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IMPORTÂNCIA DA SELEÇÃO COMO ETAPA
INICIAL DOS PROCESSOS TÉCNICOS
Edson Nery da Fonseca
Professor Titular da Universidade de Brasília
Na conferência de abertura deste Congresso, citei o bibliotecário inglês Raymond Irwin,
para quem "a library cannot live on librarianship alone". Este é um conceito a que sempre fui muito
sensível. E ao longo de toda a minha vida profissional tenho procurado trazer para a biblioteconomia
contribuições da
de outras áreas: da filosofia, das ciências sociais, das letras e até das artes. Porisso, ao
receber o honroso convite de Maria Luiza Monteiro da Cunha para falar sobre a importância da
seleção, não foi de especialistas em biblioteconomia que me lembrei ae sim da
de dois grandes escritores:
o espanhol Ortega y Gasset e o argentino Jorge Luiz Borges.
■
O primeiro, naturalmente, pelo ensaio-conferência
ensaio-conferència "Misión
"Misiõn dei bibliotecário", a mais
profunda meditação sobre o assunto, cheia de antecipações geniais sobre o que viria a ocorrer em
nossos dias. Ao escrever que o bibliotecário tinha a obrigação da
de "fazer-se domador do livro
enfurecido", e "dirigir o leitor não especializado pela selva selvaggia dos livros e ser o médico, o
higienista de suas leituras"
laituras" ea ao imaginar o futuro bibliotecário '4como
"como um filtro que se interpõe
entre a torrente dejivros e o homem",-estava
homem", estava Ortega aludindo à importância da séléção.
seleção.
Sabemos todos em que circunstância — palavra que lhe era muito cara — foi Ortega y
Gasset levado a meditar sobre a matéria: sendo o escritor mais representativo da Espanha, foi
convidado a proferir a conferência da
de abertura de um congresso internacional de bibliotecários e
bibliõgrafos realizado em Madrid no ano de 1935.
1935,
Quanto a Jorge Luis Borges, sua obra de poeta, ensaista e ficcionista está cheia de alusões a
temas biblioteconbmicos,
biblioteconõmicos, o que se explica pelo fato de ter trabalhado ele em bibliotecas durante 27
anos: 9 (1936—1946) como auxiliar de pequena biblioteca de um subúrbio de Buenos Aires e 1B
18
11955—1973) como diretor da Biblioteca Nacional de seu país.
(1955—1973)
Já quase inteiramente cego, ele passeava pelas galerias da Biblioteca Nacional, alisando as
lombadas dos livros, procurando adivinhar onde estavam seus autores queridos. No meio de um
poema intitulado "Junio, 1968" ele interrompe a evocação desses passeios, abre um parêntese
parêntesa e
escreve esta observação magistral:
/

(Ordenar bibliotecas es ejercer,
de un modo silencioso y modesto,
ei arte de ia critica.)

/
/j

Parece evidente que era àâ seleção que Borges aludia quando falava em "arte da crítica":
seleção implícita no trabalho de organizar bibliotecas, como veremos a seguir. Por isso andou muito
certa Maria Luizã
Luiza Monteiro da Cunha, ao solicitar uma conferência sobre a importância da Seleção
como abertura dos debates sobre processos técnicos: porque sem o trabalho inicial de escolha
nenhum acervo merecería ser processado, pois já um velho ditado afirma que não devemos gastar vela
com maus defuntos.
Seleção é uma das palavras mais semanticamente ricas em qualquer lingua.
língua. Os conceitos
nela implícitos aparecem em todos os campos dq
do conhecimento. Charles Darwin introduziu na
biologia a teoria da seleção natural: processo de acordo com o qual certas plantas e animais florescem
e multiplicam-se, enquanto outros, menos favorecidos pela natureza, sucumbem e desaparecem.
Escrever é selecionar palavras. Viver é selecionar opções,
opções. "Where is the Life we have lost in living? ",
pergunta o grarxle
grande poeta e ensaista inglês T,
T. S. Eliot,
impõe por duas razões, uma de ordem intrínseca e outra
Em biblioteconomia a seleção se Impõe
extrínseca. A razpio
razpío de ordem intrínseca decorre da própria natureza da biblioteca, natureza que
Ranganathan tão bem sintetizou, ao dizer, em suas conhecidas leis, que a biblioteca é um organismo
para cada leitor.
em crescimento e que devemos encontrar um leitor para cada livro e um livro pára
O qua
que o notável bibliotecário inglês James Thompson chama de library
library-power
power resulta
justamente do fato de
justamenta
da que a biblioteca não é um conglomerado amorfo de livros e de outros
documentos, mas um organismo que deve crescer harmonicamente, de acordo com o tipo de usuário
para o qual existe. Em sua nova filosofia da biblioteconomia, assim se exprime James Thompson:
"The first task is book
brxik selection, the librarian in a true jole,
tole, as bookman,
bookman. Book selection is based on
subject knowledge, on a knowledge of the literature a^on
ajYon a knowledge of the source suply.
suply, It must
of course involve consultation, co-operation and liaison with the library's
library’s users,
users. Its aim istoacquire
is to acquire
materials for a library's purposed within the limits of that library's
the best possible collection of materiais
financial means. It is basic contribution tó
to library power".

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Em livro posterior, Jemes
James Thompson propõe uma nova codificação da biblioteconomia,
referem especificament»
em 17 princípios, dos quais dois se referam
especificamente à seleção: o 6P — "libraries must grow" e
o 13P:
13?' "It is a librarlan'^
librarian'; duty increase the stock of his library". Explicando o 6P
6? principio,
princípio,
Thompson recorda que mesmo antes da explosão bibliográfica es
as bibliotecas se preocupavam em
manter acervos seletivos. E cita como exemplo a Regra de São Bento, de acordo com a qual as
bibliotecas dos mosteiros deveríam ter pelo menos um livro para cada monge.
Em artigo sigmficativamente
sigmficativamante intitulado "Tha
"The librarían
librarian es
as anthologist", Ralph A, Beals,
citado por Jasse
Jesse H. Shera em Introduction to library scienca,
science, mostra ea evolução da palavra
palavre antologia,
entologia,
que na Grécia antiga indicava uma coleção
coieção de flores escolhidas
ascolhides pare
para comporem uma
ume grinalda.
grinelde. Só no
século XVI a palavra
palavre passou a significar também coleção
coieção de documentos previamenta
previamente escolhidos. Por
isso es
as antologias são também chamadas de floriiégios,
florilégios, domo, por exemplo,
axemplo, o Florilègio da poesia
brasileira, do nosso Francisco Adolpho Vamhagen,
Vamhagen. Salientando ea verdade e a beleza
beleze desta
comparação das bibliotecas com as
es antologias, escreve
escreva Shera: "Libraries, iike
llke enthologles,
anthologies, must rest
on unity with respect to their underlying principles
principies of selection, arrangement
arrangemant and interpretation".
Interpretetion", E
"The value of a library lies in the unifying purpose with which its books have been
acrescenta: "Tha
brought together. A miscellaneous agglomeration of books is not ae iibrary,
library, it is only an assembly of
books. The true librarían
librarian is en
an anthologist, a weaver of garlands, a descendent
descendant of isis",
Isis",
A seleção também se impõe, como disse, por uma razão de ordem extrínseca. Estou me
referindo, como jé
já devem ter percebido, àá explosão bibliográfica. A expressão não é retórica, mas
exprime um fenômeno rigorosamente comprovado pela estatística da produção bibliográfica e
documental. Aos trinta e tantos milhões de livros e às
ás quase duzentes
duzentas mil revistas publicadas desda
desde ea
invenção da imprensa
Imprensa somam-se outros tantos milhões de documentos não impressos, cuja
cuje produção
anual tem crescido exponencialmenta.
exponencialmente.
Também equi
aqui foi Ortege
Ortega y Gasset um antecipador, ao faler
falar no livro enfurecido que o
bibliotecário precisa domar, ao dizer que não somente já existam
existem demasiado número da
de livros como
"constantemente se produzem em abundância torrencial", para perguntar aos bibliotecários e
bibliógrafos reunidos em Madrid no ano de 1935: "Será demasiado utópico imaginar
bibliógrefos
Imaginar que
qua em futuro
nada remoto será vossa profissão encarregada pela sociedade de regular
reguler ae produção do livro, a fim de
evitar que se publiquem os desnecessários e que, em troca, não faltem os que o sistema de probiemas
vivos am
em cada época
éptoca reclama? ",
".
A própria forma interrogativa
interrogativo com que Ortega
Ortege sugere uma seleção na fonte
fonta ea cargo de
bibliotecários mostra que ele não estava certo de sua viabilidade. Os bibliotecários não tem meios de
exercer a seleção a priori sugerida por Ortega,
axercer
Ortega. O que eles podem e devem fazer é a seleção a
posteriori, deixando de adquirir os livros inúteis ou estúpidos a que se referia o grande ensaiste
ensaista
espanhol. Como salienta
espanhol,
salianta Jesse Shera, a principal responsabilidade do bibliotecário é "colocar nas
estantes de sua biblioteca somente
somenta aqueles livros qua
que mais contribuam para o desenvolvimento
usuários".
intelectual dos usuáriosí'.
Aqui tocamos na difícil questão de saber se ea seleção deve ser feita de acordo com o
critério de valor ou com o de procura: a value theory ou a demand theory de que falam os
bibliotecários de língua inglasa.
inglesa. De acordo com ea primeira, só os melhores livros davem
devem ser
adquiridos; enquanto para a segunda, o bibliotecário deveria
devaria fornecer ao usuário tudo o que
qua ele
ela
solicita. Embora a teoria do valor coloque para o bibliotecário o complexo problema de saber que
livros seriam os melhores, com quais objetivos e para quem, vá-se que Jesse Shere
Shera se inclina pare
para ela,
como se depreenda
depreende desta sua ciarissime
claríssima afirmação:
efirmeção: "No librarian
librerien worthy of the profession would
permit a patron the
permK
tha privilege of a book if it were
wera known that anti-social consequences would resuld.
Magnanimity may be no more
mora than the
tha mask that conceals
conceels ignoranca".
ignorance". For
Por outro lado, já em 1627
Gabriel Naudé observava com lucidès que
qua uma
ume biblioteca somente se torne
torna útil quando cada
cade leitor
nela encontra o qua
que procura.
A solução parece estar no meio termo. Como salientam Carlos Victor Penna e demais
coautores da obra National library and Information
information Services,
services, "the collection, considered as ea whole,
perfactiy
perfectly represents the balance between internal
internai and external
externai bonds"(8, p.31). Para garantir um
crescimento harmônico do acervo, a seleção deve orientar tanto a polítice
política de aquisição quanto a de
descarte, pois como observa Shere,
Shera, "selection can no more axist
exist epart
apart from rejection" (p,55).
(p.55). Tanto
para uma como para outra política existem hoja
hoje critérios objativos,
objetivos, baseados na bibliometria,
bibliorretria, técnica
resuitante da aplicação
apiicação da estatística à bibliografia, Como não devo extender-me
resultante
extendar-ma aqui tanto quanto
me elonguei
alonguei na conferência de abertura deste Congresso, apenas indicarei aos interessados dois
sugestivos artigos: um sobra
sobre a apiicação
aplicação da lei
lai de Bradford na avaliação dos periódicos mais úteis
numa biblioteca especializada (Goffman, William &amp; Morris, Thomas G. "Bradford's law and library
acquisitions". Natura
acquisitions",
Nature v. 226, p. 922—923, June 6, 1970) e outro sobre aquisição de livros de acordo
com a subsequente avaliação de sua procura (Montgomery, K.
K, Leon et alii. "Cost-benefit
"Cost-tenefit model of

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library acquisitions in terms of use: progress report". Journal of the American Society for
Information Science, Jan./Feb. 1976, p. 78-74).
73-74).
Não gostaria de concluir sem uma referência à inclusão da disciplina seleção no currículo
de biblioteconomia, disciplina, a meu ver, tão indispensável quanto fascinante. E disciplina ao mesmo
tempo técnica es cultural. Disciplina-ponte
Disciplina-ponta entre a biblioteconomia e as demais áreas do saber. Indico
aos interessados o artigo de Stuart A. Stiffler "Notes on an appreach to book selection and library
education". Journal of Education for Librarianship v. 12, n. 2, p. 138—144, Fali
Fall 1971,
1971.

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