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                  <text>LEVAR CULTURA? A ELABORAÇÃO DE PROJETOS COM BASE EM ESTUDOS
CENTRADOS NA CULTURA.

Tania Callegaro. Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo - FESPSP.
callegarot@gmail.com

Introdução
O presente trabalho trata sobre o desafio de formar profissionais integrados com as ideias e
valores próprios de seu tempo, particularmente, aqueles que se referem aos estudos
interdisciplinares da cultura. O objeto de análise é a experiência na docência nos cursos sobre
projetos culturais, mediação e ação cultural, sistematizada em torno da compreensão de
cultura como lugar de conflito, contestação política e enfrentamento, e de negociação de
sentidos, no qual as identidades conformam-se plurais e em processo.
Essa abordagem problematiza, com base em Perrotti e Pierucci (2004), a visão instrumental da
mediação cultural; questiona a ausência da discussão crítica sobre a ideia de cultura que está
implícita nos projetos culturais, a relação informação - cultura - recepção - produção cultural e
as possibilidades do projeto cumprir resultados direcionados para a democratização cultural;
desloca a relação da biblioteca com a atividade de conservação ou difusão da cultura, para a
relação com as apropriações de sentidos e produção cultural; indaga a noção de cultura como
acúmulo de conhecimento, ou consumo e domínio dos códigos das artes clássicas, ou como
práticas

tradicionais,

que

possuem

uma

essência

e

apresentam-se

fragmentadas,

desarticuladas da dinâmica cultural do mundo e das demais culturas. Como afirma Hall (2011,
p.43), “a cultura não é uma questão de ontologia, de ser, mas de se tornar”; por fim, essa
abordagem busca novos objetivos e modos de ensino para planejar e desenvolver projetos
culturais.

Relato da experiência

A experiência apresentada para análise e discussão acontece na Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, no 1º semestre de 2013 e 2015, tendo como
material os projetos elaborados e executados pelos alunos, os comentários e discussões
realizadas em fóruns e sala de aula.
Inicialmente, o problema surge ao observar nos textos produzidos por ou para bibliotecários,
nas diferentes instituições de informação e comunicação, e nos Trabalhos de Conclusão de
Curso (TCCs), o uso predominante da palavra “social”, ou “sociocultural” para referir- se, por
exemplo, aos objetivos, mudanças alcançadas e missão do bibliotecário e profissional da

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�informação. Em contraposição, a ideia de “cultura” fica em segundo plano, com pouca clareza
de sentido, ou até não aparece. Há uma lacuna conceitual e prática, que também surge no
processo de elaboração de projetos, que pode dificultar o bibliotecário, e os profissionais da
informação e comunicação, de se perceber participando da dinâmica política e cultural da
sociedade, no jogo do poder das relações interculturais. Dessa percepção, as experiências de
docência foram estruturadas, com base em uma perspectiva interdisciplinar com foco na
cultura, das áreas da biblioteconomia, ciências da comunicação, estudos culturais, sociologia,
arte educação e educomunicação. Delas, destacam-se alguns pontos a serem comentados.
O curso sobre projeto cultural se desenvolve tendo o aluno como núcleo do processo, é ele o
sujeito que vai sendo mobilizado para a ação, interação e percepção da cultura do “outro”,
mesmo que o objetivo do curso é ensinar a escrever um projeto segundo os editais. O docente
necessita conhecer a leitura do aluno diante das representações simbólicas e “falas” do “outro”;
provocar a manifestação do aluno, o debate sobre os conflitos culturais que ele possui e a
sociedade apresenta, e a busca pelas possíveis soluções que se encontram nas próprias
culturas. Concomitantemente, o docente propõe a leitura de textos de autores que apresentam
uma reflexão teórica que caminha na contramão da concepção funcionalista, consumista e
tecnicista da relação informação, cultura e comunicação, autores que entendem o receptor, ou
grupos subalternos, ou marginais como sujeitos que transitam entre as culturas, selecionando e
criando a partir, segundo Hall (2011, p.31), “dos materiais a eles transmitidos pela cultura
dominante”.
Ensinar a escrever um projeto cultural implica, antes de tudo, em ter experiências culturais e
refletir sobre elas, passar pelo processo de transitar entre diferentes espaços, instituições,
comunidades e culturas, e pensar sobre “o que vou fazer com elas”.
Por esse caminho, o curso de projetos culturais trabalha também a consciência da
responsabilidade cultural do mediador, exercita no aluno a percepção da relação que ele
estabelece com o público, e a capacidade de reinventar o estabelecido e o padrão. Observase que a estratégia de intensificar os processos de interação e expressão dos alunos, os
debates e exercícios de criação, provoca processos de desconstrução dos determinismos,
abstrações e reducionismos relativos às identidades, e consequentes preconceitos acerca do
“Outro”, do diferente, daquele que está distante, e colocado à margem. É possível identificar e
questionar junto com os alunos as suas experiências, concepções e compreensões de cultura,
como se veem como mediador cultural, como observam a função cultural da biblioteca, e quais
valores entendem como indicadores de qualidade para a ação cultural.
Observa-se que o ensino com a cultura e sobre cultura é vivo, mobiliza o sujeito em seus
sentidos, emoções, imaginário, memória, sonhos, conflitos, capacidade de criar e agir
politicamente. As categorias para avaliar os resultados do ensino constituem-se em questões
subjetivas, conceituais e práticas, como, por exemplo: a percepção de si mesmo na relação
com o outro; a ampliação da percepção e consciência das confrontações culturais presentes no

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�cotidiano; as possibilidades de reinvenção das práticas do bibliotecário; a consciência da
relação trabalho e desenvolvimento cultural.

Considerações Finais
Esse trabalho encontra-se em contínua experimentação e mudanças, está aberto para a
discussão, e indica o que alguns autores da área de biblioteconomia e ciências da informação
e dos estudos da cultura vêm demonstrando, o vasto campo de exploração conceitual e prática
que se conforma na sociedade de informação e comunicação, e a redefinição do papel dos
bibliotecários em relação à ideia de cultura e do trabalho de mediação cultural.

Palavras-chave: projeto cultural; estudos contemporâneos da cultura; formação de
bibliotecários.

Referências
HALL, Stuart. Da Diáspora – identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2011.
PERROTTI, Edmir e PIERUCCINI, Ivete. A mediação cultural como categoria autônoma. Inf. Inf.,
Londrina, v. 19, n. 2, p. 01 – 22, maio./ago. 2014. http:www.uel.br/revistas/informação.

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