana, concreta. É claro que as
pessoas são diferentes, algumas são mais “exigentes” que outras, algumas são mais
“acomodadas” – e isso refletiu no fato de que as avaliações não foram todas
unívocas em direção à satisfação, num caso, e à insatisfação, no outro. Ao mesmo
tempo, as pessoas vivenciam uma realidade que é comum, partilhada – no caso dos
alunos estudados nas duas pesquisas, um mesmo bairro, um mesmo estilo material
de vida, uma faixa de renda (com um conseqüente poder de consumo) semelhante.

5 SEGUNDO CASO: A REALIZAÇÃO DA PESQUISA ESCOLAR

Numa outra oportunidade no espaço da disciplina, dois grupos realizaram
estudos de usuários para verificar como se davam os processos de pesquisa escolar
por parte de alunos do ensino fundamental e a participação das bibliotecas
escolares neste processo. O ponto de partida foi uma outra pesquisa (CAMPELLO et
al, 2010) que teve como um dos resultados a verificação de que os trabalhos de
pesquisa escolar consistiam, muitas vezes, em meras cópias realizadas pelos
alunos, isto é, os alunos apenas colavam trechos de várias fontes, nos trabalhos
apresentados, textos encontrados em outras fontes de informação, sem fazer
referência, sem indicar como citação e, principalmente, sem haver a elaboração
própria.
Nos dois estudos realizados na disciplina, os grupos buscaram aprofundar a
compreensão de como ocorre esse processo. Para tanto, pediram aos alunos
explicassem o que era, na visão deles, pesquisa. As respostas, invariavelmente,

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apontavam que “pesquisa” era simplesmente o trabalho de procurar algum tema ou
assunto demandado pelo(a) professor(a) e, uma vez encontrado, transportá-lo para
o corpo do trabalho. Dessa forma, aquilo que poderia ser identificado como um
plágio promovido pelos alunos, e, portanto, uma pesquisa ruim, que não cumpriria
sequer com um princípio ético de produção de conhecimento (atribuir a autoria dos
textos utilizados) não era visto como tal pelos entrevistados.
Um dos relatos foi particularmente interessante nesse sentido. Um dos
entrevistados relatou que a professora de determinada disciplina costumava agendar
a entrega de trabalhos “de pesquisa”, mas indicava um determinado livro como fonte
principal para a busca e coleta de informações. Esse aluno, contudo, optou por
realizar seus trabalhos buscando em fontes variadas e confrontando o que
encontrava numa fonte com os dados disponíveis em outra fonte. Contudo, após a
avaliação da professora, percebeu que ele obtinha notas menores que a dos
colegas, que utilizavam apenas a fonte indicada pela professora.
O aluno em questão era filho de uma profissional liberal de nível superior e de
um professor universitário. Convivia em casa, desde pequeno, com ideias e práticas
de pesquisa, e transportou esse conhecimento para sua prática escolar. A família
funcionou para ele, portanto, como importante espaço de mediação, mais
significativo do que o espaço escolar. Contudo, diante dos resultados negativos
alcançados na escola, o aluno manifestava sua frustração e sua decisão de passar a
agir como os colegas, fazendo pesquisas “piores”, para conseguir notas melhores.
Tal resultado encontrado encontra eco na pesquisa de Coneglian (2013) que,
a partir de relatos de vinte professoras de ensino básico, percebeu que praticamente
todas elas tinham muita dificuldade com a execução da proposta de pesquisa
escolar: não conseguiam estabelecer foco para a pesquisa, por um lado, e
valorizavam essencialmente o produto e não o processo, por outro. Esse segundo
resultado identifica-se com o caso relatado acima.
Ainda no mesmo estudo, um outro grupo constatou um resultado curioso: o
baixo uso de dicionários por parte de alunos de ensino fundamental. O grupo
confrontou esse dado com o alto índice de erros ortográficos nas redações,
trabalhos e provas realizados pelos alunos estudados – afinal, o baixo uso do
dicionário parecia sinalizar a ausência de dificuldade e de dúvida por parte dos
alunos. Os relatos evidenciaram uma rejeição ao instrumento dicionário, visto como,
na expressão de um dos entrevistados, o “pai dos burros”. Usar dicionário perante os

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colegas soava como uma evidência pública de incompetência do aluno – embora,
curiosamente, ter as redações e provas marcadas, com os erros identificados, não
fosse vista da mesma forma. Mais uma vez, evidencia-se como o contexto social
específico é fundamental na atribuição de significados que cada ator produz no seu
relacionamento com as fontes de informação – dimensão essa que muitas vezes se
perde

em

estudos

centrados

unicamente

numa

dimensão

“cognitiva”

ou

“sociodemográfica” dos usuários.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenho metodológico da perspectiva social nos estudos de usuários ainda
está em processo de consolidação. Exatamente por este motivo, experimentações e
pesquisas exploratórias são muito importantes, e com certeza o campo das
bibliotecas escolares é um espaço importantíssimo para a realização de tais
estudos. Ao mesmo tempo, espera-se que resultados obtidos com estes estudos
possam se somar aos estudos sobre bibliotecas escolares realizados em outros
âmbitos de pesquisa (fontes de informação, desenvolvimento de coleções, serviços
de referência, tratamento e processamento técnico, entre outros) no movimento
sempre necessário de um quadro plural e atento à complexidade dos fenômenos em
suas diferentes manifestações e dimensões.

REFERÊNCIAS
ARAÚJO, C. A. A. Estudos de usuários: pluralidade teórica, diversidade de objetos.
In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 9.,
2008, São Paulo. Anais... São Paulo: Associação Nacional de Pesquisa em Ciência
da Informação, 2008.
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    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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              <text>Neste artigo são apresentados e discutidos alguns resultados de estudos de usuários no contexto da biblioteca escolar. O quadro de referência é a evolução destes estudos que aponta para a emergência de um modelo social pragmático como fundamento para o campo.  O objetivo é apresentar as possíveis contribuições que estudos de usuários realizados dentro do paradigma social da Ciência da Informação podem trazer para os estudos em biblioteca escolar.</text>
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